Mais um artigo sobre The Other Bennet Sister, uma série muito gostosinha de assistir e uma excelente homenagem a Jane Austen. Recomendo muito. O original está aqui. Mantive a estrutura original do texto.
"The Other Bennet Sister": Mary Bennet é a heroína de Austen para o século XXI - eis o porquê.
Molly Gorman
Baseada no aclamado romance "The Other Bennet Sister", uma nova adaptação para a TV da vida de Mary Bennet, personagem de "Orgulho e Preconceito", conquistou o coração do público britânico. Veja por que essa personagem de Austen é tão cativante hoje em dia.
"Sua mãe tinha razão, ela não brilhava nem florescia", escreve Janice Hadlow em seu romance de 2020, The Other Bennet Sister, uma releitura da vida de Mary Bennet. Mary é uma das cinco irmãs Bennet em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen – aquela que é mais frequentemente ignorada e esquecida. Apesar das convenções do início do século XIX, ela não tem interesse em casamento ou eventos sociais: prefere estar com a cabeça enfiada em um livro de geologia. Ah, e para o desgosto de sua família, ela usa óculos. Mas como mais ela poderia ler?
A "Austenmania" está em constante crescimento, e só em 2026 veremos três novas grandes adaptações de Austen para o cinema e a televisão. De comédias de zumbis a mistérios de assassinato, passando por perspectivas de criados e musicais de Bollywood, houve inúmeros derivados das amadas histórias e personagens de Austen. Até mesmo Mary, uma personagem secundária em Orgulho e Preconceito, não foi ignorada na literatura moderna. Há uma série de livros sobre o que ela poderia ter feito quando Elizabeth Bennet não estava por perto – incluindo uma trilogia histórica de espionagem.
Agora, a série "The Other Bennet Sister" foi adaptada para a televisão por Sarah Quintrell e Maddy Dai. Contando a história de Mary através de seus próprios olhos, a série se tornou um grande sucesso entre o público britânico: 7,3 milhões de espectadores assistiram ao primeiro episódio, e houve uma enxurrada de edições de fãs da Geração Z no TikTok. Por que essa interpretação da "sem graça" filha do meio despertou tanta devoção nos espectadores, principalmente nos mais jovens?
Mary mostra as diferentes maneiras como as meninas podem ser – nem todas as meninas são bonitas e perfeitas – Professora Sandie Byrne
Uma maneira de responder a essa pergunta é voltar ao romance de Austen. Encaixada entre as duas irmãs mais velhas, Jane e Elizabeth, atraentes e sensatas, e as irmãs mais novas e imaturas, Kitty e Lydia, Mary é uma exceção. Ela não é bonita, nem tola. Então, qual é o seu papel nisso tudo, e o que Austen pretendia fazer com essa personagem?
| Mary Bennet (Ella Bruccoleri), ao centro, com suas quatro irmãs na série de TV The Other Bennet Sister (Crédito: BBC) |
A função de Mary em Orgulho e Preconceito é mostrar "as diferentes maneiras como as garotas podem ser", diz Sandie Byrne, professora de inglês na Universidade de Oxford, no Reino Unido. "Nem todas as garotas sobre as quais você escreve são bonitas e perfeitas. Austen está sempre zombando do romance sentimental e do romance gótico, nos quais as heroínas são belas e talentosas... Ela está dizendo que algumas garotas são como Mary."
Austen também demonstra uma das verdades da maternidade, diz Byrne: "As crianças nem sempre são amadas, e nem sempre são amadas igualmente."
Uma heroína com quem é fácil se identificar.
Quando conhecemos Mary (interpretada por Ella Bruccoleri) na série da BBC, ela é desajeitada, sem jeito e tem dificuldade para conversar, soltando informações aleatórias para se manter na conversa. Há indícios como esses ao longo da série que sugerem que – nos dias de hoje – ela poderia ser considerada neurodivergente. Mary nos lembra que crianças podem ser criadas na mesma casa, mas ter perspectivas e experiências de vida muito diferentes – um sentimento familiar para muitos.
E mesmo que os espectadores não se identifiquem diretamente com ela, pelo menos torcerão por ela. "[As pessoas dizem:] Quero vê-la se dar bem, porque reconhecemos uma mulher que foi submetida a padrões sociais que ela não consegue alcançar, que está sofrendo com um sistema de valores imposto a ela", disse a roteirista da série, Quintrell, à BBC.
| Na série, a Mrs. Bennet (Ruth Jones, à direita) é uma mãe exigente e crítica, atormentada por seus "nervosismo" (Crédito: BBC). |
A jornada de Mary começa de fato com a morte de seu pai, o Mr. Bennet (Richard E. Grant). De acordo com as leis de herança da Inglaterra da Regência, seu primo, o Mr. Collins (Ryan Sampson), tornou-se o proprietário da propriedade dos Bennet, Longbourn, e rapidamente se muda para lá com sua nova esposa antes que a família tenha tempo de lamentar. (Num belo detalhe, Lucy Briers, a Mary Bennet original na adaptação televisiva de Orgulho e Preconceito da BBC de 1995, interpreta a governanta Mrs. Hill.)
Sendo a única irmã solteira, Mary recebe uma proposta de seus tios, os Gardiner (Indira Varma e Richard Coyle), para morar com eles em Londres. É uma opção muito melhor do que ser a acompanhante em tempo integral de sua mãe, a Mrs. Bennet (Ruth Jones). Mary busca incessantemente, mas não consegue, a aprovação de sua mãe crítica e egocêntrica, cuja frase característica é "Você não tem nenhuma compaixão pelos meus pobres nervos!".
Acho que hoje em dia temos algo muito parecido com as redes sociais, que nos dizem para nos transformarmos em uma determinada pessoa para sermos aceitos pela sociedade – Ella Bruccoleri
A mudança de Mary para Londres, longe da sombra das irmãs e dos comentários mordazes da mãe, permite que ela floresça. Ela é mostrada escolhendo tecidos cada vez mais coloridos para seus vestidos – um sinal de que está começando a abraçar sua verdadeira essência. O tema de construir a própria identidade é atemporal, mas é especialmente relevante para os jovens de hoje.
| O fã de poesia Tom Hayward (Dónal Finn) é um dos dois pretendentes de Mary (Crédito: BBC) |
"Acho que hoje em dia temos algo muito parecido com as redes sociais. Há uma infinidade de mensagens que nos dizem para nos transformarmos em uma determinada pessoa para sermos aceitos pela sociedade", disse Bruccoleri, que interpreta Mary, à BBC. "Acho que é uma definição muito restrita... é assim que a perfeição deve ser, e é isso que você precisa ser."
Uma personagem que encoraja Mary a fazer suas próprias escolhas e a ajuda a prosperar é a Mrs. Gardiner. Através de incentivo e convite gentis, ela oferece o calor maternal que faltava à Mrs. Bennet – e isso dá à série sua história de amor mais genuína. "A Mrs. Gardiner é um ótimo exemplo de como podemos nos relacionar com os jovens, sem julgá-los, sem dizer a eles o que achamos que devem fazer ou como devem viver... mas sim guiando-os", diz Quintrell.
Ainda assim, a Mrs. Bennet tem um pequeno arco de redenção, à medida que o público se lembra de que suas ações são um produto da sociedade: ela precisa salvar cinco filhas – e a si mesma – da ruína. "Não acho que ela seja uma vilã", diz Bruccoleri. "Acho que ela está tentando demonstrar amor a Mary de uma forma muito prática, mas não é o que Mary precisa ou lhe é particularmente útil."
| A protagonista de The Other Bennet Sister conquistou o público (Crédito: BBC) |
A série consegue até mesmo transmitir a humanidade em Caroline Bingley e no Mr. Collins, dois dos personagens mais esnobes e pomposos de Austen, "o que realmente demonstra a capacidade de Mary de enxergar as pessoas como elas são", diz Quintrell. Essa é uma das razões pelas quais a série funciona tão bem: ela oferece novas perspectivas sobre personagens que existem há séculos.
E não podemos esquecer o romance. Sendo ela mesma, Mary atrai dois pretendentes em potencial: o adorável Tom Hayward (Dónal Finn) e o charmoso William Ryder (Laurie Davidson). O relacionamento entre Hayward e Mary é delicado e ponderado, baseado principalmente no amor que ambos compartilham pela leitura (sem mencionar que ele também usa óculos).
Em uma cena icônica, Mary relaxa enquanto Ryder e Hayward puxam seu barco a remo para a margem. Como ambos são bonitos, inteligentes e simpáticos, a autonomia de Mary se manifesta plenamente quando ela se depara com mais uma decisão que mudará sua vida – uma decisão que ela toma no seu próprio tempo e nos seus próprios termos.














































0 pessoas comentaram:
Postar um comentário