segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Comentando as primeiras semanas de Salve Jorge: Agora é para valer!


 

Comecei a escrever este texto na quinta-feira, mas tive outras coisas para fazer e o texto foi crescendo mais do que devia... Ontem, no domingo, a Folha de São Paulo trouxe três textos sobre a novela, um intitulado “Quem salva o Jorge?”, apontando que a novela é a mais baixa audiência do horário em 12 anos. Quando isso acontece normalmente há uma intervenção, a última e mais radical neste horário, que eu me lembre, resultou na explosão de um shopping com um casal de lésbicas, um pai que fornicou com a esposa do filho, um rapaz drogado e uma velha cadeirante rabugenta, além de transformar, mais tarde, um ferro velho verossímil cheio de gente sinistra em um bar temático colorido e simpático. Outra intervenção pesada transformou uma novela de época densa, mas com protagonistas mal escalados, A Padroeira, em uma comédia pastelão intragável... Norton Nascimento, que teve sua personagem eliminada abruptamente, guardou mágoa do caso até a morte e com razão... Eu não sei se o santo de Glória Perez é forte o suficiente para impedir que algo extremo seja feito com sua novela atual. Mas vamos ao texto, deve ficar uma bagunça.

Quinta-feira o capítulo de Salve Jorge pareceu sugerir uma virada e chegou a hora de comentar de verdade a novela. A família da protagonista – destaque para a talentosa Dira Paes – foi despejada, a vida dela na casa da sogra é um inferno e há a possibilidade de um salário “mágico” no exterior. Agora, a protagonista defendida pela excelente Nanda Costa caminha para o inferno, sem saber o que lhe aguarda. A Espanha sumiu da história que agora se divide entre Brasil e Turquia. Melhor assim. Fora isso, tivemos uma das cenas mais fortes da história até agora: Carolina Dieckmann obrigada a posar para o site pornográfico. Olha, foi uma cena muito, muito violenta, sem que ninguém apanhasse, sem que houvesse estupro stricto sensu, mas a interpretação da atriz – de quem particularmente não gosto – mostrou o quão violada a personagem se encontrava, o quão prisioneira e escravizada. Enquanto isso, outras mulheres, igualmente prisioneiras como ela, acuadas, assistiam absolutamente aterrorizadas aquilo que se propunha a ser um ensaio fotográfico erótico. Glória Perez, o elenco envolvido e a direção se esmeraram. A cena foi a melhor da novela até agora para mim.  O problema é que boa parte do tempo a novela é chata, ou, pelo menos, mal articulada.


Eu já fiz um post sobre Salve Jorge quando da polêmica sobre os mamilos desnudos (*amo essa palavra cafona*) da Carolina Dieckmann e respondi algumas perguntas no Formspring sobre a polêmica religiosa da novela (*e teve até pregação na Igreja contra a novela... coisa que eu nunca tinha visto... *MEDO*), não vou tocar na questão religiosa nesse texto, mas deixo os links das respostas (*1-2*). Não acho que o problema da novela seja seu conteúdo religioso, mas uma série de fatores, dentre eles o luto em relação à trama anterior, algo que foi apontado por uma pesquisadora da área de telenovelas em um dos textos da Folha de São Paulo de ontem. Segundo Maria Carmem Jacob de Souza, "O primeiro capítulo de 'Salve Jorge' não foi arrebatador, e a primeira semana, também não. Assim, fica difícil se apegar à novidade. Ainda está cedo para dizer que o público largou o barco. Está esperando melhorar, assistindo eventualmente". Eu que não entendo a fascinação por Avenida Brasil, acho muito curioso que a Globo tenha conseguido criar um fenômeno que prejudicou a própria sucessora do horário. Não assisti todos os capítulos, mas vi a maioria. Quando perco o capítulo, olho as cenas-chave no site da emissora. Vejo somente algumas cenas, porque, bem, um dos problemas de Salve Jorge é o excesso de gente inútil em cena.

“Com 84 personagens distribuídos em oito núcleos, novela é a mais populosa exibida pela TV Globo na faixa das nove nos últimos 12 anos.” (‘Salve Jorge’, o cabide de empregos de Gloria Perez. Revista Veja. ), Olha, eu também me surpreendi com esse elenco inchado. Faz tempo que circulam notícias de que a Globo está limitando a quantidade de atores e atrizes por trama, mas acabou liberando para que a Gloria Perez entupisse Salve Jorge de gente. 84 personagens é muita coisa, o pior é metade das personagens não tem muito que fazer e acaba atrapalhando a outra metade que poderia render. Há vários capítulos que eu fico murmurando “eu botava metade desse elenco em um avião/navio e me livrara deles!". Quer ver? Pepeu e Drica (*Mariana Rios é boa atriz, mas...*) o que é aquilo? Para quê eles servem? E o filho da Leda Nagle? Aquele moço nem pode ser chamado de ator... Caíque é reprise do Zeca (*Era esse o nome dele em Caminho das Índias, certo?*) e nada mais... Dalton Vigh, Nívea Maria, Stênio Garcia (*o que foi aquela plástica????*), Cristiana Oliveira, Lisandra Souto... Para que eles servem mesmo? Até as excelentes Nicette Bruno, Ana Beatriz Nogueira e Natália do Vale não tem muito o que fazer.


Se eu fosse a autora, ficava com o núcleo das traficadas, o Alemão, o Quartel, a turma da Capadócia, a polícia e o Mordomo. Houve quem se espantasse (*né, Diego?*), quando eu vibrei quando o Otaviano Costa – que acham que é ator, mas só é escalado para novelas em que a esposa, Flávia Alessandra atua – tomou um tiro no peito. Imaginei que Haroldo, sua personagem grudenta e chata, iria rodar. Qual nada! Nem era zona de ferimento do herói, isto é, perna, braço, corte no rosto, essas coisas, e o sujeito é personagem terciária e o cara sobreviveu! E, pior, ainda foi morar na casa da “namorada” a vilã interpretada por Cláudia Raia. Realmente, "malvada", ou não, fiquei com pena dela.  O sujeito é um mala... 

Os dois melhores núcleos, os que funcionam direitinho a meu ver, são os do Alemão e o do Quartel, o da Capadócia tem a função de ser exótico e só. Falando no quartel, eu trabalho no Colégio Militar, e vi o povo comentando o “realismo” da coisa. Tinha muito de zuação, óbvio, mas meu marido também achou convincente. Claro, que vai ter gente querendo se alistar com idéias muito distorcidas na cabeça, mas faz parte... Já o Alemão, bem, deveriam ter demorado mais na sua ocupação, o primeiro capítulo foi bem dinâmico, cinematográfico até, mas faltou trabalhar melhor o encontro de Théo e Morena, o início do romance. Tudo foi muito rápido e a atitude do galã em relação à tenente Érica foi bem leviana.  Ficou um pouco a impressão de que é tudo “fogo de palha” e fruto da imaturidade do galã. Sim, porque Morena tem míseros 18 anos, já Théo, para ser Capitão, precisa ter pelo menos uns trinta (*mais, até*). E quem se comporta como adolescente, é ele!  Há química entre os dois, mas a trama patina o tempo inteiro.


Adoro o Rodrigo Lombardi, o considero um excelente ator, o acho lindo e cheio de sex appeal, mas a personagem Théo é infantil e instável, além de filhinho da mamãe. E como chora? Chorar um pouquinho é charmoso, andar com os olhos vermelhos em todo santo capítulo... A música tema do moço, a grudenta “Esse Cara sou Eu”, berrada a todo instante por Roberto Carlos, casa bem, porque o moço é egocêntrico, e vive impondo coisas para a noiva e a mãe. A mãe do Théo é chatíssima, e tem parte no comportamento do filho, mas compreendo o lado dela, quando o sujeito chaga com noiva, mala, cuia e filho e diz que o menininho vai dormir no quarto da mãe dele... Pediu? Perguntou? A mesma coisa quando o surtado decidiu que queria casamento “de princesa”. Sei lá... Quando li que ele romperia com Morena, pensei que ela iria brigar com Maria Vanúbia (*Ah, esse nome...*) por causa do pai de seu filho. Só que a mocinha lutou com o cara em uma cena excelente, que mostrou todas as contradições da personagem-Morena e da hipocrisia do “em briga de marido e mulher...” que conduz a tantas mortes de mulheres, e o mocinho rompeu com a noiva por causa disso... Enfim, o homem mais interessante da novela é o Capitão Herculano.

No início, desgostei profundamente da Morena. Achei a moça excessivamente barraqueira, naquela linha que vem ganhando espaço em que se confunde mulher forte com marrenta. São coisas diferentes. No início, ela me lembrou muito a Clara de Barriga de Aluguel, a protagonista mais intragável de Glória Perez para mim... Mas o talento de Nanda Costa – que teria sido Gabriela, se eu pudesse escolher – se impôs. E percebi que fizeram alguns ajustes, também. por exemplo, a situação desagradável de ver a moça largar o filho para trás para ir ao baile funk não ficou mais tão evidente. Passa uma imagem de leviandade que não ajuda a sermos solidários com Morena. Agora, ela parece uma mãe bem mais zelosa e o menino é uma gracinha, e parece muito com o Rodrigo Lombardi.


A personagem também ficou menos estridente, ser forte, como já pontuei, não é ser marrenta ou barraqueira. Já li muita bobagem por aí, críticas à protagonista que me lembram as crueldades que fizeram com a Adriana Esteves na época de Renascer. Estão jogando a culpa da baixa audiência (*para os padrões globais*) na moça. Já vi comentários dizendo que é um absurdo colocar alguém como ela, com cara de pobre, para fazer par com Rodrigo Lombardi. Sugerem sempre mocinhas brancas, que elas seriam melhor par para um homem que é um dos mais desejados da TV. Sim, cheguei ao ponto: Nanda Costa tem cara de povão, de moça pobre, e convence como moradora da favela. E é uma protagonista não-branca, que parece “gente como a gente”. Isso expõe o racismo e o classismo que habita no fundo de muitas pessoas.

Aqui cabe destacar que eu raramente vi um elenco com tantos atores e atrizes negras, ou com características marcadamente nordestinas, ou que pareçam gente pobre. Que pareçam com gente que conheci em São João de Meriti, ou dando aula nos rincões de Duque de Caxias. Também dominaram bem o sotaque carioca que predomina em certos círculos mais pobres e que eu ouço com freqüência nos ônibus do subúrbio e lá entre os moradores da minha cidade natal. Porque há vários sotaques no Rio, várias formas de falar o “carioquês”, por assim dizer. Falando do Alemão, Roberta Rodrigues, Maria Vanúbia, não é bonita, mas está um furacão, convencendo bem como a gostosona da comunidade. Gosto da sua atuação. Bruna Marquezine também está muito bem como a periguete juvenil. Concordo que estão explorando demais o corpo da moça, que é menor de idade, mas ela está compondo bem a personagem. Em alguns momentos, isso tem função na história, mas é óbvio que o corpo de Mariana Rios, Roberta Rodrigues e Marquezine estão sendo usados como um atrativo a mais. Já a menina Karina Ferrari, que faz Samantha, irmã de Lurdinha, também está muito bem.


Eu não posso comentar todo mundo, mas acredito que a novela presta um serviço ao morro do Alemão, pois anuncia um novo ponto turístico. Minha crítica é quanto a ausência dos evangélicos, pois não há comunidade do Rio que não tenha uma ou muitas igrejas. É como se eles não existissem na comunidade. Estão cometendo o mesmo erro que foi feito em Tropa de Elite II. Igualzinho. E como comentei no Formspring, é um erro alienar esse segmento da população. Outro problema é a promoção do baile funk a patrimônio cultural maior do Rio de Janeiro. Há capítulos que temos dois bailes funks. E há a forçação de barra de levar até as mulheres de meia idade para “descer até o chão”, como se fosse a coisa mais comum e normal, como se o funk fosse sinônimo de favela, subúrbio, de cultura carioca. E a novela terá um CD só de funk. Aguardem! Mas, ao que parece, a promoção do funk é bandeira da Globo. O problema é que atrelado ao baile funk temos a objetificação das meninas e mulheres, transformadas em periguetes e cachorras. Sim, o funk é mais que isso, dizem, mas é preciso mostrar, o que está na TV só reforça os estereótipos mais rasteiros. Outra coisa que me incomoda no Alemão é a ausência dos jovens que vêem no estudo uma oportunidade de mudar de vida. Ninguém parece estudar, há as periguetes, os malandros, a Morena, o garoto da Voz do Morro, mas e o garoto ou garota que quer passar no vestibular? Ou seja, só parte da “realidade” está representada.

E as outras personagens? Domingos Montagner, com sua beleza rústica, é o homem mais interessante da novela, repito. Gosto dele e seu Zyah tem mais apelo que o Théo. Ele me parece mais verossímil, ainda que sua forma de se relacionar com as mulheres seja questionável. E a química com Cléo Pires – que destruiu seu belíssimo cabelo – foi imediata. Os dois combinam e devem dar um pouco de sabor para a trama. Não vejo muito futuro para eles como casal, mas são o par mais sensual da novela. Aliás, espero que a fofa Tânia Khalill (Ayla) não perca o cara mais interessante da história para outra de novo... Dos quase figurantes, amo o Mordomo ultra-preconceituoso de Odilon Wagner que parece fugido de Downton Abbey ou outro seriado inglês similar, e da escrivã com faro de detetive de Thammy Miranda. A filha de Gretchen aparece pouco, mas a personagem é tão figura que deveria ter mais cenas. Gosto de graça da delegada perua da Giovanna Antonelli. Só queria que ela desencanasse do ex-marido. Isso enfraquece mais a personagem que o fato dela morar em uma mansão com o salário da Polícia Civil no Rio... Aliás, se não disserem que ela é herdeira rica, era para a corregedoria correr atrás dela... Aliás, a delegada é a única além das crianças que aparece estudando, pois quer prestar concurso para a Polícia Federal.



Sei da paixão de Gloria Perez pela dança de salão, por conta disso, a gafieira, sempre com o nome de Estudantina, está outra vez em uma novela da autora. É preciso equilibrar melhor as coisas uma das falhas da novela é essa sensação de repetição. Há os ingredientes de sempre em uma massa que está demorando a dar liga. A escolha da Turquia – apesar de eu gostar de Istambul e da Capadócia (*e seus balões que servem de descanso de tela para a novela*) – parece ter sido uma escolha equivocada de “cultura exótica” da vez.  Remete diretamente a O Clone, e a presença de atores e atrizes daquela trama, e em papéis parecidos, só prejudica.  Amo o Antonio Calloni, mas seu Mustafá é muito parecido com o Mohamed. Muito, demais MESMO! E o exagero de véus e burqas de O Clone está em falta em Salve Jorge. Blusa transparente e shortinho trariam problemas mesmo para as turistas em Istambul. E falo de assédio mesmo.  Agora, é preciso marcar - e isso não foi tocado na novela - que a Turquia, com todas as suas contradições - é um país laico, onde se trava hoje uma batalha política atroz entre o executivo nas mãos de um partido religioso, que quer permitir, por exemplo, o uso do hijab em prédios do governo e instituições públicas de ensino, e vários setores, como as forças armadas, que desejam salvaguardar os valores defendidos na revolução feita por Kemal Atatürk.

E, por fim, o que me motivou a assistir a novela, a questão das traficadas. Primeira coisa, é tráfico demais. Quer dizer, deveriam focar somente no tráfico de mulheres. Já enfiaram tráfico de bebês – e para isso está lá a chatíssima Aisha – e se duvidar vão colocar tráfico de órgãos. Aquele rolo com os bebês soou muito falso, como se ainda fosse muito fácil chegar na Vara de Infância ou o órgão competente e fazer aquele tipo de transação de adoção sem respeitar a fila ou apelar para a corrupção. (*Falsa*) Adoção consensual não é coisa tão fácil hoje em dia, mas poderia explicar Aisha sem problemas. Cláudia Raia está bem como a vilã sem escrúpulos ou coração, assim como se saem muito bem os comparsas Wanda (Totia Meirelles) e Russo (Adriano Garib) convincente, mesmo com o gatinho no colo. Já Vera Fischer fala como se tivesse um ovo na boca... Melhorou nos últimos dois ou três capítulos, mas era botox demais no rosto...


Agora, a moderação da violência em relação às traficadas, o corte da cena de estupro, enfraquece a história. Veja bem, existe várias formas de mostrar uma cena violenta como um estupro. A Lola comentou sobre isso em relação à série Suburbia (*que eu não estou assistindo*). Só que o estupro de Jéssica não estava sendo anunciado como fetiche, mas como um momento que transmitisse toda a miséria da situação da moça e de tantas outras mulheres traficadas. A Globo recuou e colocou no ar uma cena que nada disse, que foi menos angustiante que a surra que Berto deu na esposa em Gabriela, cujos gritos me deixaram angustiada. A desconfiança em relação à Morena e a crise de audiência fizeram com que a vida da personagem de Dieckmann fosse poupada... Olha, isso é mau sinal!  Hoje, passando pela banca, vi estampado em uma revista que Morena iria resistir e seria estuprada pelos capangas (*gang rape*) de Lívia a mando de Russo. Essa é uma prática comum, assim como viciar a escrava em cocaína, heroína ou outra droga, para que ela se torne ainda mais dependente e dócil. Não acho que esse tipo de miséria entrará na novela, acredito mais que eles vão amenizar e colocar a perder a parte realmente importante de Salve Jorge.  Aliás, só uma vez até agora, pelo menos que eu tenha visto, foi mostrada uma dessas moças com cliente, a personagem de Paloma Berardi, que agora passou para o lado dos traficantes para se proteger de danos maiores, sendo entregue em uma casa como "prostituta delivery".  Isso foi mostrado no filme Lylia4Ever, que trata também da questão do tráfico de mulheres.  As mulheres traficadas de Salve Jorge passam mais tempo trancafiadas do que "trabalhando", por assim dizer.

Enfim, se for para surtar de vez com a trama, queria que se montasse um grupo de comandos com o Capitão Herculano-Zyah, o Théo, o Élcio (*versão masculina da Berenice de Lado a Lado*) de traíra, o neto do Sílvio Santos meio de Sancho Pança, a Thamy poderosa e armada, e talvez uma das tenentes para cuidar dos cavalinhos, o policial chatinho poderia ir para morrer, afinal, alguém tem que usar camisa vermelha nessas histórias (*Jornada nas Estrelas feelings*). Todo mundo cavalgando pelas paisagens fantásticas da Capadócia atrás dos bandidos. Lívia capaz de tudo e o Russo com o gatinho á tiracolo. E poderiam deixar a delegada e o coronel bigodudo monitorando, já que seria difícil levar o Coronel Nascimento no grupo. O patrocínio viria do Mustafá-Mohamed, claro!


Obviamente, nada disso vai acontecer... E eu fico imaginando como se dará o resgate de Morena... Enfim... Acho que sete meses é tempo demais para uma novela como Salve Jorge, ela me parece desarrumada demais e, ao mesmo tempo, amarrada em excesso, já que abriu com uma cena de “sete meses no futuro” com o leilão de Morena. Como apagar tudo isso caso a novela seja redirecionada? Eu realmente queria que Glória Perez arrumasse a casa sem que fosse feita uma desastrosa intervenção, mas periga isso não acontecer...

De resto, sobrou comentar um pouquinho a forma como as mulheres são representadas na trama. Bem, a maioria do elenco feminino é fútil, sem objetivos suficientemente convincentes, quando não são dondocas ou peruas, caso de Cristiana Oliveira, Lisandra Souto, Nicette Bruno, Ana Beatriz Nogueira, Natália do Vale e Nívea Maria.  Todas vivendo de renda ou da falta de... Algumas delas girando absolutamente em torno de maridos inexpressivos.  Existe o drama da personagem de Letícia Spiller, que deseja trabalhar e tem um marido ciumento... Só que é esse mesmo marido - Caco Ciocler desperdiçado - que pode salvá-la das vilãs que a estão enganando... Há as mulheres trabalhadoras, claro!  Há as pobres (*Morena, sua mãe, entre outras*) e as ricas (*Deborah*), mas mesmo a delegada parece ser assujeitada pelos problemas do coração. Espero que salvem a personagem, que ela ganhe uma função real na trama com o caso das traficadas, mas não sei, não... Fora isso, reforça-se a idéia de que ser periguete é uma forma de empoderamento, e que quanto mais curta, decotada e apertada é a roupa da moça, mais força a personagem tem. Trata-se de uma mensagem perigosa, dada a repetição nas últimas tramas globais de periguetes simpáticas e muito carismáticas. 



Já as moças traficadas são fragilizadas, além de bobinhas. Ponto positivo é que não se faz apologia à prostituição em nenhum momento, ou se fetichiza a situação infernal vivida pelas moças.  O pior é ler que muitas mulheres realmente caem no papo dos altos salários em dólar para trabalhar como garçonetes no exterior... Tsc… Tsc…  Nesse quesito, Glória Perez pontua alto comigo. Não acredito que Salve Jorge vai incentivar meninas de 13 anos a dizerem que "é bom ser prostituta, né professora? Elas são bonitas, elas se vestem bem...". Ouvi isso de uma aluna quando dava aula em Duque de Caxias, graças à Capitu de Manoel Carlos.   O pior é que meu coração gelou, porque  se tal coisa acontecesse, se ela seguisse essa caminho, certamente não se tornaria a idealizada garota de programa, mas a prostituta da Rodovia Washington Luís.  Já as moças turcas, ainda que com uma profissão, só querem casar... Outra que periga se perder é a tenente.  Aliás, já começou perdida, porque apesar de competente veterinária, já no primeiro episódio não sabia dizer o que queria, ou melhor, só queria o Théo... Abandonada, ela manteve sua boa índole e caráter, mas, ao que parece, alguém cismou de transformá-la em mulher vingativa... E olha que pela primeira vez eu vejo uma atriz de verdade em Flávia Alessandra... Uma pena mesmo!  A personagem feminina mais assertiva talvez seja a Bianca de Cléo Pires, que é sexualmente livre, profissional de sucesso, independente.  Só que ser desencanada nos relacionamentos, não a faz mais madura que a média ou uma dondoca menos leviana. Não que eu tenha pena do mala do Estênio...

Enfim, Salve Jorge tem todos os ingredientes das novelas de Glória Perez, o pior e o melhor deles, mas não deu liga ainda. Infelizmente, pode nem ter tempo para se acertar. Espero pelo menos que, entre mortos e feridos, alguma coisa se salve dessa novela... Sem trocadilhos aqui. E falando muito, muito sério, agora: o tema do tráfico de mulheres já dá um nó no estômago se tratado em duas horas de filme ou documentário.  Imagine em sete meses.  É preciso muito talento e imaginação para segurar essa história sem banalizar, imbecilizar, ou afastar o telespectador.  O tema do tráfico de crianças seria mais fácil de levar e se pontuado com o tráfico humano a coisa poderia ir adiante com segurança.  Eu realmente acredito que a escolha foi equivocada.

P.S.: Ontem começaram a inserir depoimentos dentro do capítulo da novela. Do nada, entrou um senhor com aparência bem humilde falando da filha que foi enganada com promessa de trabalho e traficada para a Espanha. Trata-se de uma estratégia para ganhar o telespectador. Vamos ver se funciona.

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7 pessoas comentaram:

Gostei muito do texto! Concordo contigo, Valéria, "Salve Jorge" tem gente demais. Poderiam colocar meio elenco num avião que explodiria! Fik a dik! XD Acho que todo o núcleo do Estênio Garcia (que parece um chinês de tão repuxado) e da Nicete Bruno nada acrescentam na trama. Gosto da Morena, mas tenho sérias críticas à Érica, que vive pra e tão somente amar Théo. Sem contar a delegada, que eu esperava uma Olivia Benson e ela é uma perua desequilibradinha.

Sobre religião, faltam os evangélicos e os umbandistas também. Dia de São Jorge e apareceu só a festa católica? Todos nós sabemos que a implicância de alguns evangélicos com "Salve Jorge" não é em relação ao santo na igreja católica, mas com as religiões de matriz africana (que despertam ódio mortal em algumas pessoas, sabe-se lá o porquê). No fim, TUDO fica fake. Parece que evangélicos não existem no Rio e nem umbandistas fiés ao santo guerreiro...

Tabby, você me deu o toque, escrevi, escrevi e deixei de comentar. A festa de São Jorge sem a presença dos umbandistas foi terrível... Censura pesada...

Quanto à delegada, ainda tenho esperança... E faltou linkar o seu texto, também. ^___^

Valéria querida, ótima análise! Mesmo pra quem não viu um só capítulo de Salve Jorge, meu caso... Não sabia que a novela estava indo mal, ou que tinha tudo isso de personagem. Ah, posso fazer uma pequena correção? Tira o Y do "sexy appeal".
E vc sabe onde tem a cena do estupro da Carolina Dieckman? Foi muito falada, e eu não vi.
Abração, vou tuitar seu texto.

Lola, obrigada por ter comentado. Olha só, a tal cena não foi ao ar. O que exibiram foi algo mutilado, gritos distantes... Ficou parecendo a tal história do beijo gay para atrair audiência... Que existe a cena, existe, mas só vai aparecer se alguém ou a emissora soltarem na internet.

Taí uma crítica que eu gostei sobre os capítulos da novela Salve Jorge. Mesmo não acompanhando a novela, achei justo e concordei em vários pontos (os quais pude fazer a relação), exceto com a do mocinho ser um grande ator (não me compra aquela mesma cara de sempre). Acho que a Nanda Costa está mandando muito bem, se diferenciando não só no biotipo, mas também na atuação que não me parece formatada, padronizada, mesmo em uma novela das oito, mesmo em uma novela da Glória Perez (não costumo gostar das tramas dela, da mesma forma que não me apego às do Manel Carlos). Amo a Dira Paes e vê-la em novelas sempre parece um alívio.

Não acompanho a novela, mas vou aproveitar pra comentar uma cena que me chamou atenção - aquela briguinha entre os protagonistas em que o Lombardi sacudia a tal Morena pelo braço.

Achei péssimo. Não é como se eu nunca tivesse ficado brava com alguém - às vezes a gente perde as estribeiras, é gross@, fala mais alto, entendo isso. Todo mundo pode se zangar, ainda mais quando o assunto é romance, e -imagino eu- ainda mais se rasgam um cheque e jogam na nossa cara como a moça fez.

Agora, um cara pegar uma mulher pelo braço e gritar "Não me desafia!"? Soaram todos os alarmes possíveis na minha cabeça.

Mesmo considerando que a garota foi abusada, achei desproporcional. Não, minto, o que achei foi muito suspeito. Que o cara ficasse bravo, eu engolia, mas o negócio de pegar no braço e exigir respeito foi simbólico demais pra mim. Liguei imediatamente com outras cenas de violência contra mulheres.

Por outro lado, talvez tenha sido uma parte importante justamente pra ressaltar a postura da Morena, que não deixou barato - chamou um segurança assim que o namorado encostou nela. Por esse ângulo, dá pra dizer que eu é que fiz a leitura errada... O que não é nada improvável considerando que, como eu disse, não assisto a trama e não sei do que se tratava a briga.

De quaquer jeito, peguei uma antipatia forte pelo tal mocinho gente boa que sacode mulheres quando se zanga.

Ana, a música "Esse cara sou Eu" diz muito sobre a personagem e não são coisas boas. Como eu pontuei, trata-se de um sujeito infantil e egocêntrico. Mas Morena é uma personagem interessante e bem mais humana que a média. A questão é o quanto o sujeito vai amadurecer e, claro, Morena vai ser traficada...

Mas sua impressão não está errada, o sujeito vai de extremos de gentileza à explosões como aquela... é instável.

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