Tropecei em um artigo do Unseen Japan sobre a líder anarquista e niilista Kaneko Fumiko (1903-1926), que teve um filme biográfico lançado este ano. Como bem impressionante pela sua vida muito sofrida e sua militância, inclusive contra os abusos dos japoneses na Coreia, decidi traduzir o artigo. Mantive a estrutura do original, que está em inglês. Espero conseguir assistir ao filme. Os links no texto foram colocados por mim para explicar termos que estão no artigo.
Kaneko Fumiko: A anarquista japonesa que morreu jovem desafiando o imperador.
Jay Allen · 23 de junho de 2026
Nunca é seguro se opor ao poder do Estado. Muito menos quando o Estado endeusa seu líder como um deus vivo.
Foi exatamente isso que Kaneko Fumiko (1903-1926) fez. Kaneko nasceu tão fora do sistema imperial japonês que seu nascimento oficialmente sequer existiu. Após anos de brutalidade, passou o resto da vida amaldiçoando e desafiando o sistema imperial do Japão. Ela odiava tanto o imperador que cuspiu em seu rosto a oferta de clemência que ele lhe ofereceu.
Agora, 100 anos após a morte de Kaneko, um novo livro e um filme lançam um olhar sincero sobre sua vida, incluindo suas próprias falhas admitidas. Biógrafos também estão reexaminando sua morte e questionando: Kaneko escolheu morrer? E por quê?
Mukoseki: Nascido, mas não nascido
Um novo filme, estrelado por Nahana no papel de Kaneko Fumiko, e um livro estão renovando o interesse pela vida da anarquista.
Kaneko Fumiko nasceu em Yokohama em 1903, perto do fim da Era Meiji no Japão. Ela atingiu a maioridade durante a Era Taishō (1912-1926); na verdade, ela viria a falecer no mesmo ano em que a era terminou.
A Era Taishō foi marcada por uma rápida modernização e contínua ocidentalização, mesmo com o controle cada vez maior do domínio imperial. O país abraçou a moda e a música ocidentais, como o jazz. Ginza tornou-se o centro da ostentação e riqueza de Tóquio. A "garota moderna" tornou-se um ponto de debate entre feministas, enquanto a garçonete de café inspirou o surgimento das maids e dos cafés temáticos do final do século XX.
Kaneko Fumiko não se tornaria uma garota moderna. Na verdade, legalmente, ela nem sequer nasceu.
Os pais biológicos de Kaneko nunca registraram seu nascimento; portanto, Kaneko nunca aparece no registro familiar deles (戸籍; koseki ). Isso a tornou uma “mukoseki” – uma pessoa não registrada .
O Japão implementou o registro familiar moderno em 1872 como forma de rastrear informações demográficas necessárias sobre sua população para auxiliar no desenvolvimento econômico e evitar a colonização ocidental. Na época do nascimento de Kaneko, ser mukoseki era mais do que um mero inconveniente.
Kaneko Fumiko acabou sendo esquecida devido ao relacionamento conturbado de seus pais. Seu pai, Saeki Bun'ichi, era um operário que se mudou de Hiroshima para Yamanashi para trabalhar em uma mina de tungstênio. Sua mãe, Kiku, era filha de um fazendeiro local. Ela e Saeki fugiram para se casar, mas nunca registraram formalmente o casamento — nem o nascimento de sua filha, Fumiko.
A avó de Kaneko teve que lhe explicar que ela não podia ir à escola como as outras crianças porque seus pais não a haviam matriculado. Em sua autobiografia, "O que me transformou nisso" (何が私をこうさせたか), ela relembra que sua avó lhe disse que isso significava que ela havia "nascido, mas não nascido". O sentimento de alienação que a acompanhou por toda a vida, decorrente de sua condição precária, alimentou sua amargura em relação ao que ela considerava um sistema fundamentalmente corrupto.
Como a ocupação coreana moldou o anarquismo de Kaneko Fumiko
Fumiko teve uma infância difícil. Seu pai a abandonou quando ela era pequena, e sua mãe vivia mudando de amante. [1]
Mas foi aos nove anos que Kaneko começou a sofrer os piores abusos na Coreia ocupada. Foi essa experiência, acima de todas as outras – tanto vivenciar quanto testemunhar a opressão em massa – que alimentou suas convicções políticas.
Mas para entendermos o que a família de Kaneko fez com ela, primeiro precisamos dar um passo atrás e entender o que o Japão fez com a Coreia.
O Japão nutria aspirações coloniais sobre a Coreia há anos. O governo imperial buscava explicitamente dominar e colonizar a Ásia não apenas para se tornar uma potência mundial, mas também para se proteger além de suas fronteiras. O estrategista da era Meiji, Yamagata Aritomo, referia-se repetidamente à Coreia como "uma adaga apontada para o coração do Japão".
O Japão deu seu primeiro passo em 1876, usando o Tratado de Ganghwa para forçar a Coreia a se abrir para o Japão (assim como, ironicamente, os Estados Unidos haviam forçado o Japão a se abrir para o Ocidente ). Obteve novos avanços durante a Primeira Guerra Sino-Japonesa de 1894-95, expulsando a China da Coreia.
Em 1904-1905, o Japão saiu vitorioso da Guerra Russo-Japonesa. O Tratado de Eulsa de 1905 transformou a Coreia em um protetorado japonês sob a supervisão de um Residente-Geral. Vozes dentro do Japão, como a de Uchida Ryōhei, líder da Sociedade do Dragão Negro , clamavam pela anexação completa do país.
Em 1910, após o assassinato do Residente-Geral Itō Hirobumi em 1909, foi assinado o Tratado de Anexação Japão-Coreia, que subjugou a Coreia como colônia. O Japão passaria as décadas seguintes, até o fim da Segunda Guerra Mundial, tentando erradicar a cultura coreana e transformar a Coreia em uma extensão do Japão.
Abusada por uma família de opressores coloniais
Em 1912, Kaneko foi enviada para morar com a família de sua avó paterna, os Iwashita, na Coreia. A família era composta por colonos japoneses que lucravam com terras agrícolas roubadas e exploravam a mão de obra coreana. Segundo Yasumoto Takako, pesquisadora que escreveu um livro sobre a vida de Kaneko, a avó de Fumiko considerava os coreanos pouco mais que escravos.
A família tratava Kaneko pouco melhor do que tratava seus funcionários. Mais tarde, ela escreveu que era submetida a espancamentos frequentes.
Os abusos foram tão horríveis que Kaneko quase desistiu. Em seu momento mais difícil, ela foi até a margem de um rio com a intenção de se afogar.
Mas ela não conseguiu. Ela escreveu que percebeu naquele momento que “o mundo ainda guarda inúmeras coisas que valem a pena amar”.
A faísca da rebelião: O Movimento de 1º de Março
Imagem: Wikipédia
Em 1º de março de 1919, os coreanos se insurgiram contra seus opressores. O Movimento de 1º de Março foi uma revolta de coreanos (e, em todo o mundo, da diáspora coreana) contra a ocupação japonesa.
Protestos abalaram a Coreia, com entre 1.500 e 1.800 manifestações, totalizando entre 0,8 e 2 milhões de participantes. Na época, a Coreia tinha entre 16 e 17 milhões de habitantes. Embora os protestos fossem em grande parte pacíficos, o Japão os reprimiu violentamente, matando cerca de 7.509 pessoas, segundo estimativas de nacionalistas coreanos.
A resistência deixou uma impressão duradoura em Kaneko. Ela escreveu que costumava subir a uma colina, de onde podia ver a sede da polícia local e observar os coreanos gritando “Daehan Dongnip Manse!” (“Viva a independência coreana”).
“Quando penso no movimento de independência que o povo coreano estava realizando, uma emoção me invade o peito”, escreveu ela. “Não podia descartar o protesto deles como assunto de outras pessoas.”
Kaneko também conseguia se solidarizar com os coreanos oprimidos de uma forma que poucos conseguiam. Afinal, ela própria fora uma garota japonesa abusada e sem registro, tratada até mesmo por sua própria família como se não fosse ninguém.
Pak Yeol e o Futeisha
Kaneko Fumiko e Pak Yeol. (Foto: Wikipédia)
Em 1920, aos 17 anos, Kaneko retornou ao Japão. Ela entregava jornais enquanto frequentava cursinhos preparatórios particulares mistos. Durante esse período, começou a se associar a socialistas locais e se interessou pelos escritos de vários anarquistas e dos narodniks russos.
Dois anos depois, Kaneko conheceu Pak Yeol. Pak, um anarquista coreano. Ela mudou-se para Tokyo em outubro de 1919, na sequência do Movimento de 1º de Março. Eles se tornaram parceiros em união estável em maio daquele ano, embora Kaneko tenha descrito o vínculo entre eles como mais ideológico do que romântico.
Os dois consumariam seu relacionamento formando um grupo anarquista, o Futeisha (不逞社), uma consequência da Sociedade Onda Negra de Pak (黒濤会, Kokutōkai ). O nome do grupo era um trocadilho com o insulto 不逞鮮人 ( futei-senjin ), “coreanos insolentes”.
Kaneko escrevia para a revista do grupo, originalmente chamada Futoi Senjin (太い鮮人). Tanto ela quanto Pak, no entanto, já haviam se afastado do anarquismo; seus objetivos naquele momento estavam mais próximos do niilismo. A própria Kaneko descreveu o grupo como “uma reunião de pessoas que abraçam o niilismo e o anarquismo da rebelião contra o poder”.
Em outras palavras, Kaneko Fumiko estava determinada a destruir o sistema. As autoridades a acusaram de tentar fazer exatamente isso.
O Massacre de Kanto e as acusações de alta traição.
A polícia japonesa reprimiu brutalmente a população coreana do Japão após rumores espalhados depois do Grande Terremoto de Kanto.
Em 1923, o Grande Terremoto de Kanto devastou Tokyo e a região circundante. Nas semanas seguintes, campanhas de desinformação acusaram os coreanos de envenenar poços e cometer incêndios criminosos. O fervor levou ao Massacre de Kanto, que ceifou milhares de vidas coreanas.
Kaneko e Pak foram detidos nessa onda de prisões. As autoridades os acusaram, com base no Artigo 73, crime capital de alta traição, de tentativa de assassinato do príncipe herdeiro do Japão. Tratava-se de Hirohito, o futuro imperador Shōwa – o homem que, ironicamente, renunciaria à sua divindade e poria fim oficial ao Império do Japão.[2]
As provas para essas acusações eram, no mínimo, espúrias. As autoridades disseram que os dois pretendiam matar Hirohito durante a procissão de seu casamento imperial e que Pak tentou obter as bombas por meio de um grupo militante coreano.
A questão é que nunca houve qualquer prova física. Nenhuma bomba, nenhum dispositivo, nenhum ataque. A única coisa próxima de uma prova física foi um detetive descrevendo Pak esfaqueando uma foto do Imperador Taishō com uma faca.
Independentemente da verdade, Kaneko e Pak aceitaram as acusações no tribunal, usando o julgamento como plataforma política. "O Imperador está doente", testemunhou Kaneko, referindo-se à saúde debilitada do Imperador, "então miramos no jovem mestre."
Historiadores que estudaram o julgamento afirmam que as acusações foram um exagero, fomentado pelo fervor anti-coreano que tomou conta do Japão após o terremoto. Os dois podem ter tido intenções e aspirações, mas não pareciam ter um plano concreto.
Kaneko Fumiko joga a clemência do Imperador na cara dele.
Isso não importou para o tribunal na época. Em 25 de março de 1926, a Suprema Corte condenou a dupla por alta traição e sentenciou Kaneko Fumiko e Pak Yeol à morte.
Enquanto estava na prisão, Kaneko escreveu suas memórias, "O Que Me Fez Assim". O livro começa com uma reflexão sobre a ferida de ser uma pessoa sem registro no Japão, aborda períodos de fome e como o pensamento socialista e anarquista influenciou sua maneira de pensar. Ela tinha grande apreço, em especial, pelo filósofo alemão Max Stirner, cujo conceito de "o Único" ela adotou, e pelo romancista russo Artsybashev.
Em 5 de abril de 1926, após concluir suas memórias, o governo imperial japonês concedeu clemência a ela e a Pak. Suas sentenças de morte seriam comutadas para prisão perpétua. Naquela época, Hirohito governava como regente. Em outras palavras, o perdão veio do próprio homem que eles eram acusados de tentar matar.
Pak Yeol aceitou o acordo. Ele seria libertado em 1945 pelas autoridades de ocupação, após cumprir uma das mais longas penas de prisão política no Japão. Ele liderou a primeira União de Residentes Coreanos do Japão antes de retornar à Coreia. Foi capturado pelo Norte durante a Guerra da Coreia e viveu lá até 17 de janeiro de 1974, quando faleceu aos 71 anos.
Kaneko, no entanto, recusou-se a aceitar o indulto. Embora a imprensa da época tenha noticiado que tanto ela quanto Pak o aceitaram com gratidão, na realidade, ela rasgou o documento em pedaços. Ela repetidamente se recusou a ceder à pressão dos funcionários da prisão para demonstrar gratidão ao Imperador por ter poupado sua vida.
Kaneko Fumiko morreu na prisão por enforcamento em 23 de julho de 1926, aos 23 anos de idade.
Desde então, os historiadores debatem a natureza da morte de Kaneko. Em seu livro, Yasumoto conclui que Kaneko tirou a própria vida, não por desespero, mas como um ato de autoafirmação ideológica, a única maneira de se manter fiel a si mesma. O livro de Yasumoto examina a vida dela sem rodeios, analisando não apenas suas qualidades positivas, mas também sua vaidade e complexo de superioridade, especialmente em relação a outras mulheres.
O filme Kaneko Fumiko, com estreia prevista para fevereiro de 2026, retrata os últimos 121 dias de sua vida, desde a condenação até sua morte, e é estruturado em torno de oito poemas tanka que ela escreveu e que sobreviveram. Coincidentemente (ou talvez não), o filme tem exatamente 121 minutos de duração.
Um dos tankas de Kaneko Fumiko, diz Yasumoto, deixa uma mensagem poderosa. Ele sinaliza sua vontade de continuar lutando e, ao mesmo tempo, parece que demonstra sua resolução de morrer:
指に絡み/名もなき小草/つと抜けば/かすかに泣きぬ/「我生きたし」と
Agarrada aos meus dedos, uma folha de grama sem nome; quando a arranco, ela chora baixinho: "Quero viver".
Assisti com minha filha ao filme Toy Story 5. Pelas críticas, já sabia que não se tratava de um mero caça-níqueis, ainda que o seja em certo sentido. Como coloquei em minhas resenhas dos filmes 3 e 4, a série poderia se fechar em uma trilogia e continuar em especiais que, de tempos em tempos, poderiam revisitar a obra. Mantenho o que escrevi, mas não vou dizer que este quinto filme seja descartável. Ele trouxe novas discussões sobre o uso de tecnologia, abordou de forma não maniqueísta o vício em telas, manteve a conexão com o cânone da franquia e deu o protagonismo para Jessie sem anular Woody e Buzz. Resumindo, havia uma boa história a ser contada, que se fecha em si mesma e, ao mesmo tempo, deixa aquela vontade de rever as personagens em outras aventuras. Mas vamos ao resumo do filme:
Bonnie está crescendo e mantém sua imaginação ativa, apesar de ter dificuldades para fazer amigos. Um dos problemas da menina é sua aparente timidez; o outro é a tecnologia. Todas as crianças parecem ter tablets ou computadores. Ao investigar as crianças vizinhas que rejeitam Bonnie, Jessie e Bala no Alvo são alertados por outros brinquedos que sua hora, isto é, o abandono, o esquecimento, estava próximo. E não demora e Bonnie termina ganhando de presente uma Lilypad, um tablet educativo que se torna central na vida da menina, enquanto ela vai se esquecendo dos outros brinquedos. Lilypad quer ajudar Bonnie a fazer amigas através de meios virtuais e entra em confronto com os demais brinquedos. Já Jessie pede conselhos a Woody e, em uma incursão para se certificar de que as novas amigas de Bonnie são boas de verdade, acaba se perdendo e tendo que confrontar o seu passado e a relação traumática com sua primeira criança, Emily. O desaparecimento de Jessie e Baa no Alvo termina por fazer Woody e Buzz partirem à sua procura com o patrulheiro espacial extremamente angustiado, porque estava prestes a pedir Jessie em casamento.
O novo Toy Story tem humor, tem drama, tem aventura e tem até romance em uma mistura muito satisfatória que vai além da mera nostalgia. Quando o primeiro Toy Story estreou, em 1995, eu já era adulta e estava na universidade; não me interessei pelo filme a ponto de ir assisti-lo nos cinemas. Sim, lá se foram mais de trinta anos desde a primeira animação e muitas revoluções tecnológicas podem ser observadas ao longo de todos os filmes da franquia. De qualquer modo, não cresci com Toy Story; me afeiçoei aos filmes porque eles me tocaram de alguma forma e acabei reconhecendo suas qualidades. Aliás, pelo menos uma personagem dos especiais foi trazida para o filme, o Comando em Ação, Command Carl, que aparece em Toy Story de Terror. Apesar do protagonismo de Jessie, Woody e Buzz não são rebaixados, como aconteceu no filme 4. Aliás, fiquei feliz por não termos muito de Bo Peep em tela. Por outro lado, trazer Woody de volta foi excelente e funcionou a piada da calvície do boneco, que está rendendo uma promoção de ingressos gratuitos para homens calvos no cinema. Mais detalhes aqui.
O filme poderia enveredar fácil para uma estrutura de bem contra o mal, apresentando as novas tecnologias como daninhas ao desenvolvimento das crianças. Afinal, essa histeria está presente em vários discursos desde os pedagógicos até os médicos. E estou deixando clara a minha posição, porque tenho cinquenta anos e a minha geração já era cativa das telas, mas era a TV. Quantas horas as crianças dos anos 1980-1990 passavam diante da babá eletrônica? Vasculhem os jornais e artigos da época e irão encontrar os mesmos discursos alarmistas sobre sedentarismo e o desaparecimento das brincadeiras tradicionais. A diferença maior é que não tínhamos o controle do que consumíamos; com as novas tecnologias, as crianças ganham uma autonomia que é perigosa, porque a internet é um lugar cheio de gente realmente ruim, mas é também incômoda, porque tira poder dos adultos de decidir tudo por elas. Com a TV linear é mais fácil.
De qualquer forma, uma crítica pertinente do filme passa pela adultização. Tablets e computadores (*não se fala de celulares no filme*) afastam as crianças dos brinquedos convencionais e as pressionam a rejeitar comportamentos infantis em favor da aceitação do grupo. Essa segunda parte, aliás, não é novidade, o que há de novo é a precocidade. A discussão aparece quando Bonnie tenta fazer amigas usando o chat do Lily Pad e as meninas a ridicularizam por ainda brincar com brinquedos e na análise do quarto da segunda menina introduzida, Blaze, que mora na antiga casa da primeira dona de Jessie. Ela tem 9 anos, mas seu quarto parece o de uma adolescente. Com os brinquedos trancados em uma casa no quintal, ou dentro de uma gaveta ou, os mais queridos, em uma prateleira alta, como decoração. Aliás, ela tem um cavalo alado da Barbie na sua coleção de cavalinhos.
Agora, falando por mim, quando tinha uns oito anos, ele morreu quando eu tinha nove; eu ouvi do meu avô que ele esperava que eu já tivesse largado as bonecas quando estivesse com dez anos, porque já seria mais que hora de me tornar uma mocinha. E na quinta série, quando eu estava com dez anos, a maioria dos professores fazia questão de repetir que nós não éramos mais crianças, que certos comportamentos eram inaceitáveis, e era muito comum que um monte de homens adultos ficassem na porta do colégio assediando meninas. Pode ser uma experiência ligada a um determinado lugar (*Rio de Janeiro, Baixada Fluminense*) e classe social, mas eu tenho lá minhas restrições sobre essa ideia de que a adutização é um fenômeno recente. Não é, não, especialmente quando se é menina.
Mas o filme é competente em mostrar que a tecnologia isola, com cada criança parecendo presa em seu próprio mundo, e, ao mesmo tempo, permite conectar pessoas que estão distantes. E isso é fundamental para o arco final da história. Basta, claro, se conectar com pessoas certas. Só que dois pontos mal arrumados do filme se ligam a isso. Os pais de Bonnie resistem em presentear a filha com um tablet, mas se mostram muito pouco perceptivos das mudanças de comportamento da menina e rapidamente esquecem que tinham combinado que ela iria usar o Lily Pad com parcimônia. O outro furo é que as mensagens que são importantes para que Jessie seja encontrada e que Bonnie e Blaze se conectem são enviadas pelos brinquedos, mas nenhum humano se questiona sobre elas. Que estava usando tablets e computadores para mandar mensagens?
Por outro lado, o filme tem algumas resoluções de roteiro interessantes. Ele abre com um exército de Buzz LightYear de última geração em uma ilha deserta. Houve um naufrágio e eu lembrei imediatamente de Robô Selvagem. Os bonecos conseguem se ligar, mas estão com sua programação original, eles não sabem que são brinquedos, se acham patrulheiros de verdade e querem chegar com Comando Estelar. Essa é sua missão. Eles poderiam ser um alívio cômico e nada mais, mas eles se encaixam na história. Inclusive, há uma homenagem ao Banbie ligada a eles. Aparecem Banbie e Tambor, além dos acordes de uma das músicas da animação. Não sei por qual motivo cortaram Flor.
Temos, também, mais detalhes do passado de Jessie e de sua primeira dona, Emily. Não vou dar detalhes sobre o que é, porque será legal acompanhar esse desenvolvimento da história. Então, sem spoilers aqui, mas digo que o que eu imaginei que seria feito, não teve nada a ver com a escolha do filme. Agora, infelizmente, não fizeram um bom uso da música do filme, que deve ser aposta para o Oscar, porque, pela primeira vez, como pontuou minha filha, nenhuma canção foi utilizada dentro da película. Ela só aparece nos créditos finais. Deveria ter entrado nessa sequência centrada em Jessie e Emily. Agora, se você não se importa com spoilers, depois do trailer, eu comento esse ponto.
Enfim, o filme tem um detalhe curioso que é o uso recreativo da tortura e não achei fotos. Woody é torturado pelo exército de Buzz Lightyear. Woody e Buzz torturam Lily Pad. Levando-se em consideração que a tortura é um ato hediondo e condenado por convenções internacionais, mas que cada vez mais é justificado pelos políticos de extrema-direita como algo legítimo, me pergunto quem teve a ideia de transformar a coisa em alívio cômico. Podem me chamar de exagerada, eu não me importo, mas a normalização da tortura em um filme infantil me incomodou um tanto. E a cena com o Woody nem é engraçada, é até angustiante. No caso de Lily Pad, como ela é a vilã, ou assim os brinquedos tradicionais a percebem, a tendência é revelar a coisa até certo ponto.
Neste filme de Toy Story, as sequências de imaginação das crianças estão em um estilo de animação diferente. Assim, se marca a separação entre a realidade e o mundo imaginado. Temos o casamento de Garfinho abrindo o filme e outro casamento fechando a película. Além disso, outras sequências de imaginação mostram a riqueza dos mundos criados por Bonnie e Blaze e permitirão a integração entre os brinquedos tradicionais e os tecnológicos. Aliás, um aspecto interessante do filme parece ser a descartabilidade dos brinquedos. Os novos personagens, os brinquedos tecnológicos de Blaze, foram esquecidos depois de poucos meses, até semanas, de uso. Será que crianças precisam ganhar tantas coisas?
O filme cumpre facilmente a Bechdel Rule, porque tem várias personagens femininas, com nomes, que conversam entre si e sobre outras personagens femininas, principalmente, sejam elas Bonne, Blaze, Lily Pad ou mesmo Jessie. Como o elenco de Toy Story é extenso, há personagens que só fizeram pontinhas, mas vários deles retornam para o filme. E a escolha de Jessie como protagonista foi boa. Diferentemente do que aconteceu no filme 4, a centralidade não resultou em deformação da personagem ou na sua conversão em uma mera girl boss. E ela e Buzz se acertam definitivamente ou pelo menos eu acredito nisso. Me pergunto se irão adotar algum filhinho ou filhinha. E o desespero de Buzz e a busca de Jessie são algumas das partes melhores do filme. 😁
Concluindo, Toy Story 5 foi um filme muito satisfatório. Ele conta uma história de verdade, lida com a nostalgia sem se tornar refém dela, sendo bem superior ao filme 4. É muitíssimo mais interessante, também, do que o filme Mario Galaxy, que eu assisti e não fiz resenha, porque, bem, ele não acrescentou nada, não me tocou em nenhum momento, foi somente uma exibição de tecnologia. E, bem, exibição de novas tecnologias de animação é coisa que Toy Story faz melhor. Como nos outros materiais da série, o filme consegue dialogar com adultos e crianças e não faz escolhas fáceis e maniqueístas. A tecnologia não pode ser banida da nossa vida; ela não é uma inimiga e é preciso compreender que as crianças crescem e que os brinquedos não estarão para sempre na sua vida diária, ainda que possam ser guardados como uma preciosa recordação. Já as personagens novas têm potencial para serem exploradas em próximas produções da franquia, que irão vir com certeza. Recomendo muitíssimo.
Se você está aqui, não deve se importar com spoilers. Jessie e Bala no Alvo são perdidos por Bonnie e a boneca tem o nome de Emily e o seu endereço escrito em uma parte interna de sua roupa. Por conta disso, ao ser encontrada, um casal de idosos decide devolver a boneca e coloca os dois na caixa de correios do antigo rancho de Emily. Se você conhece Jessie, já imagina o gatilho. Eu imaginei que ela fosse reencontrar Emily adulta, que ela fosse ser a dona do rancho e já avó, quem sabe. Só que não foi bem assim, mas elas irão se reencontrar, porque Jessie descobre uma cápsula do tempo enterrada e consegue compreender que continuou importante para Emily, porque a sua primeira dona deu o seu nome à sua filha. É uma sequência bonita que estimula o amadurecimento da protagonista. 🥹 Repito novamente: Toy Story 5 merece ser assistido e já é a melhor estreia da franquia nos cinemas, mesmo não estando disponível ainda em todos os países.
No dia 30 de maio, o Ministério da Cultura lançará o streaming gratuito Tela Brasil. Desenvolvida pelo MinC com a parceria da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a Tela Brasil é um projeto voltado à difusão do audiovisual brasileiro. A plataforma será 100% gratuita, com acesso integrado ao Gov.br. Inicialmente somente em versão web, a plataforma estará disponível em Android e iOS em até 30 dias depois do lançamento, segundo matéria de O Globo.
'A hora da estrela', 'Deus e o diabo na terra do sol' e 'Carandiru' são alguns dos 560 filmes nacionais no catálogo da Tela Brasil — Foto: Reprodução
O Tela Brasil chega com um catálogo de mais de 560 obras audiovisuais, entre curtas, médias e longas-metragens, além de seriados. A iniciativa contará ainda com recursos de acessibilidade, como audiodescrição, legendagem descritiva e Libras. Se a iniciativa vingar de verdade, poderemos ter acesso a filmes e documentários que hoje são muito difíceis de encontrar. E espero que quem quer que vença as eleições encare o Tela Brasil como algo importante para a cultura nacional e, não, um projeto de um governo específico.
O filme RRR não foi o indicado da Índia ao Oscar em 2023, mas sua eletrizante música Naatu Naatu levou o prêmio de melhor canção. Até hoje, a cretina aqui não assistiu ao filme, apesar de ter a música dele no rádio do carro. Enfim, não sabia, mas já em 2024, o teatro feminino Takarazuka fez uma montagem baseada no filme e este ano teremos mais uma. O cartaz saiu esta semana.
A nova montagem, que é da Star Troupe (Hoshi-gumi), se chama RRR × TAKA"R"AZUKA ~√Rama~ (アールアールアール バイ タカラヅカ ~ルートラーマ~) e está programada para 29 de agosto e 11 de outubro de 2026 no Takarazuka Grand Theater e depois seguirá para outras apresentações pelo Japão. As estrelas do espetáculo serão Akatsuki Chisei, Uta Chizuru e Rukaze Hikaru. Na montagem de 2024, elas recriaram o número musical dançante de Naatu Naatu, graças ao Igor, eu consegui assistir, ele está abaixo:
Umi ga Hashiru Endroll (海が走るエンドロール), elogiada e premiada série de John Tarachine, terá umm filme animado, segundo anunciado hoje pelo Comic Natalie. A série é muito elogiada e tem como protagonista uma idosa viúva que descobre sua paixão pelo cinema, não por assistir filmes, mas por ser cineasta. E eu estranho muito que não tenham anunciado dorama ou filme live action ainda. Até o momento, a série foi licenciada na Espanha e na França.
O filme animado tem estreia prevista para 2027. A direção está a cargo de Taichi Ishidate, conhecido por seu trabalho em Violet Evergarden e CITY THE ANIMATION; já a produção do filme será realizada pelo estúdio Kyoto Animation. Umi ga Hashiru Endroll terminou em novembro de 2025 e tem 9 volumes ao todo. Eu esperava um filme live action, não um filme animado, mas acredito que outras adaptações desse mangá ainda virão.
Um evento com exibição dos filmes animados de Terra E... (地球へ…) e Kaze to Ki no Uta (風と木の詩) e um talk show com Keiko Takemiya, a mangá-ka original, Yoshikazu Yasuhiko, diretor de Kaze to Ki no Uta, e Gilbert Cocteau, dubladora de Gilbert Cocteau no mesmo filme. O evento será no dia 28 de junho, a entrada custará 5 mil ienes (R$157.11). As portas do cinema abrirão às 15h (*imagino que vai ter lojinha e outras atrações*), Kaze to Ki no Uta será exibido às 15h45, entre 16h45 e 17h45 é o talk show e 18h será a exibição de Terra E...
Para quem não sabe, Yoshikazu Yasuhiko é o responsável pelo character design do Gundam (機動戦士ガンダム) original e foi o primeiro diretor da série. Ele dirigiu Kaze to Ki no Uta Sanctus: Sei Naru Kana (風と木の詩 SANCTUS-聖なるかな-) em 1987. Tem no Youtube com legendas em inglês. Terra E..., primeiro shounen de Takemiya Keiko, teve filme em 1980, dirigido por Hideo Onchi, mas talvez você lembre da série de animação de 2007. O link do evento é este daqui.
Faz tempo que eu acompanho o Oscar. Muito tempo mesmo. Gosto de assistir, gosto de comentar e torcer, também. Com brasileiros participando, a gente torce mesmo. Mas eu escrevi um post ontem no qual explicava as chances e possibilidades de O Agente Secreto e do Adolpho Veloso. E mais ou menos antecipei o que ia acontecer, não por adivinhação, mas por dedução e observação. Por exemplo, olhe quadro abaixo:
O Brasil não ganhou estatueta, mas esteve muito bem representado no Oscar. Pelo quadro acima, vocês podem observar a regularidade de alguns prêmios. Se a Mubi tivesse feito uma campanha melhor para O Agente Secreto no Reino Unido, ela era a distribuidora por lá, talvez o Wagner Moura fosse indicado ao Bafta. Estar indicado lá ou no Sindicato meio que aumenta suas chances no Oscar e ele foi o primeiro ator brasileiro indicado. E isso é uma vitória em si mesma, porque, bem, a festa do Oscar ainda é uma festa norte-americana e filmes de terror, atores e atrizes negros também não são muito reconhecidos. Fico feliz com o desdobramento de qualquer forma.
E eu não sabia que a Noruega nunca tinha ganho um Oscar de filme internacional. Valor Sentimental fez história. É engraçado, porque Dinamarca e Suécia já venceram várias vezes. Como muita gente que eu respeito elogiou o filme, vou me esforçar para assistir até o fim, porque comecei e larguei. De repente, volte daqui uns dias fazendo uma resenha da obra.
Houve muitos prêmios óbvios, todos os que Frankenstein levou eram esperados. Figurino este ano estava uma tristeza. Era uma indicação que eu gostaria que O Agente Secreto recebesse, porque é um dos pontos altos do filme. Todo mundo sabia que Guerreiras do K-Pop levaria melhor longa de animação e Golden provavelmente melhor canção. Melhor filme e diretor para Uma Batalha Após a Outra. Mas houve surpresas como um empate em curta documentário e Amy Madigan (A Hora do Mal) como melhor atriz.
Um dos pontos altos da cerimônia foi o In Memoriam. Eu gosto muito dessa parte e houve um grande destaque este ano. O auge foi Barbra Streisand homenageando Robert Redford com quem trabalhou no filme O Nosso Amor de Ontem (The Way We Were/1973). Ela cantou com a voz muito embargada a música tema do filme. Eu quase chorei. Lembro de ter assistido O Nosso Amor de Ontem muitos anos atrás. Acho que foi no SBT. Acredito que foi o primeiro filme sobre Macarthismo que eu vi, nem sei sse já estava na faculdade.
Notável este ano foi termos 74 mulheres indicadas. Um recorde. E os melhores discursos foram os do pessoal de Pecadores, porque todos tinham plena consciência do seu papel histórico naquela noite. Autumn Durald Arkapaw, em especial, fez um discurso muito feminista ao receber o prêmio de Melhor Fotografia, ela reconheceu o esforço e apoio de todas as mulheres presentes. Foi a primeira mulher a ganhar o prêmio e a primeira mulher negra a ser indicada. Isso em quase 100 anos de premiação. Em certas categorias, o Clube do Bolinha é mais forte que em outros. Muito mais.
Quando Michael B. Jordan recebeu o prêmio de Melhor Ator, aquele que a gente queria para o Wagner Moura, também tivemos um belo discurso no qual ele citou todos os atores e atriz negros que ganharam a categoria principal. Foram poucos, muito poucos, se levarmos em conta que estávamos na 98ª Cerimônia do Oscar. Ah, sim! Quando apresentaram a música de Pecadores, a bailarina Misty Copeland entrou no palco. Foi uma forma de espicaçar Timothée Chalamet por causa de suas falas ridículas sobre balé e ópera,que só foram reveladas DEPOIS que a votação terminou. Aliás, Marty Supreme foi o grande perdedor da noite pelo número de estatuetas que não levou e pela quantidade de propaganda que fez.
No geral, gostei bastante dessa cerimônia. Mais do que eu acreditava. E, pelo menos nos prêmios principais, quem recebeu a estatueta mereceu. Muito diferente do ano passado, quando um filme medíocre recebeu várias estatuetas. Acho que é isso, a lista dos vencedores está aqui. Preciso agora ver mais filmes do Oscar, inclusive Pecadores e Uma Batalha Após a Outra.
Foi noticiado que o novo filme de Razão e Sensibilidade foi empurrado de 11 de setembro para 16 de outubro. Segundo o The Wrap, o atraso é estratégico: "Em sua nova data de lançamento em meados de outubro, "Razão e Sensibilidade" será uma alternativa mais madura às opções mais repletas de ação com as quais dividirá o fim de semana: "Street Fighter", da Paramount, e "Whalefall", da 20th Century Fox. O filme também será lançado uma semana depois de "The Social Reckoning", da Sony Pictures, sequência de Aaron Sorkin para seu drama vencedor do Oscar sobre o Facebook, "A Rede Social"." Continuação de Rede Social? Sério? Enfim, espero que a nova data beneficie o filme.
Mais um ano, mais uma cerimônia do Oscar, mais uma vez o Brasil bem representado e com chances. Não vou fazer apostas, estou torcendo mesmo para que O Agente Secreto volte para casa com alguma estatueta, mas sei que é difícil. Está pipocando por aí montes de matérias cretinas. Por exemplo, há a história de que O Agente Secreto não tem chance em Melhor Filme. Mas quem é que acompanha o Oscar acredita que o filme tem alguma chance nessa categoria? A indicação é uma honra, um reconhecimento de mérito. O Oscar de Melhor Filme tem um favorito, Uma Batalha Após a Outra, podendo sobrar para Pecadores e, com chances muito mais limitadas, para Hamnet. E é isso.
A categoria Melhor Ator, outra em que o Brasil concorre, tem um favorito, Michael B. Jordan, seguido por Timothée Chalamet. Sim, eu sei que ele soltou umas atrocidades sobre ópera e balé, mas as falas dele só saíram depois da votação estar fechada. Se influir em alguma coisa, é no futuro só. Então, gente, os votos já estavam dados. Em seguida, temos Wagner Moura cotado. Mas ele não estava indicado no Bafta, nem no Sindicato dos Atores. Pode ganhar? Pode, mas ele não é favorito. E ser um dos apresentadores do Oscarnão é prêmio de consolação, é coisa que acontece. Fora, claro, que a produção do Oscar quer a adesão dos brasileiros.
Melhor Filme Estrangeiro parece até mais aberto que a categoria Melhor Ator. Valor Sentimental ainda é o favorito, porque tem muito mais indicações: melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção (Joachim Trier), melhor atriz (Renate Reinsve), melhor ator coadjuvante (Stellan Skarsgard), melhor atriz coadjuvante (Elle Fanning), melhor atriz coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas), melhor roteiro original (Eskil Vogt e Joachim Trier) e melhor edição ou montagem (Olivier Bugge Coutté). Só que o filme parece estar perdendo fôlego e pode sair até sem melhor ator coadjuvante. De qualquer forma, a categoria Melhor Filme Internacional está aberta, mas há um problema: Somente quatro países venceram o Oscar de melhor filme internacional em anos consecutivos. Todos europeus. Seremos o quinto? Percebem a dificuldade? Seria muito legal, mas é difícil.
Direção de Elenco é prêmio novo, mas a disputa só tem gente grande. David Rubin fez um excepcional trabalho, o elenco é um dos pontos fortes do filme, mas acontece o mesmo com os concorrentes. A maioria está apostando que vai ou para Uma Batalha Após a Outra ou para Pecadores. Como acabei de assistir Hamnet, digo que se for para este filme não é injusto, porque o elenco é um dos pontos altos desse filme um tanto irregular. Mas, repito, é a primeira vez, é histórico e sem precedentes.
É isso. mesmo não tendo amado o filme, vou torcer, vou torcer MUITO. Se o Brasil sair sem estatuetas não é problema, faz parte do jogo; se ganhar alguma coisa, acho que vou começar a gritar como se fosse gol.
Fui negligente e não assisti praticamente nenhum dos filmes do Oscar. Decidi que tentaria ver pelo menos Hamnet, que em nosso país recebeu o subtítulo de "A Vida Antes de Hamlet", porque um dos assuntos da temporada era como a interpretação de Jessie Buckley seria uma unanimidade, tanto que ninguém tem dúvidas de que o Oscar é dela. Digo o seguinte: as interpretações são o forte do filme. E não estou falando somente de Buckley, mas de Paul Mescal, que interpreta Shakespeare, e das crianças, em especial, o menino Jacobi Jupe, que faz Hamnet, o filho cuja morte destrói emocionalmente a família. Também é louvável o retrato do luto de pais amorosos, porque no filme, ambos o são, mas ao pensar Hamnet como filme histórico, começo a ver nele tantos problemas que ele se apequena aos meus olhos. Não consigo evitar, mas explico ao longo da resenha. Comecemos com o resumo, peguei o do Adoro Cinema mesmo:
Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, um dos mais importantes escritores do cânone ocidental William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes Shakespeare (Jessie Buckley) quando o casal perde seu filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet (Jacobi Jupe) era o nome do menino e, nessa história ficcional sobre a vida doméstica de Shakespeare (Paul Mescal), Agnes é a narradora e o ponto de vista fundamental da narrativa, demonstrando o luto que acompanha o fim precoce da vida do seu herdeiro. A trama rejeita a faceta inabalável e intocável de um gênio William Shakespeare, mas apresenta um artista que era influenciado, acima de tudo, pela sua vida diária. Explorando os temas da perda e da morte, Hamnet acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.
Hamnet é um filme construído praticamente em cima do que não sabemos, trata-se de ficção histórica, não de um filme histórico. O que sabemos então? O casamento do jovem William Shakespeare com Anne (Agnes) Hathaway é atípico. Ele era um jovem de 18 anos, ela uma mulher de 26 anos. Ele um tanto jovem demais para se casar e ela um tanto passada da idade comum para um primeiro matrimônio. E, não, em boa parte da Europa, pessoas comuns, aquelas que não eram de famílias reais ou da alta nobreza, não costumavam casar no início da puberdade na Idade Média e boa parte da Idade Moderna, mas 26 era tarde, sim. Sabemos que Agnes casou-se grávida. Estavam apaixonados? Shakespeare foi pressionado a assumir o fruto de uma aventura? Não sabemos.
Eles têm três filhos: Susanna (Bodhi Rae Breathnach), Hamnet e Judith (Olivia Lynes). Ele parte para Londres. Não sabemos se ele a visita com frequência ou não. Se manda dinheiro para ajudar no sustento da família. Há a possibilidade de Hamnet ter morrido de desnutrição e, não, de peste. Certamente Shakespeare não estava presente quando da morte do menino, nem em seu funeral, porque estava muito longe, em Kent, em uma turnê teatral. Há muita discussão sobre a sexualidade do autor. Mesmo sem consenso, há grandes possibilidades de que ele fosse bissexual. Nada incomum para uma época em que as pessoas não se fechavam necessariamente nas mesmas gaiolas de nossos dias. Enfim, na minha cabeça, Shakespeare sempre foi pai e marido ausente.
Sobre a Agnes histórica sabemos muito pouco, ainda que um retrato dela de 1708 tenha sobrevivido e isso é bastante coisa para alguém que não era nobre ou da alta burguesia. A primeira é que no testamento de seu pai, um camponês abastado e que lhe deixou um bom dote, ela se chama Agnes, mas em todos os outros documentos ela aparece como Anne. Não sabemos se ela sabia ler, menos ainda escrever, pois eram duas competências vistas como diferentes e meninas muitas vezes aprendiam somente a primeira, mas descobriram recentemente uma carta que lhe foi endereçada. Mas até aí, alguém poderia ler a carta para ela. Receber uma carta não tornava ninguém no século XVI ou antes, ou ainda depois, obrigatoriamente alfabetizado. Esta carta sugere ainda que Agnes chegou a morar com o marido em Londres entre 1600 e 1610. Antes disso, o que tínhamos era a ideia de que ela poderia ter prendido o jovem Shakespeare a um casamento de obrigação (*com um volumoso dote... Sei...*), que ele a deixara para trás e seguido em busca de uma carreira em Londres.
Mas Hamnet, o filme, é baseado em um livro e a autora, Maggie O'Farrell, quis transformar o casamento de Agnes e Shakespeare em uma história de amor. Agnes foi tornada uma mulher sábia, independente e de uma linhagem de bruxas. Shakespeare em filho tiranizado pelo pai que encontra nela acolhimento. Ambos constroem uma família, mas ela, que apoia a carreira do marido, percebe que ele não está feliz e o autoriza e estimula a ir para Londres em busca de seu sonho. Ele parte, mas retorna com frequência, mima os filhos, não abandona a esposa. E, algo importante, ele quer que a família resida em Londres, mas Agnes resiste.
Bruxa que é, ela conhece ervas, ela tem visões, pressentimentos, e ela viu, ainda que em sombras, que teria dois filhos chorando no seu túmulo. O problema é que ela teve três crianças. Como Judith, irmã gêmea de Hamnet quase morreu ao nascer e tem uma saúde frágil, ela acredita que a vida no campo é mais segura para menina. E, sim, Londres era uma cidade insalubre, assim como a maioria das cidades da época e algumas até nossos dias. Só que não é Judith que a morte irá levar, mas Hamnet. E não se trata de valorizar um filho mais que uma filha. O tom do filme, porque o livro não li, não é esse, mas é a perda de uma criança que tem o efeito devastador. Eu sou mãe, imaginar a perda da Júlia (*ou que eu parta e a deixe sozinha*) é um dos meus maiores medos. Lembro de como uma das minhas tias-avós ficou devastada por meses e sofre ainda hoje pelo filho caçula que morreu aos 13 anos. Foi a primeira vez que vi minha mãe chorando, essa tia tinha idade de irmã mais velha e é assim que minha mãe a vê até hoje. Eu tinha 8 anos e não esqueço. A casa da minha tia, sempre iluminada, sempre alegre, transformou-se em um mausoléu; os muitos brinquedos que ele tinha todos guardados. Mamãe nos admoestando para não pedirmos para brincar com eles. Cortinas fechadas, porque a janela dava para a rua onde meu primo tinha sido atropelado de bicicleta. A bicicleta que estava pequena e que seria dada para mim. Eu nunca ganhei, nem nunca aprendi a andar de bicicleta; minha mãe ficou com pavor de bicicleta por anos. Foi a primeira experiência de luto que eu vivi.
Logo, o luto que se abate sobre a família Shakespeare não é exagerado, ele é bem realista. E não procede uma ideia que foi disseminada pelo primeiro grande estudo histórico sobre a infância, o História Social da Criança e da Família do Philippe Ariès, de que os pais não sentiam a morte de um filho ou filha até os tempos da Revolução Industrial, que tanto fazia um pelo outro, que o luto era curto e muito mais para os olhos da sociedade. Em alguns casos, talvez, mas há exemplos de sobra mesmo na sociedade europeia do contrário, que se poderia sentir de forma diferente. Obviamente, e isso o filme mostra muito bem, se poderia encarar a morte de uma criança, fato muito comum na época, como algo que fazia parte do cotidiano.
Uma das melhores personagens do filme, Mary (Emily Watson), mãe de Shakespeare, encara a morte de uma criança como uma fatalidade. Chora, lamenta, mas compreende que existem coisas que são inevitáveis, a morte faz parte do fluxo da vida, por assim dizer. Ela também acolhe Agnes, depois de a rejeitar no início por ser bruxa, e se torna mais mãe da nora do que a madrasta da protagonista. Só que algo que parece muito forte no filme é que Agnes lamentava ter se enganado e acreditava ter se descuidado de Hamnet, porque cria que o menino tão saudável seria um dos filhos chorando em seu túmulo. Seus conhecimentos e poderes de bruxa não o puderam salvar.
Além de se culpar pela morte do menino, ela culpa Shakespeare pela sua ausência e ambição. O problema é que o Shakespeare do filme nunca abandonou a família, ele esteve sempre presente, provavelmente, mais do que a maioria dos pais da época. Ele veio às pressas para dar suporte quando soube que Judith estava muito doente e que provavelmente não resistiria. Ainda que o luto de Shakespeare não seja destacado quando se fala do filme, ele sofre tanto quanto Agnes e Paul Mescal foi muito competente em colocar esse sentimento de dor e culpa na sua atuação. Só que o luto de Shakespeare vira força criativa, se transforma em Hamlet, peça que pode, sim, ter sido uma homenagem ao filho morto, já o de Agnes se torna ressentimento, depressão e uma raiva irracional pelo marido, que, lembremos, ela mesma empurrou para Londres.
Como o elemento mágico está presente o tempo inteiro no filme, é Hamnet quem causa a própria morte. Embora a mãe só apareça ensinando o ofício de bruxa para as filhas, reproduzindo papéis de gênero bem previsíveis, ele tem a visão. Ele vê a morte vindo buscar Judith e a engana. Ela se salva, ele é ceifado. O menino Jacobi Jupe é uma das melhores coisas do filme. Ele é expressivo, atua muito bem, é fofinho e convence em todas as suas cenas. Todas, inclusive na sua morte, que é doída, suja, não é uma morte tranquila. É tudo muito horrível e triste. Mais tarde, em uma feliz escolha, colocaram seu irmão mais velho, Noah Jupe, como Hamlet no teatro. Eu achei parecido, reconheci que a paleta de cores da roupa da personagem era a mesma que o menino Hamnet usava quando seu pai o viu pela última vez, mas não imaginava que fossem irmãos. A cena da morte de Hamlet no palco é um dos grandes momentos do filme, inclusive por libertar não somente a alma de Hamnet, mas seus pais do luto. Imagino que se eu estivesse no cinema, eu me debulharia em lágrimas ali.
Enfim, o que escrevi até agora foram os elogios. O filme tem sua beleza, algumas tomadas são muito bonitas mesmo. A abertura com Agnes deitada em posição fetal na floresta, que é como um grande útero materno, é muito linda A despedida entre Shakespeare e Hamnet sem saber que não se voltariam a ver, também. A casa vazia em contraste com o palco vazio ilustra a dor de ambos os pais. A tomada final da morte de Hamlet é belíssima e tocante. Posso estar sendo somente uma comentarista sem grande estofo, mas a direção de arte do filme e a fotografia me parecem muito boas. Fora isso, Chloé Zhao é uma grande diretora e mesmo dentro do mundinho machista da categoria melhor direção, ela está entre as sete mulheres indicadas em quase cem anos, no caso dela duas vezes, e entre as três que venceram na categoria (*uma delas sem merecer, mas eu não vou perder meu tempo com isso, pois já comentei quando aconteceu.*). Suas qualidades estão mais que reconhecidas, portanto. E, agora, vamos para as pedradas, porque eu tenho muitas.
Enfim, na construção de Agnes, que passa a ser elemento fundamental para a carreira do marido, temos todos os clichês possíveis sobre a mulher-bruxa. A floresta, a atitude independente, o cabelo solto e descoberto para mostrar que ela era livre. Em um momento de intolerância religiosa, ela não tem pudor nenhum em mostrar que não é cristã ao recusar, quando acredita que a bebê Judith nasceu morta, que a menina não foi para o céu e admitir que nunca diria uma oração sequer na igreja, que ela se refere como dos parentes e não sua. Embora o Período Elisabetano (1558-1603) não seja particularmente lembrado pela caça às bruxas, elas aconteceram e se intensificarama partir de 1563, isto é, mais ou menos no período do filme. Isso é mostrado na 2ª Temporada de A Discovery of Witches (*Resenhas: 1 - 2*). Logo, ser vista como bruxa, se admitir bruxa, dizer blasfêmias na frente da parteira não era bem uma boa ideia.
Falando em parteira. A primeira filha de Agnnes nasce na floresta, é o lugar mágico, a simbologia grita desde o início. Ela teve a criança sozinha em seu ambiente seguro. Já os gêmeos nascem em casa. Há uma chuva torrencial e a sogra a obriga a ficar em casa usando da força. Daí temos um problema, a parteira quer manter Agnes deitada e ainda a epreende por estar gritando. Essa posição não era comum, as mulheres se movimentavam durante o parto e, quando chegava a hora, sentavam-se em uma cadeira de parto. Quando Hamnet nasce, ela está na cama, só não está deitada de costas porque resistiu. Depois, quando percebem que são gêmeos, a colocam em uma cadeira de parto. Para piorar essa sequência do parto, ambas as crianças nascem limpinhas. No caso de Hamnet, que vemos sair de debaixo das saias da mãe, não há sangue nem cordão umbilical. Eu parei a película para respirar, porque não dá um negócio desses. Um filme desse nível não poderia cometer esse tipo de deslize.
É ruim, ainda que,nesta parte, a cena de Agnes com a sogra e as lembranças da mãe morta sejam boas, assim como o desespero de pensar que a menina está morta e a confusão da protagonista com o fato de ter três crianças. Muito bem, mas já que falei da mãe de Agnes, ela emerge da floresta tal e qual saída de algum daqueles filmes ruins sobre romanos na Bretanha, Rei Arthur moderninho ou os pictos de rosto pintado. Seu cabelo semidesgrenhado e com umas transcinhas na frente (*penteado típico desses materiais que citei*), vestindo uma túnica de tecido grosseiro e sem mangas. E segue assim nas suas poucas cenas. Imagine aquele período, o frio, pense agora em uma mulher usando regata, mostrando os braços o tempo inteiro? Mas figurino é um dos pontos mais baixos do filme e não adianta a figurinista vir com o papo de que foi planejado.
O figurino é ruim, indiscutivelmente ruim. E não estou pedindo fidelidade impossível, porque não se trata de uma reconstituição de roupas da época, mas o figurino tem que ser verossímil ou explicar-se. A figurinista, no link que coloquei acima, tenta explicar a paleta de cores das roupas das protagonista e falha a meu ver. Agnes usa vermelho durante boa parte do filme, a impressão é que ela só tem um vestido, que se desbota um pouco, mas não rasga. Só quando ela está grávida dos gêmeos é que fica evidente que é um vestido vermelho, mas é outro. Quando se casa, usa branco. Branco não era cor de vestido de noiva antes do século XIX. Era uma cor excepcional. E o vestido de noiva era uma roupa especial, nova ou mais vistosa, e deveria ser usado depois. Isso valia até para gente rica. Não vamos rever o vestido branco de Agnes.
Depois que Hamnet morre, ela passa a usar degradê de marrom, não usa preto em nenhum momento. As cores das roupas das meninas ficam mais fechadas, também, e elas começam a cobrir a cabeça, talvez, para marcar a passagem do tempo, afinal, entre a morte de Hamnet e a peça Hamlet se passam quatro anos. Já quando vai para Londres tomar satisfação com o marido por causa da peça, que ela acredita explorar a morte do filho, afinal, o filme nos explica no início que Hamnet e Hamlet eram o mesmo nome com rafias diferentes, ela volta ao vermelho. Em Londres, a quase totalidade dos homens e mulheres está de cabeça coberta, menos Agnes, que, com mais de 40 anos, ainda anda de cabelo solto, e Barthlomew (Joe Alwyn), o irmão fofo dela. O irmão, aliás, está com o gibão completamente abotoado, o que era o normal, assim como todos os homens que aparecem em Londres. No campo, ele andava mostrando a roupa íntima, mas Shakespeare é pior.
Shkesperare só tinha 18 anos no início da história, o correto seria colocarem o ator sem barba, para marcar sua juventude. A barba poderia indicar a passagem do tempo. Paul Mescal aparenta a mesma idade do início ao fim da película, mesmo se passando mais de 15 anos. Como ele e Jessie Buckley tem mais ou menos a mesma idade, não parece que existe uma diferença de 8 anos entre eles. E não gostei do primeiro encontro dos dois. Posso admitir que existe o elemento mágico, o destino, seja lá o que for, mas eles se beijarem antes de saber até o nome ficou estranho. Mas era de figurino que eu estava falando, não é? A paleta do filme é aquela monotonia do que alguém chamou de Hollywood medieval palette e para os britânicos e norte-americanos, o Período Tudor (1485-1603)é Idade Média ou um momento de transição. Mesmo as cores mais vibrantes ou pastéis, quando aparecem, precisam se mostrar sujas e fechadas.
Shakespeare fica desfilando, seja Stratford-upon-Avon ou em Londres, com o gibão aberto, às vezes só com a camisa de baixo mesmo, que na maioria das vezes não é branca, e com as mangas dobradas. Imagina ele sendo professor em uma casa de família remediada e andando assim ou em Londres? Porque ele conhece Agnes quando está dando aulas de latim para os meio-irmãos dela como forma de pagar dívidas do pai, que é fabricante de luvas. E, em boa parte do filme, Shakespeare está com um machucado na cabeça, deve ser onde o pai batia sempre. Depois que se revolta com o pai, o velho desaparece. A gente nem o vê pela casa. Só sabemos que ele morreu por causa da cena da madrasta fofoqueira de Agnes. Aliás, essa, os meio-irmãos de Agnes e os irmãos de Shakespeare, mesmo o que era bem novinho, desaparecem. Só sobra mesmo a irmã de Shakespeare que deve ter ficado solteirona, nem que seja somente no filme.
E eu não posso esquecer! Quando Judith fica doente, e todo mundo sabe que é peste bubônica, deixam Hamnet ficar perto da irmã. Quando alguém adoecia, o norma era separar os doentes. Quem ficasse cuidando deles, porque alguém precisava fazer isso, ou já tinha tido a doença ou era alguém que estava disposto a arriscar sua vida. A peste é tratada no filme como algo terrível e ninguém se importa em tentar impedir que ela se transmita dentro de casa, por outro lado, criança chegar perto de gente morta, ou a mãe segurar filho natimorto parece o fim do mundo. Muito sem noção mesmo. E nem atrapalharia o argumento, porque bastaria que o jovem Hamnet se esgueirasse para perto da irmã quando ninguém estivesse por perto. O que, aliás, foi o que ele fez mesmo.
Como o filme redime Shakespeare de tudo, tornando-o marido apaixonado e pai exemplar, ainda temos o choque de Agnes quando vê que, mesmo tendo comprado uma casa muito grande e confortável para a família, ele mora em um sótão arrumadinho, mas bem pequeno. Assim, Agnes é a protagonista, mas o filme faz um grande trabalho de redenção de Shakespeare. Se o filme tivesse me tocado de verdade, eu até iria ver o que está no livro, mas confesso que não me pegou.
Hamnet não funcionou comigo como filme histórico. Funcionou como um relato sobre o luto, mas poderia estar em outro momento da História, em um universo alternativo, em qualquer outro lugar. Ele não me fez mergulhar no período que busca retratar. Mais ainda, a história da bruxaria, o figurino, a paleta de cores terminam por me passar um ar de falsidade ou falta de pesquisa histórica. Mas é aquilo, para uma mulher ser forte, destemida, sábia, convencionou-se que ela deveria ser bruxa mesmo que o seu provável destino fosse a morte, caso houvesse alguma coerência. De resto, ontem o Dalenogare disse que Hamnet poderia derrotar fácil Anora, se tivesse saído no ano passado. Olha, acho que a maioria dos concorrentes do ano passado mereceriam ganhar de Anora. Aliás, Anora será esquecido como tantos outros filmes medianos e/ou ruins que já levaram várias estatuetas. Talvez o destino de Hamnet também seja esse, a não ser, claro, que algo fora do previsto aconteça hoje.