quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O retorno do mangá que inspirou Lady Oscar, uma heroína revolucionária (também na TV): Artigo Traduzido

Hoje, apareceu para mim esse artigo sobre o lançamento da nova edição do mangá da Rosa de Versalhes na Itália, vindo do Corriere delLa Sera, um dos principais jornais do país. Eu falei dessa edição, que parece ser belíssima, em um post anterior.  Apesar de alguns pontos que eu vou discutir em notas, o artigo é bem interessante, especialmente, para quem não tem noção do impacto que o anime "Lady Oscar" teve sobre gerações de italianos.  Enfim, segue o texto traduzido e minhas notas estão no final.

O retorno do mangá que inspirou Lady Oscar, uma heroína revolucionária (também na TV) de Chiara Severgnini

O mangá "Le Rose di Versailles" de Riyoko Ikeda retorna publicado pela J-Pop. Considerada um marco, fala das mulheres da corte francesa do final do século XVIII. [1] Incluindo Oscar, uma heroína inesquecível que o público italiano descobriu graças a um desenho animado que foi como uma "carga de dinamite".

Algumas notas da música de abertura são suficientes para trazer Lady Oscar à mente de quase todos os italianos, pelo menos para aqueles que cresceram na frente de uma TV. Décadas após a primeira exibição do cartoon dedicado a ela, a espadachim mais habilidosa e elegante da França permanece inesquecível. Mas também incompreendida, como costuma acontecer com os personagens de quadrinhos japoneses que o público italiano descobriu por meio de episódios de animação (no jargão, anime). Se quase todo mundo a conhece, e alguém também lhe deve boa parte de suas noções sobre a Revolução Francesa, poucos leram "Le Rose di Versailles" de Riyoko Ikeda, o mangá que lhe deu corpo, voz, vida. Uma intensa história em camadas dedicada não apenas a Oscar, mas a muitas outras mulheres - as “rosas”, na verdade - da corte francesa do final do século XVIII.

Considerado um marco pela crítica e reverenciado como um cult pelos fãs de mangá, "Le Rose di Versailles" foi serializado no Japão de 1972 a 1973. Na Itália, teve uma história editorial conturbada, mas a partir de 9 de dezembro está de volta em uma nova edição - completo e fiel ao original - em cinco volumes, editado por J-POP Manga.[2] Uma oportunidade para o grande público que acompanhou as aventuras de Lady Oscar na TV ao longo dos anos ir além do desenho animado. E descobrir que há muito mais por trás dele. "A animação, embora extraordinária, ainda é uma redução do trabalho original", explica Georgia Cocchi Pontalti, editor da nova edição italiana do mangá e gerente de vendas de marketing da J-POP Manga e Edizioni BD, ao Corriere. As diferenças entre cortes e censuras são muitas: "O manga", resume a curadora, "é mais detalhado e tem mais níveis de leitura. Ele também mantém o humor típico de Riyoko Ikeda, que foi deixado de lado no cartoon para favorecer um tom mais trágico". E, se a série animada continua em sua opinião "lendária", o mangá é histórico, assim como sua autora. Pouco conhecida na Itália,[3] no Japão Riyoko Ikeda é considerada - junto com Moto Hagio e Keiko Takemiya do coletivo “Gruppo 24” - uma das maiores inovadoras do gênero shojo, voltada principalmente para o público feminino. “Nos anos 70 as histórias em quadrinhos para meninas eram principalmente roteirizadas por homens e tratavam principalmente de temas frívolos e estereotipados”, explica Cocchi Pontalti, “as autoras do “Grupo 24”, por outro lado, introduziram um maior realismo e trataram também de questões relacionadas com gênero ou sexualidade". Riyoko Ikeda não se dedicou apenas à Revolução Francesa, mas também à história da Rússia e da Primeira Guerra Mundial (em La Finestra di Orfeo), bem como às biografias de Catarina II e Napoleão. Com uma constante: "Sempre criou personagens femininas inesquecíveis, graças à sua capacidade de fazer jus às múltiplas facetas da sua personagem".

Quase meio século após sua primeira edição, As Rosas de Versalhes ainda é, segundo Cocchi Pontalti, "uma obra atemporal". E Lady Oscar continua revolucionária, mesmo em 2020. Afinal, ela é uma personagem tão disruptiva que nem mesmo os filtros, censuras e cortes impostos pelas redes italianas em sua versão animada conseguiram descaracterizá-la. Matteo Grilli, romancista (Crocevia di punti morti, Effequ) e ensaísta apaixonado pela cultura pop japonesa, atribui-lhe uma "carga de dinamite libertadora", difícil de decifrar para os espectadores-crianças que a viram na TV à tarde dos anos 90, mas destinada a deixar uma marca em suas vidas.[4] No ensaio A libertação dos Otaku (pode ser lido na coleção Nerdopoli, publicada pela Effequ), Grilli reflete sobre a "revolução passada pelas almas" explicando como "a personalidade de uma geração inteira se desenvolveu naquelas áreas cinzentas que a censura ele esperava mitigar". Isso também se aplica a Lady Oscar? “As cenas com caráter sexual  explícito foram eliminadas e muitos cortes foram feitos em relação ao mangá”, explica o autor ao Corriere, “mas tudo isso não foi suficiente para evitar que o anime quebrasse tabus de qualquer maneira, pela ambiguidade foi transmitido através do não dito".

Nascido em 1988 e, portanto, criado no que chama de "a era da onipresença da TV comercial", Grilli lembra todas as características que fizeram de Lady Oscar uma "alienígena" e, portanto, um produto televisivo magnético. “Tinha um forte componente dramático, personagens fortemente caracterizados e todo o charme de uma história de aventura”, explica ele, “contava uma série de emoções humanas contraditórias. Em vez de achatar e simplificar, como a maioria dos desenhos animados ocidentais, ele jogou complexidade, beleza e tragédia em nosso rosto”. Além disso, alguns dos personagens que a série apresentou realmente existiram e você poderia conhecê-los nos livros de história, o que causou uma espécie de curto-circuito entre a realidade e a imaginação. À complexidade narrativa, o desenho animado de Lady Oscar acrescentou uma estética anômala: se comparado a outros desenhos animados tinha uma animação desatualizada, compensada com sugestivas pinturas de imagens estáticas e inserções de música clássica hoje quase inconcebíveis no contexto do entretenimento vespertino (entre outros, havia o Bolero de Ravel).

Segundo Grilli, com Lady Oscar, a TV comercial, sem saber, deu às crianças italianas um dispositivo que as ajudaria a desconstruir aquela "visão binária" da identidade que, nas décadas de 1980 e 1990, era predominante, pelo menos nos materiais destinados às crianças . "No cinema e na música já havia algo acontecendo", explica, "mas não para nós. Para nós havia a escolha entre os brinquedos Polly Pocket ou Mighty Max, sapatos Lelly Kelly ou Bull Boys: os passatempos, as roupas e os desenhos animados eram divididos, de um lado os para meninos e de outro os para meninas, com poucas exceções. Mas Lady Oscar não era binário." Isso significa? “Foi transversal. Havia amor envolvido, então poderia ser rotulado como "para meninas"; mas também mostrava duelos e lutas, considerados "para meninos". E depois havia a protagonista que era um modelo icônico de transversalidade”. A própria Lady Oscar François de Jarjayes, é claro. “O bom pai queria um menino, mas infelizmente você nasceu”, [5] cantava a música-tema [**italiana**]. Diante dos olhos das crianças italianas, a espadachim loira se movia no espaço entre o masculino e o feminino, em equilíbrio entre as expectativas da sociedade e sua natureza indomável. Forte demais para ser dobrada, mas também frágil e humana, Oscar sofreu, lutou, amou. Ela se apropriou de suas contradições. E ela encantou a todos. "O seu carácter magnético", explica Grilli, "fez com que ambos os homens e mulheres ficassem fascinados pelo seu encanto, dos dois lados da tela. E a androginia a colocava muito longe do padrão de feminilidade ocidental. Claro, trouxe consigo ambiguidades que eram difíceis de decifrar. Mas, ao mesmo tempo, ela os apresentou com uma naturalidade que faltava em outros lugares. Lady Oscar era a desconhecida, e o que poderia ser mais bonito e atraente para uma criança?”.

[1] O texto faz questão de deixar claro que o mangá se chama "As Rosas de Versalhes".  Apesar do destaque que Oscar conseguiu, a própria Ikeda explicou que a ideia é de plural mesmo, que cada uma das mulheres da série (Antonieta, Oscar, Rosalie, Polignac, Jeanne etc.) são rosas de Versalhes.
[2] O formato em 5 volumes não é o original.  A Rosa de Versalhes teve 10 volumes ao todo e terminou de ser publicado em 1974 com um gaiden que ocupa boa parte do último volume.  Antes da edição da J-Pop, a obra já tinha saído completa na Itália várias vezes, ainda que em outros formatos.  Eu tenho uma delas.
[3] Eu discordo desse "pouco conhecida", porque vários mangás da autora saíram na Itália, praticamente tudo, aliás.  E Ikeda já visitou o país muitas vezes, participou de eventos.  Ela pode não ser tão conhecida das novas gerações, mas a afirmativa é bem questionável.
[4] Só para constar, Grilli deve ter assistido uma segunda, ou até terceira, exibição da Rosa de Versalhes nas TVs italianas.  A primeira exibição italiana foi em 1982.  Noa anos 1990, o mangá já estava em uma terceira publicação no país, se eu não estou enganada.
[5] Esse verso é da primeira abertura italiana, cantada pelo grupo 
I Cavalieri del Re.  Nos anos 1990, a abertura era outra e cantada por Cristina D'Avena.  Parece que a maioria dos italianos mais velhos preferem a primeira abertura utilizada no país.  

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