sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Reeditando textos antigos: Swan, nunca o balé foi desenhado de forma tão bonita 💗


Não sei por qual motivo, mas, hoje, lembrei de Swan (スワン), de Kyouko Ariyoshi.  Consegui ler parte da série, quando parte da série foi publicada nos Estados Unidos pela CMX, o braço da DC que publicava mangás, a maioria, clássicos do shoujo.  Enfim, decidi procurar no HD minha resenha da série do meu antigo site, o Shoujo House.  Ei-lo, aqui.  A publicação original é de 19 de março de 2005.



Até pouco tempo atrás, Swan era somente mais um dos shoujo mangás que eu não conhecia e que sempre eram citados nas listas do tipo "esse você tem que ler". Talvez, as coisas continuassem assim se a DC não começasse a publicar mangás e meu marido cismasse de comprar Swan. Resultado, já temos dois volumes e estamos ansiosos pelo próximo que só sai em maio. Mas o que esse mangá tem de especial?

O maior atrativo de Swan é visual, eu diria. Antes de você começar a ler já fica encantado com a arte de Kyouko Ariyoshi que em alguns momentos lembra muito Ryoko Ikeda.  A autora consegue captar com maestria os movimentos delicados e vigorosos do balé clássico, além de subverter os enquadramentos do jeito que somente uma mestre do shoujo mangá consegue fazer. Aliás, ela usa e abusa das flores, e outros recursos típicos do estilo nos anos 1970.



O segundo grande atrativo é a história, claro, afinal, eu não sou do tipo que suporta coisas do tipo Vagabond ( バガボンド) por causa da "arte e narrativa visual arrojadas". Falo isso, porque o visual é o que vai cativar em um primeiro momento, mas sem história nenhum mangá se sustenta por muito tempo. 

Mas vamos lá, Swan gira em torno do universo do balé. Assim como outros mangás, de esporte (Ace Wo Nerae), teatro (Glass Mask) ou música, Swan mostra o processo de crescimento de uma menina aparentemente comum, mas que tem grande talento e vocação para a "arte". No caso de Swan, essa menina é Masumi Higiri. Ela é apaixonada por balé e mora com o pai viúvo (a mãe dela foi bailarina) no interior do Japão, mas sua formação básica foi deficiente e parece que ela nunca poderá sonhar com sucesso profissional. 



Sua vida muda quando ela invade um teatro onde estava sendo encenado por bailarinos russos o Lago dos Cisnes. Ela não consegue assistir ao espetáculo mas furando a segurança, dança uma das peças diante do par principal. Sua performance muda, talvez uma analogia com o "cisne" do título, surpreendente e fascina tanto o bailarino russo Sergeiev, quanto Sayoko Kyogoku, a mais promissora das jovens bailarinas japonesas.

Dias depois, graças à intervenção do bailarino russo, Sergeiev, Masumi é selecionada para participar de um grande concurso promovido em conjunto pelo governo do Japão e da União Soviética com o objetivo de selecionar os melhores bailarinos adolescentes do país. Os vencedores receberão aulas, custeados pelo governo, de grandes bailarinos da Rússia e do Japão, além de bolsas de estudo em Moscou. Por causa de sua simpatia, Masumi consegue cair sob a proteção de Sayoko e de seu par regular nos palcos, o gentil Kusakabe Hisho. 



Além da dupla de reconhecido talento, conhece também Aoi, bailarino com estilo arrojado, e que lembra um pouco o Kairi de Peach Girl ( ピーチガール). Aliás, os dois rapazes caem de amores por Masumi que parece não perceber, ou não querer ter que escolher entre os dois. Apesar de esforçada e incentivada por Sergeiev, um dos juízes, a formação deficiente de Masumi se impõe e ela não vai para a fase final.

Decepcionada por ter que voltar para casa e para sua academia medíocre, Masumi fica deprimida, apesar de torcer muito por seus amigos. Para sua surpresa, entretanto, Sergeiev consegue que se abra uma exceção e ela volta para Tóquio para estudar sob o patrocínio do governo japonês. Lá o bailarino russo deixa claro que ela precisa aprender o básico para corrigir suas falhas. Muitos não acreditam que isso seja possível, mas Masumi se esforça, treina noite e dia e sobe seu nível técnico a ponto de Sayoko reconhecer nela uma adversária. 



Como o mangá se mantém, na média, apegado à realidade, a melhora da protagonista não é suficiente para que ela seja selecionada para uma apresentação especial em Moscou. Masumi vê todos os seus amigos partirem com bolsas do governo (Sayoko e Hisho para Moscou, Yuka para Nova York, Aoi - frustrado por ter perdido a chance de ir para a Rússia - parte para Mônaco). Ela mesma logo terá sua chance em Londres. Antes entretanto, faz uma parada de três dias em Moscou onde todo o seu percurso pode ser mudado...

O que eu posso dizer é que Swan é encantador, li tão devagarinho o volume #2 só para não ter que terminar logo. O duelo de Aoi e Hisho pelo papel no espetáculo em Moscou é tão poético e forte nas imagens e texto que vi e revi várias vezes. Se, por princípio, vemos em Swan a presença de algumas características de outros shoujos de crescimento (Bildungsroman) como a antagonista loura, Sayoko, ou o treinador severo, na figura de Sergeiev, a autora é competente o bastante para reverter todos os clichês a seu favor. Fora isso, nos oferece uma heroína extremamente humana e pouco relutante, afinal ela quer ser uma grande bailarina e acredita que pode tentar, se não ser a melhor, pelo menos chegar a ser uma das melhores do Japão. 



Temos também outros dramas, como o do fofíssimo Aoi que sempre perde para Hisho não por incompetência mas porque não tem o "perfil" do bailarino clássico. Acredito que ele volte a aparecer, afinal, ele e Hisho disputam por enquanto o coração de Masumi. Fora isso, ainda temos um mistério envolvendo Sergeiev e a mãe de Masumi que está deixando a moça com a pulga atrás da orelha.

Swan foi publicado originalmente na revista Margaret, entre 1976 e 1981, contando com 21 volumes ao todo. Só por aí se pode tirar o quanto de reviravoltas a vida da protagonista pode sofrer. Swan teve como um de seus objetivos promover o balé, e isso fica claro no cuidado com que apresenta termos e balés clássicos. Mostra também como um governo pode promover o desenvolvimento de certa atividade através do patrocínio de jovens talentos e do investimento pesado na formação de base. 



Isso é feito no Japão em várias áreas, e o mangá mostra, fiticiamente ou não, o esforço para que o nível dos bailarinos japoneses possa se equiparar aos dos russos e outros com mais tradição na dança clássica. Um belo sonho que podemos ver se materializar na instalação, aqui no Brasil, do primeiro centro de treinamento fora da Rússia do tradicional Balé Bolshoi. Pena que nossos políticos se interessem mais por prejudicar do que ajudar a atividade, jogando lama sobre o nome da nação e o esforço dos jovens bailarinos.

Apesar de Swan ser belíssimo e recomendado, ele não é considerado o mangá mais importante do filão balé, cabendo a Arabesque (アラベスク), obra de Yamagishi Ryoko iniciado em 1975, a primazia. De qualquer forma, se você tiver a chance de ler Swan, não perca, pois é um dos melhores shoujos clássicos em publicação no Ocidente. Para fãs hardcore como eu, isso é um grande presente! ^_^



Voltei!  Mantive a estrutura do texto conforme estava no original.  Só fiz algumas pequenas correções e nada mais.  O que eu tenho a acrescentar é que Swan teve vários gaiden: Swan: Hakuchou no Inori (SWAN白鳥の祈り),  Swan Selection (SWAN・セレクション),  Maia - Swan Act 2  (まいあ SWAN act 2), Swan - Germany Hen  (SWAN-白鳥-ドイツ編) e Swan - Moscow Hen  (SWAN-白鳥-モスクワ編).

Até o momento, Swan permanece inédito na maioria dos países ocidentais.  Não houve edições, nem na França, nem Itália.  Nos Estados Unidos, o mangá permanece inacabado.

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