sábado, 5 de setembro de 2026

Como a diretora executiva Naoko Yamada deu vida a Jaadugar: Uma Bruxa na Mongólia (Entrevista traduzida)


A Jéssica postou no grupo do Facebook esta entrevista feita pelo site Anime Trending com a diretora executiva no anime Tenmaku no Jaadugar (天幕のジャードゥーガル), baseado no mangá de Tomato Soup.  Decidi traduzir para deixar aqui no blog.  Como estou assistindo ao anime, imagino que ele não irá cobrir nem os 6 volumes atuais.  Dado o sucesso, não me surpreenderia se anunciassem um filme para o cinema ou segunda temporada em breve.  Também não tenho ideia de até qual ponto da vida de Fátima a autora pretende adaptar.  De qualquer forma, a experiência de assistir Jaadugar é muito boa.

Comentando dois aspectos da entrevista.  Considero lamentável a percepção que a diretora expressou sobre a escravidão.  Compreender que a instituição escravidão é multifacetada e é historicamente determinada é uma coisa, mas abraçar a ideia de que o escravizado era como alguém "da família" é perder de vista que o escravizado, por melhor colocado socialmente que esteja, é sempre uma coisa.  Pode ser punido, vendido, violado no seu próprio corpo.  Espera-se dele ou dela uma fidelidade extra, mesmo em sociedades extremamente desiguais nas quais pessoas livres sofrem violências que hoje não sejam vistas como adequadas.  Dito isso, não estou pedindo que as críticas estivessem dentro do mangá (*porque a situação veio do original*) ou do anime, mas que a diretora executiva refletisse mais criticamente sobre o tema.  


O outro aspecto, os demais "temas sensíveis", algo que é esquecido tanto no mangá, quanto no anime, é a violência sexual contra homens e mulheres.  Isso foi apagado e basta olhar a literatura sobre os mongóis e observar que a questão aparece com frequência.  E ela não precisava ser graficamente mostrada; existem formas de colocar a questão sem criar uma história idealizada.  Mas, sim, eu sei... As sensibilidades da geração atual não vaos causar desconforto e pintar o passado de cor-de-rosa.

De resto, o link para o original é este aqui.  Mantive a mesma estrutura ao traduzir, incluindo as imagens.  O texto traduzido está abaixo.  Para quem quiser comprar o mangá, ele está sendo publicado pela Panini no Brasil.

Como a diretora executiva Naoko Yamada deu vida a Jaadugar: Uma Bruxa na Mongólia

Grace Qu

Sob a direção magistral de Naoko Yamada e Abel Góngora , o estúdio Science SARU dá vida a Jaadugar: A Witch in Mongolia , a história de Sitara, inspirada em Fátima, uma das mulheres mais influentes do Império Mongol do século XIII. O anime conquistou o público com seu design de personagens único, sua trilha sonora autêntica e o uso criativo da linguagem para imergir os espectadores na época do reinado do Império Mongol. Na Anime Expo 2026, o Anime Trending conversou com Naoko Yamada, diretora executiva de Jaadugar: Uma Bruxa na Mongólia, sobre as complexidades dessa história.

O Islã, como religião, apesar de ser uma das maiores religiões da atualidade, raramente é retratado em animes, mas é importante para o cenário, a história e os personagens de Jaadugar: Uma Bruxa na Mongólia . Você mencionou ter feito viagens de pesquisa para a criação deste anime, e eu gostaria de saber em que você se concentrou em sua pesquisa sobre o Islã e como você traduziu isso para o anime.

Naoko Yamada: Há muito sobre o Islã e a Mongólia que não é muito conhecido do ponto de vista japonês, então eu queria analisar os fundamentos — como os povos do Irã (Pérsia) e da Mongólia realmente vivem, o que aprendem, o que realmente valorizam e sua filosofia em geral. Eu queria entender a cultura e captar a essência religiosa que construíram desde os tempos antigos. Mais importante ainda, eu queria ver tudo isso de uma perspectiva imparcial, então me dediquei bastante à pesquisa sobre a Mongólia. Também visitei uma mesquita aqui no Japão, o Centro Cultural Turco Tokyo Camii Diyanet, para estudar para este anime.

Diretora Executiva Naoko Yamada

Sitara é baseada em uma figura histórica real do Império Mongol chamada Fátima. Embora ela tenha vivido durante o reinado de Genghis Khan, grande parte de sua vida se desenrolou após a morte dele. Internacionalmente, a maioria das pessoas associa a história da Mongólia apenas a Genghis Khan e geralmente não explora a história fora desse período. Durante suas viagens de pesquisa e fora delas, como você buscou aprender sobre esse lado da história que a maioria das pessoas ignora e o que mais te marcou ao estudá-lo?

Naoko Yamada: Esta obra também retrata o fim do reinado de Genghis Khan e como seus filhos conquistaram mais terras além da Mongólia. Pude aprender sobre essa história com guias mongóis durante minha viagem de pesquisa, que me ensinaram muito. O que considerei importante observar foi a maneira como eles falavam e como viam as coisas. Senti que a visão de mundo deles não mudou muito ao longo do tempo.

Os guias falaram sobre contemplar as montanhas, imaginar o que existe além do céu e refletir sobre coisas tão grandes e distantes. Essa perspectiva ampla e expansiva é parte integrante da filosofia mongol, e senti que precisava valorizar essa forma de pensar ao criar este trabalho. Neste projeto, quis dar muita importância aos atributos que aprendi sobre a cultura e o povo mongol.

Durante o período da conquista mongol, muitas nações normalizaram a escravidão. Sitara é retratada como escrava desde o início da história. Você poderia explicar como abordou a representação de um sistema que hoje sabemos ser desumano no anime, mantendo ainda a precisão histórica?


Naoko Yamada: Esta obra começa com a história de alguém sendo usado como escravo na casa de um erudito. Inicialmente, eu tinha a impressão de que a palavra "escravo" carregava algo desumano, mas quando li a obra original, embora o termo "escravo" seja usado, Sitara — assim como Zumurrud e Anis — são tratados como membros da família. Elas têm permissão para aprender, e Sitara é até incentivada a fazê-lo. Isso me surpreendeu e me fez perceber que eu não sabia muita coisa sobre o panorama completo da escravidão nesse período específico e nessa região específica, então esse se tornou um dos meus campos de pesquisa.

Na história, algumas das pessoas chamadas de escravas estão ali por decisão de seus senhores, enquanto outras têm suas próprias perspectivas únicas sobre suas situações — isso foi algo novo para mim aprender e entender. E cheguei à conclusão de que não havia apenas uma maneira de encarar a situação — quero dizer, havia tantos pontos de vista diferentes que eu precisava compreender para ter uma visão completa. Isso se tornou algo que eu realmente queria transmitir com cuidado e atenção no anime: a escravidão considerando todo o seu contexto histórico, em vez de tratá-la como algo simplista.

Jaadugar: Uma Bruxa na Mongólia é um mangá incrivelmente cheio de nuances que aborda diversos temas, como religião, assimilação, multiculturalismo, política e geopolítica. Como vocês conseguem acompanhar tudo isso?

Naoko Yamada: Havia vários temas sensíveis que precisávamos abordar no anime, e havia muita coisa sobre a cultura mongol que não compreendíamos completamente de início, então contamos com consultores especializados em pesquisas sobre a Mongólia para nos orientar nesses detalhes e nos manter no caminho certo.

De todos os elementos do anime, do que você mais se orgulha e por quê? Pode ser uma cena específica, uma música, um cenário específico — qualquer coisa relacionada ao anime.

Naoko Yamada: Se eu disser apenas "tudo", soa monótono, mas eu realmente amo tudo — as cores são lindas, a arte de fundo é fascinante e a música é incrível. Tantas pessoas talentosas participaram da criação disso que eu sei exatamente quem fez cada cena, e penso nelas sempre que assisto ao anime. Meu apreço e amor por ele só aumentam.

Você imaginava que a adaptação de Jaadugar: Uma Bruxa na Mongólia receberia tanto carinho e aclamação ? Pode compartilhar suas impressões sobre o feedback que recebeu do público?

Naoko Yamada: Quando o PV foi lançado, imagino que as pessoas devem ter pensado: "Nunca imaginei que fariam um anime sobre esse tema no Japão". Fiquei genuinamente surpresa ao ver que há tantas pessoas interessadas na história mongol e persa do século XIII, e tantas que ficaram entusiasmadas em ver isso virar um anime. Achei que fosse um tema bem específico, mas fiquei muito tocada com a reação de todos e com o feedback positivo que vi.

Jaadugar: Uma Bruxa na Mongólia está disponível para streaming na Crunchyroll .

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