terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Comentando Cinderella (Disney, 1950)



Sábado retrasado, aproveitei para assistir Cinderella, o clássico da Disney.  Tinha o box da coleção Diamante (DVD + Bluray) fazia algum tempo, mas sempre que começava a assistir, parava ou cochilava.  Dessa vez, aproveitando para amamentar a Júlia, fui até o fim e ainda revi os extras.  Sim, nunca tinha visto o filme integralmente.  Tinha, quando criança, a coleção de livrinhos com disquinho da Disney, entre os tantos, havia a versão adaptada do filme com as vozes brasileiras.  Aproveitei para assistir com a dublagem nacional, aquela feita na época do lançamento aqui, vozes bem radiofônicas, Cinderella com uma rica voz de contralto.  Fosse essas dublagens de hoje, teria assistido com o som original em inglês.  Aliás, se o plano de retornarmos o Shoujocast com as Princesas da Disney vingar, reassistirei com o som original para comparar.

A Disney baseou o seu Cinderella na versão de Charles Perrault.  Friso “versão”, porque há muitas “cinderellas” e, segundo a Marina Warner, em seu livro Da Fera à Loira, a mais antiga história similar já encontrada é chinesa do século IX, se não me engano.  Cinderella foi feita em um momento em que a Disney precisava de dinheiro, a queda da lucratividade no mercado europeu, efeito da II Guerra, e os fracassos de bilheteria de Pinóquio, Fantasia, e Bambi tinham deixado a empresa à beira da falência.  Eu não imaginava que tinham sido fracassos, mas foram, sim. Ao contrário do que Hollywood pensa hoje, acreditava-se que filmes de menina e protagonizados por uma princesa poderiam salvar o dia.  Não estranho, quando resenhei Jezebel comentei como nos anos 1930 e 1940 havia vários filmes com mulheres protagonistas fazendo rios de dinheiro.  E Cinderella salvou a empresa, foi o maior sucesso da Disney desde Branca de Neve (*outra princesa*) e é a princesa mais popular da Disney até hoje.  Assistir o desenho fazia parte do plano de tentar descobrir o motivo.


O filme da Disney conta a história de Cinderella, moça aristocrata, órfã de mãe e que mora com o pai amoroso.  O sujeito, que aparece como uma silhueta na tela, decide casar-se outra vez para que a menina possa ter amor de mãe.  Só que, em contos de fada, amor materno e madrasta não andam juntos.  A madrasta traz consigo suas duas filhas, Anastacia e Drisella.  A mulher se mostra fria em relação à garota e, depois da morte de seu pai, a transforma em serviçal. Cinderella cresce gentil e amorosa, tendo por companhia os bichinhos que habitam a casa e os arredores: pássaros, ratos, o velho cão.  Um dia, é anunciado que o rei daria um baile para que o filho – um príncipe que resistia em se casar – pudesse escolher uma noiva.  Todas as moças do reino estavam convidadas, mas a madrasta frustra a as esperanças de Cinderella usando de refinada crueldade.  

Nada estava perdido, claro, porque a moça tem uma fada madrinha, e por magia consegue ir ao baile, com o compromisso de voltar antes da meia noite.  O príncipe se encanta por Cinderella à primeira vista, dança com ela toda a noite, mas, quando percebe o avançado da hora, a moça foge sem dizer seu nome e deixando para traz um sapatinho de cristal.  É através desse calçado que o rei tem esperanças de achar a desconhecida e conseguir curar a tristeza de seu filho.  Depois de alguns contratempos, Cinderella é encontrada e se casa com seu príncipe tendo o final feliz merecido. “The End”


Todas as histórias de Cinderella são parecidas e desde o final do século XVIII, os detalhes mais horrendos, como as irmãs mutilando seus pés para tentarem entrar no sapatinho, ou de influência pagã, como Cinderella se comunicando com o espírito da mãe foram eliminados.  Eu tinha uma outra coleção, a Disquinho (*vocês podem ouvir aqui*) , na qual ficava sugerido que a Fada Madrinha era, na verdade, a mãe morta da heroína.  De qualquer forma, não foi a Disney que cortou esses detalhes, eles já estavam fora em versões anteriores.  O que a Disney fez foi dar para Cinderella, que eu não sabia que era uma moça de 19 anos, um ar de debutante da transição dos anos 1940-50, muito parecida com qualquer colegial estilizada americana.  O Estúdio também deu personalidade aos animais que figuravam em algumas versões do conto.

É interessante notar, e eu estava particularmente sensível para observar os bichos graças ao último vídeo da Anita Sarkeesian, que as marcas de gênero colocadas nos animais são mínimas.  Despidos, os ratinhos são todos iguais.  Não existe a pesada caracterização do feminino – cílios, boca vermelha ou rosada, saltos altos – que vemos hoje.  A genderização exacerbada de objetos e animais é fenômeno mais recente.  São somente as roupas que diferenciam ratos de ratas, passarinhos de passarinhas.  Agora, todos os animais que têm personalidade definida, nomes próprios e papel a cumprir na trama, neste caso, salvando Cinderella, são machos.  Jacques e Octavio são os dois ratos principais, Bruno é o velho cão que consegue afugentar o gato da Madrasta, Lúcifer.  As ratinhas e passarinhas, até tem voz, mas são todas iguais às outras, desprovidas de papel heróico ou interação mais íntima com Cinderella.  O que elas fazem, e muito bem, é coser o vestido que elas imaginavam que a pobre moça iria usar no baile.  Elas trabalham anonimamente, por assim dizer, enquanto aos machos cabe o estrelato.



Falando na animação, mesmo hoje Cinderella é um filme bonito.  Eu prefiro de longe A Bela Adormecida e acho que o investimento em Branca de Neve foi maior, no entanto, há beleza em Cinderella com seu estilo mais simples, do que os dois anteriores.  O figurino é bem estilizado, como a Disney sempre faz.  Sabemos que o filme se passa no século XIX.  A roupa de Cinderella menina sugere anos 1840, 1850.  A indumentária masculina e as roupas sem crinolina (*aquela grande armação por baixo da saia*) já estão mais para o final do século.  Enfim, são elementos que se misturam de forma imprecisa, até porque, não era o objetivo do filme marcar época.  Pensando nas homenagens ao filme, lembro de Encantada.  A seqüência de Cinderella cantando e sendo ajudada pelos bichos foi homenageada no filme com Amy Adams.

É preciso pontuar, também, que o último dos príncipes sem personalidade ou nome é o de Cinderella.  Tanto ele, quanto o de Branca de Neve, são nulidades e, ao mesmo tempo, passaportes para a felicidade mediante casamento.  Curiosamente, em muitos contos de fada depurados do século XVIII e XIX era isso mesmo, o Príncipe Encantado era a compensação, a certeza de um futuro feliz para a heroína sofredora.  Não sabemos sequer seu nome, ou idade.  Como seu pai estava desesperado para que se casasse, talvez tivesse passado dos trinta anos, ou poderia ser pressa de um velho que temia morrer sem ver seu herdeiro procriando, vai entender?  Percebam que o casamento é, também, uma imposição para o rapaz, pois o primeiro dever de um monarca é procriar, gerar herdeiros legítimos.


A Disney só começa a dar identidade aos seus príncipes com Felipe, em a Bela Adormecida, mas falarei desse filme em outra resenha.  E, como pontuei mais atrás no texto, são os animais que salvam Cinderella, não o príncipe.  É curioso ver que o príncipe é somente um adereço, mas a mocinha, de qualquer forma, é salva por machos, ainda que seu engenho – ela tinha guardado o par do sapatinho de cristal – tenha tido papel importante no desfecho.  

De resto, Cinderella reforça fortemente a idéia de que a beleza interior se reflete no exterior e que ele é branco, louro e magro.  É o reforço de um padrão de beleza que é para poucas, mas que é reiretado em outras produções do estúdio e do cinema americano.  As irmã más são uma morena e uma ruiva, a Madrasta, também não é loura.  Lourice é signo de inocência e, nas hagiografias, de virgindade e martírio.  Drisella e Anastacia são feias e desengonçadas, a Madrasta é inteligente, elegante, tem um ar respeitável, mas é velha e tem a vilania estampada no rosto.  Além disso, sabemos que a Madrasta não é uma boa administradora, uma das coisas que ela e suas filhas fizeram foi acabar com a riqueza do pai de Cinderella.  A mocinha é a única mulher virtuosa da casa, mas suas qualidades são todas marcadas pela domesticidade, ela é modesta, humilde, obediente, trabalhadora, mas, como podemos perceber ao longo do filme, ligeiramente desastrada.  Ela não perdeu somente o sapatinho de cristal, prestem atenção.  


Joga-se muito peso nas Princesas da Disney, como se elas fossem uma arma machista na alienação das meninas.  Eu não vejo dessa forma, a Disney não se afasta muito do material dos contos “originais”.  Cinderella não é nem de longe tão backlash quanto outros filmes do pós II Guerra, que empurravam as mulheres para o lar usando de roteiros mais esdrúxulos e humilhantes.  Cinderella nunca saiu do ambiente doméstico, seu reino sempre foi a cozinha e seu apelido de gata borralheira não era á toa.  O que o filme faz é reforçar o mito de que toda moça em apuros ou necessidade precisa de um príncipe, que ele é sua carta de entrada na boa sociedade e que o casamento é o caminho.  Só que, no caso da heroína, era mesmo.  Todas as cinderellas casam no fim.  

O que o filme tem de pior, eu diria, é vender que a inveja é marca das relações entre as mulheres, especialmente, quando desprovidas de beleza e juventude.  A Madrasta tortura Cinderella, porque sabe que ela, com sua candura e beleza loura, é melhor e mais desejável como noiva que suas filhas.  De novo, temos a questão do exterior que reflete o interior.  Drisella e Anastacia são feias por dentro e por fora, casos perdidos.   Que chance elas teriam de conquistar um príncipe?  Essa idéia persiste e, acreditem, meninas bonitas são vítimas de bullying. As feias, afinal, são alimentadas pela inveja.  E não falo somente de fofocas, xingamentos, mas de agressões aos símbolos da beleza da vítima, como rosto e cabelos.


Não se deve confundir o produto princesas, que é rastreado por Peggy Orenstein em seu livro Cinderella Ate My Daughter, uma mina de ouro criada em 2000, com os filmes que vieram antes.  Esse mundo de consumo rosa, lilás e brilhante não estava presente nos filmes.  Cinderella veste azul, como tantas meninas de sua época e do século XIX vestiam.  Não há nada de deliberadamente sexy na personagem, como sugere o New Look que a Disney passou a vender em 2012.  Comparem a nova e a velha Cinderella.  Essa enxurrada de produtos, essa ênfase em vender as princesas e que toda menina deve/precisa ser uma princesa é coisa nova.  Cinderella como filme é um produto quase inofensivo, desde que você não fique reforçando para as crianças que o toda a menina deve sonhar em ser resgatada da pobreza ou do tédio por um casamento, que há uma infinidade de outras possibilidades na vida de uma mulher.  De qualquer forma, são as releituras comerciais desse material da Disney que são castradores das potencialidades das meninas, promotores de papéis de gênero tão opressores.  Dêem uma passada em qualquer loja de brinquedos e vejam o que é vendido com o selo das princesas...

Terminando o texto, não consigo entender até agora a popularidade de Cinderella.  Entre todas as princesas, ela é uma das mais sem graça.  As personagens secundárias – ratos, cachorro, Grão-duque, Rei, Fada Madrinha, a própria Madrasta – são bem mais interessantes.  No entanto, é de Cinderella que as meninas gostam mais, segundo as pesquisas da Disney.  Agora, é inegável que o filme tem grandes qualidades e só vem ilustrar o quanto, em outros tempos, o cinema americano acreditava muito mais no potencial de personagens femininas como protagonistas.  Ao que consta, Cinderella salvou a Disney, já hoje, o estúdio teme chamar de Rapunzel um filme sobre Rapunzel e chama de Frozen uma versão desfigurada de A Rainha das Neves.  Triste, não?  E há quem acredite que existe evolução, no sentido de ir do pior para o melhor, nas relações humanas e nas suas representações midiáticas.

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4 pessoas comentaram:

Ótimo texto. São textos assim que me fazem refletir das coisas que eu via quando era criança, eu costumava ver muitos filmes (porque eu tinha um vídeo cacete). Eu concordo com você, eu sempre achei a Cinderella é uma das mais sem graça, você sabia que tem umas continuações do filme? Gostaria de ler uma resenha desse filme também! (:

Concordo com sua postagem, eu amo e sempre amei as princesas da Disney, mas de todas prefiro a Bela, a Mulan, a Tiana e a Mérida que mostram que nem todas as meninas precisam de um garoto para ser forte.

Apesar das três primeiras terminarem se casando, todas tem uma personalidade forte e pensamentos próprios, considerados fúteis pela sociedade da época.

Sem contar que Mérida a princesa de Valente acabou com essa barreira machista.

Espero que a Disney façam mais princesas que nem elas.

Como sempre um ótimo texto. É incrível a sua percepção para ver coisas que eu não consigo perceber mesmo após ver o filme várias vezes.
Esperando ansiosamente pelo retorno do Shoujocast. Estou com muita saudades daquelas conversas descontraídas que vocês tinham.

Oi, Valéria. Chegou a assistir Frozen? Realmente não tem a história da Rainha da Neve, mas achei muito bom. Será que a razão da mudança foi o fato do lançamento de uma animação anterior deste conto, bem mais fiel? Acho que para não perder todo o trabalho e ocorrer comparação, reescreveram o roteiro, inclusive com a equipe de Detona Ralph. Achei bem mais interessante.

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