quinta-feira, 18 de abril de 2013

Comentando Shibou to Iu Na no Fuku wo Kite



Esta resenha foi escrita para a revista Neo Tokyo alguns anos atrás.  Chequei para ver se já tinha publicado aqui no blog, vi que, não, fiz uma revisão e estou publicando no Shoujo Café.  Shibou to Iu Na no Fuku wo Kite  (脂肪と言う名の服を着て) é um mangá em um volume publicado por Moyoco Anno, em 2007, na revista josei Giga.  Trata-se de uma história pesada, cruel, que trata de um assunto hoje em evidência, a gordofobia ou lipofobia, isto é, o medo, aversão ou preconceito contra pessoas gordas.  Mais uma vez, as japonesas se mostram antenadas com questões que angustiam e oprimem especialmente as mulheres, mesmo antes de o assunto entrar na moda.  Mas vamos ao resumo da história:

Hoje em dia a magreza é vendida como sinônimo de beleza e status.  Modelos magérrimas servem de ideal a ser seguido por todas aquelas que desejam ser admiradas e os distúrbios alimentares – bulimia e anorexia – são o preço pago por mulheres cada vez mais jovens.  Essa é a experiência de Noko Hanazawa, uma jovem office lady, obcecada por comida, obesa e com baixa auto-estima.  Sofrendo bullying no trabalho e humilhada pelo namorado, ela decide que a única saída é emagrecer.  Mas será que esta seria a chave da sua felicidade?


“Este não é o meu Corpo” (Questo non è il mio Corpo) é o nome que os italianos deram ao mangá que tem um título difícil de traduzir.  Eu li o volume em italiano, porque, bem, ele não foi licenciado nos EUA e nunca será aqui no Brasil.  Shibou to Iu Na no Fuku wo Kite  poderia ser traduzido como “vestida em uma roupa chamada gordura”.  Imagino que da mesma forma que soa mal em português, a coisa ficaria esquisita em italiano.  Então, a escolha do título foi precisa, a protagonista, se sente em um corpo que não é seu.  Prisioneira do seu excesso de peso.

Neste mangá curto, Moyoco Anno, então uma jovem mangá-ka, não tem medo de tocar em temas dolorosos e de explorar uma questão que ainda não estava em evidência, os distúrbios alimentares.  Da mesma forma que a AIDS chamou cedo a atenção das mangá-kas, a ditadura da beleza e seus efeitos não ficaram fora da agenda das autoras de shoujo e josei.  A própria mestra de Moyoco Anno, a aclamada Kyouko Okazaki, tratou de forma ácida da história de uma modelo viciada em cirurgias estéticas em seu mangá Helter Skelter  (ヘルタースケルター).  A assistente aprendeu bem a lição.

Anno mostra em seu mangá a repulsa que a sociedade contemporânea tem pela obesidade e a marginalização que as pessoas que estão acima do peso, especialmente as mulheres, sofrem.  No trabalho, Noko é assediada pelos colegas, é o saco de pancadas de todos, especialmente de outra office lady, Mayumi.  Esta colega é bonita, passa segurança, mas é doentia nos seus relacionamentos sociais, sentindo prazer gratuito em atormentar pessoas obesas, ou de atormentar pessoas em geral, pois é uma praticante de bullying no local de trabalho.  Incapaz de reagir, de ser forte e assertiva, Noko é uma vítima em potencial.  

Nas suas relações amorosas, Noko também não é feliz.  Saito, seu namorado de oito anos, ao mesmo tempo em que afirma gostar dela por ser gorda, a acusa de pensar somente em comer.  Esses sinais contraditórios servem para manter a moça em situação de tensão constante, o que aumenta a sua compulsão por comida.  Mas aqui é preciso abrir um espaço, Moyoco Anno não é maniqueísta e, embora Saito não seja perdoável, ele tem seus motivos para ser como é.  Solteiro, mora com uma mãe autoritária que controla sua vida e o chantageia.  E como ele não tem coragem de reagir, é Noko quem vai receber a carga de suas frustrações.  Para piorar, ele ainda inicia um caso com Mayumi, que o humilha sempre.  O objetivo dele, eu não sei, mas o de Mayumi é claro: ferir “a gorda”.   

Se o foco principal é o drama de uma obesa-bulímica-anoréxia, fala-se também das relações no ambiente de trabalho.  Este é um tema que Moyoco Anno gosta de explorar e que é o centro do seu maior sucesso comercial até hoje, Hataraki-Man (働きマン).  A competição, as hierarquias, a marginalização de certos funcionários, tudo isso está presente na históri.  Quando Noko é acusada injustamente de ter errado um orçamento, ela é transferida para o “subterrâneo”, onde estão os indesejáveis: o otaku, o maledicente, o feio, a gorda.  E os marginalizados são igualmente cruéis, a auto-estima de Noko cai ainda mais. Em 1996/97, demitir funcionários não era tão comum no Japão e o tal porão pode ser somente uma piada, ou um exagero de uma situação real.  A única aliada de Noko é Tabata, uma mulher competente, mas magrela, feia e de óculos.  Ela se dipõe a ajudá-la a fazer justiça.  Ou será que ela simplesmente inveja Mayumi e quer destruí-la?  Cabe aos leitores decidir se Tabata é agente da justiça ou da vingança, se realmente simpatiza com Noko ou quer usá-la para derrubar Mayumi – uma versão adulta da Sae de Peach Girl  ( ピーチガール) – e provocar não somente a sua demissão, mas a sua prisão.

A vida de Noko passa por vários reveses, mas é depois de uma dos “abandonos” de Saito que ela encontra uma fada madrinha às avessas.  Deprimida, ela recorre a um serviço de encontros e acaba passando uma noite com um velho.  Fujimoto é um homem rico, conhecedor de mulheres.  Ele não despreza Noko por ser gorda, mas não é um relacionamento saudável.  Como ela diz que seu grande desejo é emagrecer, ao acordar pela manhã, o velho se foi, mas deixou dinheiro suficiente para que ela possa pagar um tratamento estético. Noko quer emagrecer, para ela é a chave para a resolução de todos os seus problemas, mas o tempo passa e ela não consegue.  Reclusa no “subterrâneo”, abandonada pelo namorado, ela não tem outro consolo a não ser comer, comer, comer... Mas isso colocaria a perder todo o tratamento.  Saída?  Vomitar.  A responsável pelo centro estético se preocupa, tenta ajudá-la, mas ela está conseguindo o objetivo.  Perdeu 10 quilos em poucas semanas!  E continuou emagrecendo, emagrecendo...   Só que, na realidade, a questão não é emagrecer, mas se amar.  E Noko se vê diante disso quando, no banheiro, ouve a conversa de duas mulheres, gordas e feias, na sua opinião, mas que parecem felizes.  Mais tarde, ela descobre que o ex-namorado está noivo e (surpresa) a moça é outra gordinha que aceita que ele a humilhe e se sinta superior.


Shibou to Iu Na no Fuku wo Kite tem quinze capítulos ao todo.  Não é uma obra que vá te deixar contente ao terminar a leitura, mas ela faz pensar, ela comove.  Já foi republicada pela Shodensha duas vezes no Japão, em 2002 em formato kanzenban e este ano (2009), como parte das comemorações dos 20 anos de carreira de autora.  Não sei se esta foi a primeira obra a tocar no assunto, mas deve ser uma das mais contundentes.  Foi publicada na Itália e esta é a edição que eu tenho aqui em casa.  

Este volume ficaria bem em uma edição para livraria, com uma introdução feita por um/a especialista em distúrbios alimentares.  Mas não é material para qualquer público, o traço pode ser considerado desleixado por alguns, e é material adulto mesmo, com nudez e sexo, inclusive, mas centrada no drama psicológico.  Se puder dar uma olhada neste mangá, não perca a chance.  Vale a pena!  E há scanlations em inglês.  O volume também foi publicado na França com o nome de “In the clothes named fat”.

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