Já falei de Dona Beja, a nova novela brasileira do HBO Max, que estreia na segunda e revisita uma personagem que, apesar de histórica, se sustenta mais na lenda mesmo. Em 1986, a Rede Manchete fez a sua versão da vida da cortesã Ana Jacinta de Jatobá (1800-1873), apelidada de Beija por causa do pássaro, protagonizada por Maitê Proença e alcançou um grande sucesso. Desta vez, a estrela é Grazi Massafera, que defende sua personagem, pelo menos nas entrevistas, com unhas e dentes, afirmando que a novela enfiará o dedo nas feridas da sociedade. Segundo ela, "Os mais conservadores vão dizer que é lacração. E isso é bom também. A gente quer isso (...) Porque quando você mexe, quando você provoca, você obriga a sociedade a se olhar no espelho."
Para a Caras, Massafera disse: “Ela faz parte de tudo que eu imagino em uma mulher e [é] um tipo de mulher que eu quero e venho me transformando em ser, sabe? Uma mulher que abraça minorias com muito amor, afinco, afeto e é justa em relação a isso. É uma mulher que rompe barreiras, que não aceita padrões. Ela é fascinante, a beleza não é o diferencial. A beleza é só um veículo que a transporta e a forma como ela desafia… eu sou uma mulher que tenta fazer isso na minha vida. É o tipo de mulher que eu acredito, é o tipo de mulher que eu educo a minha filha para ser”. É outra Beja, sem dúvida, ou assim parece.
A história das minorias me pegou, uma personagem que era uma mulher negra cis, virou uma mulher trans branca, mas volto a isso daqui a pouquinho. Ao F5, ela disse algo muito esclarecedor: "Essa história não é só sobre o passado. É sobre agora. Sobre todas as mulheres e pessoas que foram julgadas, apagadas, silenciadas e que continuam aqui". A maioria das ficções históricas é assim mesmo. Se fala do passado para discutir o presente. Só que nos bons filmes e séries, autores fazem isso fingindo que estão falando de outras épocas, é preciso fazer com que a audiência acredite que está viajando no tempo mesmo e reflita sobre questões contemporâneas. Agora, se o objetivo é somente falar de hoje, para que recorrer ao passado?
Já o autor, Daniel Berlinsky, homem e branco, e deixo isso claro, porque ajuda a entender suas afirmações ao F5, diz algumas coisas bem curiosas. "A novela original já mostrava uma mulher à frente do seu tempo. Mas hoje o horizonte dela é muito mais longe. A sociedade mudou menos do que a gente gostaria, mas a nossa consciência sobre essas questões se ampliou". Certo. O texto informa que "A proposta é incluir temas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e desigualdade social sem deslocá-los do contexto histórico. Para o autor, o incômodo é parte central da dramaturgia.". Chocar por chocar, será que essa é a proposta? A Manchete chocava com suas novelas, mas entregava muita reflexão social e política, também. Mas essa fala nem é o que me incomoda. O problema começa quando o autor decide falar de escravidão.
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| Beja com seus dois interesses românticos. |
Antes disso, vou reproduzir um trecho da matéria do Notícias da TV: "O que se vê é uma novela de época atrevida, sem concessões morais, que usa a sexualidade da protagonista como válvula propulsora. A história se passa no Brasil imperial, em Araxá, e apresenta Beja ainda jovem, romântica e sonhadora, apaixonada pelo noivo, Antônio (David Junior). A relação deles é sabotada pelo preconceito da família do rapaz, que torce o nariz para Beja: garota pobre, criada pelo avô, que carrega a dor do suicídio da mãe no peito. A novela adiciona uma camada contemporânea ao fazer do protagonista um homem negro, com um pai igualmente negro, em uma sociedade pós-escravidão ainda profundamente racista.". Quer dizer, então que não é uma novela color blind? Estaremos em um mundo tipo Bridgerton, História Alternativa (Ucronia), no qual os negros é que são preconceituosos, é isso?
Mas pode ser pior, porque temos as falas do autor sobre escravidão para o F5: "Descobri que, em 1872, três em cada quatro negros no Brasil já não estavam mais no cativeiro. Ninguém aprende isso na escola (...) Existiram negros com posses, com terras, com poder político. Eles sempre estiveram aqui. A gente só não foi autorizado a ver.". Começamos culpando a escola, se fosse meu aluno, teria aprendido algo sobre a questão, talvez realmente não tenha tido bons professores, gente mais atualizada, ou, o que é muito comum, poderia estar dormindo nas aulas, o que muita gente faz. De qualquer forma, percebem que há o tom de conspiração, também? Posso estar exagerando, mas fica parecendo que a vida dos negros e negras era muito boa, havia várias possibilidades de ascensão social, mas estão escondendo isso da população brasileira? Parece coisa de gente de extrema-direita.
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| Esse colarinho com o pescoço aparecendo é para imitar o duque de Bridgerton ou é só falta de noção mesmo? |
Enfim, ele deve estar se pautando pelo censo de 1872, o único do Império, que apontou que havia 1,5 milhão de escravizados (15% dos habitantes), entre africanos e nascidos no país. É para comemorar? É para dizer que os professores mentiram? Qual era a condição dos negros livres? Quantos por cento deles estavam na linha da pobreza, abaixo dela até, e quantos poderiam ser considerados ricos de verdade? Havia uma pequena classe média urbana negra no 2º Reinado, especialmente na sua parte do meio para o final, é fato, mas a novela dele se passa entre o Período Joanino e a Regência, se for respeitada a cronologia normal. Fora isso, falar em camadas médias urbanas em nosso país majoritariamente rural, é falar da minoria da minoria da população do país. Já negros ricos... Como é História Alternativa, esse tipo de informação conta muito pouco, mas como a Dona Beja deve se situar mais ou menos na mesma época em que ela existiu, estaremos mais de CINQUENTA ANOS antes de 1872, ou seja, era outro Brasil, no qual boa parte dos negros eram escravizados e africanos, isto é, não eram nascidos aqui. E cito um artigo da BBC: "Em nenhum outro país, contudo, a escravidão teve a dimensão brasileira. Enquanto 389 mil africanos desembarcaram nos Estados Unidos, no Brasil foram 4,9 milhões - 45% de toda a população que deixou a África como escrava. No caminho, cerca de 670 mil morreram. O gigantismo da escravidão no Brasil dificultou o seu fim - ela estava impregnada na vida nacional.". Vocês têm ideia do tamanho da coisa?
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Bridgerton tupiniquim.
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Houve duas leis de abolição do tráfico em nosso país, uma em 1831, a Lei Feijó, chamada de "para inglês ver", que não pegou, que era pouco colocada em prática, que era burlada inclusive por autoridades, e a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, implementada de fato, muito por pressão da Inglaterra. Só que ainda teríamos escravidão por mais 38 anos e o fato de termos pessoas negras ou de ascendência negra em alguns lugares privilegiados, como pontua o autor da novela, que deve ter descoberto isso ontem, o racismo prevalecia e muitas vezes as pessoas negavam suas origens, tentavam apagá-las o quanto podiam. E atentem para o seguinte: Cruz e Sousa (1861-1898), que todo mundo estuda no colégio, porque é nosso principal poeta simbolista, foi rejeitado como promotor em Laguna (SC) por ser negro, em 1883. Sim, ele era qualificado, tinha gente poderosa que o apoiava, mas era negro, algo incontornável. E como a gente tenta negar o passado, Santa Catarina quer acabar com as cotas nas universidades, porque, vocês sabem, é o mérito que define tudo. Vale para ontem e para hoje, afinal, não ensinaram na escola que havia um punhadinho de negros poderosos ainda durante a escravidão. 🙂↕️
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| Vamos ver o que vai ser essa novela. |
Me preocupa muito o que o autor dessa novela vai fazer com a informação de que havia negros bem posicionados. Irá falar de suas dificuldades ou fará terra arrasada e vai criar um Bridgerton tupiniquim? O protagonista da novela, David Júnior, disse o seguinte ao F5: "Me sinto muito honrado de poder representar um personagem que tinha posses, que tinha terras, herança, que tinha o poder de existir, de sonhar e não só de sobreviver". OK, a gente fica feliz em ver personagens negras bem-sucedidas e com uma história que não seja somente de sofrimentos e racismo, mas será que criar um Brasil pós-escravidão aos moldes de Bridgerton irá trazer para a tela as discussões necessárias? Acredito que não irá. E colocar a mocinha branca discriminada por vilãs negras, a irmã de Antônio deve ser uma delas, é um desserviço.
Vou assistir algo da novela, tentarei, mas já vou armada de paus e pedras, porque brincar dessa forma com a História do Brasil, achar que está arrasando e fazer pouco caso da escravidão é algo que não se pode relevar.