domingo, 11 de maio de 2014

Meu Primeiro Dia das Mães



Sei que é necessário fazer um post sobre o Dia das Mães, especialmente, agora, que a maternidade me alcançou e é a primeira vez que me desloco da posição de filha, agregando esse novo, novíssimo papel de mãe.  Então, vamos lá!  

Primeiro, todo aquele papo depressivo que derramei no Facebook esta semana continua valendo, afinal, meu marido segue internado, só que, hoje de madrugada, olhando para a pequenina que dormia ao meu lado, tomei total consciência do quanto tenho de positivo na minha vida para comemorar e agradecer.  Júlia nasceu em outubro, ela está bem, parece saudável – apesar desse resfriado chato – e feliz, está crescendo e me surpreendendo a cada dia.  Segundo, que mesmo com essa confusão e tristeza toda que nos atocaiou, uma coisa pelo menos ela me trouxe de bom, mamãe está aqui comigo.  Fazia 12 anos que não passava o Dia das Mães com a Dona Nilda, e estamos nós três aqui, três gerações de mulheres de uma família aconchegadas nessa data festiva.  Sinto-me feliz pelo que tenho, pelo que está diante dos meus olhos e ao alcance das minhas mãos, por poder abraçar as duas e dizer que as amo.  Isso basta por hoje.


Não vou derramar frases prontas e dizer que ser mãe é tudo, é a felicidade suprema, me tornou uma pessoa melhor.  Sem dúvida, a experiência da maternidade está me permitindo vivenciar uma gama de experiências novas, alegrias, tensões, ansiedades, euforia.  Há mais cor na minha vida, há mais música, também, ainda que sejam muito mais cantigas de roda e de ninar do que de outro tipo qualquer.  Sinto-me irmanada com todas as mães do mundo neste dia.  É a tal serialidade, descrita por Iris Young, um sentimento que permite que, pelo menos por algum tempo, pessoas diferentes se sintam ligadas e possam agir juntas.  Percebo isso nesses grupos de mães de internet, ou na academia.  Gente muito diferente, mas que se encontra unida por uma vivência que é, ao mesmo tempo coletiva, e profundamente pessoal.  Mas jogando esse blá-blá-blá (pseudo) acadêmico para o lado, se alguém sorri para a minha menina, se brinca com ela (*e como essa criança sociável, vai com quase todo mundo...*), ganha meu coração. ^_^ 

Não vou dizer que gostaria de passar pela vida sem vivenciar a maternidade.  Eu desejava ser mãe, eu não esperava mais engravidar, eu nem tinha grande desejo disso, aliás, queria, simplesmente, poder ter um filho ou filha, adotivo ou biológico, educar, amar, enfim, maternar.  Poderia, portanto, não ter engravidado, acho que vou morrer repetindo isso, mas passar pela gravidez foi enriquecedor, sim.  Tive uma gravidez tranqüila, desenvolvi laços fortes com a minha cria, e olhar para ela e saber que saiu de dentro de mim, me inunda de afeto, algo se derrete dentor de mim.  Gosto mais ainda de amamentar.  Se meu parto dos sonhos foi por água abaixo, estou sendo abençoada com uma experiência de amamentação das mais positivas.  Sem bicos dos peitos rachados, sem dor, sem nada que atrapalhasse o processo, praticamente só estou curtindo a delícia que é saber que você é provedora de alimento e vida.  Dói, aquela dor egoísta, ver que minha menina precisa comer outras coisas e imaginar que, logo, logo, ela não vai estar mais mamando.  Será como cordar um outro cordão umbilical... Torcendo para que isso demore uns bons meses ainda.


E o que dizer de ter minha mãe por aqui?  Eu não tenho a mãe perfeita, nem sou a filha perfeita.  Já passamos por situações atribuladas e muitas das minhas inseguranças foram plantadas por ela mesmo que sem querer, só que foi ela, também, que com seu exemplo e seus ensinamentos, plantou dentro de mim as melhores virtudes, valores, que me deu exemplo de competência, que me ensinou a amar e a valorizar aquilo que tenho.  Devo grande parte do meu caráter a minha mãe.  Mesmo sem se afirmar feminista, foi minha mãe com sua postura diante da vida e da educação que deu ao meu irmão e a mim que me deu as lições práticas de igualdade entre os sexos, de direitos e deveres iguais.  Ela se abalou de casa até aqui somente para me apoiar em um momento difícil.  Largou a vida dela, que está congelada no Rio, para estar com a filha e a neta.  Nunca poderei pagar por tudo que ela me tem feito desde o dia que começou a me gerar.  Filhos não entendem muitas vezes, ou demoram a entender, mas tem uma dívida eterna com seus pais e mães.  Não falo dos maus pais e mães, claro, espero que você entenda.  Falo de pais e mães presentes e amorosos, daqueles que mesmo imperfeitos, são os melhores que poderíamos ter.


E tomando isso como gancho, queria que todas as mães fossem boas para suas crianças, que todas amassem seus filhos e filhas, que nenhuma criança fosse chamada de indesejada ou tivesse que ouvir que é um estorvo na vida de sua mãe.  Queria que nenhuma menina ou mulher fosse obrigada por convenções sociais, marido, namorado, família, a engravidar.  E que fosse respeitada a escolha de várias mulheres de não serem mães e poderem dizer, sem medo de retaliação, que, sim, são felizes com sua opção.  Maternidade não é destino das mulheres, deveria ser uma escolha, pois exige engajamento, vocação, é algo desgastante, e, infelizmente, a gente faz parte dessa caminhada sozinha.  Algumas coisas são socializáveis, maridos, companheiros podem tomar para si parte da carga, família, podem ajudar aqui e ali, mas há coisas que acabam recaindo sobre as mães.  Gravidez e parto é algo que recai sobre nós, a amamentação, aquela recomendada como a melhor, é atribuição feminina.  

Lembro com humor que uma vez me acusaram de preguiçosa quando eu disse que não me importava de engravidar, ou parir, que meu desejo era adotar.  Continuo desejando, aliás.  A graça é que para a pessoa adoção era coisa de gente preguiçosa, ou de quem não podia ter sues próprios filhos.  Em outra ocasião me acusaram de covarde, pois não queria sentir as dores da maternidade.  Há várias vias para a maternidade e espero ver todas as mães celebradas neste dia.  Engravidar, parir, amamentar, não torna ninguém uma boa mãe, maternar é muito mais que isso, é exercício diário.  E se não é seu desejo, nunca enverede por este caminho, porque ele é sem volta.  Ninguém tem o direito de obrigar uma mulher a ser mãe, ninguém deve se obrigar a isso.  


Agora, se maternar lhe causa dor e sofrimento, busque ajuda, não se envergonhe, pois, certamente, há várias mulheres na mesma condição que você.  Pior para a sua saúde mental é se calar e se tornar uma mãe ruim por temer retaliações da sociedade.  Muita gente só espera sorrisos das mães, aquele papinho falso de que tudo é muito bom.  Não, não é.  Exige preparo físico e mental, apoio de familiares e amigos.  Não se envergonhe de dizer a verdade, porque o ônus será seu e de sua criança.

É isso!  Desejo feliz dias das mães para as que pariram suas crias; para as que, como eu passaram por uma cesariana para vê-las nascer; para as que tiveram que optar ou escolheram a adoção; para as mães solteiras que, às vezes, precisam ser mães e pais ao mesmo tempo; para as tias que são mães de seus sobrinhos; para as avós que tiveram que maternar de novo para ajudar suas filhas, ou porque, por algum motivo, elas não estão lá para ocupar o seu lugar.  


Desejo principalmente todo o meu afeto e solidariedade às mães das meninas nigerianas sequestradas, às mães da escola em Chibok, seqüestradas pelo Boko Haram, e que contam com pouco apoio do governo de seu país e de vários homens muçulmanos que deveriam condenar uma ação criminosa como esta.  #BringBackOurGirls, as meninas de Chibok (Nigéria), mais de 240, sequestradas, estupradas e vendidas para a escravidão em nome de um grupo que perverte o discurso religioso poderiam ser qualquer menina, poderiam ser a minha Júlia, se deixarmos que os fundamentalismos ganhem espaço e acovardem os Estados.

P.S.: As ilustrações deste post dão de autoria da artista italiana Gioia Albano.  O site oficial dela é este aqui.

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3 pessoas comentaram:

Poxa Val, que texto bonito... Me emocionei em algum momento...Amei.

Lindo post! Só posso desejar um Feliz dia das mães...e muita saúde para a sua menina e força para vc!

Poooxa, muito lindo o post e tenho ctz que apesar das dificuldades, como a do seu marido vc pode seguir em frente com sua jóia rara! Agora ela será sua fortaleza e com certeza um motivo dos grandes para você sorrir apesar das dificuldades! Tudo de bom na sua vida amore, beijos

isabelacariani.blogspot.com.br

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