quinta-feira, 24 de junho de 2010

Comentando Kick-Ass (*e questionando porque Hit-Girl não aparece no título*)



Assisti Kick-Ass terça-feira acabei não terminando a resenha por execesso de cansaço. O filme tem ingredientes que me agradaram muito e outros que me desagradaram na mesma medida. Quer dizer, o filme é ótimo, divertido, mas não tenho como relevar uma série de questões que me incomodam, como a apologia à violência (*ainda que estilizada*) e, o pior, tendo uma criança como protagonista. Foi uma sensação semelhante a que senti quando assisti Tropa de Elite: gostei, é um grande filme, mas não tenho como fechar os olhos para certas coisas. Não imaginei vendo o trailer o nível de violência que iria encontrar. Definitivamente, não é um filme para crianças, ainda que uma menininha seja uma das protagonistas. Mas vamos resumir a história.

Dave Lizewski é um adolescente nerd e invisível, o típico loser de uma típica high school norte americana. Ele mora com o pai, depois que a mãe morreu por causa de um aneurisma, se masturba pensando na mais que balzaquiana professora de inglês, é apaixonado por uma colega de escola que nem sabe que ele existe, e passa as tardes na gibiteria com seus dois amigos igualmente nerds; na volta, via de regra é assaltado por dois marginais do bairro. Um belo dia, depois de mais um assalto, o rapaz decide que qualquer um pode lutar contra o crime e decide virar o herói Kick-Ass.

Depois de uma primeira ação desastrosa que quase o leva à morte, Dave, ganha notoriedade quando enfrenta uma gangue e vai parar no Youtube. Mais tarde, quando tentava ajudar Katie Deauxma – a garota por quem é apaixonado – a se livrar de um pequeno traficante, o rapaz é salvo por dois “heróis” de verdade, Hit-Girl e Big Daddy (*Nicholas Cage conseguindo me fazer gostar dele depois de muito tempo*). Só que o grande distribuidor de drogas (*Mark Strong, vilão de novo*) da cidade pensa que o rapaz foi o responsável pela ação que atrapalhou seus negócios e a vida de Dave corre perigo. Ser herói não é nada fácil...

Kick-Ass tem quatro marcas: humor, hiperviolência, um roteiro bem amarrado, e um ritmo muito acelerado. Esses quatro ingredientes somados a um elenco bem entrosado, destaque para a pequena Chloe Moretz, a Hit-Girl, torna o filme irresistível. O título deveria ser “Quando Kick-Ass encontra Hit-Girl”, porque sem ela, acho que o filme não teria graça. São muitas as referências inclusas no filme de clássicos do faroeste, passando pelas HQs, até jogos de games de tiro, mas a menina Hit-Girl tem algo que lembra Natalie Portman em O Profissional. E não é somente a peruca, mas o talento, e o perturbador efeito “lolita” que imprimiram na personagem. Sim, sem mostrar nada, só com o olhar, conseguiram colocar na pequena assassina uma sensualidade de “gente grande”. Hit-Girl é uma heroína de ação como nunca se viu antes.

Como eu escrevi, lá no começo, há uma série de coisas no filme que por princípio não me agradam, mas que, nem por isso, vão me fazer dizer que não foi todo muito bem bolado e o Kick-Ass não é um grande entretenimento. A violência ou o sadismo de Hit-Girl e Big-Daddy me incomodam muito. Ainda que exagerado e, por isso, surreal e cômico, colocar os heróis tendo prazer em torturar e matar é algo que me parece muito daninho. A cena em que pai e filha colocam o cara algemado dentro do carro em um triturador e o sujeito é massacrado enquanto grita aterrorizado não teve graça alguma. Tortura não tem graça, independente de quem seja torturado e dos motivos.

A violência como espetáculo e o herói justiceiro com direito e liberdade para se utilizar dela pode parecer divertido no cinema e em games, mas isso está presente em nossa vida real, na ação de matadores, milicianos e outros. É por isso que me incomoda tanto. Não sei se muita gente consegue ver que é somente ficção e que na vida real esse tipo de coisa não poderia acontecer de verdade. Nesse sentido, o filme se aproxima de Tropa de Elite, apesar de serem produtos bem diferentes.

Na outra ponta, sem o treinamento e gadgets de Hit-Girl e seu pai, temos o nerd de bom coração. E o menino que faz Kick-Ass/ Dave Lizewski é muito simpático. Aliás, segundo meu marido que leu o quadrinho (*pegou na net logo depois que chegou em casa do filme*), todas as personagens são muito mais simpáticas e dignas no cinema. (*Se Big-Daddy fosse no filme como no quadrinho, eu o detestaria*) O quadrinho é muito cruel com o garoto que decide vestir a capa de super-herói para tentar ajudar a “tornar o mundo um lugar melhor”. É uma loucura, afinal, ele quase é morto na “primeira missão” e ainda acaba sendo envolvido nos negócios de um grande chefão do tráfico por engano, mas todos os atos da personagem exigem muita coragem, inclusive se declarar para a garota por quem ele está apaixonado e isso tudo depois de ter se fingido de “seu amigo gay”. As cenas, aliás, são impagáveis. E, depois de muito tempo, vi algum sexo e sensualidade em um filme adolescente de ação. Em tempos em que somente a violência é permitida, e adolescentes são castos ou assexuados, Kick-Ass ousou em vários momentos.

Agora uns pontinhos, nem Kick-Ass, nem Hit-Girl têm mãe no filme. A ausência da figura materna no caso da menina é fundamental para criar aquela relação em que ela é filha somente do pai, moldada por ele. Por isso, entendi as críticas feministas que li sobre o filme (*não foram essas, mas achei que valia citar: 1 - 2*), afirmando que Hit-Girl seria ao mesmo tempo um avanço e um pouco mais do mesmo. Afinal, ela é, de certa forma, tutelada por uma figura masculina, ainda que muito mais forte que o personagem que dá título ao filme. Além disso, é feita a redenção do pai. Na HQ ele "rouba" menina da mãe, já no filme, a mãe é ausente e, quando viva, descrita como uma figura “fraca”, que morreu em vão, pois não agüentou a “pressão”. Por isso, o pai quer a menina longe das “coisas de menina” e a tranforma, de quebra, em uma máquina de matar que possa executar sua "vingança", pois "justiça" aquilo não é. Prestem atenção nos diálogos. Fora isso, apesar de Hit-Girl ser forte, capaz, matar 15 homens adultos sozinha, ela precisa ser salva pelo herói, pelo adolescente nerd. Na HQ isso também é diferente.

Para terminar, há uma referência à shoujo mangá em Kick-Ass, quando a namoradinha do herói diz que é leitora da (*finada*) Shojo Beat da VIZ. Também vi referência direta ao anime Gunslinger Girl no início da seqüência final. Meu marido percebeu, ao pegar a HQ, que as referências ao Demolidor foram cortadas. Será que foi problema contratual ou fruto das mudanças de roteiro? Não sei. E, antes que eu termine, Mark Strong é, de novo, mais uma vez, o vilão. Eu já estou cansada de vê-lo – ainda que ele interprete muito bem – fazendo o “cara mau”. Afinal, é o quarto filme este ano, Sherlock Holmes, Robin Hood, A Jovem rainha Vitória, e Kick-Ass. Sei que os americanos adoram escalar ingleses para o papel vilão, mas queria ver meu Mr. Knightley favorito fazendo outras coisas, também. É isso, recomendo Kick-Ass, pontuou muito alto mesmo, fazia tempo que não via um filme adolescente e derivado de HQ tão legalzinho.

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6 pessoas comentaram:

A unica coisa a lamentar é que o criador da hq aprovou tanto a adaptação que vai escrever mais duas continuações p/a historia.

Lamentar pq Kick-Ass me parece ser o tipo de trama que funciona melhor como historia fechada.

Eu li os quadrinhos antes do filme e concordo com suas observações.

Nas hqs fica mais facil perceber como a violencia é de "mentirinha", ja nos cinemas isso fica mais complicado.

Herois justiceiros sempre existiram, mas o acrescimo do sadismo e da diversão na crueldade bate muito com a ideia de que direitos humanos deveriam ser restritos a quem "merece".

O elenco se saiu muito bem e o senhor Cage finalmente realizou seu sonho e fez um bom filme de herois. (ah esses nerds ^^)

Como ainda estou desempregado, não pude ver Kick-Ass. Estou muito curioso! Só que meu filme baseado em HQ que eu mais quero ver este ano é Scott Pilgrim VS the World.
Segue o trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=-0HUH_JZKKQ

Na primeira olhada que eu dei nessa HQ eu já pude perceber uma referência a um shoujo mangá: Enquanto acontece um diálogo com uma das personagens, no fundo do cenário tem um cartaz com propaganda de um show do trapnest, banda do namoradinho da Nana, o Ren.

Aliás, quem achar interessante pode fazer o seu avatar de Scott Pilgrim neste link:
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/scott-pilgrim-contra-o-mundo-veja-como-voce-ficaria-no-traco-do-criador-da-hq/

Vou tentar dar um jeito pra ver Kick-Ass, assim, comento aqui de novo!

Eu sempre leio seus posts e fico com vergonha de comentar, mas eu fiquei um pouco incomodada com o que te incomodou na Hit-Girl e resolvi respirar fundo e formular alguma coisa.
A própria HQ não é pra crianças, é como querer que Watchmen seja assistido por crianças porque veio de uma HQ que muito adulto ainda não conseguiu entender. Todo o universo que a Hit-Girl vive respira e incentiva a violência e a tortura que ela tanto gosta porque além tudo é o elo entre ela e o pai dela, as vezes mais que a própria relação familiar. Na HQ isso é um tapa na cara, eu esperava uma atitude de pai mesmo em alguns momentos e tive que me adaptar a um Big Daddy que não estava preocupado com ser pai, e isso foi maravilhoso. Qualquer coisa contrária a isso iria contra os personagens.

Eu confesso que sou fã de violência em HQs e também me incomodei com Tropa de Elite, como me incomodei com Parada 174, como me incomoda boa parte dos filmes nacionais que parecem que só valorizam isso, e querendo ou não, não é a minha realidade. Nas HQs, nos mangás eu consigo assimilar isso melhor, e eu só li Kick Ass, ainda vou ver e espero a mesma quantidade de sangue que vi nas páginas do gibi.




(sensação que falei, falei e não falei nada, desculpa o comentário imenso e podre ._.)

Orelhinhas, eu sei que Kick-Ass não era HQ para crianças, esse nem é meu ponto. Me incomoda ter uma criança como máquina de matar e, mais ainda, ter heróis que fazem apologia à violência, ainda que ela, de tão exagerada, pareça cômica.

Mas comente sempre que quiser. ^_^

Ah mas é ficção,entao nao me importo de ver uma criança matando e ownando geral,nao botam adultos matando crianças? Claro que tem gente que nao curte muito esse lance de violencia,mas ai ja é outra historia. A unica coisa ruin é quando a violencia e pancadaria é gratuita,mas se tem á ver a com a historia e o personagem eu acho muito valido,pelo fato de ato violento ser motivo por outro fator,ou seja o personagem tem um motivo para agir daquele jeito.E se o motivo for convincente melhor ainda. OMG quero ver esse filme *--* Hit-Girl é minha mais recente idola

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