sexta-feira, 14 de junho de 2013

Novelas da Globo: Racismo a Gente vê aqui


Há quem esteja ansioso para que eu comente a novela das nove atual, no entanto, lamento informar que depois de assistir dois capítulos de sábado e ler várias notícias sobre a produção, eu não tenho vontade alguma de acompanhar esse troço. Mas há coisas, sim, que gostaria de comentar sobre a trama e até já toquei no caso quando fiz meu texto sobre o último capítulo de Salve Jorge: as novelas embranqueceram. E hoje me deparei com o seguinte na Folha de São Paulo:
Cota: Coincidência ou não, logo após a coluna ter publicado os protestos que a Globo vem enfrentando devido a ausência de artistas negros na novela "Amor à Vida", a emissora saiu em busca de uma personagem negra. Cota 2: A atriz Ana Carbatti viverá a doutora Verônica no folhetim, papel que não existia na sinopse original.
Ler uma nota como essa é uma VERGONHA. Sabe quando foi a última vez que vi uma nojeira dessas acontecer, isto é, autor ser obrigado a colocar atores e/ou atrizes não brancos para compor o fundo? Em A Viagem, novela espiritualista de 1994. Além de todos os bonzinhos usarem cores pastéis, às vezes, degradê da mesma cor (*lembro de um nauseante capítulo todo azul*), e os mauzinhos cores escuras, no Paraíso da novela todos eram brancos, já no vale dos suicidas, local de tormento, estavam os únicos negros em cena. As reclamações dos movimentos negros fizeram com que algum ator ou atriz “de cor” fosse introduzido aqui e ali no Paraíso. Pois é, em Amor à Vida nem isso, eu procurei, nem figurantes nos bairros pobres eram negros nos dois capítulos que assisti. 

Obviamente, o autor vai dizer (*se vier a dizer alguma coisa*) que Ana Carbatti estava prevista desde o início da trama e blá-blá-blá, mas a gente, que já viveu um pouquinho, sabe que não é bem assim. Não é mesmo. Outra coisa, já que alguém comentou no meu facebook que diretor não escolhe cor de personagem e coisas do gênero.  Na Globo, autor define, sim, boa parte do elenco de suas novelas, especialmente os autores das novelas das nove.  Retiram profissionais de outras tramas de menor prestígio, vide o caso de Danielle Winits, e, claro, isso determina qual a cor da pele de suas personagens. Fora isso, claro, o que vejo é uma complacência sem limites com uma novela que é, além de reacionária, cheia de furos como foi Salve Jorge. Cada vez me convenço mais de que houve perseguição e má vontade com Glória Perez por ela ser tão combativa em relação a sua obra (*beirando, não raro, o ridículo*) e, talvez, por ser mulher. E não estou exagerando. 


Eu realmente não engulo escalarem minorias – negros, gays, e outros – como vilões dizendo que isso é de vanguarda, é ousado. Seria, se eles estivessem tão bem representados em cena quanto os socialmente brancos. E isso, leitores e leitoras, só vimos em Lado a Lado. Daí, colocam o espetacular Mateus Solano fazendo um personagem estereotipado, cheio de tiradas ridículas e que só convence como enrustido quem não tem nenhuma imaginação. Nenhum dos meus amigos gays ou bissexuais assumidos é tão bandeiroso quanto ele, um sujeito que, segundo a trama, deseja esconder sua homossexualidade. Fora isso, Félix é mau como aquelas personagens de desenho animado americano que falam com espelhos... Aí, querem me empurrar que ele é assim, porque não se assume como homossexual? Pior ainda, é seu lado feminino que o puxa para o mal, pois, segundo o ator,  "A feminilidade e a maldade de Félix andam juntos. A não aceitação da homossexualidade fez com que ele seja maldoso".  Melhor nem comentar... 

Olha, amiguinhos, se eu tivesse um pai falso moralista e adúltero como é o César, interpretado pelo Fagundão, nessa novela, acho que eu não seria boa coisa. Mas o autor ainda me colocou o bom médico fazendo discurso moralista-religioso-machista contra o aborto, enquanto ventila-se que ele teria pago uma garota de programa para que casasse com o filho homossexual e, pior, assumisse seu filho bastardo (*porque aborto é pecado e pouca vergonha, enganar o filho, não é*). É, claro, que o onisciente Félix deve saber de tudo, mas o que me pergunto é se Walcyr Carrasco acha que ainda está escrevendo Grabriela. Na boa, uma trama dessas, ainda pintando Fagundão como “homem de bem” só desceria se apresentada em novela de época tipo anos 1920 até início dos a nos 1960. Depois disso, é forçar muito a barra... Mas deixa prá lá... Preciso dar aula daqui a pouco.

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6 pessoas comentaram:

Pela primeira vez, vi alguém questionando colocar um gay como vilão. E logo que li sobre a trama dessa novela achei que foi uma péssima ideia.

Infelizmente, boa parte das pessoas que ainda assistem novela, são simples e fáceis de manipular. Então, além de colocar um personagem extremamente estereotipado. Acredito que muitas donas de casa pensaram: Toda bicha é má igual esse ai.

O que não ajuda em nada o combate contra a homofobia.

Concordo plenamente com você. Aliás, tinha até esperanças de que a trama fosse boa, mas já nos primeiros capítulos identifiquei o discurso nojento de backlash na novela.

E para mim a gota d'água foi o discurso anti-aborto do personagem de Antônio Fagundes (ele mesmo um falso moralista que não aceita a homossexualidade do filho, pegou a filha com a amante para criar e fez uma mulher grávida do filho dele enganar o filho para se casar). É demais para meu estômago, ainda mais essa falsa moralidade ser marcada como "pessoa de bem", como "mocinho" e não como vilão.

E também tem a personagem que é gorda e coincidentemente virgem. Por que não uma magra, ou a gorda fica de lado por ser gorda?

Salve Jorge era tão ruim, mas tão ruim, que você tinha certo prazer ao ver onde a autora iria chegar. Mas essa novela não: eu sinto é nojo mesmo.

Não é só a novela das nove que está preconceituosa. todas as três novelas globais estão. Na das 6, lembro de um único negro, casado com uma loira, e pai de um garoto branco de olhos azuis. Na das 7, lembro de 3 personagens. Todas empregadas, e uma até é abusada pelo patrão, e caladinha, parecendo até gostar. E a das 9, nem se dignou a colocar uma, digamos, "cota".

Perfeito!
Aliás a coisa só tende a piorar...o autor quer "tocar" na questão da adoção de crianças por um casal gay,o casal vai convencer a Danielle Winits a ser barriga de aluguel. Tudo parece lindo e empoderador, mas um dos caras é bi e os dois terão um caso. Ou seja, tenho certeza que em algum momento não escapará a possibilidade do casal hetero se mostrar mais adequado a criança do que o casal gay, sabe como é, a família ideal...esse tipo de discussão falsa me irrita.
O mesmo caso para o Félix, em um momento onde a questão dos direitos dos gays está pegando fogo, querem passar a ilusão de que gays estão tão representados (até demais para alguns) que não há nenhum problema em um vilão "bicha má". O Félix me lembra o Scar(ReiLeão)mau,invejoso,perverso
e afeminado, ou seja um criatura com os piores defeitos que alguém pode ter, incluso sua sexualidade. Esse tipo de contrução é similar as vilãs tradicionais que além de cruéis, são feias ou quando bonitas, sexualizadas.

Agora o meu lado fujoshi piou alto quando vi o Júlio Rocha, ele e o Solano combinam tanto rsrsrs

Verdade, Ana Carolina! mais um bom exemplo! A gordinha vai "dar uma virada na vida", diz o autor,agora se ela é tão especial, precisava ainda ser virgem? Essa contradições globistas são o O.


Só pra terminar tbm odeio o Doutor Fagundão! assisti a cena em que ele diz que ao perceber que ofilho tinha "essas tendencias", deu um jeito, e o menino endireitou, sabe, discurso Bolsonaro total.
...........
ps:sempre gostei do Scar e gosto do Félix,não sei o motivo Valéria, mas vilões gays me atraem,acabei criando um, nesses mesmos moldes, foi há um tempão, e quando comecei a me envolver mais com ativismo e descontruir certas coisas que passam pela mídia, me lembrei desse meu personagem, tão afeminado quanto malicioso e entrei em deprê...gosto dele, não quis mudá-lo, mas ele passava a mesma mensagem que eu tanto critico...precisei ajustar.É incrível como mesmo sem querer, a gente leva adiante certos esteriótipos, e é preconceituoso sem perceber, fiquei chatida comigo mesma, e também orgulhosa por perceber que nãotenho a mesma cabeça que há dois ou cinco anos. Desculpe o desabafo XD.


Esperando o remake de saramandaia ser bom pra ver se eu tenho vontade de acompanhar alguma novela.

E a história do casal gay ainda é um plágio descarado de um dos casais de Bothers and sisters. Lá no seriado é do mesmo jeito... Um advogado, um chefe de cozinha que querem ter um filho e resolvem usar uma barriga de aluguel.

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