sábado, 6 de abril de 2019

Primeiro, descobrem que um guerreiro viking famoso é uma mulher, agora, chegou a vez de um general


Nunca tinha ouvido falar de Casimir Pulaski, mas não sou especialista em Revolução Americana.  Pulaski foi um militar polonês.  Perseguido em seu país natal ocupada pelos russos, ele fugiu para Paris e deve ter ido parar na América no meio das tropas de estrangeiros à serviço da França.  Quem está lendo A Rosa de Versalhes verá que Fersen, o amado da rainha Maria Antonieta, vai se alistar como uma forma de se afastar dela.  Muitos franceses e estrangeiros foram lutar do outro lado do Atlântico e voltaram cheios de ideias revolucionárias, enfim, voltemos ao caso Pulaski.

Pois bem, o tal Pulaski lutou bravamente pela independência das 13 colônias e teria salvo a vida do futuro presidente George Washington na batalha de Brandywine, em 1777.  Em 1779, foi morto aos 34 anos durante o cerco de Savannah. Recebeu um monumento para si nos EUA (*deve haver mais de um, há pelo menos mais um na Polônia*) e é representado nos quadros com todos aqueles traços viris clássicos, olhos castanhos românticos, testa larga, mandíbula quadrada.  Um homem muito bonito, especialmente se você, como eu, é vulnerável a esse tipo de representação da figura masculina usada no cinema e em quase todas as outras mídias a partir do início do século XX.  Pois bem, faz vinte anos que existe a desconfiança de que ELE fosse ELA, segundo a BBC.

Todas as representações de Pulaski seguem essa linha.
O Dr. Charles Merbs, então antropólogo forense ligado à Universidade Estadual de Arizona, foi o responsável pela exumação.  Sua companheira de trabalho, a cientista forense  Drª Karen Burns, da Universidade da Georgia, foi a primeira a desconfiar, pois ela identificou o esqueleto como feminino sem muito espaço para qualquer dúvida.  Segundo o texto, foi necessário provar que era o esqueleto de Pulaski, que ele não teria sido substituído por o de uma mulher.  Muito bem, restava fazer um exame de DNA utilizando material de algum membro da família do general.  demorou 20 anos e, bem, eis que foi provado que Pulaski era mulher, ou intersexuado.  Sim!

Pense agora em quanto tempo demorou-se para que essa informação fosse confirmada.  Se os cientistas não tivessem o interesse (*Mulher?!  Impossível!*), se não houvesse recursos para a pesquisa, continuaríamos acreditando que Pulaski era um homem.  Agora, lembrem do caso do guerreiro viking, pensem em quantas mulheres podem ter sido enterradas e lembradas como homens simplesmente por estarem exercendo papéis de gênero associados ao masculino.  

Quadro do polonês Jan Styka pintado antes de 1925.
Olha que garboso esse general!
Ao longo da história, tivemos mulheres guerreiras, profissionais liberais, estudantes universitárias, sacerdotes, etc.  Mulheres que, não raro, tinham que esconder o seu sexo biológico e comportar-se como homens diante da sociedade.  Quando descobertas, não raro eram humilhadas, mortas, presas.  Raras recebiam algum reconhecimento.  Ainda assim, há exceções como Marie-Thérèse FigueurJoanna Żubr (*outra polonesa*) que nunca esconderam que eram mulheres quando estavam no campo de batalha, mas esses casos não destroem a regra que era a exclusão, aliás, muita gente acredita que mulheres na guerra só como vítimas, vivandeiras (*mulher, em alguns casos esposa de soldado, noiva ou namorada, que acompanha as tropas vendendo mantimentos, lavando roupa, ou prestando outros serviços*) ou se prostituindo abertamente.  

Mesmo com inúmeros exemplos rastreáveis, há gente que repete a ladainha de que antes dos feminismos, todas as mulheres eram felizes donas de casa e mães de família, no máximo freiras, criadas, escravas (*normal, essa gente tende a acreditar que escravidão era legal, porque estariam do lado certo do sistema*).    Enfim, se a gente se fecha para a investigação, se afirma "É impossível!" antes de investigar, nunca poderemos contar a história dessas mulheres.  Enfim, outro capítulo notável da História para quem acredita que Oscar só é possível na ficção.

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