segunda-feira, 17 de março de 2014

14 Milhões de Gritos sobre Meninas e sua Infância Roubada



Esse curta metragem de 4 minutos foi feito para o Dia Internacional das Mulheres (8 de março) na França pela diretora Lisa Azuelos e protagonizado por Julie Gayet, Alexandre Astier, Philippe Nahon e Adèle Gasparov.  Seu objetivo é denunciar um drama que acontece todos os dias, o casamento de meninas.  Proibido em vários países, mas tolerado em tantos outros, regulamentado por lei em alguns, ele rouba a infância e, em muitos casos, a vida de crianças e adolescentes em vários países do mundo.   Para a UNICEF, é considerado casamento infantil qualquer que tenha como noivo ou noiva um menor de 18 anos e segundo a organização, crianças nascidas de mães menores de idade têm 60% mais chances de morrerem no primeiro ano de vida, além disso, cerca de 70 mil mortes de meninas entre 15 e 18 são registradas todos os anos em virtude de complicações na gestação e parto.  


14 Milhões de Gritos tem como protagonista uma típica família francesa, isto é, branca, católica, classe média.  Um dia, a filha, que deve ter entre 11 e 13 anos volta da escola e é recebida pela mãe sorridente, que lhe mostra um belo vestido branco, permite que ela coloque maquiagem pela primeira vez.  Devidamente arrumada, ainda que reclamando que não gosta muito do adereço de cabelo, os pais a conduzem para um prédio – Igreja?  Cartório? – onde parentes e amigos estão reunidos.  A menina confusa é conduzida ao altar e casada com um velho.  Tudo termina em um estupro.  O áudio está em francês, legendas em inglês, mas é fácil acompanhar a história.

A cena se repete todos os dias pelo mundo com meninas de muito menos idade principalmente na Ásia e na África.  Com as populações imigrantes da Europa, acredito que o objetivo do filme não foi somente provocar a repulsa do “E se fosse conosco?”, mas alertar, também, que pode ser conosco.  Isso, claro, se a pessoa não tem uma visão muito estreita do que é ser francês.  O casamento infantil, aquele realizado dentro de regras claras, sem que as meninas possam escolher, dizer “não”, é condenado por várias organizações internacionais, mas questões religiosas e culturais terminam se impondo sob a vista grossa das autoridades em nome da tradição.  



Não considero correto que se comparem práticas como tráfico de meninas para a prostituição, ou as alarmantes taxas de gravidez na adolescência no Brasil como “a mesma coisa”.  Nossas altas taxas de natalidade entre adolescentes estão muito mais ligada à falta de uma educação sexual consistente com a explicação do uso dos anticoncepcionais, à extrema pobreza, à falta de opções de lazer e expectativas quanto ao futuro.  Muitas vezes, repete-se dentro de uma família – problemática e/ou pouco amorosa e/ou presente – o estigma da gravidez na adolescência, avós que foram mães aos 13, e trabalham para sustentar sozinhas a prole, vêem suas filhas e depois suas netas seguirem pelo mesmo caminho. Ainda assim, a maioria das adolescentes, que mantém uma vida sexual ativa e eventualmente engravidam no Brasil, é movida por sua vontade, pelos seus afetos, não obrigada pela família, pela lei, pela tradição, pela religião, a aceitarem um marido, geralmente muito mais velho, que lhes foi imposto.  É uma escolha ruim, devemos oferecer outras possibilidades, mas é uma escolha.  Já o tráfico humano rende muito dinheiro e pode contar com a vista grossa das autoridades.  

É tudo do interesse das feministas, mas não podemos sair dizendo que dá no mesmo.  Não dá, não, tanto quanto ter que usar um biquíni na praia (*vai à praia quem quer ou pode, usa biquíni quem quer*) não é igual a ter que usar véu ou até burka em certos países.  Você é pressionada a usar biquíni por vários discursos ou pela mídia, é pesado, eu sei, mas você não correrá risco de vida pela censura social se não o fizer, tampouco há lei que imponha a vestimenta.  É isso que nos separa das sauditas, das iranianas, das afegãs.


Vale a pena assistir ao vídeo e refletir.  E se fosse aqui conosco? E se nossas meninas tivessem a sua infância roubada com a conivência e aprovação da sociedade?  E já não aconteceu isso?  Sim, o Ocidente também viu meninas de 12 ou menos idade serem casadas, mas isso foi ficando cada vez mais no passado desde o século XIX, antes até em algumas regiões.  É preciso extinguir a prática onde ela ainda é costumeira e impedir que ela retorne sob as bênçãos de moralistas e religiosos entre nós. 

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2 pessoas comentaram:

Casamento infantil é uma realidade que perdurou no Brasil até o século XX, minha bisavó casou com 13 anos e minha avó com dezesseis, com um diferença de idade entre os parceiros de mais ou menos 10 anos.
Pode ser equivocado da minha parte, mas às vezes eu penso que essa conivência que a sociedade brasileira tem com relacionamentos de mulheres muitos jovens (ex 20 anos) com homens muito velhos (ex 60 anos) não seja resquício dessa conivência.

Acho que nunca na vida eu tinha sentido tanta raiva vendo um filme, como senti agora...

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