quinta-feira, 15 de julho de 2021

Riyoko Ikeda fala de suas obras e carreira em depoimento para a revista Margaret


Ontem, uma amiga me avisou que um depoimento que Riyoko Ikeda deu para um livro da Shueisha de 2014.  Perguntei ao Giuseppe De Pasquale, que tinha traduzido do japonês para o inglês e postado no grupo do Facebook da página Riyoko Ikeda Fansite, que é tão, ou mais antigo, que o Shoujo Café, se ele me permitiria traduzir o material para o português e ele permitiu.  Sim, tradução já faz com que alguma coisa se perca, uma tradução da tradução torna a coisa ainda pior, mas é o que eu pude fazer e espero que vocês gostem.

“Eu era um grande fã de Margaret desde o colegial. Na época, meus ídolos, grandes artistas Masako Watanabe e Yoshiko Nishitani estavam trabalhando lá. Embora eu tenha estreado durante a faculdade em outra revista (Kodansha Shoujo Friend com  Bara Yoshiki no Shoujo), fui então recrutada pela Margaret com a promessa de me tornar uma de suas futuras estrelas. Na minha edição de estreia já existiam artistas consagradas, pensei que o correto seria aceitar (risos)!

Inicialmente, a ideia da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら) foi descartada pelos editores porque pensaram que um mangá histórico não teria sucesso. Então eu poderia publicá-lo enquanto o público gostasse, caso contrário, seria cancelado imediatamente. Portanto, sempre que chegava a época do resultado da pesquisa [de popularidade] da revista, eu passava noites sem dormir, preocupada. Mas eu estava convencida de que um tema tão interessante deveria, é claro, agradar as leitoras.

O tema da igualdade de oportunidades para homens e mulheres surgiu posteriormente durante a publicação. Na época, as trabalhadoras ocupavam uma posição completamente diferente da atual. Por um lado, tinham homens a dizer-lhes "O melhor para uma mulher é casar o mais cedo possível", por outro lado, ouvi outras mulheres dizerem "Quem não tem filhos pode se considerar uma mulher de verdade?". Essas expressões me magoaram profundamente.

Embora basicamente a situação não tenha mudado muito agora, eu me pergunto como os homens jovens se sentem. Com as mudanças na economia do país e o aumento do número de mães de família trabalhadoras, talvez tenham aumentado até os homens que pensam em assumir as tarefas domésticas ou cuidar dos filhos. Desde que eu era muito jovem, sempre pensei que em um casal, tanto a esposa quanto o marido deveriam se preocupar em ganhar o suficiente individualmente para alimentar a família em caso de necessidade. Afinal, nem os maridos estão isentos de adoecer gravemente ... (risos). 

Quando Berubara criou um boom, foi dito que isso contribuiu para um aumento de nível do manga shoujo e que foi um mangá pioneiro do gênero, mas eu realmente não o desenhei para este propósito e, portanto, nunca o percebi assim ou senti esse tipo pressão. Sempre desenhei o que me interessava e nunca pensei sobre o que o mundo exterior poderia pensar. Claro, muitas vezes recebo pedidos para desenhar histórias específicas, mas geralmente os ignoro. Caso contrário, acabaria desenhando apenas histórias para agradar a maioria do público. Assim que terminar uma história, desenharei imediatamente a próxima. 

No final de Berubara pensei apenas na criação de Orpheus no Mado (オルフェウスの窓). Como inicialmente não consegui consolidar o enredo em minha mente, enquanto pensava nele resolvi publicar Oniisama E ... (おにいさまへ…), que desenhei todo de um fôlego só. Mesmo antes de começar a desenhar Orpheus, eu percebi que nunca mais seria capaz de desenhar algo assim. Essa teria sido a obra-prima de toda a minha carreira, o trabalho de uma vida inteira. O protagonista Julius, apesar de vestir roupas masculinas como Oscar, é uma pessoa muito fraca, em total contraste com ela. Além de Berubara e Orpheus, também gosto de Claudine ...! (クローディーヌ・・・!) (a história de uma mulher com corpo feminino mas com consciência masculina - manga publicada em 1978). A ideia dessa história é que ela nasceu depois de ler um livro de um psiquiatra que descreve o caso de um paciente. A palavra transexual é muito usada no livro, mas o mesmo psiquiatra explica que é impossível definir apenas por esse termo como a existência do paciente foi perturbada por sua condição.

Aos 47 anos me inscrevi no conservatório e comecei a ter aulas de canto. Minha experiência como mangaká acabou sendo muito útil, por exemplo na área de maquiagem, na qual sou muito boa! Por exemplo, para a maquiagem da Carmen, eu já teria a ideia de como aplicá-la na minha mente. Ou, pensando na divisão das pranchas em um storyboard, eu poderia imediatamente dar orientações para o posicionamento dos atores no palco. Trabalho muito até na criação de legendas para obras teatrais. Para um mangaká profissional, a tarefa de selecionar as palavras mais adequadas e curtas para serem incluídas nos balões é, no fundo, uma tarefa do dia a dia. É muito difícil, mas também é um trabalho muito divertido!

Propus desenhar novos episódios de Berubara após 40 anos. Os editores da Margaret me contataram para um comentário sobre os 50 anos da revista, então pensei por que não postar um novo mangá em vez de comentar sobre ele? No fundo, sempre quis publicar muito mais histórias de Berubara. Mesmo que desta vez, tomando as palavras de Alain por exemplo, "Os humanos continuarão a se destruir indefinidamente", provavelmente mostrará muito o cinismo que desenvolvi ao longo dos anos. Porém, retomando a desenhar novos episódios de Berubara, as memórias de quanta paixão e persistência transmitida a você na hora voltaram. O jeito de pensar do Oscar é, na verdade, o meu jeito, de viver sem arrependimentos. Como eu disse antes, resolvi viver fazendo o que gosto sem me importar com o que as pessoas pensam ao meu redor. Nesse aspecto, sou muito egoísta (risos)! Certamente você tem que viver usando o bom senso, ou corre o risco de cometer um erro. Mas sempre vivendo de acordo com o bom senso, seríamos capazes de criar obras fora do comum?" 

Sempre é bom ler as autoras falando da sua carreira e, no caso de Ikeda, perceber o quão consciente das discriminações sofridas pelas mulheres ela era.  Para quem não sabe, Riyoko Ikeda era estudante de Filosofia no turbulento ano de 1968 e abandonou o curso para seguir a carreira de mangá-ka.  Sgora, foi a primeira vez que vi em uma entrevista (*a informação está em vários lugares*), que a autora considera Orpheus sua obra-prima.  Essa história de que Julius seria uma versão fraca, na verdade, eu diria espelhada mesmo, de Oscar, estava em uma discussão em um site italiano muitos anos atrás.  E é isso mesmo, basta ler o mengá.  Enfim, desculpem a tradução da tradução, mas achei que valia a pena.

2 pessoas comentaram:

Amei,obrigada pela notícia.

Muito feliz de poder ter acesso a entrevista pela sua tradução. Obrigada

Related Posts with Thumbnails