sábado, 26 de agosto de 2017

Comentando 4as Jornadas Internacionais em Histórias em Quadrinhos



Entre os dias 22 e 25 de agosto, estive em São Paulo participando das 4as Jornadas Internacionais em Histórias em Quadrinhos, promovido pelo Observatório de Histórias em Quadrinhos e pela Escola de Comunicação (ECA) da USP, trata-se do maior evento acadêmico da área da América Latina.  Um dos maiores do mundo, sem dúvida.  Aliás, uma das coisas que muita gente não sabe é que o Brasil é um dos pioneiros dos estudos com quadrinhos no mundo.  A primeira exposição internacional foi promovida aqui, organizada por um jovem chamado Álvaro de Moya em 1951, no auge da perseguição aos quadrinhos.  Em nosso país, um dos grandes opositores era o “Corvo”, Carlos Lacerda, um inimigo terrível, para dizer o mínimo.  O livro, Shazam (1970), de Álvaro de Moya, é um marco nos estudos acadêmicos com quadrinhos e republicado até hoje.   A  primeira tese acadêmica sobre mangá, foi defendida em São Paulo por Sônia Bybe Luyten.

Álvaro de Moya iria lançar um livro (Eisner/Moya - Memórias de Dois Grandes Nomes da Arte Sequencial) nas Jornadas e seu falecimento recente, em 14 de agosto de 2017, gerou grande comoção e uma singela homenagem ao profissional multimídia – jornalista, desenhista, roteirista, acadêmico etc. – que alavancou os estudos teóricos com quadrinhos foi feita  durante a abertura do evento.    

O jovem Álvaro de Moya
Outro homenageado no primeiro dia das Jornadas foi o professor Waldomiro Vergueiro, um dos organizadores do evento, e outro grande responsável pelo desenvolvimento dos estudos com quadrinhos no Brasil e pela criação, junto com Moya, do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP.  A história de como os professores Nobu Chinen e Paulo Ramos publicaram um livro do Waldomiro sem que ele soubesse vai se tornar lenda... Sim, é uma história fantástica e que envolveu várias pessoas e muitas mentiras.

Randy Duncan
O conferencista da primeira noite foi o professor norte americano Randy Duncan.  Essencialmente, ele discutiu como os quadrinhos passaram a ser objeto de estudos acadêmicos e as transformações no perfil dos pesquisadores, em um primeiro momento, a maioria eram eles e elas fãs de quadrinhos, introduzidos em sua leitura em uma tenra idade, hoje, aumenta o número de pesquisadores e pesquisadoras que descobrem os quadrinhos adultos, muitas vezes na faculdade, e se interessa academicamente por temas como racismo, estudos de gênero, entre outros.  Esse novo tipo de pesquisador traz um olhar diferenciado e mostra a forma dinâmica e plural como nos relacionamos com quadrinhos.  Me pergunto que tipo de pesquisadora sou eu... Enfim, foi uma conferência muito interessante.

No segundo dia, a conferência foi com Nick Sousanis, matemático e quadrinistas, foi a primeira pessoa no mundo a publicar uma tese de doutorado em quadrinhos.  Sim, em quadrinhos.  Pelo que depreendi da coisa toda, seu trabalho é na área de filosofia da educação, Unflattening é o nome da obra.  E eu fiquei ouvindo o homem falar e vendo seus desenhos projetados e pensando somente em como ele é inteligente.  Não tenho palavras para qualificar.  Fico grata pelo evento ter trazido Sousanis, meu chefe ter me liberado para o evento (*sim, eu trabalho, precisei de autoriação*), por ter recursos para vir, e, detalhe importante, o livro de Sousanis foi lançado no Brasil.  O nome é Desaplanar.  Está à venda na Amazon por 50 reais.  Nas outras livrarias, custa mais de 80 reais.

Exemplo da arte de Nick Sousanis.
Não pude assistir as conferências de quinta (José Marques de Melo e Waldomiro Vergueiro) e sexta (Daniele Barbieri).  Quinta, fui encontrar a Lina, precisava rever essa amiga querida, companheira de Shoujocast.  Já na sexta, bem, voltei para o Rio (*filhinha ficou com os avós*) pela manhã.  Se tivesse que tecer uma crítica ao evento, que foi extremamente organizado, seria o fato de nenhum dos conferencistas ser mulher. Sim, 100% de homens.  Não pensaram em uma especialista que pudesse vir? Nenhuma aceitou? Da vez anterior, tivemos Trina Robbins.  Precisamos mostrar que há diversidade na área.  Aliás, ela estava muito bem marcada nas sessões de comunicações.   Aproximadamente 200 trabalhos em quatro dias.

Prof. Waldomiro Vergueiro.
 Minha mesa de comunicações foi no primeiro dia e na terça e na quarta procurei assistir uma mesa de cada horário – 14h e 16h – pelo menos.  Tudo começou no horário certinho, 15 minutos para cada comunicação, então, qualquer atraso era fatal.  Resultado, quando cheguei no primeiro dia, já estava no final da segunda comunicação.   No segundo, como saltei no ponto errado, só assisti a última comunicação das 14h. As mesas que assisti, ou pelo menos tentei, foram as seguintes (*vocês podem acessar a programação completa aqui*):

Sala 201 – 14h – Terça-feira – Coordenadora: Giulia Crippa – Protagonismo Feminino nos Quadrinhos: Representação, Feminismo e Super-Herois (Beatriz Farias de Miranda e Otoniel Oliveira); Mulheres nos Quadrinhos: Invisibilidade e Resistência (Carolina Ito Messias e Giulia Crippa); Mônica e Mafalda: Reflexos e Construção da Memória do Feminismo (Débora do Nascimento); Público e Privado em Quadrinhos de Autoria Feminina entre Tradição Literária e Inovação de Linguagem (Giulia Crippa)

Dykes to Watch out for, onde se criou a chamada Bechdel Rule
Basicamente, pelo que depreendi, o trabalho da Carolina Ito (*ela estava apresentando*) era relacionado ao Lady’s Comics, eu a conheci no evento de Minas, aliás; o da Beatriz Farias de Miranda era um trabalho de graduação, parecia bem no início ainda, sobre representação feminina nos Comics; já o trabalho de Giulia Crippa comparou várias autoras, como Marjane Satrapi (Persepólis, Bordados) e Alison Bechdel (Dykes to Watch out for).  O problema maior eram os tais 15 minutos. No primeiro dia marcaram em cima desse aspecto, sem direito a minutinhos extras.

Sala 202 – 16h – Terça-feira – Coordenadora: Valéria Fernandes da Silva (*Eu*) – Segunda Guerra Mundial em Mangá: Ícone, Memória e História (Janaína de Paula do Espírito Santo); Relatos de Vida: o Vínculo Com a Natureza e o Essencial Invisível aos Olhos no Mangá (Kamilla Medeiros do Nascimento); Os Ainu e a Cultura Pop Japonesa (Luana Bueno Cyriaco); Construindo a Verdadeira Mulher: Quando a Cultura do Estupro se Traveste de Romance nos Shoujo Mangá (Valéria Fernandes da Silva) 

Na minha mesa, e não vou comentar meu trabalho, havia uma ausência, a Kamilla Medeiros do Nascimento, faltou, ainda assim, o monitor marcou o tempo para que ninguém ultrapassasse os 15 minutos.  Lembro que nas Jornadas passadas, algumas mesas se estenderam demais e prejudicaram o andamento das atividades que vinham em seguida.  Isso deve ter pesado este ano.  O trabalho da Luana, que é de Brasília, discutia a imagem dos ainu nos mangás, especialmente, em Shaman King.  Os ainu são um povo autóctone do Japão que sofreu muita perseguição ao longo de séculos.  Daí, interessante discutir como, nos últimos anos eles estão sendo retratados em mangás e outras mídias.  É um trabalho inicial ainda.  Já o trabalho da Janaína, que estava passando mal da coluna, muito mal mesmo, mas apresentou bravamente, trata da representação da Segunda Guerra dentro de uma série de mangás, como esse conhecimento de um evento histórico que uniu Ocidente e Oriente é reproduzido em mangás tão diferentes como Zero Eterno, 1945, Hetalia, entre outros.  Trata-se de um trabalho de doutorado,algo bem mais elaborado, portanto.  

Zero Eterno e o deslize  da JBC.
 Algo muito importante que a Janaína trouxe, foi a informação de que Zero Eterno, publicado em cinco volumes da JBC, causou grande controvérsia internacional e foi proibido na Coréia do Sul e China, acusado de apologia às ações japonesas na Segunda Guerra, mais especificamente, de uma divisão de kamikaze, considerada terrorista.  Para Janaína, o mangá é fascista na sua perspectiva da II Guerra. Confesso que deixei passar esse mangá, nem lembrava dele, mas suspeito que a JBC lançou a coisa na surdina.  O fato é que a série deriva de um livro, um dos mais vendidos no Japão na última década, escrito por um membro do partido conservador e amigo do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, virou filme de grande sucesso e tudo mais.  A JBC deveria ter lançado o material com uma introdução crítica por questão de responsabilidade e poderia até lucrar com a controvérsia internacional.  Nada disso foi feito.  

Sala 201 – 14h – Quarta-feira – Coordenador: Rozinaldo Miani –  Imagens Sequenciadas como Estratégia Crítica Presente nas Caricaturas dos Ex-Presidentes FHC e Lula (Lígia Carla Gabrielli Berto e Marilda Queluz); Brasil, 2016: Humor Político e Resistência nos Quadrinhos (Regina Maria Rodrigues Behar); Laerte e o Pós-Impeachment: uma Análise da Arte de Laerte Sobre o Governo Temer (Fernanda Alcântara Pestana Bazan); Uma Análise das Charges de Carlos Latuff sobre a Alca: Crítica à proposta de Integração Continental Subordinada (Rozinaldo Miani)

Cheguei atrasada para essa mesa que periga ter sido uma das mais interessantes do evento. Queria muito ver o trabalho sobre Laerte e só consegui ver o sobre Latuff e a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).  Enfim, o professor Rozinaldo Miani mostrou um domínio fantástico tanto da teoria, quanto do material do chargista e do tempo de apresentação.  Em menos de 15 minutos, acho que ele usou 13, apresentou seu objeto muito bem.  Confesso que não lembro do trabalho de Latuff da época da rejeição da adesão a ALCA, mas considero o chargista um dos mais competentes na sua área e isso independe de concordar com ele em tudo.  Algo curioso é que Latuff não cobra nada pelas charges relacionadas a questão palestina, aliás, ele é conhecido mundialmente por elas.

Exemplo da arte de Latuff
Enfim, a discussão foi muito rica, trouxeram a baila perguntas sobre a forma como Latuff representa os negros.  O autor disse que nunca conversou com Latuff sobre isso, mas  que a questão das acusações de machismo foram tratadas pelo autor em uma das conversas. Não se tocou no caso que eu cheguei a comentar no blog, quando ele cismou de separar as boas e a más feministas, mas em outro relacionado, que não acompanhei.  Latuff, aliás, parece ter se saído bem, ele disse que nunca afirmou não ser machista, porque ele foi formado em uma sociedade machista.    De resto, as autoras presentes e o coordenador mostraram um domínio muito bom dos seus respectivos objetos e a coisa rendeu bastante.  Se eu não tivesse descido no ponto errado... Mas foi recomendação do cobrador e eu acatei.  

Sala 205 – 16h – Quarta-feira – Coordenadora:  Renata Mancini – O Cânone Literário Segundo os Quadrinhos no Brasil (Renata Farhat de Azevedo Borges); Estratégias Semióticas na Adaptação de Grande Sertão: Veredas Para Quadrinhos (Renata Mancini); Dom Casmurro: Impasses Machadianos nos Quadrinhos (Gleica Helena Sampaio Machado Macedo e José Carlos Felix); Quadrinho Maneirista - Imagens Labirínticas em Patrulha Do Destino E Corporação Batman de Grant Morrisson (Raimundo Clemente Lima Neto e Selma Regina Nunes Oliveira)

A última mesa que assisti foi sobre literatura, com um trabalho sobre Batman sobrando, por assim dizer.  Independentemente de sua qualidade, e a professora Selma, que orienta o Lima – ele é dono da Kingdom, que foi, durante anos, a mais importante gibiteria de Brasília – foi orientanda de doutorado da minha orientadora, então, é gente que conheço, ele não casava com o que se estava discutindo, ou, talvez, eu tenha uma percepção muito limitada da coisa.  Havia uma mesa sobre mangá no mesmo horário com três trabalhos, eu mandaria o Batman para lá, mas eu não sou organização, então... Como vi desde o começo, pude aproveitar tudo.

José de Alencar, um dos mais adaptados no século XX.
De todos os trabalhos da mesa, o menos teórico, por assim dizer, foi o de Renata Farhat de Azevedo Borges.  Como perdi o iniciozinho, não perdi a apresentação da autora, mas ela disse várias vezes que não era propriamente acadêmica, mas alguém da área editorial.  O fato é que em seu trabalho, e pretendo ir atrás da sua tese de doutorado, discutiu a existência de um cânone literário relacionado aos quadrinhos no Brasil, isto é, em primeiro lugar, houve o uso das adaptações da literatura para as HQs como uma forma de legitimar a nona arte, em seguida, detectar quem eram os mais adaptados dos séculos XX e do século XXI até agora.  Quem merece ser  lido?  Quem merece ser traduzido para quadrinhos?  Mais recentemente, quem vai para as bibliotecas escolares. Não sei se a pesquisa dela fechou em 2013, porque ela falou em inclusões constantes de materiais que foram esquecidos, mas ela esqueceu Helena do Studio Seasons.  Eu ia questionar isso, mas ela não ficou para a discussão.

De qualquer forma, na correria, porque o tempo era aquele dos terríveis 15 minutos, anotei que os mais quadrinizados no Brasil no século XX foram Monteiro Lobato, Alexandre Dumas e José de Alencar.  Aliás, a primeira adaptação sabida de literatura para quadrinhos em nosso país, em 1934, foi O Guarani.  Já no século XXI, temos Shakespeare, Machado de Assis (*com a repetição de Cartomante, O Alienista e Dom Casmurro em excesso*) e Julio Verne.  E ela marcou bem que em nosso século – e eu falei sobre isso no meu trabalho na ANPUH, também – o dinheiro do MEC, a possibilidade de inclusão de títulos no PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), tem impulsionado as editoras a adaptarem literatura para quadrinhos.  Com o nosso novo (des)governo, ninguém sabe como vai ficar.

Exemplo de Grande Sertões Veredas
O segundo trabalho, que foi da coordenadora da mesa, mostrou um equilíbrio entre a teoria e a análise do objeto.  A professora Renata Mancini, que é da UFF, fez toda a discussão sobre os quadrinhos serem uma tradução da obra literária e de todos os obstáculos e possibilidades envolvidos.  Ela faz parte de um grupo de pesquisa que discute exatamente as adaptações/traduções de uma mídia para outra, como literatura/quadrinhos, cinema/quadrinhos, literatura/cinema etc.  Ela percebe os quadrinhos como um texto, um ato enunciativo, e analisa as múltiplas estratégias de textualização da obra original nesse novo texto.  Daí, ao analisar Grandes Sertões Veredas, esse monumento da literatura nacional, ela discutiu como Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli conseguiram traduzir Guimarães Rosa.  Por exemplo, quando Riobaldo era narrador, usava-se travessão, quando ele era personagem, o balão.  Um trabalho bem interessante mesmo.

Um dos Dom Casmurro analisados.
O trabalho da Gleica Helena Sampaio Machado Macedo, ela apresentou e acredito que seja parte de sua dissertação de mestrado, trabalhou com três edições de Dom Casmurro em quadrinhos.  Discutiu a intermidialidade, isto é, como o material foi transposto da literatura para quadrinhos, como cada desenhista/roteirista resolveu algumas questões, individualizou as personagens.  Eu fui olhar o resumo do trabalho e não encontrei o nome dos autores das adaptações de Dom Casmurro, seria importante para que eu comentasse algumas coisas.  De qualquer forma, nos curtos 15 minutos, ela trabalhou com três pontos a representação de Capitu (*seus olhos, especialmente*), como Bentinho era apresentado visualmente nas múltiplas fases de sua vida, e como o filho dos dois, que Bentinho supõe ser de Escobar foi desenhado.  Enfim, em uma das adaptações, o rosto do menino nunca é mostrado.  Houve um dos desenhistas que disse querer ver Capitu através dos olhos de Bentinho, portanto, tomar partido, mas não consegui anotar quem era... 

Na discussão, levantaram-se várias questões sobre como nem sempre a obra escolhida pelo MEC é a melhor.  Como a criatividade faz diferença em uma adaptação/tradução.  Havia gente trazendo experiências de orientação com trabalhos usando quadrinhos/filmes/livros. De qualquer forma, e já terminando, é legal ver a evolução – nesse sentido mesmo, para melhor, para o mais diverso, criativo, teoricamente estruturado – dos estudos da área no Brasil.  Espero poder evoluir junto, crescer, também.  Minha impressão é de que o que eu faço não caminha junto como que há de melhor da produção acadêmica da área no Brasil.  É isso.

P.S.: Imagens só quando eu voltar para casa e estiver com uma conexão decente.

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