quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Comentando Possessão (Possession, 2002)


Ontem, assisti Possession, o outro filme de época com Jeremy Northam citado pelo post do Frock Flicks.  Eu gosto bastante de Possession, mas, efetivamente, não é um grande filme como The Winslow Boy.  Rever o filme tantos anos depois, quase dez, acredito, confirmou minhas impressões iniciais, e fez com que eu me perguntasse como deletei da memória a informação de que a personagem de Jennifer Ehle era bissexual, porque, na época, a coisa deve ter passado batida por mim, assim como o fato do filme ter dois adultérios e ão somente um.  Enfim, o filme pode não ser esta maravilha toda, mas há umas discussões importantes que a gente pode fazer com ele.  E, sim, apesar do título, o filme não lida com assuntos paranormais, ou espiritualistas.

Final do século XX, Roland Michell (Aaron Eckhart) é um norte americano que estuda a obra do poeta vitoriano Randolph Henry Ash (Jeremy Northam).  Ele se sente deprimido, não conseguiu que seu orientador o escolhesse para um posto de professor assistente e acredita que sua carreira está estagnada.  Um dia, pesquisando na Biblioteca de Londres em um livro de História Natural que pertencera à Ash, ele encontra uma carta de amor escrita pelo poeta.  Apesar de saber que era um crime, ele decide levar a carta.  Michell fica intrigado com a possibilidade de um envolvimento amoroso do poeta, conhecido por seus rígidos padrões morais e pela fidelidade à esposa, com outra mulher e não qualquer mulher, pelos seus cálculos só poderia ser a poetisa pré-rafaelita Christabel LaMotte (Jennifer Ehle).  


Você  é  um intelectual sério, você encontra
um documento inédito. O que você faz? Você o rouba.
Em busca de indícios, mas sem dizer o que descobriu, seu principal rival acadêmico, Fergus Wolfe (Toby Stephens), lhe indica a maior especialista na obra da poeta, Maud Bailey (Gwyneth Paltrow).  Michell marca um encontro com a Dr.a Bailey e ela acredita que a teoria de uma ligação afetiva entre Ash e LaMotte absurda. LaMotte é estudada avidamente por intelectuais feministas por sua obra e por ser lésbica.  Bailey entrega para Michell o diário da companheira de Cristabel, a pintora Blanche Glover (Lena Headey). 

Michell termina por ver nos escritos de Blanche pistas que se somam ao que ele acredita ter achado no diário da esposa de Ash (Holly Aird).   Apesar de descrente, a Dr.a Bailey decide ajudar Michell e documentos, cartas, algo mais consistente que indícios, começam a aparecer e uma intensa e turbulenta história de amor e tragédia começa é revelada.


A criatura aqui não percebeu que Blanche e Cristabel
 eram efetivamente um casal.
Eu gosto de Possessão, tenho, inclusive, o DVD na minha coleção.  Há questões no filme que são bem interessantes, para além da história, dos dois romances que se entrelaçam.  Por exemplo?  Tente imaginar que você dedica toda a sua vida acadêmica a estudar uma personagem e seus escritos, desenvolvendo, inclusive, certa afetividade em relação à figura e, de repente, uma descoberta pode bagunçar tudo o que você tem na cabeça, todas as suas certezas e referências.  É este o drama da personagem de Gwyneth Paltrow.  O fato dela ser aparentada com Cristabel é o de menos.  

A personagem de Paltrow, é uma intelectual feminista e engajada.  O fato de Cristabel ser uma poeta a frente de seu tempo, vista por suas estudiosas como lésbica, afinal, tinha uma companheira e as duas viviam juntas, é uma bandeira política.  Como questionar tudo isso?  Como admitir que Cristabel LaMotte teve um caso com um poeta visto como misógino até?


Parceiros de pesquisa e, de certa forma, também criminosos.
Imagino que na história da ciência – estou pensando na Literatura e na História prioritariamente, mas não só – muitos estudiosos tenham deliberadamente ignorado fontes, indícios, pistas, simplesmente para não terem que mudar a sua narrativa, a forma como viam seu objeto, como tinham organizado a sua própria vida em torno de seu trabalho acadêmico.  Lembram de um episódio da Família Dinossauro na qual arqueólogos ou paleontólogos encontram uma televisão e a enterram de novo?  Pois é, ela não fazia sentido e quando uma coisa não faz sentido, quando ela pode gerar a desestabilização das nossas certezas, muitas vezes, nos negamos a vê-la, muito menos, relatá-la.  Persuasão trata dessas questões.

Agora, para Roland Michell isso não é um problema.  Ele é um intelectual em busca de um objeto.  Está ligado a um projeto de pesquisa sobre Randolph Henry Ash, mobilizado pelas celebrações dos 100 anos da morte do poeta, mas não tem um objeto que seja dele.  Além disso, foi preterido para um posto na universidade e está deprimido e sem perspectivas de crescimento na sua carreira.  Ainda que tenham mexido muito na personagem de Michell em relação ao livro original, par começo de conversa, ele era britânico e, não, norte americano, este drama pessoal foi preservado.  


A capa original do livro.
Quando assisti ao filme, comprei o livro, também.  O fiz, aliás, por um motivo bem ridículo, queria saber se o livro relatava qual o problema da esposa de Ash, que se desculpa com o marido por não poder ter filhos e sequer manter relações sexuais com ele.  Comecei a ler o livro e me deprimi.  Estava terminando o doutorado, ou tinha recém terminado, e o drama da personagem, meio perdido em relação à carreira, era muito do meu drama.  Um amigo uma vez me disse que o doutorado poderia ser o início, ou o fim, de uma carreira, eu temia ser o meu fim... Michell, a personagem do livro, também.  

“Publish or perish” (Publique, ou morra), lhe diz seu adversário intelectual, a irritante e esnobe personagem de Toby Stephens.  Para quem não está na universidade, existe uma coisa chamada Currículo Lattes e a Capes, agência governamental fomentadora de pesquisas, dá nota aos cursos e aos periódicos.  Então, um pesquisado para estar vivo, precisa publicar, para ser reconhecido, precisa mais do que isso, tem que publicar nos lugares certos.  

As pessoas matam e morrem por essas pequenas vaidades, mas elas são fundamento da nossa vida intelectual.  Em Possessão, fica meio que evidente que o que ocorre no Brasil, acontece, também, em outros lugares.  Há diferenças?  Sim, mas o campo intelectual se pauta por regras semelhantes, só para usar um conceito de Bourdieu, e existe uma comunidade internacional de pesquisadores.  Quem é você na cadeia alimentar?  Michell era zero e sua grande descoberta – a carta que ele roubou – foi feita quando ele tinha sido colocado para colher dados no diário da esposa de Ash e em livros que tinham pertencido ao autor.


Nosso poeta.
E vamos para um outro ponto.  Uma descoberta como esta é impossível?  Não, de forma nenhuma.  Que eu saiba – pode ter ocorrido alguma coisa enquanto eu estava distraída – o último documento franciscano do século XIII encontrado, o Audite Poverelle, foi achado por acaso em 1976.  Não vou falar em detalhes da ordem de destruição de documentos relativos à Francisco de Assis, simplesmente, quero dizer que uma carta, um poema, ou até mais que isso, pode ser escondido dentro de um livro de um assunto insuspeito.  Botânica, por exemplo, e lá ficar.  

No caso do filme, Ash escondeu o rascunho de uma carta de amor em um livro de História Natural.  Ele pode ter guardado e esquecido, também.  Tente lembrar se você nunca comprou um livro usado e achou um cartão, foto, bilhete dentro.  Já achei muita coisa. Enfim, o tal livro foi parar em uma grande biblioteca.  Talvez, nunca tenha sido aberto.  O que é incomum, o que é quase impossível, é um pesquisador achar um documento e roubá-lo.  Só que esse tipo de coisa também é discutida no filme.  


Primeiro, um romance platônico. 
Tanto a personagem de Toby Stephens, quanto o Dr.  Cropper (Trevor Eve) não teriam o menor pudor em roubar um documento. O filme mostra o quanto colecionadores, como Cropper, param milhares, talvez até milhões de dólares, por um original.  Um documento que deveria ser colocado à disposição de pesquisadores pelo seu valor para o progresso da ciência, passa a ser propriedade de um particular.  

Há quem não saiba, mas a gente não costuma – e não deve – poder tocar em documentos originais.  Isso é para poucos, verdade, mas há estudos que são feitos sobre o tal original, materiais usados, anotações de canto de página, a letra de quem escreveu... Vamos pensar em alguém estudando se um autor, ou autora, estava doente quando escreveu tal carta. A letra que era firme em outros documentos, estava irregular.  


Um mês para viver intensamente um amor.
Fora isso, esses documentos deveriam ser vistos como patrimônio coletivo, no máximo estar sob a tutela de um museu, ou universidade.  Quando o (*maldito*) ISIS destruiu monumentos na antiga Mesopotâmia ou os norte-americanos, na invasão ao Iraque, usaram tijolos em cuneiforme para calçar mesas, meu coração doía.  Agora, aqueles que tem dinheiro e conhecem o valor de documentos e artefatos, lucram muito nesses momentos de anarquia.  O filme discute de forma superficial – e um dos problemas do filme é ser superficial MESMO em relação ao presente – essas e outras questões.

Este texto está ficando muito louco, eu sei.  Não parece uma resenha, mas, enfim, confesso que estou muito contente em escrevê-lo, vamos lá.  O Romance!  O do século XIX, porque o dos dias atuais – anos 1980, suponho, porque não há sombra de celulares e computadores são poucos e antiquados – é bem blé.  Explicando, o filme costura deforma muito bonita, passado e presente.  Os amantes descobertos – Cristabel e Ash – e os pesquisadores que se tornam amantes.  Cada carta descoberta é lida em voz alta e nós voltamos ao passado.  E  este ir e vir é um dos charmes  do filme, ainda que eu preferisse ver mais do romance vitoriano de suas limitações, possibilidades, sacrifícios, do que do presente.  


Desculpe, filha, mas você vai ter
que refazer toda a sua tese de doutorado.
Em relação ao presente, o filme não foi muito efetivo em explicar qual o problema de Michell com as mulheres.  Teria sido ele abandonado?  No livro, ele tem uma namorada e eles moram juntos no início da história.  Já Bailey parece ser frígida.  Até encontrá-lo.    Ela tem uma série de problemas de aceitação que não são muito bem explicados, salve se eu considerar que se trata de uma crítica (*misógina*) ao campo de estudos feministas, porque, bem, eu convivi com várias pesquisadoras, estou neste campo, por assim dizer, e a maioria das mulheres que conheci – sejam hetero, lésbicas ou bi – viam o sexo como coisa mais natural e desestressada do que muita gente.  Mas, como eu pontuei, o filme se omite em explicar as nóias dos dois.  

Indo para o século XIX, a personagem de Cristabel foi inspirada em Christina Rossetti (1830-1894) – irmã de Grabriel Rossetti.  Ela foi poetisa, escreveu músicas, também.  Não precisei ir pesquisar, porque bastava olhar as referências mmedievais da primeira cena entre Cristabel e Blanche, sua companheira, e ver as referências pré-rafaelitas por todos os lados.  


O ciúme de Blanche acaba impulsionando o
 Romance entre Cristabel e Ash.
A Irmandade Pré-Rafaelita – se não estou enganada – foi o primeiro movimento artístico nascido anglo-saxão e reuniu pintores, poetas, escritores, vários deles, como Christina Rossetti, eram mulheres, ainda (*Supresa!*) que as pessoas se lembrem mais dos homens, como o próprio Rossetti (*irmão*), Milais, Hunt.  Houve uma minissérie da BBBC, que poderia ser fantástica, mas não foi, sobre os Pré-Rafaelitas (*Resenha aqui*) 

Cristabel tinha uma vida com Blanche e o filme não deixa dúvidas de que as duas eram companheiras.  Usar amantes é muito pouco.  Isso era incomum?  Sim, mas possível.  Cristabel e Blanche levam uma vida respeitável e reservada, são ricas, independentes e adultas.  A própria Cristabel, quando assume seu caso com Ash, pontua a necessidade de ser reservada e vista acima de qualquer suspeita.  


Agora que descobri que a Blanche é Cersei.
Já ouviram falar que as lésbicas eram invisíveis?  Pois é, as pessoas bissexuais são ainda mais, porque nos meus (pre)conceitos, eu me recusei a perceber o romance das duas mulheres.  Tinha colado em Blanche, que é quase tão traída quanto a esposa de Ash, a plaquinha de amiga ciumenta e que tinha confundido as coisas.  Ciumenta e passional, sem dúvida, mas ela não confundira nada, simplesmente, estava vendo sua vida feliz desmoronar quando sua companheira se apaixona por um homem.  Seu ciúme empurra a decisão de Cristabel em tornar físico o que era platônico, mas a relação das duas é concreta e visível no filme.

Já Ash, vive  um casamento branco com a esposa.  O que é isso?  Enfim, entre as doideiras vitorianas, havia o casamento sem sexo, muitas vezez jamais consumado, chamado de casamento branco (Marriage blanc).  Não fica claro se Ash e a esposa, Ellen, tinham tido alguma relação alguma vez, ou se havia algum problema com ela, mas o fato é que o marido era extremamente devotado à esposa e tinha ficado conhecido por sua fidelidade e comportamento moralmente perfeito.  Isso, claro, até as cartas aparecerem... 


Tem um fanservice ou outro, pouca coisa.
O fato é que Ash conhecera Cristabel em uma reunião íntima em homenagem à poetisa, que era, como pontuei acima, muito reservada.  Ela mesma se compara a uma aranha, sempre em sua teia observando e esperando.  Ela despacha Ash no primeiro encontro, mas os dois terminam por trocar intensa correspondência.  Parte dela destruída por Blanche.  O que se tem, no início, é admiração (intelectual) da parte dele, mas logo vem a paixão.

Blanche confronta Cristabel, que tenta pacificá-la.  Já a esposa de Ash, comporta-se da forma esperada para mulheres de sua classe social, fecha os olhos.  Ash e Cristabel decidem passar um mês juntos, fingindo serem casados.  Os pesquisadores descobrem a viagem e refazem os passos do casal.  A partir daí, tragédias se sucedem.  Cristabel engravida e foge para ter a criança em segredo e temendo que Ash a tire dela.   A menina passa a ser criada como filha da irmã da poetisa.  Já Blanche, destrói suas obras e se suicida.  


Se você é uma pessoa mais ou menos normal e passa um
mês fazendo sexo sem proteção,
 provavelmente, engravidará.
Ash fica no escuro.  Desconfia da gravidez.  Vai atrás da amante, que não o recebe, até persegui-la até uma sessão espírita (*uma moda entre as classes abastadas da época*) e ter um confronto com Cristabel.  “Você me tornou uma assassina!”  Ele crê que ela matou a criança que esperava e passa a despejar seu rancor e frustração em textos misóginos.  Detalhe, ele também passa a odiar espiritualistas. Ash descobre a verdade?  Vejam o filme. Só digo que fiquei agoniada com esse mal-entendido todo, porque, bem, Ash é uma personagem simpática, não antipática.

A interpretação de Jeremy Northam em Possessão é totalmente diferente daquela que ele oferece em Emma, ou em The Winslow Boy.  Não há um traço sequer do olhar malicioso.  Ele parece inocente e romântico, como um poeta desse movimento – ainda mais adepto da castidade – deveria ser.  Seu cabelo não está arrumadinho o tempo todo, também.  Enfim, ele está lindo e talentoso de outra forma.  Jennifer Ehle é o outro ponto alto do filme.  Há ecos de Elizabeth Bennet na forma como Cristabel consegue ser polidamente impertinente, mas ela interpreta uma mulher adulta, que quer ser livre, mas sabe que nunca poderá ser em uma sociedade como aquela que vive.  Daí, após os traumas, seus poemas se tornam cada vez mais místicos e (*aparentemente*) afastados do mundo real.  Ela, também, se isola, produz até o fim da vida, mas o faz de forma quase absolutamente reclusa.  Em sua obra, ela adverte que não se deve confiar nos homens, no fim da vida, no entanto, ela se lembra de Ash e tenta explicar tudo.  Conseguiu? Veja o filme.


Cristabel posando, mais pré-rafaelita impossível.
De resto, o filme foi baseado em um livro de mesmo nome premiado com Booker Prize em 1990.  A autora, assim como a de Harry Potter, assina abreviando seu nome, Antonia Susan Byatt, como A.S. Byatt.  Isso me dá preguiça, mas, ao mesmo tempo, compreendo como um nome de mulher na capa de um livro ainda desperta inúmeros preconceitos.  Com o nome de Possession, então... 

Enfim, como vocês perceberam, a começar com as mudanças na nacionalidade do protagonista, Roland Michell, várias mudanças foram feitas em relação ao livro original.  Uma delas, a mais irritante, porque repetida à exaustão, são as piadas e observações a respeito dos norte-americanos.  A maioria das falas desnecessárias e ridículas são da personagem de Toby Stephens.  Que não tem função na história a não ser parecer metido, fofoqueiro e traiçoeiro. Enfim, ele é uma caricatura, não uma personagem decente.  


Não resisti, um spoiler pra vocês. 
Quem mais está no filme é Tom Hollander, como o amigo advogado (solicitor) rico de Michell (*ele mora no porão do cara*), que o “ilumina” a respeito das implicações legais de se roubar um documento de uma biblioteca.  Curiosamente, Hollander parece mais jovem em Possessão do que em Wives and Daughters que é de 1995.  Ah, sim, e o filme cumpre a Bechdel Rule.  Citei quatro personagens femininas pelo nome, mas há outras, como a secretária (Paola) do orientador de Michell, a prima francesa de Cristabel, a filha dela com Ash (Maya), enfim... E o filme se não foi pensado para ser feminista, permite várias discussões feministas.  É só querer.

Terminando, há uma única cena de sexo no filme e eu não tenho nenhum problema em dizer que é uma das minhas favoritas de todos os filmes que eu já vi.  Toda a sequência com Ash e Cristabel é romântica, apaixonada, bem dirigida e interpretada.  Eu adoro e vejo e revejo, sem nenhuma vergonha.  Não vou dizer que vale o filme, mas dentro de contexto, ou fora dele, ela continua maravilhosa.  É isso.  E não vai ter mais resenha com Jeremy Northam  até que eu termine de ver a segunda temporada de The Crown, onde ele interpreta o Primeiro Ministro por toda a  temporada, ou parte dela. 

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