terça-feira, 28 de maio de 2013

Sobre diversidade ou o incomodo que a palavra "Lésbico" em um título pode trazer



Recebi dois comentários, mais do que a média que recebo na maioria dos posts, no post sobre o filme vencedor em CannesLe bleu est une couleur chaude ou La Vie d'Adèle, reclamando que colocar "filme lésbico" é panfletário.  Poderia colocar "filme de amor entre duas mulheres" e criar um título quilométrico, poderia colocar "filme de amor" e omitir a questão. poderia, também, ao longo do texto, omitir que a autoria do original é feminina, afinal, ninguém enfatiza muito quando o autor é homem. Que tal?  Foi pontuado, inclusive, que ninguém enfatiza quando um filme é sobre um casal hetero... Pobres casais heteros, tão esquecidos... 

Deixa eu explicar uma coisa, para quem não entendeu que quem escreve este blog aqui (*há quem acredite que é uma obra coletiva*) é uma feminista que acredita no direito de visibilidade das minorias, uma pessoa que tem certeza de que os problemas - machismo, racismo, homofobia, classismo, etc. - não desaparecem se fingirmos que eles não existem, ou pararmos de falar deles.  Quem leu meus textos sobre Salve Jorge e Tropa de Elite II sabe que reclamei da discriminação que é omitir a existência dos evangélicos ao se falar de Rio de Janeiro.  Mas por que será que escrever "Lésbico" é que incomoda tanto?

Sabe o motivo pelo qual NINGUÉM fala filme HETERO, porque 99%, ou mais, dos filmes são sobre romances heterossexuais.  É a norma, é a orientação sexual assumida pela maioria.  O mesmo vale para filmes de ação (*ou ou praticamente todos os filmes*): a maioria são protagonizados por homens, são dirigidos por homens, são feitos pensando nos homens.  Dar destaque á diferença não é discriminar, é destacar algo que, para as minorias é relevante: "Olha, nós existimos!"Curioso como escrever que um filme lésbico ou gay parece incomodar tanto.  Parem para refletir sobre visibilidade e sobre homofobia, só um tiquinho.


Se incomoda, eu entendo o motivo e não pensem que estou reduzindo ao pessoal, estou considerando que tod@s nós fazemos parte de uma sociedade que é muito maior do que a gente. Vivemos tão massacrados pelo senso comum, e bombardeados por uma propaganda criminosa de que estamos em uma campanha contra a ditadura gay, que há quem se alarme e incomode com muito pouco. Vivemos em uma sociedade na qual o direito à diferença e a diversidade são vistos como algo que ameaça, especialmente quando parece que entramos em uma guerra por privilégios na qual quem SEMPRE ocupou todos os espaços interessantes acha que ceder dois milímetros é o fim do mundo, a destruição do seu "way of life", ou até da própria Civilização Ocidental como a conhecemos (*medo*).  

Se ser panfletário é deixar claro em palavras e em atos o que se está querendo dizer, aceito o rótulo, ainda que quem tenha trazido a palavra atribua a ela sentidos negativos. Aliás, algo que mais se falou no domingo e ontem é que, sim, a escolha do filme, de um filme sobre um romance lésbico, foi uma escolha política.  A tensão sobre o casamento civil gay na França é presente e, bem, há gente que quer falar sobre isso.  Talvez, quando o filme chegue por aqui,no Brasil, país no qual um beijo gay na novela das nove é tabu, a palavra "lésbico" ou "lesbiano" ou "homossexual" esteja ausente das sinopses para tornar o título mais vendável, mais aceitável a certos grupos.  Muito possivelmente, irão enfatizar as cenas quentes entre duas mulheres lindas, como chamariz para as fantasias masculinas.  Enfim, mas eu, aqui, no Shoujo Café, não me importo.  O título ficará do jeito que está.

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7 pessoas comentaram:

Acho que a maioria das pessoas não gosta de falar de certos temas porque se sentam constragidas só de pensar neles.

Antes também me sentia assim, como se só pronunciar estivesse a cometer os piores dos pecados; mas depois conheci um rapaz que era homossexual e toda a minha percepção sobre isto mudou radicamente. Talvez porque ele me respeitava e nunca tentou tocar-me (como costumam fazer os rapazes 'normais' - e isso é que me deixa constragida) e porque era um bom amigo e que por ser tão especial é que me demostrou que não interessa qual a nossa preferencia sexual, porque não é por isso que Deus nos julgará. Afinal, o amor é sempre o mesmo, mesmo entre duas pessoas do mesmo sexo. Ou é assim que eu penso.

Ainda chegará o dia em que as pessoas deixaram de dizer que é antinatural, que irão para o inferno (existe um inferno pior que este planeta em que nem as crianças estão a salvo daqueles que supostamente existem para as amar e proteger? cofcofparentescofcof) por causa disso e dirão que é um amor como qualquer outro.

(Ou talvez seja uma tola cheia d esperança. x_x)

Adoro o teu blog. É dos mais originais que existem na blogosfera. ;)

Beijokas

Realmente lamentável a situação,só discordo dessa lei,não precisa de lei A ou B ,cada um tem seu direito,n~~ao precisa de lei alguma,precisam de leis para casarem heteros? porque para casais homossexuais teria que ter eles tem sua opção sedxual como todo ser vivo ,acho desnecessário leis...

realmente lamentável esse tipo de pessoa,se eu falar que não acredito em deus vão me apedrejar ? provavelmente,o brasil (outros paises também) se direciona a um país sem liberdade de opinião e opção sexual,tenso isso.....

Pensei bem antes de escrever desta vez, coisa que não fiz no comentário anterior, e por isso passei uma idéia errada. Por isso, peço desculpas.
Meu incômodo com a classificação do filme como "lésbico", tem a ver com um receio meu de que o filme poderia ser visto como pertencente a um nicho específico e não voltado ao público em geral, fadado a ser exibido apenas em festivais como o Mix Brasil.
Mas refletindo sobre o que você escreveu, vejo que a classificação procede e é importante, até porque dá voz e visibilidade a um grupo que, infelizmente, não costuma ter espaço na grande mídia. Tão importante que, como você pontuou, talvez tenha sido premiado justamente por ser "lésbico".
A luta contra a homofobia realmente não pode ser feita com meias palavras e usar as palavras escolhidas por um grupo é uma forma de dar poder a quem se reúne em torno dessa classificação, como fizeram os homossexuais ao se apoderar com orgulho da palavra "gay".
Valéria, fico feliz em ver que você não se esquiva das perguntas, e muito menos das respostas. Entendi perfeitamente suas colocações e concordo com elas.
Agradeço a explicação e novamente peço desculpas, pois não fiz a pergunta no sentido de polemizar.

Junichi, realmente, não entendi o que você quis dizer, mas vou escrever algumas coisas, espero que sirva:

1. O post não é sobre casamento igualitário, nem sobre o PL122.
2. Existe lei que regula o casamento, por exemplo, o Estado não casa irmãos, nem pais e filhos, é preciso ter uma idade mínima para casamento e por aí vai.
3. Amar, desejar, é algo que não é regulado por lei; mas casamento, que é um contrato civil entre iguais, sim.
4. Leis são importantes, garantem direitos, protegem as pessoas, servem de precedente. E cito um causo: a constituição de 1891 não falava nada sobre o voto feminino. Nem proibia, nem permitia, simplesmente, ignorava as mulheres. No entanto, enquanto não se criou uma lei federal definindo o voto feminino nenhuma mulher conseguiu votar ou ter seu voto reconhecido.
5. é preciso tipificar na lei a homofobia – crime de ódio contra GBLTs – e é preciso regular o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Só assim, eles e elas terão seus direitos garantidos.

Isto me lembrou de uma reflexão estes dias sobre notícias como "homem acusado de matar gay..." Sim, mau exemplo, mas, além de a notícia, deste modo, ser polêmica o suficiente para atrair mais atenção, tem o fato do motivo. O motivo real para o assassinato pode ter sido homofobia, mas pode ter sido o acaso de o homem roubar de um homossexual e acabar o matando. Bem como um filme que tenha um romance lésbico pode ser sobre romance lésbico mesmo, ou apenas, "coincidentemente", como escolha do autor', ter romance lésbico. Daqui a algum tempo, eu espero, escolher se os protagonistas serão homossexuais ou heterossexuais será uma escolha qualquer. Afinal, sim, enquanto os gays forem considerados uma minoria, é normal que se destaque o fato de um romance ser lésbico, por exemplo. Mas ainda acho curioso se, pensando em um futuro em que não tenha esta dinstinção socialmente preconceituosa entre homos e heteros, teríamos notícias que realçassem a opção sexual da pessoa, mesmo que o motivo do crime não seja em relação a isto.

O fato de destacar a homossexualidade em certo lugar tanto promove o assunto em questão - seja filme, notícia, etc. - quanto o discute, colocando um tipo de pauta para a sociedade. Estou afirmando tudo isto sem considerar o fato de haver "cinema lésbico" ou "cinema com temáticas homossexuais". Até porque não sei direito do que se trata o filme. De qualquer forma, como a desigualdade ainda é um termo muito recorrente, não dá para esquecê-lo de imediato nem ao menos quando tivermos todos direitos iguais, quem dirá no nosso mundo em desenvolvimento.

Sinceramente Valeria esse tipo de reclamação quanto a colocar a palavra "lésbico" em um título, acusando de de panfletário, e usando do argumento de ninguém assinala um filme com o rótulo de "heterossexual", não é a tentativa de aceitar homossexualismo como algo natural, e sim tentar esconder um incomodo. Para mim parece coisa de gente que não quer se dizer preconceituoso, mas que também não aceita bem a ideia de amor entre pessoas do mesmo sexo.

Bom, acho que só chovi no molhado, mas tudo bem. E por falar em tratar homossexualismo com maior naturalidade, já viu a série Torchwood? Acho incrível como o Capitão Jack Harkness consegue mostrar a bissexualidade de forma natural, e sem ser pejorativo.

Por falar nisso esse é o link para "George Takei responds to 'traditional' marriage fans" Disponível em:http://9gag.com/gag/aARWMzL
Juro que nunca consegui entender como tanta gente se baseia num argumento tão furado para embasar a discriminação contra homossexuais.

Enfim, meio que desviei do assunto...

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