segunda-feira, 15 de abril de 2013

Comentando Marie-Antoinette, la véritable histoire (2006, França)



Não conhecia o docudrama francês Marie-Antoinette, la véritable histoire (2006), tropecei nele por acaso ontem no Youtube quando estava assistindo um vídeo com Maria Antonieta interpretada por Michèle Morgan.  Havia um link para o filme completo e legendado em português.  Baixei e assisti no início da tarde de domingo.  As legendas eram em português de Portugal, mas demorei a perceber este detalhe, estava tão parecido com o nosso português que fiquei até surpresa.  O docudrama se diz baseado em documentos de época, aí o título trazer “véritable”, mas deixou muito a desejar em alguns momentos.  Comparando com os docudramas ingleses, me pareceu bem inferior. Preciso ver mais produções francesas do tipo para poder formar opinião.

O filme começa com a morte de Antonieta, sua última carta.  A rainha é interpretada pela atriz canadense Karine Vanasse.  A atriz consegue ser uma boa Antonieta jovem, mas a maquiagem não trabalhou bem nos últimos dias de vida da Rainha. Por exemplo, todas as fontes sobre Antonieta dizem que a tensão fez com que seus cabelos ficassem totalmente brancos quase que repentinamente, fenômeno explicado pelos traumas sucessivos aos quais foi submetida.  No filme, ela termina loura, sem traços perceptíveis de branco e sua cabeleira.  Sempre é um problema quando não mudam os atores o longo de filmes que cobrem períodos de tempo tão grandes, mas isso virou regra hoje em dia.


Não há Rosalie, a carcereira em seus últimos dias, e cujas memórias são amplamente conhecidas, e a cela na Conciergerie me pareceu muito grande, espaçosa demais, tomando por base as biografias que li sobre a Rainha, especialmente a escrita por Antonia Fraser.  Também não temos a última tentativa de resgate de Antonieta promovida pelo General de Jarjayes (*sim, sim, o pai de Lady Oscar*), não há menção.  E Fersen desaparece da história depois da Fuga para Varennes.  Aliás, na melhor parte do filme, a primeira, as escapadas noturnas da Rainha são mostradas; Fersen aparece bastante e é pintado como um reacionário, mas não se mostra o primeiro encontro dos dois no baile de máscaras.  Ponto positivo é não terem vendido o sueco como amante da Rainha.  O filme optou por dizer que há dúvidas, mas que é certo que nada de sexual houve entre os dois nos primeiros anos.

Olivier Aubin, mesmo não sendo lá muito parecido com Luís XVI, interpretou bem o soberano,  que era inteligente, culto, mas limitado como rei e muito tímido.  Foi um dos melhores Luís XVI que já vi em tela, talvez, o melhor.  Sem caricatura, sem deboche, sem excessivo respeito.  O drama do casamento consumado somente depois de sete anos, esteve bem caracterizado, ainda que a reação do Rei no primeiro parto de Antonieta tenha sido problemática a meu ver.  Tirando por tudo que eu li a respeito, Luís XVI foi atencioso e não mostrou sua decepção (*caso tenha existido*) publicamente por Maria Antonieta ter dado a luz a uma filha.  Fora, claro, a preocupação com a saúde da Rainha, daí a proibição feita por ele de que o parto fosse assistido por toda a corte.  O fato é que Antonieta quase morreu no primeiro parto e o filme passa quase batido pela questão.


Uma falha séria a meu ver foi em não mostrar de forma mais clara os irmãos do Rei.  O interesse dos Condes de Provence e Artois pelo trono é deixado evidente, mas para por aí.  Artois, especialmente, não foi relacionado no docudrama ao estilo de vida desregrado da Rainha, quando ele era peça-chave nos excessos do Petit Triannon, odiado pelo povo, instigador de revoltas e, claro, um dos primeiros a fugir do reino.  Mesmo que o foco não fosse neles, isso precisava ser evidenciado.  Outra coisa, é que em nenhum momento se mostra o quanto toda a nobreza gastava,  a Rainha não era a única a gastar loucamente às vésperas da Revolução.

A melhor parte do filme é exatamente a que mostra o drama do início do casamento de Antonieta, o fato de ser sufocada pela etiqueta, assim como pelo espartilho.  Aliás, falando nisso, pergunto-me se não explicaram a história do espartilho – Antonieta se recusava a adotar o espartilho usado na corte francesa e só o fez obrigada pela mãe – por ser muito conhecida dos franceses... Sei lá... A rede de fofocas, os panfletos (*muitos foram mostrados no filme*), as folias no Petit Triannon, o Hameau, Leonardo (*o cabeleireiro ) e Madame Bertin, tudo ficou muito bem caracterizado.  Até o Affair do Colar foi muito bem apresentado.  A incapacidade de Antonieta em perceber que não se tratava de uma simples revolta, mas algo muito maior, sua súplica para que o rei fuja, foram pontos altos da interpretação Karine Vanasse.  O filme falhou em explicar os motivos pelos quais Antonieta passou a integrar o conselho de Estado: a depressão do Rei.  Fica parecendo que ela forçou essa situação, quando foi alijada de participar da política stricto sensu até poucos meses antes da Revolução.   


De resto, não foram muito justos com a Du Barry, que ficou velando o Rei Luís XV até que os padres e as filhas do soberano a expulsaram.  Aliás, ela não ficou em Versalhes pós-morte do Rei como o filme mostra.  Outra grande falha foi omitirem Madame Elizabeth, a irmã solteira de Luís XVI.  Ela está presente nos últimos dias da família real, está na fuga para Varennes, acompanha a princesa Maria Teresa no Templo (*prisão que não é citada pelo nome uma única vez*) até que ela mesma vai para a guilhotina.  Ela não é mostrada uma única vez, só há referência a ela quando da última carta de Antonieta, afinal, Elizabeth era a destinatária.  A Princesa de Lamballe também não é mencionada e isso é uma grande  omissão.  E não mostram Maria Antonieta tendo o filho arrancado de si, é como se o menino ficasse com a irmã quando a mãe foi presa.  A questão do incesto, a mais torpe das acusações no tribunal, não é explicada como o caso do espartilho, mas foi fruto de depoimento supostamente tirado do menino.

É isso, não se trata de um grande filme, mas tem seus momentos.  Eu talvez esteja sendo exigente demais, mas o fato é que algumas omissões me incomodaram muito. Docudrama é misto de ficção e documentário, como ficção é razoável, já como documentário... Como está no Youtube, dá para assistir sem problema. E acabei percebendo que agora tenho a mesma idade na qual Antonieta morreu, 37 anos.

GOSTOU?

1 pessoas comentaram:

Acabei de voltar de Paris, onde passei 10 dias. Visitei a Conciergerie e a cela onde ficou Maria Antonieta.

Tenho muito interesse em conhecer melhor a história dela e da França em geral, então gostaria de saber se você pode me recomendar bons livros sobre o assunto, e até qual seria o melhor seriado/filme/documentário sobre Maria Antonieta na sua opinião.

Obrigada! :)

Related Posts with Thumbnails