sexta-feira, 12 de julho de 2019

Alguns posts são mais importantes que outros. Não entendeu? Eu explico.


O título desse post se remete a algo que aconteceu ontem, comentários com acusações que, se não são realmente importantes, afinal, partem de pessoas desconhecidas, me dão a oportunidade de explicar algumas coisas que não devem estar claras para algumas pessoas, especialmente, quem não acompanha o Shoujo Café com regularidade.  Este site tem quatorze anos e tento me obrigar a publicar pelo menos um post por dia, no momento tenho publicados 11.935 posts.  Eles variam em extensão e relevância, desde simples replicação de notas aparecidas em sites nas línguas que eu sou capaz de ler até textos bem complexos.  Este ano, listei os textos que considero meus favoritos do blog.

O post mais visitado de todos os tempos no blog é relatando o lançamento de um filme nigeriano de super-heróis chamado Oya: Rise of the Orisha (Oya: A Ascensão dos Orishas), de 2014.  Um texto com quatro parágrafos que conseguiu fazer com que meu site, que recebe em média 2 mil visitas ao dia, recebesse 100 mil de uma tacada só.  Depois desse pico que durou uma semana, mais ou menos, o post meio que caiu no esquecimento.  Ontem, ele bombou novamente.  E eu me dei ao direito de comentar esse fato curioso e acrescentar que o primeiro comentário recebido dessa nova leva era o de uma candomblecista ofendida com o fato do filme existir (*um desrespeito*) e dos (*supostos*) erros que eu teria cometido nos quatro parágrafos.  

Imagino que o filme esteja disponível com
legendas em português em algum lugar.
Publiquei os dois comentários da moça e me dei ao direito de dar a resposta padrão para fanáticos religiosos de qualquer origem, antes dela, tinha rebatido um (neo)pagão que acha que os veneradores de Thor sofrem tanta perseguição quando umbandistas e candomblecistas no Brasil (*sim, traficantes invadem a casa dele como fazem com os terreiros no Rio de Janeiro*), e um cristão que ficou perplexo quando eu mostrei para ele que biblicamente se ele considera errado assistir Orisha, deveria considerar, também, assistir aos filmes da Marvel com suas divindades nórdicas.  Vou marca o seguinte, não é por ser membro de uma religião minoritária, ou perseguida, que você tem carta branca para ser mal educado, intolerante, ou exigir um (*suposto*) respeito diferenciado.  Pelo menos, aqui, não.  E eu sou historiadora e feminista, não vai passar em branco, a depender do dia, posso estar mais ou menos paciente, mas não vou relevar.

Mas vamos ao ponto mais importante, explicar por qual motivo um post pode, sim, ser considerado mais importante que outro.  Quando escrevo um artigo de opinião, preciso pesquisar muitas vezes sobre leis e fatos anteriores, fundamentar o que estou afirmando.  Se eu traduzo um artigo do inglês, espanhol, francês, italiano, ou capengamente do japonês, eu gasto tempo, tenho que pensar sobre o que fica melhor.  Toda tradução é uma versão, não há como escapar disso.  Agora, quando eu posto uma notícia de estréia de um mangá, um comentário breve sobre um trailer de filme, ou o que seja, gasto muito pouco tempo e tenho bem menos trabalho.  E se é uma resenha?  Depende.  Vamos lá!

Uma das resenhas mais visitadas do blog.
Se eu escrevo uma resenha de filme preciso assisti-lo, seja em casa, ou no cinema,  investir dinheiro e tempo (*muitas vezes, roubá-lo de outras atividades*), montar um esquema na cabeça do que vou escrever, sentar e fazer o texto.  Para um filme simples, que não demande de mim pesquisa posterior, eu levaria, somando tudo, umas cinco horas entre assistir e resenhar, se fosse um ato contínuo.  Um filme mais complexo, com necessidade de leituras a mais, pesquisa de fatos, personagens, obras anteriores de um diretor etc.  me ocuparia por uns dois dias.  Cometer erros, a gente comete,   todo mundo comete, mas ser displicente com o que fazemos não é admissível.  

Sabe o que é frustrante?  O Bebê de Bridget Jones, que me divertiu um tanto, mas que nem chega aos pés do primeiro, acabou de entrar no top 10 dos posts mais visitados do blog em todos os tempos.  Não se trata nem de um filme marcante, nem da melhor das minhas resenhas, mas toda vez que o filme é exibido em algum lugar, recebo uma torrente de visitas.  É bom?  Sem dúvida!  Vai que a pessoa vem e fica, não é?  Que gosta do meu blog, do que escrevo?  Ao mesmo tempo, preferia que resenhas melhores, de filmes que eu (*sim, EU*) vejo como superiores recebessem mais atenção.  Mas não tenho controle sobre isso e é uma das graças da internet.

A Rosa de Versalhes é parte da minha vida.
Para fazer uma resenha de um mangá como A Rosa de Versalhes, tenho que me empenhar ainda mais.  Primeiro, tenho que comprar o mangá.  Não pensem que as editoras me mandam coisas, porque isso é muito, muito raro.  Cada mangá que eu resenho nesse blog, eu tenho que comprar com os meus recursos.  Isso, claro, me assegura maior independência, posso escrever minhas opiniões com sinceridade, afinal, não estou sendo patrocinada por ninguém, mas me obriga a arcar com o gasto.  Depois, preciso ler mais de 400 páginas tentando observar como texto e arte se entrelaçam, algo que eu, que não fui alfabetizada na leitura de quadrinhos, não sei se faço direito até hoje.  Como não consigo ficar parada lendo de enfiada, afinal, tenho outras atividades, tenho sono e uma criança de 5 anos para atender (*dela não vou roubar tempo*), posso demorar uns dois dias no processo de leitura.  

Terminada a leitura, toca escrever o texto, certo?  Errado.  É preciso digerir o que se leu.  Mais de 400 páginas.  O que eu coloco em uma resenha?  Que tipo de spoiler eu posso dar?  Qual tipo, eu não quero dar?  O que de informação histórica extra, de discussão de teoria feminista colocar nesse texto?  Sim, o é um site feminista e a Rosa de Versalhes é uma obra composta no calor das manifestações de diritos civis das mulheres e isso está na obra.  Vou escrever o texto.  Começo, paro, recomeço, mudo aqui, ali.  Como estou no Rio, a conexão não ajuda, a cadeira é a da cozinha da minha mãe, doem minhas costas.  Paro.  Retomo.  Eu não escrevi uma resenha quilométrica em um estalar de dedos.  E olha que se estivesse em casa, ainda poderia pegar livros outros para ajudar a estruturar o texto.  Se você acha ainda que eu não posso escrever que a resenha da Rosa de Versalhes é mais importante do que praticamente qualquer texto desse blog, acrescento mais informações.

Mais um pedaço da maravilhosa arte de Ikeda.
Espero faz mais de quinze anos que A Rosa de Versalhes seja publicada em nosso país.  Acabei estreitando meus laços com o sujeito que se casou comigo em 2001, porque nos lançamos na façanha de tentar importar a animação da Rosa de Versalhes do Canadá.  Quando estava escrevendo meu projeto de mestrado para qualificação, uma página italiana da Rosa de Versalhes que recontava a história da série deslocando o protagonismo para André me ajudou enormemente.  Eu estudei a Ordem Franciscana através da figura de Clara de Assis, precisei repensar o percurso deslocando o olhar do protagonista, Francisco, para a primeira mulher a segui-lo.  Até nisso, A Rosa de Versalhes me ajudou.  Li o mangá a primeira vez com script em inglês em uma mão e a edição bunko japonesa na outra em 2002.  Minha filha sabe que ela só nasceu por causa da Rosa de Versalhes.  Esta obra tem importância capital na minha vida.  Que ninguém venha, portanto, apontar o dedo e querer que eu considere um post de notícia que escrevo em 20, 30 minutos antes de sair para o trabalho com a resenha da Rosa de Versalhes.

Os posts mais visitados do blog desde sempre.
Agora, um post menor pode se chamar mais atenção que outro que eu, a autora, considere mais importante?  Sem dúvida!  E isso também é legal.  Coloquei o print dos posts mais visitados nesse momento.  Se escrevesse sobre Candomblé, Patrulha Canina e novela, talvez o Shoujo Café fosse mais visitado do que é. Mas, salvo novela, os outros temas não são de meu interesse direto.  Por qual motivo postei sobre Oya: Rise of the Orisha, então?  Porque me preocupo com representatividade; porque gosto de cinema e queria saber mais sobre a terceira maior indústria cinematográfica do mundo; porque as notícias sobre Nigéria normalmente se focam em questões negativas, normalmente, os extremistas do Boko Haram atacando cristãos, ou muçulmanos não-radicais;  porque a protagonista desse filme é uma mulher; porque as religiões afro são discriminadas em nosso país e as pessoas, no geral, não conseguem olhar para os orixás e vê-los como seres mitológicos como outros quaisquer.  

"Ah, você está ofendendo minha fé!"  Estou uma ova!  Toda religião tem sua mitologia e para efeito de estudo o exercício da religiosidade é irrelevante.  Anjos são parte da mitologia cristã.  Acreditar neles não vai apagar isso.  O uso do termo mito não é ofensivo em si mesmo, não é sempre um sinônimo de mentira.   Se a pessoa é tão fechada a ponto de não compreender isso, não posso fazer nada.

Com quatro curtidas.  
Mas eis que recebi o comentário acima no Facebook.  Não precisa ser um especialista em análise do discurso para perceber que a primeira acusação é de racismo.  Eu não veria importância na "cultura negra", se não vejo, deveria deletar o post.  Primeira coisa, se eu não visse importância não teria publicado.  Se eu fosse esse tipo de racista (*porque em uma sociedade na qual o racismo é estrutural seria muito ridículo negar que ele habita em mim, também*), por qual motivo me preocuparia em falar desse filme, ajudar a divulgar o projeto Orixás em Quadrinhos, discutir racismo nas mídias (*exemplo*) e no mundo real (*exemplo*)?  Eu quero supor que o moço que escreveu o comentário não deva conhecer meu trabalho.  

Ainda nesse ponto, não sou militante do movimento negro, a discussão do racismo entra no meu leque de interesses, mas não é central.  Cada um elege suas causas prioritárias e a minha é a feminista dialogando com classe, raça e outras sempre que necessário.  Agora, basta pegar qualquer foto minha e ver que não seria considerada branca em lugar algum.  Trago a mestiçagem em meus traços, sangue indígena, sangue negro, sangue branco.  As porcentagens, eu não sei.  Tenho interesse em fazer um dia esses mapeamentos para saber de onde veio cada pedacinho que me compõe, é um dos meus objetivos futuros.  Só que o fato de não me considerar negra, de não abraçar essa identidade, muito menos a militância, não me livra de ser vista como tal.  

Fui confundida com uma babá.  Estava de jaleco branco de
 trabalho, mas nele estava escrito "professora de história".
Já me perguntaram, em um ambiente elitizado de Brasília, se eu era babá de minha filha, que é socialmente branca.  Já me fizeram, na época de faculdade, entrar pela porta de serviço para entregar a minha monografia de fim de curso.  O porteiro, provavelmente de origens nordestinas como as da minha família, viu em mim os signos da pobreza (*tenho cara de pobre, mesmo que tenha subido alguns degraus*)  e de "raça" que me desqualificavam a entrar pela porta principal.  Já fui desqualificada em entrevista de trabalho "por não ter perfil" para um determinado cargo, eu pleiteava ser atendente bilíngue em uma multinacional.  Não foi a formação, não foi o "meu inglês", foi o meu "perfil".  Os dois colegas aprovados eram inegavelmente brancos.  São experiências para a minha formação como ser humano, poderia elencar outras.

Mas temos a segunda parte da afirmativa, a mais deliciosa, claro, porque ela reforça (pre)conceitos, não sei se por desinformação, ou por vileza mesmo.  Será que Martin Luther King, batista como eu sou, é alguém desprezível, também?  Não sei.  Mas, vamos lá!  Primeiro, o post não era sobre religião, sobre espiritualidade, vivência da fé, tampouco sobre história das religiões.  Não era mesmo, basta ler, e sei que houve quem não leu.  Segundo, como historiadora, não posso negar que os cristãos tenham agido como genocidas em diversos momentos da História, de perseguidos, à perseguidores.  É a verdade e algo fartamente documentado, praticantes das religiões afro nunca agiram de forma semelhante, mas nunca tiveram poder para tanto, também, não posso deixar de pontuar.  Ter poder é fundamental para executar genocídios, porque trata-se de uma ação de Estado, mas isso renderia outro post.  

Martin Luther King era pastor batista, minha denominação, e
professava dessa religião genocida.  Será que os cristãos
nada fizeram de bom, ou positivo?  Será?
Mas dentro desse balaio todo chamado de Cristianismo, sou batista e, por isso, citei MLK.  Só que se tínhamos um Luther King e vários outros nomes importantes, temos, também, alguns racistas dos mais empedernidos nas nossas fileiras históricas.  De resto, nenhuma frase me tocou tão fundo pelo perigo que representa como a emitida por vários cristãos, a maioria evangélicos, depois da última eleição presidencial "os humilhados, agora, serão exaltados".  Agora, se você acompanha meu blog já viu vários textos meus falando de intolerância religiosa e a atacando quem coloca em risco o Estado Laico e as liberdades individuais.

Segundo ponto, quer dizer que por ser cristã eu tenho que ser fanática religiosa, ou tenho que me calar frente ao fanatismo de outras religiões.  Fanatismo é fanatismo, o fato de uma religião minoritária ter sido perseguida, vide o próprio Cristianismo, não quer dizer que eles tenham o direito de se impôr pelo fanatismo, ou calar alguém usando do argumento da ofensa a sua fé.  Veja que esse comentário do moço poderia me dar o direito, se eu fosse a babaca que ele aparentemente supõe que eu seja, de dizer que estou sofrendo Cristofobia. Já viram esse termo?  Pois é, mas como membro de uma corrente religiosa majoritária, eu não tenho direitos em risco, não como cristã, vejam bem, diferente dos praticantes do Candomblé que podem e são agredidos em várias situações.  Na mesma linha, eu não posso sofrer heterofobia, porque, bem, ser hetero é a norma, eu estou na confortável posição de maioria.

A quem interessa apagar a História, esquecer o que é desagradável?
E o que falta?  Se é que vocês ainda estão lendo?  O moço e mais duas pessoas me perguntaram por qual motivo não apago, se me incomoda.  Se vocês entenderam meus argumentos, sabem que não me incomoda o post, mas que acredito ser curiosa a forma como alguns posts fazem sucesso e outros, não.  Agora, importante é marcar o seguinte, tudo o que escrevo no blog faz parte da trajetória do Shoujo Café e da minha.  Já mudei de posição em algumas questões e os textos persistem aqui, porque são fontes.  Mudar de posição, refletir, compreender que pode ter cometido um erro, ou os tempos mudaram e as demandas, também, é fundamental para não virar um morto vivo.  Quando morrer, quero que seja a morte verdadeira, sabe?  Virar zumbi de internet não me seduz.

Conheço pelo menos dois trabalhos acadêmicos, um de Letras, outro de Antropologia, que usaram o Shoujo Café como uma das fontes, ou a fonte principal.  Como o blog está vivo há tanto tempo, é possível mapear uma série de coisas, criar séries (*conjuntos de textos de meemo tipo*) de análise e tudo mais.  Vocês não tem ideia de como saber disso me alegra.  No mais, apagar, ou tentar, afinal, estamos na internet, retirar textos é um ato de censura que, ainda que legítimo, afinal, o blog é meu, funciona como um mecanismo de apagamento da História, da do blog, das discussões sobre cultura pop sob viés feminista em português, da minha própria história pessoal.  Tenho uns três textos retirados do ar nesses quatorze anos por ter cometido erros crassos, não valia a pena consertar, não fazia sentido deixar, de resto, está tudo aqui.

Alguns querem negar que nossa história se escreveu
com sangue, sangue negro em especial.
Enfim, elejo esse post um dos mais importantes do meu blog.  Um texto longo, parei para atender a Júlia, vou sair com ela daqui a pouco.  Espero que tenham entendido o meu post apressafo de ontem no Facebook.  Não sei de onde estão partido as torrentes de visitas ao post de quatro parágrafos sobre o trailer de Oya.  Normalmente, quando há esse fluxo, há comentários, foram somente três até agora.  De resto, espero que quem ainda não tinha entendido, compreenda que um comentário de quatro parágrafos sobre um trailer não pode ser considerado mais importante do que uma resenha e se for a da Rosa de Versalhes ainda por cima, desculpem, nenhuma resenha que já fiz na vida será.  

Concluindo, não assisti ao filme Oya, não fiz resenha, mas tomando pelo ódio potencial que poderia despertar, dos comentários agressivos que eu poderia receber, mesmo que assistisse, salvo por algum motivo de força maior, não resenharia.  Cairia na mesma categoria dos filmes de Senhor dos Anéis, assisti a trilogia no cinema, mas não resenhei simplesmente para não me aborrecer, afinal, fatalmente teria que produzir outro texto como este e, bem, é cansativo, sabe? Ah, sim!  E um direito eu tenho, só publico os comentários que convém.  Reafirmando: o blog é pessoal, na minha casa, mando eu.

GOSTOU?

0 pessoas comentaram:

Related Posts with Thumbnails