domingo, 6 de outubro de 2013

Comentando Cine Holliúdy


Antes que o dia termine, vou escrever um breve texto sobre o sucesso de bilheteria chamado Cine Holliúdy.  Não sabia, mas o filme foi o primeiro no edital de longas-metragens de baixo orçamento do Ministério da Cultura do Brasil em 2009 e é uma versão estendida de um curta metragem anterior.  Confesso que esperava mais, pois o trailer foi tão engraçado que eu criei grandes expectativas em relação ao produto final.  Talvez, eu esteja meio ranzinza, mas acredito que faltou coesão ao roteiro e o desenvolvimento de algumas personagens foi bem deficiente.  Mas vamos para uma breve sinopse:

Interior do Ceará, década de 1970. A popularização da TV, o fato de alguns prefeitos colocarem telões nas praças, começa a matar os espetáculos circenses e mesmo o cinema. Francisgleydisson (Edmilson Filho), no entanto, tem o sonho de manter um cinema e vai de cidade em cidade em busca do lugar ideal para o seu empreendimento.  Ele é o proprietário do Cine Holiúdy, um pequeno cinema da cidade que terá a difícil missão de se manter vivo como opção de entretenimento.  No início do filme, este lugar parece ser a cidade de Pacatuba, cujo prefeito, Olegário Elpídio (Roberto Bomtempo) prometeu abrir um cinema.  Só que a televisão também está chegando por lá... 


Não vi o curta que deu origem à Cine Holliúdy, mas o filme me pareceu ter como um dos seus pontos de referência Bye Bye Brasil, dirigido por Cacá Diegues e lançado em 1979.  Nesse filme, não era o cinema que disputava espaço com a TV, mas o espetáculo mambembe. Em Cine Holliúdy, é a paixão pelo cinema como forma de entretenimento e a celebração da ingenuidade do público – apaixonado por filmes de kung fu e outros gêneros que apelam para a pancadaria, ação e aventura – que move a história.  Uma das coisas reais de Cine Holliúdy é mostrar esta interação do publico com o filme, como se as personagens e situações fossem reais, mesmo absolutamente falsas... Quando estive em Sergipe a primeira vez, em 1994, vi isso acontecer com a telenovela.  No povoado, meu tio-avô era um dos poucos a ter TV  – ainda mais em cores  – e o público de familiares e vizinhos  – nunca menos de vinte pessoas  – vibrava, sofria e xingava, como se tudo fosse real.

Francisglaydisson e seu filho (Joel Gomes), assim como a dedicada esposa, Maria das Graças (Miriam Freeland), são bem simpáticos.  A imaginação do protagonista que conta mil histórias fantásticas para o garoto (*que acredita, ou finge acreditar em tudo*) são os pontos altos da película.  Muitos dos atores – atrizes são poucas em evidência e nem preciso dizer que não foi cumprida a Bechdel Rule – que aparecem em tela representam bem algo que é mais que sabido: o Estado do Ceará é um celeiro de bons comediantes.  Mas eis que é exatamente aí que mora um dos problemas do filme.  A montagem deficiente e o roteiro capenga em alguns momentos terminam por transformar certas seqüências em palco para que esses bons comediantes se exibam, sem contribuir para o andamento da história coo um todo.  Cine Holliúdy é fragmentado demais e quando termina a sensação é de que faltou alguma coisa... ou muita coisa.  O próprio Roberto Bomtempo, ator competente e conhecido do grande público, não é  aproveitado como poderia.


Devo confessar que dentre as esquetes – porque foi isso mesmo – a que mais me incomodou foi a da igreja evangélica.  Além de não contribuir em nada para a história e ser extremamente estereotipada, mostrava um tipo de igreja que não era comum nem nos grandes centros urbanos nos anos 1970.  Um pastor de igreja pentecostal do interior naquela época iria dizer que cinema é coisa do diabo e, não, ficar investindo em uma caricatura de cura divina.  O roteiro poderia explorar a curiosidade e até hipocrisia do pastor e seu rebanho, gente se disfarçando para poder assistir a  sessão, mas buscou-se uma saída fácil e, pelo menos em minha opinião, sem graça.  Outro ponto baixo do filme foi não trabalhar melhor a amizade entre o filho de Francisglaydisson e o menino que não queria ser escrevente de coroa de defunto, como era tradição de família.  Enfim, o filme deveria ter separado dez minutos e trabalhado a amizade dos dois, já que ela seria importante nos sonhos premonitórios da esposa do menino.  

De resto, houve uma série de problemas com as legendas que, na sua proposta inicial, deveriam fornecer o suporte para quem não fala “cearês”.  Mas o que houve?  Em alguns momentos as expressões regionais eram traduzidas, mas, na maioria das vezes, a legenda era mera transcrição das falas.  Não sei se foi desleixo ou o quê, mas isso enfraqueceu a proposta inicial do filme, que era genial, já que o Brasil é  um país de muitos falares e registros.  É isso!  Cine Holliúdy promete muito e oferece pouco.  E olha que havia muitos detalhes a se explorar, a começar pelos títulos alternativos que os filmes recebiam de Francisglaydisson.  No final, ficou o registro de que a TV venceu e que fora de Fortaleza só há cinco cidades, dentre mais de 180 municípios, que possuem cinema.  Muito triste, especialmente, para quem é fã da Sétima Arte.

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