sábado, 28 de dezembro de 2013

Comentando A Patch of Blue (1965)


Anteontem, assisti a um filme chamado A Patch of Blue (1965), no  Brasil recebeu o título de Quando só o Coração vê.  Acho que não o conhecia, não me lembro realmente de ter ouvido falar dele, mas estava em uma lista de “filmes cabeça” do IMDB que alguém jogou lá no blog da Lola.  Bem, não se trata de um “filme cabeça”, no sentido de ser intelectualmente exigente, ainda que eu acredite que qualquer filme ofereça algo para análise, é um filme muito mais próximo do dramalhão do que de um filme árido ou chocante, como outros na mesma lista. A história e a execução são para fazer a gente chorar fácil, fácil, pois a “ceguinha” Elizabeth Hartman e sua vida mundo cão são de destroçar com qualquer um.  Fora isso, a película toca na questão do racismo e da intolerância, e contrapõe uma classe média negra educada ao lixo branco que, mesmo vivendo em condições degradantes, moral e economicamente, ainda se sente superior aos negros por conta da sua cor de pele. 

A Patch of Blue foi baseado em um romance, Be Ready with Bells and Drums, da australiana Elizabeth Kata, e conta a história de Gordon (Sidney Poitier), um funcionário público, que conhece a adolescente cega Selina (Elizabeth Hartman) ao passar pelo Central Park à caminho do almoço.  Decidido a ajudá-la, ele termina se apaixonando por ela.  A moça, que mora com a mãe prostituta, Rose-Ann (Shelley Winters), e o avô alcoólatra, Ole Pa (Wallace Ford), nunca foi à escola e é explorada, tendo que fazer todos os trabalhos de casa.  Para completar, Selina ficou cega aos cinco anos quando a mãe, pega pelo pai de menina com outro homem, atirou uma garrafa e acertou a criança.  O mundo da menina é restrito ao apartamento e pouco mais do que isso, como o rádio e o parque, e, não raro, ainda é espancada pela mãe.  Mesmo o avô, que efetivamente gosta dela, a destrata quando alcoolizado.



A garota, quando tem alguém para levá-la, fica horas a fio montando bijuterias para um vizinho, que paga para a mãe da menina pelo serviço.  Vendo a triste condição de Selina, Gordon sente pena dela.  Por conta disso, passa pelo local todos os dias e a leva para almoçar, além de começar a ensiná-la a se virar sozinha.  Ela ganha de rapaz um óculos escuros e mente para a mãe dizendo que os encontrou.  Só consegue ficar com eles, porque Rose-Ann esquece dos óculos, por conta disso, ao receber um precioso presente de Gordon - uma caixinha de música que pertenceu à avó do moço - ela a enterra aos pés de sua árvore favorita no parque, como forma de protegê-lo.  A moça, que até então só conhecera maus tratos, se apaixona por Gordon.  Já o rapaz, não conta para ela que é negro.  Ao longo da convivência, Gordon se vê pressionado pelo irmão, um jovem médico, a deixar de ver a moça, e entra em desespero com os detalhes sórdidos da vida de Selina.  Ele precisa fazer alguma coisa, ainda que, para isso, precise sublimar o amor que nutre por ela.

A Patch of Blue é um filme que chama para si, bem no auge da luta pelos direitos civis, a responsabilidade de denunciar o racismo.  A fotografia em preto & branco, em um momento no qual já estava consolidado o cinema em cores, tem como objetivo enfatizar o contraste entre Gordon e Selina e, talvez, mostrar como era sem cor a vida da moça.  No início do filme, a câmera demora a revelar que Selina, cobrada pela mãe por não ter preparado o jantar em tempo, é cega.  Acompanhamos somente parte do corpo da menina, e seu rosto demora a entrar no foco da câmera.  Quando descobrimos as limitações da moça e seu esforço para fazer tudo o que lhe exigem, a situação parece ainda mais abusiva.  



Meu marido até debochou dizendo que era muito “mundo cão” para ser levado a sério.  No entanto, quando vemos notícia como esta aqui (Mãe que teria vendido virgindade da filha por R$ 50 é procurada no Rio), a crueldade de Rose-Ann é absolutamente plausível.  Para se ter uma idéia, ela também vendeu a virgindade da filha, já adolescente, e, no final, é dado a entender que ela pretende prostituir a menina.  Sim, é um filme com uma vilã, a mãe monstro, que oprime, explora e castra a filha.  Além de Selina, a outra mulher em tela, Sadie (Elisabeth Fraser) é parceira de trabalho de Rose-Ann e não se cansa de ridicularizar e ofender a menina.  Bechdel Rule cumprida sem problemas, já que a conversa das duas é quase sempre sobre Selina, ou sobre trabalho.

Em nenhum momento o filme, não sei se no livro é diferente, explica alguma coisa sobre o passado de Rose-Ann.  Como se tornou prostituta?  Enquanto o marido estava na Guerra, ela tinha outras possibilidades de sustento?  E o pai alcoólatra, será que ele teve parte nisso?  Só sabemos que Rose-Ann é má e leva uma vida degradada.  Fora isso, ela tem ciúmes da juventude e beleza da filha, por isso mesmo, ela tenta rebaixar a moça, fazendo-a acreditar, inclusive, que não é bonita.  Uma das questões que perpassam as conversas de Sadie e Rose-Ann é a questão da velhice e de como isso pode ser fatal para mulheres que, como elas, vendem seu corpo.  



Rose-Ann também precisa de alguém para pisar, seja a filha cega e vulnerável, seja os negros, cuja inferioridade se expressa em sua cor de pele.  Tais comportamentos não são incomuns dentro do grupo chamado pejorativamente de “lixo branco”, afinal, se você está na pior, é preciso que exista alguém que você possa cosiderar inferior.  Só que, como Rose-Ann é detestável, e as únicas pessoas que lhe fizeram algum bem na vida foram negros, para Selina foi fácil escolher de que lado ficaria depois que a mãe a espanca ao vê-la com Gordon.  Em entrevista na época, Shelley Winters disse que buscava sempre amar alguma coisa em suas personagens, mas que, no caso de Rose-Ann era impossível.  Concordo.

Dada a época em que foi produzido, A Patch of Blue é bem comedido em mostrar expressões de afeto entre os protagonistas, ainda assim eles se tocam, andam juntos, se beijam.  Na verdade, Selina é que beija Gordon duas vezes.  As cenas nunca foram exibidas em cinemas do Sul dos EUA.  Há uma linda cena no filme, quando Selina revela que sabe que Gordon é negro e antes de fazê-lo, apalpa seu rosto e diz que ele é bonito.  Não sei se Selina usa "beautiful" por ter um domínio pobre da língua (*Gordon a ajuda, também nesse aspecto*), ou se quer dizer que ele tem uma beleza delicada.  O fato é que o rapaz diz que a maioria das pessoas não pensa assim.  O filme está bem antes do "black is beautiful" e, quando vemos certas notícias por aí, sabemos que beleza e branquitude continuam associados no imaginário social.  



Li em algum lugar que o livro é mais pessimista, especialmente no final.  Bem, Gordon consegue salvar Selina, mas eles não ficam juntos... Ele consegue uma escola que aceite a moça, mesmo ela já tendo 18 anos, ou quase, e estabelece um prazo de um ano para que decidam se ficam, ou não, juntos.  Selina, no início, imagina que Gordon a rejeite por causa do estupro, algo que, obviamente, não é verdade.   O filme, também, investe no discurso de que devemos ver o que está além da aparência externa, não somente no quesito romance, mas ao mostrar que um homem negro pode, sim, salvar uma moça branca de uma vida de miséria.  Por que lavar as mãos e se vingar da tal “dívida histórica” se você pode ajudar alguém?

Talvez, se Sidney Potier, para mim, um dos maiores galãs do cinema americano, fosse branco, o final da história fosse diferente.  Só que temos que levar em conta a grande diferença de idade entre os dois, algo que sei que não impede romance algum se o mais velho for o homem (*e, neste caso, de preferência branco*) e bem colocado na vida, claro, e o fato de Selina nada saber do mundo.  Eu consigo ver com bons olhos a proposta de Gordon e o fato dele enfatizar que Selina precisa conhecer pessoas, viver fora da gaiola, para decidir se quer ficar ao lado de um homem por toda a vida.  Dentro de uma lógica machista, a mulher vale mais quanto menos sabe do mundo, no caso do filme, ele passa a mensagem de que o amor verdadeiro, isto é, aquele que prioriza o bem estar do ser amado frente seus desejos, é capaz de esperar e que uma moça (*ou rapaz*) não deve se precipitar.  Quantas seriam mais felizes se pensassem duas ou três vezes antes de tomar uma decisão tão séria na vida.



É isso.  Não sabia, mas A Patch of Blue foi o maior sucesso comercial de Poitier.  Eu apostaria em Ao Mestre com Carinho sem pensar duas vezes, mas, na verdade, foi A Patch of Blue.  De resto, Poitier e Hartman formam um lindo casal e o fato de não ficarem juntos de imediato no final não diminuiu uma bela história de amor.  De quebra, A Patch of Blue oferece performances fabulosas de Sidney Poitier; da estreante e por uma década mais jovem indicada ao Oscar de Melhor Atriz, Elizabeth Hartman; e de Shelley Winters, que levou o Oscar de coadjuvante.  O filme teve 5 indicações ao Oscar em um ano difícil (A Noviça Rebelde, Doutor Jhivago, A Nau dos Insensatos, Agonia e Êxtase, etc.), além das já citadas, concorreu em Direção de Arte e Fotografia em Branco & Preto, que não existem mais, e Melhor Trilha Sonora.   Enfim, não digo que é um filme para todos, mas é um belo filme e tem um Sidney Poitier lindo de viver, como dizia a finada Hebe Camargo.

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2 pessoas comentaram:

Pela sua resenha, parece ser muito bom. Onde posso baixar?

Livia, joguei no Pirate Bay e havia várias cópias. E há legendas até em português no opensubtitle.

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