domingo, 15 de dezembro de 2019

Comentando os primeiros capítulos de Yubisaki to Renren: Uma moça surda quer descobrir o amor e um mundo sem fronteiras


Ontem falei do lançamento do primeiro volume de Yubisaki to Renren (ゆびさきと恋々), novo mangá de Suu Morishita.  Acabei ficando curiosa e, bem, fui atrás do que havia em scanlation.  Achei quatro capítulos em inglês, alguém já informou no Facebook que o primeiro capítulo está em português, também.  Não sei se é o volume #1 inteiro, se ainda temos um capítulo 5, mas o fato é que não deve ter muito mais que isso, afinal a autora diz que não publicará um capítulo em dezembro (*janeiro*), mas volta no volume de fevereiro (*janeiro/2020*).  


Capa do volume #1
Enfim, que eu digo?  Estou apaixonada pelo mangá e por Yuki, a protagonista.  Se você não leu o post de ontem, vou fazer um resumo rápido com as devidas correções.  A protagonista é uma jovem surda, caloura na universidade, que conhece no trem um rapaz que tem como hobby viajar pelo mundo e fala vários idiomas (*inglês e alemão fluentemente, está aprendendo espanhol e chinês*).  Ele é seu senpai na faculdade, ela já o viu no campus, sabe mais ou menos quem ele é, mas os dois se conhecem em um trem.  O jovem ajuda a moça quando ela é abordada por um estrangeiro pedindo informações, ele não sabe que ela é surda e muda. 

O estrangeiro aborda Yuki no trem
em busca de informações.
Yuki sente-se atraída pelo jovem, que se chama  Itsuomi,  instantaneamente, mas não sabe como agir.  O moço mostra paciência e gentileza, além de uma grande curiosidade em relação à língua de sinais.  Eles vem de mundos diferentes.  O dela, sempre foi restrito, protegido, o dele abrange uma gama de experiências em países e culturas diferentes.  Mas eles querem se conhecer melhor e Yuki, porque é através dos olhos dela que vemos a história, acredita que está amando da primeira vez.

Itsuomi se oferece para ajudar falando em inglês.
Nunca parei para ler os mangás de Suu Morishita, ela teve dois grandes sucessos recentes, Hibi Chouchou (日々蝶々) e Shot Cake Cake (ショートケーキケーキ).  Achava seu traço fofinho, elegante e suave, mas não me aventurei a ler o que ela escrevia.  Nada posso dizer sobre essas obras, mas raramente um mangá nesse formato, trata-se de um romance escolar, só que na universidade, de forma tão imediata.  
Ela usa aparelho, mas ele não ajuda muito.
 Meus primos reclamavam da qualidade dos deles.
Há uma delicadeza, um cuidado na abordagem da questão da deficiência e nas dificuldades de interação do surdo com o mundo que raramente vi em qualquer produção.  Tenho três primos surdos de nascença, filhos do irmão caçula da minha mãe, não sou nenhuma especialista no assunto, mas acompanhei como prima mais velha as dificuldades dos meus tios para lidar com a questão e educá-los para seem pessoas autônomas.  

Yuki quer conhecer o moço e ela se esforça
para se comunicar com ele.
Até procurei informação, confesso que não gastei mais que meia hora nisso, sobre educação de surdos no Japão.  Só encontrei, para minha surpresa, artigos falando da criação de um sistema de educação para surdos durante a Era Meiji.  Sério, nada contemporâneo, salvo para as peculiaridades da língua de sinais  japonesa.  Sim, é língua, não é linguagem, e eu ouço a minha prima surda explicando a diferença sempre que alguém comete o erro.  Minha prima surda, que é formada em Letras, consegue falar relativamente bem a língua portuguesa.  Yuki, a protagonista do mangá, não fala, ou, pelo menos, não a vimos falar nesses quatro capítulos.

Itsuomi toca as pessoas com frequência.  Essa intimidade
com estranhos não é típica dos japoneses. 
Yuki fica nervosa, mas deseja ser tocada por ele.
Sobre educação para surdos no Japão, a única informação que o mangá nos dá é que Yuki estudou desde o jardim de infância em uma turma com os mesmos quatro alunos.  Seu mundo, como já escrevi, era pequeno, restrito às experiências desses quatro colegas de escola basicamente.  Escrevi isso, porque ela tem um amigo de infância, Oushi, que domina a língua de sinais, mas é ouvinte, ele nos é apresentado no segundo capítulo e retorna no quarto para tentar impedir que a jovem encontre  Itsuomi à noite.

Ele se declara em alemão.
Oushi parece uma personagem clichê.  Ele é o amigo de infância, sempre tratou a protagonista de forma meio grosseira.  Yuki inclusive expressa em seus pensamentos que ele usa a língua de sinais de forma dura, sem muita gentileza, ou firmeza.  Pois bem, ele nunca expressou seus sentimentos por Yuki, mas,. agora que a vê apaixonada por outro homem, quer se fazer notar.  Como a gente é levada a gostar de Yuki e de  Itsuomi e dos dois juntos, ele parece um empata que perdeu a oportunidade, mas não sabemos o que a autora reserva para o futuro?

Rin-chan, a amiga pau para toda obra.
Escrevo isso, porque  Itsuomi tem algum segredo, alguma zona cinza em sua personalidade.  Ele só foi super gentil com Yuki e no capítulo 4, eles só não se beijaram por conta daquelas questões culturais que quem lê mangá bem conhece.  Toda a linguagem corporal das personagens, a composição visual da sequência, aponta para a reciprocidade de sentimentos e que o romance entre os dois irá florescer.  Engraçado ver os comentários na página do grupo que está fazendo as scanlations.  No geral, são "Ele não pode magoar a Yuki.".  

Oushi, o amigo de infância.
Sim, Yuki é um tipo raro de protagonista.  Vou explicar o motivo.  Ela é nossa menina fofa (*kawai*) por excelência.  Ele é bonitinha, ela é fofa, ela é pequenininha.  Ela tem grandes olhos e longos cabelos.  No entanto, é ela quem toma a iniciativa, ainda que temendo dar um passo errado, para se aproximar do moço e de forma muito madura.  Yuki comenta em determinado momento que ao escolher uma faculdade, ela decidiu buscar uma universidade que tivesse um campus aberto, cosmopolita que a obrigasse a conviver com pessoas muito diferente dela mesma.

Oushi discute com Yuki e Itsuomi observa os dois à distância.
Yuki não quer ser tutelada.  Ela cuida de sua vida.  Mora em uma república, que tem horário para voltar (*22h*), mas cuida de sua própria vida.  Ela tenta interagir com todo mundo, tem uma melhor amiga, Rin-chan, e, ao se apaixonar, não se retrai.  Ela sente ciúmes de Itsuomi, porque ele é muito popular e viajado e expressa seus sentimentos de forma muito mais livre do que a média dos japoneses.  Ela fica ansiosa por não entender o que ele está conversando com outras pessoas em idiomas que ela não conhece, ou quando ela está distante demais para fazer uma leitura labial, mas se comporta de forma adulta, por assim dizer.

A primeira vez que ele a toca.
É a protagonista quem se oferece para ensinar a língua de sinais para o moço, que aceita.  Há uma dúvida, aqui: ele aceitou por se interessar por idiomas, ou por estar interessado nela?  No final do quarto capítulo somos conduzidos a acreditar que o interesse é por ela.  E ele se declara em alemão... Escolha curiosa!  A gente termina de ler o capítulo 4 e lamenta não termos mais nada à disposição.  

Enfim, se você quiser um quadrinho romântico, bem desenhado e tocando em temas pouco usuais, como a inserção de uma deficiente auditiva em um mundo sem fronteiras, você não pode deixar de ler Yubisaki to Renren.  Li os quatro capítulos e acho que daria nota dez em todos os quesitos.  Há clichês?  Sim, mas a autora trabalha com eles de forma muito tranquila e criativa.  Não lembro de ter lido outro mangá em que a protagonista tivesse alguma deficiência concreta, então, só por isso, o mangá já merece atenção.  Espero ansiosamente por novos capítulos da série.  

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3 pessoas comentaram:

Valéria, não sei se você conhece mas a NewPOP publicou no Brasil o mangá A voz do silêncio, completo em 7 volumes, onde a protagonista é surda, e o mangá também é excelente.

Veja o Filme Koe no Kotachi se for possível, fala de uma menina surda japonesa que sofria preconceito na infância por isso. O filme é lindo e vale super apena ver.
Eu faço estudo sobre a língua de sinais brasileira (LIBRAS), fico muito feliz em ver cada vez mais a pessoa surda ganhando seu lugar em sociedade, com certeza irei ler esta obra.
Muuuuito obrigada pela indicação.

Li o primeiro capítulo disponibilizado pelo Comic Natalie que você colocou no outro post e achei uma gracinha.

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