quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Comentando Loucas pra Casar



Como já aconteceu antes, comecei o ano com um filme nacional.  Loucas pra Casar é divertido,  ainda que cheio de clichês, mas boa parte do elenco é tão competente que eu me entreguei ao riso fácil, às piadas meio óbvias, e me diverti muito.  Há um bônus no filme, também, e não falo somente das cenas pós-créditos, mas de um final surpreendente até certo ponto.  Enfim, assistir uma comédia nacional é uma das maneiras de poder ir ao cinema com uma amiga querida que não compartilha dos mesmos gostos que eu.  Ela prefere filmes dublados, de ação e comédias.  O meio termo entre nós é encarar uma comédia nacional protagonizada por mulheres.  E, curiosamente, já é o terceiro filme com Ingrid Guimarães... Além disso, os cinemas da Baixada Fluminense, onde passo minhas férias longas, se especializaram em filmes nacionais e dublados.  É isso, ou ir para longe.  Agora, com Júlia, a coisa ficou mais complicada.

Loucas pra Casar começa com uma noiva em fuga, Malu (Ingrid Guimarães), depois de descobrir que seu quase marido, Samuel (Márcio Garcia), tem mais duas noivas.  Ela pretende se matar, mas descobre que suas duas rivais, Lúcia (Suzana Pires) e Maria (Tatá Werneck).  Tiveram a mesma idéia. A partir de então, voltamos no tempo e acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos até que Malu tomasse sua trágica decisão.  A protagonista tem 40 anos e trabalha como assistente de Samuel, o homem de sua vida, em uma grande construtora. Apesar de estarem namorando há três anos, não há o menor indício de que um pedido de casamento esteja por vir. Um dia Malu percebe que faltam algumas camisinhas no estoque pessoal do namorado e logo deduz que ele tem uma amante. Após contratar um detetive particular, ela descobre outras duas mulheres na vida de Samuel: a dançarina de boate Lúcia e a fanática religiosa Maria. A partir daí, as três vão disputar o amor e a atenção de Samuel tentando desbancar as rivais e se tornar a única na vida do amado.

A resenha será breve, ou assim espero.  Em primeiro lugar, Loucas pra Casar foi apontado como um filme machista em 100% das resenhas que li, curiosamente, todas elas escritas por homens.  Todos os textos focaram no fato de Malu, uma mulher profissionalmente bem sucedida, grande responsável pelo progresso da empresa na qual trabalha, algo que é reconhecido publicamente pelo seu chefe e noivo, ser obcecada pela idéia de casamento, como se isso fosse a solução para todos os seus problemas.  Uma mulher moderna e bem sucedida não precisa disso, claro, mas o que tem se perdido de vista, talvez para não entregar parte do final interessante do filme, é que Malu é uma mulher doente, muito doente.


A personagem de Ingrid Guimarães pegou o buquê em todos os casamentos nos quais esteve presente desde os anos 1980, no entanto, ela não consegue se casar.  Traída por todos os seus noivos e pretendentes, ela decidiu compensar sua frustração focando no trabalho e no controle de todos os aspectos da sua vida, tudo é milimetricamente planejado, todos os objetos têm seu lugar, há etiquetas até no nécessaire que leva em viagens, nenhuma poeira, mancha, ruga no lençol escapam dos seus olhos treinados.  Isso rende boas piadas, sem dúvida, mas entregam, também, as neuroses da protagonista.  E TOC, transtorno obsessivo compulsivo, é somente um deles.

Mais adiante, descobrimos que Malu tem uma mãe que é doente psiquiátrica, coisa que não vi em nenhuma resenha.  Parkinson ou outra coisa, o filme não esclarece, mas trata-se de uma mulher frágil, carente da atenção e suporte financeiro da filha.  Descobrimos, também, que ela foi abandonada pelo marido e aí começou o seu desmoronamento emocional e debilitação.  Malu precisa encontrar o homem perfeito para não cair na situação da mãe, seja o abandono, seja a solidão.  Ao focar no drama familiar de Malu, o filme mostra o quanto é caro manter e cuidar de um paciente psiquiátrico, e como Samuel é um apoio na sua vida nesse aspecto.  Homem de posses, ele gasta do seu bolso para que a sogra tenha algum conforto e bons serviços médicos; amoroso, ele consola e anima Malu.  Como não amar um homem assim?


Estou focando nesses aspectos, porque mesmo sendo uma comédia frenética, com todos os vícios do humor nacional ancorado em esquetes e piadas que se esticam demais (*vide a cena da igreja com Tatá Werneck interpelando o padre*), acredito que há mais para se discutir do que uma suposta fixação das mulheres pelo casamento.  Algo que não se sustenta quando olhamos o social com muitas mulheres solteiras e felizes, mas que, tampouco, se afasta daquilo que é vendido pelas novelas e outras mídias populares.  E a questão da maternidade nem entrou em discussão...  Loucas pra Casar não faz a louvação do casamento como destino, ainda que durante boa parte do filme, seja esta a crença de Malu.  Ela precisa se desdobrar, lutar para manter o “seu homem”, ainda que isso implique em se submeter às fantasias mais loucas... 

E as suas competidoras?  Lúcia, a personagem de Suzana Pires, é a dançarina de boate desbocada, com muita experiência com os homens, mas que se tornou “exclusiva” de Samuel.  Ela o ama, tem a chave de seu apartamento, seu número de celular, ... Ela não pensa em casamento até que conhece Malu e Maria. Ela está feliz até perceber que seu amante tem outras.  Suzana Pires está muito bem no papel, eu não a imaginava capaz de passar naturalidade fora das personagens classudas que a vi interpretando na TV e no cinema, mas ela consegue.  A jogadinha de cabelo então! Ainda assim, se não fosse a personagem de Tatá Werneck, o confronto entre Lúcia e Malu poderia ganhar ares mais dramáticos e menos cômicos. 


Tatá Werneck não convence como uma mocinha de 21 anos que parece ter menos.  Não convence mesmo!  No entanto, quem se importa quando a atriz é tão competente na arte de fazer rir?  O que foi aquela cena em que ela sai rolando pela porta como se fosse um tatu-bola?  E ela fez umas caras alucinadas que me deram medo.  A moça não é religiosa, é doida mesmo, e com cara de perigosa.  Fora isso, não fala coisa com coisa e, em alguns momentos, parece possuída por alguma entidade. A própria personagem se diz incorporada.  Ela se desdobra para fazer a vontades de Samuel fazendo a linha “Amélia”, mas, bem lá no fundo, tudo é uma estratégia para subir ao altar.  Sexo com ela é sem penetração, pois o “cabaço” só depois de casar.  Se Lúcia joga na cara de Malu que faz na cama aquilo que ela não faz, Maria diz para a protagonista que tem a juventude que lhe falta.  

Daí para frente, elas planejam estratégias para obrigar Samuel a se posicionar, escolhendo uma das três, ou competindo entre si.  No entanto, em nenhum momento o filme investe pesado nas sabotagens das mulheres umas contra as outras.  Elas se vêem como inimigas, querem ser a única na vida de Samuel, mas não há exagero nos confrontos entre elas.  Mesmo a inimizade fruto da disputa e da traição é relativizada em alguns momentos por Lúcia e Malu, já Maria é lunática, não dá para contar.  Obviamente, o mais razoável – e quem disse que um filme precisa ser razoável? – seria dispensar o sujeito e ir tocar a vida, mas sabemos que isso é muito raro e sempre acontece depois de decepções.  Um final como o de Recruta Benjamim, uma comédia feminista, é ao mesmo tempo empoderador e solitário.  Por mais cafajeste que Samuel possa ser, como Malu, ou as outras, podem esquecer do quanto são felizes com ele?  No caso de Malu, como não levar em conta o suporte financeiro e emocional que ele lhe da com a mãe?


De resto, a disputa entre as três segue até o altar com Malu cada vez mais alterada e perdendo controle sobre sua vidinha regrada.  O elenco de apoio conta com a talentosa Fabiana Karla como Dolores, a amiga confidente e lésbica de Malu. Dolores tem um caso amoroso com uma travesti – embora eu acredite que o termo adequado neste caso fosse transexual – que é citada tantas vezes no filme que seria frustrante não conhecer a figura.  Sim, ela aparece no final.  Já Lúcia tem, também, o seu amigo gay, Rubi (Edmilson Filho), seu coreógrafo e companheiro na investigação para descobrir quem é Malu. Alívio foi ver que o papel não era de Rodrigo Sant'Anna, a Valéria do Zorra Total, porque ele é figura fácil nas comédias nacionais atualmente.  Enfim, só Maria não tem um amigo ou amiga gay, como é um clichê insistente, só serviu para comprovar quão anômala é a personagem... 

Tudo caminhou para o altar, claro, e o retorno para a cena do suicídio.  Não posso entregar o final do filme, e isso compromete um pouco o meu texto.  Façamos o seguinte, abaixo do trailer haverá mais uns dois ou três parágrafos discutindo a reviravolta que torna Loucas pra Casar tão interessante.  De resto, trata-se de uma comédia divertida, se você desliga parte do cérebro, mas que parece reforçar a idéia de que a felicidade de uma mulher se completa com o casamento. Obviamente, o noivo era rico, compreensivo, fogoso e tinha a cara do Márcio Garcia.  Será que não cabe um desconto?  Dito isso, acredito que a película seja mais irônica do que interessada em reforçar o estereótipo da mulher casamenteira.  


Não preciso dizer, também, que o filme cumpre sem problemas a Bechdel Rule, ainda que o papo entre as personagens femininas normalmente seja Samuel, há alguns poucos diálogos que escapam. Isso, claro, não torna o filme feminista, aliás, Loucas pra Casar está bem longe disso, mas traz algumas boas sacadas e possibilita, sim, alguma reflexão sobre transtornos mentais e como as mulheres convivem com eles.   De resto, Loucas pra Casar é sucesso de público como tantas outras comédias nacionais.  No entanto, não imagino que possa ter continuação.  O final, aquele que não é possível comentar sem estragar o prazer de assistir ao filme, inviabiliza um segundo filme caça-níqueis.  E isso, aliás, é um alívio.  


Sim, se você está lendo este  parágrafo, ou viu o filme, ou não se importa que eu comente o final.  Pois bem, Malu não tinha rival alguma, tanto Lúcia, quanto Maria, eram invenções da sua própria mente.  Aliás, Malu = Maria Lúcia.  Apesar de haver matado a charada lá pelo meio, afinal, a personagem de Tatá Werneck era muito surreal, e havia várias coisas estranhas como três casamentos no mesmo dia e na mesma hora com o mesmo sujeito, fiquei bem angustiada com a cena na qual Malu descobre sua doença e se desespera.  A cena quer ser cômica, mas o efeito em mim foi de lenta tortura  com as três noivas caminhando para o altar e, ao mesmo tempo, todas as personagens vendo somente uma mulher falando sozinha...  

O suicídio de Mallu não era fruto da traição, mas da descoberta da doença, do fato de ter três  personalidades.  Suspenso o casamento, ela vai se tratar e temos um salto no tempo e uma nova chance para Malu e Samuel.  Eu preferia Malu tocando a vida, seguindo em frente, sem que a história de “um novo amor” fosse trazida para  a tela e ela finalmente se casasse.  No entanto, só de admitirem que havia uma doença e, não, mulheres disputando um homem, o lugar comum, foi um grande alívio.  A admissão do espaço para a fantasia - Malu via um belo Samuel onde ele não existia, também - é salutar, mas achei complicado ver as duas outras personalidades reaparecendo no final... 

Alguns podem acreditar que foi a obsessão pelo casamento a fonte da doença de Malu,  para mim, ela foi sintoma de problemas mais profundos.  A relação familiar conturbada, o abandono do pai. produziram na personagem a necessidade de perfeição.  Se a mãe tivesse sido perfeita para seu pai teria sido abandonada? Conheci mulheres  inteligentes, competentes, que se sentiam compelidas a aceitar migalhas de amor, porque, lá atrás,  faltou alguma coisa, normalmente,  amor de pai, um lar estável, o elogio ou a correção na hora certa, etc.  Mesmo com mães lutadoras e presentes, a sociedade parece reforçar que sempre falta alguma coisa e fica subentendido que a mulher falhou e, por isso, o homem foi embora.  E a  personagem de Márcio Garcia oferecia mais do que migalhas.  Não vejo o filme como um reforço de que as mulheres devem se submeter a todas as fantasias de seus parceiros, mas que há lugar para as fantasias, sim, só que Malu não fantasiava conscientemente ser  Maria e/ou Lúcia, elas eram parte de um quadro de transtorno mental.  Tratar disso em uma comédia é raro, ainda que nada tenha sido aprofundado realmente, o que é uma pena.

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2 pessoas comentaram:

Assisti o filme ontem e já estava preparada pra ver todo o machismo das criticas que já tinha lido, mas não achei nada disso, felizmente. O que era machismo, vi pelo lado irônico como vc disse.

O final é realmente uma boa reviravolta, não suspeitei que fosse isso *a lerda*
Também gostei como mostraram a questão da sexualidade: mulheres com vagina ou não, um gay sem ser estereotipado e um hetero que parece gay. Realmente, o que parece as vezes não é.

Caras. Eu fiquei bem em dúvida quanto a essa loucura dela. Se ela tava imaginando as duas rivais, pq aparecem cenas solitárias onde o Marcio Garcia fala com a dançarina e a religiosa?

E isso acontece sem uma ligação da Ingrid Guimaraes. Ficou muito confuso o filme...

pq nessas cenas isoladas do marcio garcia com as outras duas...em nenhum momento aparece a ingrid guimaraes sonhando ou imaginando isso.

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