domingo, 22 de maio de 2016

Comentando Liberdade Liberdade, a trama das 23h da Globo


O casal que não pode ser.
Finalmente acho que vou conseguir escrever alguma coisa sobre Liberdade Liberdade, a novela das 23h da rede Globo.  Como é uma trama de época, eu iria dar uma olhada de qualquer jeito, daí, fui ver os primeiros capítulos para sentir a história.  Resultado?  Depois de odiar o primeiro capítulo e apesar de achar a mocinha uma pessoa mimada e meio sem noção e o mocinho ainda mais insuportável, acabei me apaixonando pela novela.  Junto com Êta Mundo Bom! é a única novela que acompanho fielmente, por assim dizer, neste momento.  Mas do que se trata a novela em linhas gerais?

Joaquina ainda como Mel Maia, com o pai biológico e com o adotivo.
Liberdade, Liberdade se inspira (*bem*) livremente no livro Joaquina, Filha do Tiradentes, de Maria José de Queiroz, e conta a história da filha de Tiradentes em seu retorno para Vila Rica, a cidade de origem do seu pai, seu reencontro com as raízes e com o movimento de independência do Brasil.  Na novela, Joaquina (Mel Maia/Andreia Horta) testemunha a execução do pai (Thiago Lacerda) e é resgatada por Raposo (Danton Vigh), amigo de Tiradentes e rico garimpeiro.  Levada para Portugal por seu pai de criação, recebe uma educação refinada, mas com acréscimos pouco adequados para uma dama, como esgrima, luta e tiro.  Com a fuga da família real, ela termina voltando para a colônia, onde o pai, agora um par do Reino tem ricas propriedades.

Dom Raposo decide residir em Vila Rica, e tenta manter Joaquina, agora chamada de Rosa, longe de confusões.  Só que a moça conhece Virginia (Lília Cabral), a dona do bordel da cidade e apoiadora da causa da independência, e, para desespero do pai, termina atraindo a atenção e o afeto de Rubião (Mateus Solano), o intendente da cidade e um homem obcecado por prender os que conspiram contra a Coroa.  O que ninguém sabe é que Rubião, sob tortura, foi o responsável por revelar a identidade do Tiradentes e, mais tarde, de assassinar a mãe de Joaquina.  Só por conta disso, vocês já sabem que o romance dos dois não vai prestar e tem que terminar em tragédia, melhor seria se em duelo.

Rubião seria um vampiro?
Começarei logo explicando o motivo de ter odiado o primeiro capítulo, na verdade dois, não gostei de Thiago Lacerda como Tiradentes e achei a parte histórica do capítulo, muito exagerada, largada mesmo e com mais furos que um queijo suíço.  Vejam só, o Tiradentes de Lacerda me soltou lá pelas tantas do primeiro capítulo que eles, os inconfidentes, deveriam fazer como os franceses, usar a força e a guilhotina.  Ora, ora, eles estavam em 1789, a nossa Inconfidência é contemporânea do início Revolução Francesa, já a guilhotina só entraria em operação em 1792.  Ano da execução do próprio Tiradentes.  A principal influência sobre os inconfidentes brasileiros não foi a Revolução Francesa, mas a Americana, fora, claro, os Iluministas, estes, sim, na maioria franceses.  

Na verdade, me deu um nervoso tão grande esta história de guilhotina que eu fiquei desanimada em ficar assistindo a novela.  Só que o Thiago Lacerda e seu Tiradentes caricato morrem no primeiro capítulo.  Já no segundo capítulo comecei a gostar e, bem, não consigo perder um capítulo sequer.  Ainda que a novela peque por uns exageros, como a ênfase da heroína no discurso baseado em uma postura bem egocêntrica contra a escravidão sem citar sequer a abolição em outros países, como Portugal mesmo, ou até deplorar que nos EUA, modelo de república, ela ainda persista.  Fica parecendo que em 1808 a prática era um mal do Brasil, coisa que não era bem assim.  Fora isso, fica parecendo que os inconfidentes eram todos abolicionistas, quando, se muito, o era Tiradentes e mais um ou dois.  Aliás, nãos e explica na trama o fato do herói ter uma escrava, que é personagem histórica, aliás.

E nos livramos de Tiradentes!  Viva!
As amigas mineiras, ambas professoras que conhecem bem as cidades históricas de lá, ficaram reclamando, também, da reconstituição da cidade de Vila Rica, mas esta parte não tenho como comentar com propriedade.  O que sinto falta é das igrejas majestosas. Aparece somente uma na trama e parece que só há um padre na cidade inteira, coisa muito ridícula, por assim dizer.  Para se ter uma idéia, este site lista todas as igrejas históricas da cidade, a maioria é do século XVIII, enfim, essa parte da trama está muito pobre mesmo.

Outro probleminha – que parece estar desaparecendo – é a insistente comparação entre Europa – assim, genérica – e Vila Rica ou mesmo o Brasil.  Fica parecendo que Lisboa era o centro do mundo, ápice da civilização, ou que uma moça como Joaquinha, ou qualquer mulher, estivessem seguras saindo sozinhas altas horas da noite em uma cidade europeia.  Aliás, nem ontem, nem hoje.  Que as desigualdades sociais eram muito menos visíveis na Europa, ou que o saneamento básico fosse algo corrente para todos.  Até entendo que o André (Caio Blat) se sinta peixe fora d’água com seus ares de dandy, todo afetado e engomadinho, afinal, ele nem na Corte do Rio de Janeiro está, mas certos estranhamentos da mocinha em relação à vida na colônia não se sustentam.  

Xavier é salvo por Joaquina.
Na verdade, e isso vem sendo martelado a todo momento, o autor – a autora original foi demitida ainda na fase da escritura dos primeiros capítulos – se propôs a fazer um libelo patriótico.  Ele mesmo afirmou isso.  Para tal, ele investe pesado em um discurso de denúncia dos altos impostos, da corrupção e inércia dos agentes públicos.  Ele fala de ontem – Brasil República – para apontar para o hoje, ainda que de forma muito livre e superficial.  Mas o autor parece empolgado, olhem só: "Ela vem a calhar, porque agora estamos questionando nosso patriotismo, nosso orgulho. Acho a novela perfeita para esse momento (...) Você começa a estudar esse período do Brasil e vê semelhanças com a época atual. A taxa de analfabetismo era alta, a corrupção era endêmica, avassaladora. Mais ou menos a gênese do que vivemos hoje”.   A Globo já fez novelas que tiveram papel no desenrolar de algumas questões políticas do país, como O Salvador da Pátria, Vale Tudo, Pátria Minha etc.  só que eram todas novelas das 8, é muita pretensão pensar que uma novela de época das 23h poderia desempenhar papel mobilizador semelhante. Aliás, acho que nem precisa mais, não é mesmo?

Ainda assim, a novela – que não tem dever de ser documento histórico – é interessante e diverte.  As cenas são ágeis, a câmera é esperta, por assim dizer, a edição é excelente e há cenas de ação que dão ares de filme de capa e espada para a produção.  Houve um crítico de TV que disse que a novela parece vídeo clip, pode ser, mas isso vem trabalhando a favor da trama, não contra ela, eu diria.  Obviamente, poderiam ter colocado a ação em uma grande cidade da época, como o Rio de Janeiro, Recife ou Salvador, mas como optaram por levar Joaquina de volta para a terra de seu pai, o que temos é Vila Rica.  Voltando para as minhas amigas mineiras, elas bronquearam, também, com o sotaque que a maioria dos atores e atrizes não consegue colocar em tela.  Na verdade, nesse aspecto somente Marco Ricca – que está ótimo como Mão de Luva, pareça ele o bandido histórico, ou não – e Nathália Dill se destacam.

Marco Ricca dá um show em todas as suas cenas.
Falando de ambos, Mão de Luva não é propriamente um vilão, mas um sujeito que vive às margens da sociedade e pode fazer tanto o mal, quanto o bem.  Que sabe fazer alianças e quando rompê-las.  No momento, ele está com D. Raposo, o pai adotivo de Joaquina, investigando quem roubou o ouro do fidalgo.  Como Danton Vigh também está muito bem e fazendo uma personagem cheia de contradições, que mantém um tom rústico mesmo sendo nobre, e que mesmo explosivo é extremamente inteligente, a parceria está boa de se acompanhar.  Gosto bastante dos dois e a moralidade de ambos, a forma como administram as bondades e as maldades, parecem condizente com a época em que vivem.  Coisa que, por exemplo, a mocinha não consegue mostrar.  Citarei um exemplo.  

André mostrando que sabe lutar um pouquinho.
Em um dado capítulo, Joaquina agiu intempestivamente e terminou capturada por Mão de Luva e seu bando.  Ele reconhece na moça a filha de Tiradentes.  Pede resgate à Dom Raposo.  Enquanto isso, Joaquina tenta seduzir um dos captores, imaginando que poderia fugir.  O homem tenta violentá-la.  Mão de Luva intervém e decide “fazer justiça”.  Ele dá a oportunidade para Joaquina de atirar no homem e tirar-lhe a vida.  Seria isso, ou ele espancaria o sujeito até a morte.  Joaquina começa o discurso sobre barbárie e coisa e tal.  O homem acaba morto a pancadas.  Resgatada, ela conta ao pai o ocorrido.  Dom Raposo elogia o ato de Mão de Luva.  Ela fica horrorizada e volta a falar da barbárie da colônia.  

Ora, ela poderia até ser contra a pena capital, mas mesmo na Europa, qual seria o destino de um sujeito qualquer – pobre, plebeu, ainda por cima bandido – preso por tentar estuprar uma moça nobre?  Será que o bandido chegaria vivo às mãos da justiça ou seria punido pelo pai da moça?    Ficou parecendo que o autor colocou na boca da mocinha um discurso vazio de direitos humanos, sem que ela estivesse dialogando com sua própria época e usando os argumentos que seriam justos então: Mão de Luva não tinha o direito de tirar a vida do homem, mas ele deveria ser punido com dureza.  O historiador Georges Vigarello no seu livro a História do Estupro: violência sexual nos séculos XVI-XX mostra muito bem que nem todos os estupros eram iguais, mas, bem, uma situação dessas não seria tratada de forma muito mais leve do que Mão de Luva tratou.

O vilão.
Enfim, mas vamos falar do Rubião, o novo vilão de Mateus Solano e o sujeito que torna essa novela tão interessante.  Rubião é o representante da Coroa em Vila Rica, sujeito poderoso, frio, calculista e inteligente, ou seja, tudo que a maioria dos vilões de novela nos últimos tempos não conseguem ser.  Com o tempo, ficamos sabendo que ele é muito ambicioso, também.  Cobiça a fortuna alheia e é capaz de eliminar quem quer que seja.  Por outro lado, ele é capaz de sentimentos sinceros e não estou falando da mocinha, mas de seu irmão caçula, Ventura (Vitor Thiré), que ficou cego quando criança, e que ele tenta a todo custo fazer feliz.  

Pedido de casamento.
O sentimento pela mocinha parece ser sincero, mas é temperado com interesse, também, afinal, ela é rica e nobre, podendo servir para fazer avançar a carreira de Rubião.  Obviamente, quando ele perceber que pode ser descartado, ou traído, será o teste da personalidade do vilão.  Será que o autor vai colocá-lo para agir como um idiota, ou ele vai cozinhar a vingança e servi-la fria?  Sei, não, não confio muito na maturidade do autor de Liberdade Liberdade. Só que há outras duas mulheres na vida de Rubião, a governanta portuguesa, Anita (Joana Solnado), com quem ele mantém um caso e cujo ciúme pode levar o patrão para a ruína, e a mãe biológica do moço, que pode igualmente ser uma pedra em seu sapato.

Virgínia, um dos esqueletos que Rubião tem no armário.
Agora, um problema que para mim é muito grande em Liberdade Liberdade é o fato de Rubião já ser homem feito em 1789-92, enquanto Joaquina era uma criança.  Pior ainda, ele parece ser mais jovem agora, em 1808, do que mais de dez anos atrás.  Não sei se é culpa do bigode que foi retirado, ou porque ele está mais limpinho, mas o fato é que deveriam ter colocado um outro ator, para fazer o papel de Rubião quase adolescente na primeira fase.  Ele e Rosa/Joaquina juntos em cena parecem ter idade muito próxima.  E os atores tem quase a mesma idade mesmo e, para piorar, Andreia Horta aparenta a idade que tem.  Obviamente, é fácil esquecer disso quando eles estão juntos em cena, porque eles realmente combinam bem e as cenas dos dois são ótimas.

Prometo que é a última foto dos dois.
Como não consegui ir com a cara do Xavier, o mocinho da novela, que me parece ser a versão de época daqueles estudantes profissionais militantes políticos que povoam os corredores das faculdades públicas de Humanas, e o autor não é grandes coisas, não é difícil preferir o Rubião.  Olho para o Xavier e o vejo – caso não seja morto, obviamente – mudando de lado e abandonando seus ideais no futuro Brasil monárquico.  Fora, claro, que ele está de olho na mocinha e dormindo com a vilã.  A Branca é má, mas Nathália Dill, depois que acertou o tom da personagem, está deliciosamente divertida, ou seja, ela merece o Xavier e a mocinha pode passar sem ele.  Na sua frivolidade e crueldade, a Branca é um espetáculo à parte.  Nathália Dill é uma das melhores atrizes de sua geração.

Uma das melhores cenas de Branca: corrigindo o latim do (falso) padre.
Sim, sei que o romance da Joaquina com o Rubião não tem nem pode ter futuro.  Em um desdobramento ideal, Joaquina deve matá-lo em duelo, talvez depois que Rubião tenha acabado com a vida de gente muito próxima dela, seu pai, seu irmão, ou Xavier.  Estão até agravando as vilanias do Rubião para tentar quebrar a empatia e justificar que a mocinha se lance nos braços do mocinho.  No entanto, adoro as cenas dos dois.  Ele a está enganando, fingindo-se de bonzinho, mas os dois – que são ótimos atores – funcionam bem juntos.  Só lamento que o autor seja tão analfabeto em Jane Austen e outras romancistas da época que tenha perdido a chance de fazer uma belíssima cena quando Joaquina chama Rubião pelo nome pela primeira vez.  Não se perde uma chance desta, não quando você está fazendo tudo direitinho e colocando todo mundo se tratando com a formalidade devida.  O sujeito deveria se desmanchar todo, pedir que ela repetisse o nome dele e tal.  É o mínimo que eu exigiria, mas qual nada... 

Ascensão, a bruxa, a mulher sábia da cidade.
Das atrizes veteranas, Zezé Polessa e Lília Cabral vão muito bem.  A Virginia (Lília Cabral) é tão sem noção quanto Joaquina, arrastando a moça para o círculo de revolucionários sem se preocupar com os riscos que ela corre.  A história de transformar a filha de Tiradentes em um ícone da independência é de um exagero absurdo, o texto a trata quase como um Messias, o problema é que a novela trata certas coisas com muita seriedade, o que expõe ainda mais o rocambolesco da trama.  Aliás, no capítulo de terça-feira (*o último que assisti*) elas estão em uma reunião cheia de gente.  Não sei, não, mas não imagino que a boa sociedade fosse aceitar a dona do bordel em seu círculo somente por conta dos ideais políticos.  Fora isso, o autor enfiou uma personagem terciária para falar mal dos impostos.  É um mantra repetido.  O motivo da ruptura com a Metrópole parece ser só esse.

Já a Zezé Polessa é a bruxa da novela.  E ela encarna bem o papel da mulher sábia que vive alijada da sociedade e se recusa a dobrar-se ao sistema.  Trata-se de uma sobrevivente e é, talvez, a melhor personagem feminina da trama.  Ela é o mais próximo de uma personagem feminista, livre, inteligente, dona de si e tentando ajudar outras mulheres (*e mesmo homens*), especialmente, as que precisam abortar.  E uso feminista para ela e só para ela, pois a mocinha, para mim, é só uma mocinha mimada que acredita que a sociedade precisa se dobrar aos seus desejos e visão de mundo. 


A única função de Saviano é essa, fanservice.
Maitê Proença também está bem, apesar do escândalo que fez por terem revelado que a nudez em cena não é dela, está bem como a senhora que consegue gerenciar negócios e ser independente sem perder a imagem de boa mulher.  Tão boa e virtuosa que não permite sequer bebidas alcoólicas em sua casa.  Sim, falam mal dela, mas por conta dos boatos sobre sua vida sexual com os escravos.  Só que a personagem, que é sempre boa e amorosa com a família, carrega traumas terríveis devido às torturas que sofria nas mãos do marido.  Além de espancá-la, ele marcou seu corpo com navalhadas.  Aliás, nestes próximos capítulos, ele deve voltar para aterrorizá-la.

Falando nisso, as pessoas parecem esperar que uma novela das 23h tenha muita nudez e sexo.  Até o momento, as poucas cenas que trouxeram isso foram bem gratuitas por assim dizer.  Até deram uma diminuída. Não vou dizer que cenas de sexo e nudez precisem ser censuradas, mas elas têm que ter alguma função na história e não serem meramente gratuitas, como a das prostitutas tomando banho de rio.  São mais sensuais, pelo menos aos meus olhos, a cena do Rubião observando furtivamente o sono de Joaquina, tal e qual um vampiro, por assim dizer, ou o André se derretendo diante do torso nu do Coronel Tolentino.  Aliás, foi uma bruta cena de objetificação, pois nem o rosto do Ricardo Pereira apareceu na cena.

Fanservice e objetificação no masculino.
Falando em Tolentino, outro que deveria ter sido trocado, ou envelhecido, seria ele.  Ricardo Pereira precisaria ser mais velho que Rubião lá no primeiro capítulo e ele, também, parece jovem demais nesta fase.  Falando nele, está previsto o romance, ou sei lá, de Tolentino com André, irmão de Rosa. Eu não queria nada disso, não, a não ser que o Tolentino mudasse muito, mas muito mesmo.  Como bem descreveu a Mimi (Yanna Lavigne) – a prostituta que se tornou amiga de André e que serve de cortina de fumaça para ele – Tolentino é mau, trata as mulheres e todo mundo mais com crueldade.  Eu gosto do André, poderiam engrenar, se o objetivo é este, um romance dele com o Saviano (David Junior), o escravo bonitão da tia Dionísia, iria ser tão transgressor quanto.  De resto, ninguém explica como Raposo ensinou tanto das artes militares para Joaquina e tão pouco para seu filho.  Custa separarem uma coisa da outra?  André poderia ser gay, e bem afetado até, e ser ótimo montando, atirando e esgrimindo.  Essas coisas me cansam. 

O ótimo Bukassa Kabengele.
Uma das minhas personagens favoritas na trama é Omar, interpretado pelo lindo do Bukassa Kabengele.  Ele teve cenas importantes, porque sendo negro, livre e com patente, é uma exceção em qualquer lugar.  Ele sabe o valor que tem, mas, ao contrário dos sem noção da trama, não sai por aí achando que o mundo vai se dobrar diante dele.  Enquadrou o Coronel Tolentino, mas ficou com a vida por um fio quando tentou ser atendido em uma taverna e foi rejeitado por ser negro.  E foi salvo pelo Xavier.  O chato é adiantarem a descoberta de que o Xavier conspira contra a Coroa, como se a novela fosse terminar daqui duas semanas.  Queria o Omar se torturando por ter que prender e mandar para a morte o homem que salvou-lhe a vida e é seu amigo.  Não sei como vão resolver a questão.

Bertoleza na última moda.
De resto, que mais falar?  Já escrevi horrores... Bem, não consigo olhar para a Sheron Menezzes e pensar nela como vilã, ou uma personagem muito fresca.  Sua Bertoleza é bem fresca, mas é boa. Ainda que mais adequada que a Rosa, também é meio sem noção, pois parece que querem nos vender que uma mulher negra na Europa seria tratada qual e tal uma branca, que nunca enfrentaria obstáculos.  Bertoleza agir como se esquecesse sua cor e somente lembrasse dela ao ser confrontada com a escravidão é exagero.  

Já a tia que chegou de Paris parece pré Revolução Francesa.
Falando ainda nela, Bertoleza parece ser a única que se veste na última moda, seus vestidos são lindos, escrevo isso, porque Rosa volta e meia está com vestidos tipo camiseta que me fazem querer gritar e a Alexandra (Juliana Carneiro da Cunha), tia de Nathália Dill, chegou da corte francesa e se veste ainda como se estivesse no século XVIII.  Pensei que usariam esta atriz para agravar o abismo entre as mulheres de Vila Rica vestindo-se com moda de 20 ou 30 anos antes e as que vestem na última moda – Império (na França), ou Regência (na Inglaterra).  Só que bagunçaram tudo mesmo.

É isso, desculpem o tamanho do texto.  Escrevi demais.  Talvez não tenha dado a dimensão do quanto, apesar de problemas pontuados à exaustão, eu estou gostando da trama. Acho Liberdade Liberdade um grande entretenimento.  Uma novela que lembra os filmes de Três Mosqueteiros com lutas de espada e correrias, mas que peca por não saber trabalhar certos temas, um deles, o romance de época.  Lamento, também, que a mocinha seja tão chata, tão certa de que tudo sabe e de que pode tudo.  Fica sempre parecendo que é difícil escrever mulheres fortes, de que para serem desse jeito precisam se deslocar de seu tempo, serem alienígenas no meio do resto dos mortais.  Um pouco de romances de época escritos por mulheres ajudariam bastante.  Imagine uma Jo March de Little Women que pudesse ter a instrução militar que Joaquina teve?  Seria uma heroína muito mais legal.  É isso.  Não devo voltar a falar da novela tão cedo, a não ser se algo muito explosivo aconteça.

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2 pessoas comentaram:

Joaquina não me desperta altas emoções - sinto falta da menina dos primeiros episódios. Claro que amadurecimento é natural, mas sua ausência de raiva, de sentimentos "feios" atualmente contribui pra meu pouco apego com a protagonista. Tudo nela é muto vago, uma bondade indistinta... E essa vagueza também está em Liberdade Liberdade num geral quando se trata de ideais. O enredo que envolve a revolução quase sempre me traz certa dose de vergonha alheia. A cena recente da reunião dos inconfidentes mostrou bem que até aqui o ponto forte não é, bem, a luta pela liberdade. Ri um tanto do discurso besta de Xavier sendo tão admirado.

Não costumo amar vilão, mas gosto de Rubião (pirações cronológicas à parte). Acho-o até bem satisfatoriamente engraçado, sem intenção! A pobre da governanta que atura-o quando ele pede conselho amoroso, o amor pelo falcão (seu melhor amigo!), o fato que ele realmente ama e admira Joaquina mas não consegue aplicar tal apreciação de valores em prática (vide ele jogando Alexandra na prisão)... Não sei, de forma sombria tem uma coisa meio cômica. Mateus Solano é carismático, e compará-lo com Andreia Horta e Bruno Ferrari é de dar dó.

Não assisto essa novela mas pelo pouco que li e vi (um episódio e meio e umas poucas cenas no Gshow) a Maitê Proença é a versão feminina do Leôncio da Escrava Isaura, no que tange sua relação com os escravos, com o agravante de que ela não me parece ser retratada de modo vilanesco e de não haver nenhum tom de crítica aos abusos que ela comete. Pelas informações que li, o Saviano tem uma garota de quem realmente gosta, que também é escrava junto com ele, mas a sinhá a castiga e expulsa quando descobre os dois, ainda torturando o cara depois.

Vi a cena dela com o Saviano na banheira, que originou todo o burburinho entre os dois, e aquilo era pior do que eu imaginei - coerção sexual no máximo! A sinhá se aproveitando de seu status e seu poder de vida ou morte sobre o escravo pra submetê-lo à sua vontade. Ela se banqueteia no corpo dele sem que o sujeito esboçe qualquer sinal de prazer, mas tudo o que a internet fala é do físico "do negão".

Pra mim, aquilo foi um estupro sem tirar nem por - mais um capítulo na longa história de objetificação e fetichização do homem negro por mulheres e mais recentemente gays brancos na mídia e sociedade em geral - que por vez é mais um elemento do nosso racismo. O homem negro nunca vai ser o galã da produção mas pode ser o corpo e/ou falo a alimentar fantasias alheias, da mesma forma que a mulher negra não pode ser a protagonista mas pode ser a "moreninha abusada" a atiçar o pobre homem branco. Essa não é a primeira (vide Em Família e Presença de Anita) e nem será a última novela a usar o corpo masculino negro simplesmente como fanservice, como apontado no texto, mas me surpreende o quão pouco as pessoas notam essa objetificação e hiperssexualização está ligada ao nosso histórico racista, escravista e colonial. Aliás, sob esse prisma, Liberdade, Liberdade parece ser um ótimo retrato da época: não fazia muita diferença se era sinhô ou sinhá, se a carne era escura eles consideravam propriedade legítima deles. Acho que de novelas, pelo menos brasileiras, eu tô feito.

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