segunda-feira, 14 de maio de 2018

O que era normal para um otaku 30 anos atrás e deixou de ser? Os japoneses respondem.


O Sora News publicou e comentou uma pesquisa do Gooranking sobre o que era ser um otaku “nos tempos heroicos” e como a coisa é hoje.  Como os resultados são engraçados, e estamos em ritmo de Wotakoi, decidi publicar aqui.  A pesquisa foi feita com 500 pessoas, homens e mulheres, entre 20 e 39 anos.  Deveria ter gente mais velha, gente que começou lá em meados dos anos 1970 com Yamato  (宇宙戦艦ヤマト, Uchuu Senkan Yamato/Star Blazers/Patrulha Estelar) e Gundam  (機動 戦 士 ガ ン ダ ム, Kido senshi Gandamu), mas vamos lá:

1. Se você gostava de anime, as pessoas achavam que você era melancólico. (68 respostas)
2. Não era "BL", era "yaoi" e não eram "fujoshi", eram "dojin onna". (52 respostas)
3. As pessoas não se chamavam de “otaku”. (47 respostas)
4.  Você compraria dojinshi por ordem postal. (46 respostas)
4. Quando você dizia às pessoas que você gostava de anime, elas lhe olhavam de forma estranha. (46 respostas)
6. Na contracapa do dojinshi, você veria o nome de verdade da pessoa que o desenhou e o endereço real. (44 respostas) – Sei lá, pseudônimos são usados faz tempo.  O endereço, claro, você precisava dele para entrar em contato, mas nome real??? 
7. Idols não tornavam público que eram otaku. (43 respostas)
8. Você tinha que correr para casa, porque os animes eram exibidos em horário nobre (prime time).  (40 respostas)
9. Você assistia seu anime favorito gravado em fita-cassete, repetidamente, até que a própria fita se destruía. (39 respostas)
10. Não havia tantos cosplayers quanto existem agora. (38 respostas)

Lembram disso?
Se você fosse brasileiro e otaku nos anos 1980 e 1990, acrescentaria:

- Você dependia das revistas informativas de anime e mangá, acreditava em muitas bobagens que eram escritas ali, porque não tinha como confrontar informações.
- Você assistia qualquer anime que passava na TV por ser anime, era como encontrar água no deserto.  Não importava se era bom, ou ruim, era anime.
- Você ia para reuniões com gente esquisita (*como você*) para assistir anime e tokusatsu (*live actions em geral*) sem legenda, porque, bem, era o que tinha.
- Você virava amigo/a de qualquer pessoa que gostasse de anime como você e lembrasse de alguma série que passava na TV quando você era criança.  E, claro, vai depender de quando você foi criança.  Dia desses, uns colegas de trabalho quarentões estavam me perguntando se eu via "Patrulha Estelar".
- E, claro, nesse meio tempo inventaram os fansubers.  Se você já trabalhava, como eu, ou tinha pais que bancavam seu vício, era uma alegria quando chegavam as vitas-cassete na sua casa.  Qualidade variava muito, do excelente, ao horrível, mas quem se importava?  E legenda?  Nem sempre vinha em português... 
-  E, mais importante, a maioria de nós nem saberia direito o que o termo "otaku" - fanático por alguma coisa - significava.  Nos anos 1980, você jamais o usaria.  Nos anos 1990, talvez você começasse a usar sem saber, mas alguém iria apontar que era um termo pejorativo e você poderia ficar entre confuso e furioso.  O fato é que os americanos começaram a usar e a gente embarcou, também.  Hoje, até os japoneses parecem lidar melhor com o que já foi uma ofensa séria.

Graças às Techno Girls eu
conheci uns animes maravilhosos.
Coisas que eu fiz:

- Você perdia um tempo considerável discutindo com gente que não conhecia, nem queria conhecer, a maioria homens, que tentavam dar carteirada de especialista em você em listas de discussão do Yahoo.  E, claro, se você dissesse que era pelo fato de "ser mulher", você era uma histérica.
- Você montou um grupo de discussão de shoujo (Tomodachi no Shoujo) para tentar criar um lugar amigável para fãs da demografia.
- Você entrou em um plano mirabolante com um sujeito (*com quem você terminou se casando*) para conseguir as fitas de um fansuber canadense da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら).  Você enviou dinheiro dentro de um envelope para o exterior (*evasão de divisas*), porque não havia paypal e outras coisas semelhantes nesse tempo.
- Você queria entrar para uma lista de discussão do Yahoo que era tão seleta, mas tão seleta, que só aceitava pedido de admissão por carta física.  E, sim, você mandou a carta para os EUA e lhe aceitaram no grupo, as Techno Girls.  Elas foram as primeiras a legendar Ace Wo Nerae (エースをねらえ!) e Oniisama E... (おにいさまへ…).
- Você leu Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ) e A Rosa de Versalhes com o mangá em japonês em uma mão e o script em inglês na outra.  Sim, não foi em scanlation, foi desse jeito aí.
- E quando você começou a ter internet, em 1998, acho, parecia o paraíso.  Você poderia ter acesso a um monte de informações, conversar com gente do mundo inteiro, e demorava horas para baixar qualquer coisa.  E quando a linha caía?  E quando você não tinha como continuar?  Episódios de anime de 5 mb demoravam 6 horas para vir.
- E como esqueci?  Quando eu estava no 1º Ano, 1990, desviei meu dinheiro de merenda e da passagem de ônibus para comprar o álbum e as figurinhas do anime Zillion (赤い光弾ジリオン/ Akai Kōdan Jirion).  Passei a ir à pé para casa.  Quando mamãe descobriu, não prestou, claro... 

E você?  É "otaku" das antigas?  O que você se lembra que acontecia, ou você fazia, e, hoje, não é mais comum?

GOSTOU?

10 pessoas comentaram:

Nossa, que nostalgia. Não fiz tantas coisas das antigas, mas cheguei a ver animes aleatórios na TV por serem animes, virava amiga de qualquer otaku (se bem que não me trouxe lado negativo nisso), acreditava em todas as revistinhas e lia muito mais de uma vez! Era maravilhoso. Aprendi a desenhar nessa época. esse texto até me deixou inspirada para uma postagem no Otome TeaTime xD~

Eu não sou um otaku das antigas - eu comecei em 2007. Imagino que para os otakus atuais eu seja das antigas, já que para esse pessoal, tudo o que vem antes de 2014 já é tachado de "velharia", mas enfim, não vamos falar desse pessoal novato, né?

Uma coisa que eu percebo hj em dia é que em 2007, era MUITO difícil ver um otaku gay assumido (pelo menos no Brasil). O "meio otaku" no Brasil era extremamente homofóbico e era muito comum ver blogueiros até consagrados destilando preconceito. Hj em dia as coisas mudaram bastante de figura. Felizmente, o número de otakus gays assumidos está crescendo cada vez mais, apesar de que a maioria deles continua gostando geralmente dos shounens. Existe uma galera considerável que até curte mahou shoujo - mas nem sempre mahou shoujo é shoujo de verdade (Madoka tá aí de exemplo). Mas enfim, essa é a impressão que eu tenho da fanbase brasileira. Não sei se nos outros países é do mesmo jeito.

Eu mesmo já cansei de comentar sobre shoujo com amigos e conhecidos gays, e ver que praticamente todos eles ignoram o gênero. E olhe que eu costumava citar mangás shoujos populares. Para vc ter uma ideia, nem Karekano o povo conhece, e olhe que tem muitos gays que curtem Evangelion!

Quando eu era aborrescente lá nos anos 90 ia direto no bairro da Liberdade gastar meus parcos trocados em fitas VHS sem legendas de Sailor Moon (comprei só a fase Stars). Praticamente não havia mangás no Brasil e por isso comprava muitos tankouhon na livraria Fonomag (muito conhecida na Liberdade). Cheguei até a assinar a Nakayoshi, revista de mangás shojo. E quando encomendava qualquer mangá demorava 3 meses para chegar (e pelo q me lembro nem passava por Curitiba xD).
Participei dos primeiros Anime Friends, quando não era um evento tão conhecido e acho q era até underground, eu diria.
Nessa época cheguei a trocar cartas com uma amiga mexicana q tbm era fã de Sailor Moon e outros shojos da época. Ela até me enviou fitas cassetes com músicas que eu não tinha de um monte de animes.
Comprava fanzines e participava de fanclube. Cheguei até a fazer o meu próprio fanzine com desenhos meus e com notícias de anime/mangá. Tudo por carta. Aliás quem nunca enviou dinheiro dentro do envelope para pagar fitas e fanzines que atire a primeira fita cassete!
Assisti o movie dos Cavaleiros do Zodíaco que passou no cinema umas 3x. Sentamos até no chão do cinema (naquela época "podia") porque além de matar aula no meio da semana estávamos meia entrada da promoção (uma pechincha!).

E eu que assisti a trilogia de Fatal Fury em VHS? Via Patrulha Estelar, Don Dracula, Piratas do Espaço, Honey Honey na TV? Assisti Samurai Shodown e Akira em VHS!
Assisti religiosamente Street Fighter V no SBT de manhã? Assisti Dragon Ball...

Com certeza todo otaku das antigas já passou:
- Você dependia das revistas informativas de anime e mangá, acreditava em muitas bobagens que eram escritas ali, porque não tinha como confrontar informações.
Até que surgiu a Neo Tokyo e você toma uma outra concepção da coisa. Com certeza foi com a Neo Tokyo que eu me eduquei na cultura japonesa de uma forma genuína e intensa. Foi na Neo Tokyo que eu aprendi realmente o significado dos termos shoujo, josei, shounen, seinen, yaoi\BL, as antologias e seus significados\contextos e até fui educado no feminismo através dela.

Havia uma loja de mangás perto do colégio. Era extremamente escondida, numa galeria pouco movimentada. Uma vez fui lá e comprei Ranma 1/2 só que era em espanhol XD Tipo, era RELÍQUIA. Um mangá original!
Fora as tentativas de desenhar no estilo anime. Como comecei com isso em meados de 1994, todo mundo q via o raio do q eu desenhava perguntava se era Cavaleiros do Zodíaco. ¬¬
E teve uma vez que achei na web um site pra se corresponder com japoneses, e uma vez acabei dizendo q eu era otaku. Não sei como a pessoa recebeu essa informação kkk

Nostalgias é para os nerds, otakus e geeks (para falar a verdade eu nem sei o significado do termo geek, mas acho que engloba no contexto nostálgico desses grupos citados).

Nostalgia pura esse post. Não tenho nada a acrescentar, além de que assistia Cavaleiros do Zodíaco pela manhã e pela tarde, o mesmo episódio. Era uma guerra lá em casa...^^

Vamos começar com CDZ na EXTINTA REDE MANCHETE (1994). Vieram as revistas Heroi (1994), Herois do Futuro (1995), Animax (1996)... Hoje em dia quem leria revistas???

Em 1997 a Abrademi faz o seu "MangáCon". Em 1999 o Peixoto - ex-editor da revista Animax - faz o seu "AnimeCon". Fazer cosplay era sim uma sub-cultura. Tudo muito "indie". UNDERGROUND. Fora do Mainstream e fora da curva. Contentavamos com fitas VHS (que?!) de animes japoneses sem legenda (ou... legendados pelos heroicos funsubbers: Lum's Club, Shin Seiki, Bac)...

A partir de 2002/2003 a coisa muda: Animes na Globo, internet banda larga, Animes em DVDs nas bancas, Anime Friends trazendo artistas internacionais... O que era "sonho" se tornou real. E o que era 'dificil' de se obter estava ligo ali, numa banca de jornal.

Foi uma "ruptura" de uma era. Trás 'saudades'? Sim. Mas a vida continua. E o tempo... Não pára (como bem dizia Cazuza)!

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