domingo, 2 de novembro de 2008

Comentando Kiss & Never Cry



Ontem, depois de ter ficado muito tempo sem ler qualquer mangá, especialmente on line, Decidi retomar do início a leitura de Kiss & Never Cry (キス&ネバークライ), o novo mangá de Ogawa Yayoi de Kimi Wa Pet (きみはペット). Por coincidência, ontem recebi o último dos volumes de Kimi Wa Pet. Comparando as duas séries, começo falando que a arte da autora ficou mais refinada, tornou-se mais fluída e bonita. Ela abandonou os bocões carnudos típicos de muitas autoras de josei.

Kiss & Never Cry começou a ser publicado em 2006, na revista Kiss, a mesma em que a autora publicou Kimi Wa Pet e que agora tem como carro-chefe Nodame Cantabile. Há quatro volumes publicados e um a caminho, mas a série está em andamento e, sim, ela é excelente. Ela poderia ser enquadrada como uma série de esportes, já que a protagonista Michiru é patinadora. Se vocês viram um post recente sobre uma pesquisa feita no Japão, sabem que a patinação artística aparece como o segundo esporte favorito dos japoneses, depois do baseball e antes do futebol. A patinação concentra parte considerável da história, mas é usada para revelar a personalidade das personagens. Há também uma quantidade considerável de informação que me lembrou Swan, mangá de balé, ou mesmo Nodame Cantabile e a música.

A história começa sete anos antes, no aniversário de Michiru, quando ela conhece Leon. O garotinho se apaixona por ela e troca o hockey pela patinação. Outra compensação para o garoto é o fato da professora, mãe de Michiru e ex-campeã de patinação, ser japonesa e boa parte dos alunos e alunas, também. Com Michiru, Rena e outras crianças, ele agora está entre amigos. Agora Leon sabe por que sua irmã Manon adora patinar, mas detesta freqüentar a escola “normal” nos EUA. Michiru é alegre, mas muda na presença do padrasto. Mas ninguém nota.


Quando sua mãe vai treinar uma turma avançada, Michiru e sua turma passam a ter Yomota como professora. A menina de nove anos fica deslumbrada pelo professor, que a estimula a patinar em duplas - na modalidade dança no gelo - com Leon. A mãe da menina é contra, mas não sabemos o motivo, parece se tratar de um trauma pela perda do pai da menina, seu par de patinação.

Michiru recebe mal a notícia de que deve voltar ao Japão para treinar para os exames. Sua mãe quer que ela entre nas competições nacionais. A menina deve ir para o Japão com o padrasto, a mãe seguiria depois. Michiru se desespera e decide fugir, pede que Leon vá com ele, mas o menino se recusa. Michiru foge e o pai de Leon recebe uma ligação avisando da fuga. Leon se sente culpado por sua covardia e vai com o pai ajudar a procurar. Michiru é encontrada no rinque de patinação com o olhar vazio e machucada. Sua única frase por dias é “I was lost” (*Eu me perdi*).

A menina está com os pulsos feridos e se recusa a mostrar o corpo. A mãe de Michiru conta ao marido, mas ele diz que não quer publicidade no caso, nada que possa atrapalhar seus negócios (*ele patrocina o esporte*). A mãe não toma providência alguma e Michiru se fecha em seu mundo, perde a alegria. As coisas ficam ainda piores quando Yomota-sensei é encontrado brutalmente assassinado. Michiru sabe de alguma coisa, mas não se lembra de nada. Chega o dia de retornar ao Japão. Leon e ela se despedem, ela sorri para ele, o primeiro sorriso depois de semanas.

Sete anos depois, Leon largou a patinação e se dedica à dança moderna. Ele retorna ao Japão, se juntando à companhia de Momo, personagem de Kimi Wa Pet. Aliás, ele e Sumire fazem participações especiais, para a alegria de leitoras como eu. Leon reencontra Rena, sua amiga de infância, que diz estar preocupada com Michiru. Ambas são patinadoras, só que Rena luta contra o excesso de peso, enquanto Michiru é muito boa, mas depressiva e destrutiva. Em busca da perfeição, ela leva seu corpo aos extremos sem se preocupar com a dor.

A mãe da moça preocupada decide deixá-la tentar patinar em duplas e o irmão de Yomota-sensei, Hikaru, é o escolhido para dançar com ela. Só que o rapaz é oito anos mais velho e ficamos sabendo (*ou eu fiquei, já que não entendo nada de ice dancing*) que isso não é aconselhável quando se trata de uma dupla, pois um dos componentes vai se aposentar muito antes do outro, que pode não se acostumar com nenhum outro par e ter sua carreira prejudicada. Além disso, Hikaru Yomota é narcisista e Michiru parece não gostar dele porque ele lhe faz lembrar do professor. Lembrar, modo de dizer, como ela tem suas memórias bloqueadas, tudo volta em flashes desagradáveis e incompreensíveis.

Hikaru não suporta Michiru, mas está visivelmente se apaixonando por ela. A treinadora, Mary ou Marie, que não sei se é russa, americana ou francesa, diz que eles precisam combinar melhor como dupla, mostrar sentimentos. A treinadora obesa é um dos personagens responsáveis pelos poucos momentos de humor da trama. O problema é que por mais que Hikaru pareça se esforçar, Michiru se mostra incapaz de demonstrar qualquer sentimento, até que Leon retorna. A presença do rapaz faz com que Michiru mude totalmente e, o mais curioso, ela passa a se comportar como uma garotinha e novo, falando como criança. Isso fica mais evidente em japonês, claro e se manifesta no uso do próprio nome “Michiru quer” ou do pronome “atachi”.


As personagens de Kiss & Never Cry são muito simpáticas e humanas. É óbvio que Michiru foi alvo de abuso sexual, e a autora não faz piadinhas infantis em relação ao tema, a questão é sua ligação com o assassinato do professor e o que aconteceu durante sua fuga, talvez o grande mistério da trama. A presença do padrasto é sinistra e nos volumes dois e três ele a agride fisicamente. Mas os amigos, Rena e Leon, além de Hikaru, depois que começa a ser menos egoísta, começam a fazer diferença na vida dela. Anda não é possível saber se Michiru vai ficar com Leon ou Hikaru, mas antes de tudo é preciso resolver os seus traumas.

Há pouco humor, mas quando temos piadinhas elas são sempre bem sacadas, algum drama e um mistério permanente, seja em torno da fuga e do assassinato, seja pela presença do sinistro Sergei, que Leon viu discutindo com o professor na véspera de sua morte. E, claro, temos o traço belíssimo de Yayoi funcionando muito bem nas competições de ginástica e treinamentos.

Infelizmente, a tradução do mangá parou no primeiro capítulo do volume 2 faz tempo. É possível achar os volumes raw e ter uma idéia do que está acontecendo, mas ler, pelo menos para mim, é impossível. Por ser josei, não á furigana, é kanji puro. Acho o fim da picada que os bons mangás fiquem de lado e as porcarias sejam traduzidas. Mas não é justo reclamar, os fãs fazem aquilo que lhes interessa e os josei ficam na fila. Não vejo possibilidades de licenciamento rápido par ao mangá, bem que eu gostaria de vê-lo no Brasil, pois até agora acho muito melhor que o excelente Kimi Wa Pet. Altamente recomendado.

Ah, para terminar: Kiss & Never Cry não é a única série em andamento da Yayoi. Acabei de descobrir que como outras autoras de josei, ela está publicando shounen. Espero que não seja o início de uma migração, pois Yayoi é uma das autoras mais competentes de sua geração. Sua série shounen se chama Baroque (バロック) e é publicada na Shounen Sirius. A série está em evidência na capa da edição deste mês.

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7 pessoas comentaram:

Me deu vontade de conferir...

Essa série eh mesmo ótima! agora, você falou que há três volumes publicados, mas, já há quatro e o volume cinco sai dia 12 de Dezembro.

Kiss & Never Cry é uma das séries de josei que eu mais adoro. Realmente acho que deveria ser mais explorado no mundo dos mangás, e a trama involve muitos mistérios, como o assassinato de Yomota. Ainda gostaria que Michiru ficasse com Leon (sou apaixonada por ele) e anseio muito por mais traduções. Meu nihongo não é muito bom...
Mas agora é esperarr traduções online...

Valéria, postaram mais um capítulo desse mangá!

Bjo

Gostei da história e como adoro Kima wa Pet acho que vou gostar desse aí também!

Laura, eu acho difícil não gostar de Kiss & Never Cry. E acho que a autora está conduzindo bem a história até onde eu li.

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