sexta-feira, 29 de junho de 2018

Globo tem proposta ousada para a próxima novela das Sete, mas será que vai dar certo?


Achei bem curioso que depois de Deus Salve o Rei, que vai bem de audiência (*muito por culpa da Record*), mas que a própria emissora sabe que é uma bomba, a Globo decidiu bancar uma novela com uma proposta criativa, por assim dizer.  A trama de Mario Teixeira e Leonardo Nogueira começa da seguinte forma:
Estamos em 1886 e a família Sabino Machado, moradora de São Paulo e detentora de extensas terras para exploração de ouro e minério e investimentos em telefonia, embarca em um dos mais seguros navios da época, o Albatroz, a caminho da Europa. Dom Sabino (Edson Celulari), um fiel súdito da monarquia que sonha com um título da nobreza, planeja a viagem para conhecer o estaleiro que comprou na Inglaterra. E também manter longe do falatório da cidade a filha, Marocas (Juliana Paiva), que havia acabado de recusar um casamento no altar. A viagem tem um desvio de rota para uma breve visita à Patagônia. É justamente aí que o Albatroz se choca com um iceberg.
Cris Viana será Cairu, uma das
escravas do "bondoso" Dom Sabino.
Eu imagino o quão retrógrado deve ser o tal Dom Sabino para ser fervoroso monarquista, além de dono de escravos em 1886.  E ainda levou os escravos para a Europa!  1886 é o ano em que começa a história da novela Sinhá Moça, a escravidão estava no fim, todo mundo que era realmente moderno era abolicionista e a servidão tinha sido formalmente abolida em muitos países da Europa.  Na América, somente nós ainda mantínhamos a prática.  Será que a filha de Dom Sabino, Marocas, será abolicionista?  Será que vão romantizar a escravidão para que outras meninas de quinze anos sonhem com uma festa de debutantes em que sejam sinhazinhas?  

Como decidiram me confrontar dizendo que era perfeitamente normal ter escravos no Brasil em 1886, ou seja, dois anos antes do fim da escravidão, vamos lá.  O único senso brasileiro que registra a população escrava é o de 1872, nesse momento, somente 15,24%  da população de 10 milhões era escrava.  A década de 1870 é marcada tanto pelo avanço do movimento abolicionista - que reunia negros e brancos com estratégias diferentes - e do movimento republicano.  Se somente pouco mais de 15% da população era oficialmente de escravos em 1872, devemos também supor que esses estivessem particularmente concentrados nas áreas cafeeiras e outras áreas mais rurais. 


David Junior e Maicon Rodrigues
mais dois escravos de Dom Sabino.
Em 1884, o Ceará aboliu a escravidão, sendo a primeira das províncias a fazê-lo graças ao movimento dos jangadeiros, que precipitou a decisão.  O processo, estava em andamento desde muito tempo em todo o país.  Por conta co apoio dado por parte do Exército ao movimento dos jangadeiros, produziu-se um desgaste com o Governo Monárquico, a conhecida "Questão Militar", um dos fatores que contribuíram para a Proclamação da República.  O que eu quero dizer  com esse blá-blá-blá?  Um empresário moderno em 1886 não seria um senhor de escravos.  Se o fosse, teria, pelo menos, o bom senso de não levá-los à Europa consigo.  Moralmente, a escravidão já tinha sido publicamente condenada e era quase consenso que deveria acabar.  

Um senhor de escravos "bonzinho" nessa época não existe, não estamos mais nos tempos de A Escrava Isaura, um homem progressista já teria se livrado dessa mancha, ou seria um sujeito sem visão econômica que ainda repetiria, como escusa, que não teria como libertá-los sem falir, ou sem jogar seus escravos no infortúnio.  Que quero dizer?  Em 1886, um senhor de escravos precisa ser um vilão como o Barão de Araruna, ou um de seus amiguinhos fazendeiros atrasados moralmente e economicamente.  Mais ainda, um empresário moderno em 1886 provavelmente seria republicano, mas vamos deixar isso quieto, não vou estender o texto, não.  Enfim, serão treze os descongelados, então, haverá alguma discussão sobre a questão dos negros no século XIX e em nossos tempos.  É ver como a coisa será tratada, de repente, a gente conclui que er amelhor ser escravo de Dom Sabino, um "homem bom", do que livre no século XXI.  

Achei interessante a escalação de Rosi Campos e, não, de uma
mulher bem mais jovem como a esposa de Edson Celulari.
Sei que a ideia é reforçar o choque entre gente do século XIX, e se vê lançada mais de um século depois.  Pode funcionar.  Gosto muito da Juliana Paiva, a última vez que parei para assistir Malhação foi por causa dela, adorava a Fatinha, e tem a Rosi Campos.  Vou olhar a novela por causa delas, mas, sei lá, já vi outras experiências no horário das sete darem muito errado... é esperar para ver, mas essa história de escravocrata simpático em 1886 ficou meio difícil de engolir.  

A matéria do Jornal O Dia também destacou uma fala da Cristiane Torloni que me deixou meio chocada "Hoje em dia, com todo o feminismo, pequenas delicadezas estão sendo pulverizadas. E, neste sentido, a novela brinca com o que seria politicamente correto ou incorreto".  O Fábio Garcia, do Coisas de TV, estava na coletiva de imprensa e disse que foi uma fala pessoal da atriz.  


A mocinha que abandonou o noivo no altar no século XIX.
O fato é que toda vez que alguém começa com essa história de criticar o politicamente correto, eu fico com o pé atrás, porque desconfio que a pessoa não sabe bem do que está falando, se mistura feminismo então... Enfim, aguardemos.  Eu não sei a data de espera.  Se estou assistindo TV, eu simplesmente desligo quando começa Deus Salve o Rei.  Aquilo se tornou intragável para mim.

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