sábado, 21 de setembro de 2019

"Mulheres! Vejam bem o tipo de homem que vocês colocam em casa!"


Em uma semana, li sobre três crimes terríveis (*1 - 2 - 3*), todos eles envolvendo homens que mataram crianças para destruir a vida de suas (ex) companheiras.  Em dois casos, o assassino foi o próprio pai, em outro, o padrasto.  Nos dois primeiros casos, ninguém postou comentário semelhante a esse que usei no post e que estava na matéria sobre o padrasto que afogou a enteada.  Exemplo:

O comentário foi feito por uma mulher, porque, bem, mulheres estão dentro da cultura que é machista e nos culpabiliza por tudo.  Minha avó ficou viúva com menos de trinta anos e só se casou de novo depois que suas filhas se casaram.  Minha avó concordaria com esse comentário, mas minha avó nasceu em 1930.  Algumas coisas mudam rápido, outras, não, especialmente quando estamos falando de mentalidades, visões de mundo, sentimentos.  E estou falando de expectativas de gênero, isto é, dos comportamentos que se espera que uma mulher e um homem tenham em sociedade para que sejam reconhecidos como tal.  

Nas outras matérias, como o assassino era o pai biológico, não há julgamento sobre a moral sexual da mãe, mas é possível encontrar algum julgamento sobre sua dedicação ao filho, ou filha.  "Onde estava essa mãe?"  "Não viu quando ele levou a criança?"  O fato é que a mulher será julgada sempre.  Toda mãe é sempre instada pelos que estão ao redor a dedicar-se absolutamente ao filho, mesmo que lhe instem, também, a se dedicar integralmente ao marido, ao emprego, à igreja, enfim.  Mas vocês sabem, mulheres são multitarefa, capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo e bem.  Ah, sim, esta é outra sufocante representação de gênero, que nos obriga sempre a trabalhar ainda que doentes do corpo, ou da alma, mesmo que a poder de remédios, aliás, é para isso que eles servem mesmo.

O assassino é o padrasto?  Culpa da mulher,
que não controlou seu desejo sexual. 
Devia se manter casta.
Somos também lembradas todos os dias de que precisamos ter a máxima vigilância, que não devemos confiar em ninguém, inclusive no pai.  Agora, vai uma teórica feminista escrever coisas como "todo homem é potencialmente um estuprador" e a classe dos homens e as mulheres validadoras esquecem de todas as coisas que já ouviram a respeito.  Mas, não, não estou falando de abuso sexual, ou nada do gênero, não precisam se armar, falo da ideia de que homens são, também, como crianças.  "Homem não tem juízo!"  "Ele é muito novo para assumir responsabilidades." "Mulher amadurece mais cedo, você sabe!"  Então, é a mulher que deve estar atenta, porque ela tem duas ou mais crianças sempre ao seu redor, uma é seu marido.  

Quem nuca encontrou e, talvez, tenha rido, memes ou textos falando (*Exemplo*) dos absurdos que um pai é capaz de fazer com o filho ou filha quando a mãe não está por perto.  Sim, é uma forma de infantilização dos homens e de alimentar ansiedade e culpa nas mulheres, trata-se de um reforço dos papéis de gênero, por assim dizer.  Meu pai sempre tomou conta de mim e do meu irmão muito bem quando mamãe não estava por perto (*internação, coisas de trabalho, igreja etc.*), mas ela nunca achava que o que ele fez era suficiente, sempre percebia uma ponta solta.  

Parece engraçado?  Não é.
Já mais crescidos, ficávamos esperando para saber o que ia ser, às vezes, eu, que era mulher e mais velha, ainda ouvia algo como "Você deveria ter visto que não estava certo.".  Na ausência dela, eu era a mulher da casa, deveria ter visto, se meu treinamento é falho, a culpa seria dela.  Mas sigamos.  E por qual motivo acabam os relacionamentos?  A esposa fez de menos, ou ela fez demais, foi autoritária, nenhum homem gosta de mulher mandona.  A mulher não administrou bem a relação, pois é ela quem precisa manter o interesse do companheiro.  Ou ainda, ela não discerniu o caráter do marido, ou aceitou coisas que não deveria aceitar, ou não se calou quando deveria se calar.  Não há escapatória.  

Em dois dos casos, temos um homem que não aceita o fim de um relacionamento, no outro, um que acredita que foi traído.  E qual a melhor maneira de ferir uma mulher que foi socializada para acreditar que ser mãe era seu destino?  Roubar-lhe o/a filho/a.  Isso vai lhe provocar uma dor que nunca irá acabar.  Ela certamente sentirá culpa, afinal, o que ela fez de errado?  Por qual motivo lhe arrancaram os filhos?  Talvez, mergulhe na depressão e sua vida realmente acabe.

O pai mata o filho, porque é sua propriedade
e por saber que é a forma mais simples
de destruir uma mulher.
Eu olho para cada uma dessas crianças e para suas mães e sinto empatia, dói em mim.  Eu sou mulher, eu tenho uma filha e, acima de tudo, eu defendo ideias sobre a humanidade que não admitem no seu rol o direito de um homem de tirar a vida de uma criança para afirmar a sua masculinidade (*tóxica*) e o seu poder.  Sim, aí reside o problema.  Mas há algo ainda a comentar, no primeiro caso, o mais antigo, o do pai que atirou o carro contra uma carreta e, antes disso, mandou o filho gravar um vídeo de despedida.  Vou citar o site Correio 24 Horas:
"“Minha decisão foi tomada, não volto atrás. Ia ser você, mas aqui vai doer mais para ti”, diz uma das mensagens que Marco mandou para a ex-mulher. "Vai ser feito para você aprender", diz, elencando em seguida xingamentos contra Erika. "Você não merece nada". Depois, ele pergunta se ela quer ouvir pela última vez a voz do filho. "Adeus, mãe", diz o menino."
Há alguma dúvida de que esse homem matou o menino e cometeu suicídio?  Pois é, cada vez que leio a palavra "acidente" (*este link que incorporei usa a palavra QUATRO vezes*), ainda mais no título, eu fico indignada, furiosa.  Não foi acidente.  Foi um ato cruel, uma reafirmação da masculinidade tóxica.  Não usem acidente, foi crime e um ato covarde, tortura, porque o menino de 9 anos tinha total consciência de que ia morrer. 

Não foi acidente, Metrópoles.  Lido de relance, 
o título parece se referir a uma fatalidade.
Esse facínora torturou o filho antes de matá-lo somente para mostrar que podia.  O filho era dele, ele iria matá-lo. Isso, aliás, já foi parte do direito de muitas sociedades, do direito romano, base do nosso, inclusive.  A mãe não pode matar a cria, ou abortar, ou mesmo decidir sobre seu corpo quando grávida, mas o pai pode, ele é o dono do filho e da mulher.  O direito mudou, mas alguns continuam atrelados a velhos papéis de gênero que legitimam modelos de masculinidade distorcidos.  Isso não vai mudar sem educação, sem discutirmos nas escolas, nas diversas mídias, questões que muitos dos atuais governantes não querem sequer ouvir falar.  

O horizonte é sombrio e eu só peguei três matérias de homens que mataram filhos, há mais ainda.  Agora, se fosse a mãe, ou se envolvesse LGBTI+, teríamos muita "gente de bem" comentando, se doendo, fazendo manisfesto contra (*a ficção chamada*) ideologia de gênero, culpando feministas etc.  Como os criminosos são homens hetero padrão, normaliza-se o fato, ou ameniza-se com um "acidente", ou ainda, culpa-se a mãe.  E segue o baile.

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