segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Comentando O Beco do Rosário – volume 1


Anteontem, concluí a leitura do volume 1 de O Beco do Rosário, premiada HQ da brasileira Ana Luiza Koehler.  Trata-se de um trabalho autoral que se desdobra página à página de forma artesanal, é como uma obra de arte que se destaca pelo apuro com os detalhes da arquitetura, do vestuário e das expressões faciais das personagens.  Beco do Rosário foi o vencedor do prêmio de Publicação Independente de Autor do último HQMix e certamente mereceu a sua estatueta.

Beco do Rosário acompanha a algumas personagens nos anos 1910 e 1920 do século XX (*não sei se a história se desdobrará por outras décadas de nosso século*).  Uma das personagens principais é Vitória, uma moça negra que sonha em ser jornalista, outra personagem central é Teo, um engenheiro, filho de alemães, que volta da Europa e termina contratado para participar dos projetos de remodelação de Porto Alegre.  E, sim, a cidade, com seus becos em extinção, suas sonhadas largas avenidas, é outra grande personagem da história.  Tudo acontece na cidade.  Tudo gira em torno da cidade.  É nesse espaço que as personagens ganham, vida.

Cidade sonhada, cidade real.
A autora de Beco do Rosário é arquiteta e ilustradora, dedica-se tanto ao desenho de quadrinhos como a trabalhos na área de arquitetura e arqueologia.  Sim, Ana Luiza Koehler se interessa por arqueologia urbana e o Beco do Rosário é sobre isso, também, as raízes de uma cidade, suas transformações, o redesenho da urbe para que ela ganhe feições mais modernas, na concepção dos gestores, mas carregada de (pre) conceitos sobre raça, classe, higiene, o lugar de cada um na Porto Alegre que se expande.  

Não conhecia o “bota-abaixo” de Porto Alegre, mas foi algo imitado do ocorrido no Rio de Janeiro no início do século.  Este,eu conheço bem, foi largamente documentada, dou aula disso todos os anos e foi central, por exemplo, na primeira fase da novela Lado à Lado, da Rede Globo, e em outra novela que me é muito amada, O Direito de Amar.  Os pobres moradores do centro, que habitavam seus becos e cortiços, tratados como marginais, como ameaças à saúde da cidade e dos seus moradores “de bem”, difamados e empurrados para os arrabaldes, no Rio, foram os subúrbios e favelas.  Sem moradias baratas e próximas de seus empregos, sua vida tornou-se mais difícil, mas a cidade renasceu moderna, espelhada em metrópoles europeias.  Largas avenidas, como a Rio Branco, no Rio, surgiram nesta época.  Alguns becos, como o do Rosário (*do Rio*) sobreviveram, mas na capital da República, até o grande Morro do Castelo desapareceu.

A arte de O Beco do Rosário.
A formação da autora e seus interesses transparecem na preocupação com os detalhes, com as minúcias históricas, as notas e uma introdução que parece feita para agradar historiadores, como eu, discutindo os meandros da história, o que é fato e ficção, como ambos se costuram.  A história de Vitória, a protagonista negra que sonha em ser jornalista, entrecruza raça, classe e gênero ao abordar as limitações impostas a uma mulher pobre e negra.  Vitória é talentosa, mas sempre subestimada.  Só que ela não se dobra e isso é importante para garantir sua independência e possibilidades de ação no social.

A questão das mulheres também começa a ser discutida através da personagem Frederica, amiga de infância de Vitória.  Moça rica, irmã de Teo, ela era pianista e concertista antes de casar e se sente triste por não poder continuar com a carreira depois de casada e lamenta isso.  Ninguém exige tal sacrifício de um homem.  Eles podem continuar com suas carreiras independente de um casamento.  Obviamente, há o recorte de classe.  Quais mulheres podem se dar ao luxo de não trabalhar?  Não as pobres como Vitória.  Aliás, será que Teo levará adiante os planos de infância de se casar com ela?  Seria um escândalo.

Estudo de cor.
A outra protagonista é Teo, um engenheiro filho de alemães e que estudou no país de seus ancestrais.  Teo combateu na I Guerra, foi amputado, e tem que conviver com as expectativas dos pais, que desejam que simplesmente assuma os negócios da família e se acomode, como se o diploma servisse somente para distinção social. Além disso, o rapaz passa a ser visto como um inválido. Ele, no entanto, quer ter sua própria carreira e recebe uma mãozinha do cunhado, casado com Frederica, para conseguir um emprego na prefeitura.  Jeitinho típico brasileiro, mas acho que o cunhado cobiça o lugar de Teo na fábrica do sogro.  Trabalhando no bota-abaixo, Teo sente simpatia pelos que serão desalojados, percebe a crueldade do projeto.  Mais cedo, ou mais tarde, seus caminhos vão se cruzar com os de Vivi.  Vamos ver como ele vai agir nos próximos capítulos.

E chegamos ao ponto que desgostei: O Beco do Rosário é muito curto.  Quando comecei a me empolgar muito com a leitura, acabou.  Pior, não há realmente uma previsão de lançamento do volume #2. O primeiro saiu em 2015, não houve lançamento este ano... Será que em 2017 teremos mais?  Assim espero.  É isso, trata-se de um quadrinho brasileiro de grande qualidade.  Para adquirir a obra, é só seguir as informações do site da autora.  O site oficial também tem desenhos de produção, estudos, enfim, muito material interessante.  Vale a visita, mesmo que você não se interesse pela obra.

GOSTOU?

0 pessoas comentaram:

Related Posts with Thumbnails