domingo, 21 de fevereiro de 2021

As Mitologias em Cidade Invisível: Recomendação de Canal no Youtube + Ponderações sobre como as mitologias são dinâmicas

Descobri anteontem um canal, o Youtube me sugeriu na verdade, que fala de literatura fantástica e mitologias e o Felippe Barbosa, o responsável por ele, está fazendo uma série de vídeos sobre os seres mitológicos que aparecem em Cidade Invisível.  Sim, preciso assistir a série, ou, pelo menos, parte dela.  Além de dizer o que eu já sabia como historiadora e pessoa que tem dois neurônios minimamente funcionais, isto é, que o mesmo mito pode aparecer de forma diferente em várias tradições diferentes,  e que mitos são reinterpretados e enriquecidos ao longo do tempo, mantendo, ou não, algumas variantes, ele está fazendo mapeando as origens diversas de nossos mitos e suas múltiplas encarnações.  Já falou da Cuca, da Iara, do Curupira e do Tutu Marambá.  Deixo o vídeo da Iara abaixo, porque estou agora bem convencida de que a personagem não precisava ser interpretada por uma índia, ainda que eu acredite que o seriado da Netflix deveria, sim, este é o verbo, ter incluído atores e atrizes dos povos originários do Brasil no elenco.  O resto, só posso comentar assistindo ao seriado.

Retornando, sim, os mitos podem ter diversas versões a depender do espaço geográfico, do povo e da cultura de uma região, das influências que incorpora, ou rejeita.  Vale para vampiros e para o Caipora e a Iara, também.  Eu estou pontuando isso, porque tive o desprazer de ler um texto, que não irei linkar, mas vocês acham fácil, sobre a Yara Flor, a Mulher Maravilha brasileira da DC, descascando o quadrinho, afinal, foi não foi escrito por nativos dos povos indígenas do Brasil, tampouco teve algum consultor local, e, segundo a autora, sexualizou a protagonista e que a Caipora, que no quadrinho é uma garota, parecia saída de um mangá hentai e era uma ofensa a uma divindade indígena que a pessoa fez questão de grafar no seu suposto original tupi para mostrar respeito.  

Olha, por essa lógica, tenho que defender o direito dos grupos cristãos e budistas que se sentirem ofendidos por SaintOniisan (聖☆おにいさん), quando a série começar a ser publicada, afinal, Jesus e Buda são tratados no mangá como seres da mitologia, não divindades, ou seres divinizados, que merecem nossa devoção e/ou adoração.  Qualquer divindade deveria poder ser usada na ficção,  podemos rir, chorar e nos emocionar com elas sem pertencermos a nenhum culto, ou cumulá-los de deferência.  Enfim, a tirar pelo texto e as imagens oferecidas para provar os argumentos, eu posso afirmar sem nenhuma dor no coração, que a coisa foi superdimensionada, ou é fantasiosa.  No entanto, havia algumas ideias lá muito interessantes que eu gostaria de comentar:

1. O Folclore é uma criação do colonizador, uma imposição, algo que deve ser rejeitado, não resultado da dinâmica das várias contribuições trazidas por negros, brancos e indígenas de várias origens.  Ora, como brasileira com sangue negro, índio e branco correndo nas veias, eu considero o Saci, Cuca e Caipora como meus, mais ainda, dizer que o folclore de um povo é terraplanagem do colonizador é ignorar todo o processo de criação dos mitos e sua dinâmica e riqueza.  Outra coisa, a cultura pop tem uma função importante na divulgação das mitologias, no seu revigoramento, e como um chamamento para que os interessados possam estudá-las.  Vale para Thor nos quadrinhos da Marvel, vale para o filme nigeriano com orixás super-heróis (*e que virou série, descobri agora*), vale para a nossa mitologia brasileira.  A desgraça é que se o folclore brasileiro é maldito, seja por ser uma imposição do colonizador, ou, em uma visão religiosa evangélica fundamentalista, superstições pagãs, vamos sempre gostar mais, saber mais, do que vem do estrangeiro, esquecendo de valorizar, divulgar e manter vivo o que é nosso.  

2. Não existe o mito original, ou, se existe, na maioria dos casos ele é inacessível sendo mais interessante perceber o quanto ele foi enriquecido, modificado e apresentado de forma diferente por vários povos e ao longo da história.  Olhando o vídeo do Curupira (Caipora), por exemplo, e lembrando da acusação da Caipora do quadrinho da Yara Flor parecer saída de um hentai, no que eu discordo, por mais que reneguem, as pessoas pensam a personagem nos moldes daquilo que nos foi oferecido no século XX por Monteiro Lobato e outros, o mito depurado e limpinho, como os contos de história. Pelo menos em uma das versões do Caipora, versão compartilhada por tribos do Pará e presente também no Paraguai (*imagem abaixo*), ele era como um fauno, com um pênis tão grande que se enrolava em sua cintura como um cinto (*vídeo a partir do minuto 3:50).  E, claro, com um pênis desse, a punição imposta a quem o desagradava é exatamente esta que vocês imaginam.  Então, antes da gente começar a escrever moralismos travestidos de respeito pela (*suposta*) cultura alheia, melhor dar uma pesquisada antes.

3. Tomando o ponto 1 e 2, concluo com o seguinte, não existe uma única cultura indígena brasileira, quando os colonizadores/invasores aqui chegaram encontraram várias nações e se aproveitaram das divisões locais e rivalidades pré-existentes para dominar o território do que viria a ser o Brasil.  O índio modelo é que foi uma criação do colonizador e tornou-se dominante de meados do século XIX para nossos dias.  O mesmo mito, o do Caipora/Curupira, aparece de forma diferente em várias tradições indígenas, podemos inferir que em algum momento, lá atrás, houve um Caipora original, mas ele é menos interessante do que compreender como o mito se tornou tão diverso entre as nações indígenas brasileiras.  Para a Iara, a situação é ainda mais interessante, porque nela se percebem mais claramente a influência nas tradições das diversas tribos, dos portugueses e das religiões afro-brasileiras.  

E, sim, é preciso dar voz aos indígenas, seria interessante ter consultores das tribos do Brasil,  participando da construção de um Cidade Invisível, mas os mitos são brasileiros, eles são plurais, eles receberam releituras e acréscimos e, para além disso, é uma obra de ficção.  Fora, claro, que sempre é  necessário fazer escolhas quando se produz qualquer coisa, imagino que a trama se passar no Rio derive disso.  E se a voz que se levanta para denunciar essa apropriação cultural me vem com um papo esquisito de que existe o mito original que é compartilhado por todos os indígenas, esse especialista está com um nativo idealizado na sua cabeça.  Ele pode servir para a sua militância, mas não me serve como historiadora.  Estou pelas tampas com o mau uso do conceito de lugar de fala para silenciar vozes mais informadas, ou como uma expressão de subserviência supostamente progressista.  E vou dar um exemplo didático que usei  somente no Facebook.

Sou historiadora, mas não sou especialista em História do Brasil, minha especialidade é Idade Média, dentro do período de 1000 anos, em século XIII e em História da Igreja Católica Romana.  Eu não sou mais habilitada a falar da História do Brasil do que um brasilianista estrangeiro, ainda que eu possa ter a experiência de ser brasileira, eu tenho o dever de respeitar quem se debruçou anos e anos sobre a história do meu país, aprendeu a língua, leu várias fontes, entrevistou pessoas etc.  Agora, se uma universidade brasileira fizer um seminário sobre, por exemplo, Era Vargas (1930-45) e convidar somente estrangeiros para participarem, ela está desprezando os especialistas na história do nosso país que existem e abundância.  E não seria eu a convidada, porque, bem, apesar de historiadora brasileira, não é minha especialidade.  

Pela lógica do lugar de fala que permeia a internet no momento, eu não poderia falar de Idade Média, porque, bem, eu nasci em 1976, temos que invocar o espírito de um homem, ou mulher, daquela época para falar com propriedade e, vejam bem, como sou chata, não bastaria isso, porque seu trouxesse um senhor feudal, ele não teria lugar de fala para comentar sobre a vida do camponês, mas como se trata de um homem, ele não teria lugar de fala para comentar sobre as mulheres.  Então, melhor não falar de coisa alguma.  Se formos nessa batida, só mulheres poderão escrever histórias sobre mulheres, só LGBTQ+ poderão escrever sobre LGBTQ+ (*dada a quantidade de letras, talvez teremos que compartimentar*), somente indígenas escreverão sobre indígenas etc.  Há de se ter cuidado, a corda que a gente estica demais pode nos enforcar, ou imobilizar.

Muito cuidado é o que seu sugiro.  Um pouco mais de calma e reflexão.  Mulheres, negros, nativos, pobres foram privados do direito de falar da sua experiência, seus saberes foram desmerecidos, mas há quem esteja caindo em várias armadilhas que o próprio discurso da inclusão ajudou a criar.  É preciso estudar, se informar, pensar para além do seu próprio umbigo e limitações.  Além disso, é urgente não repetir tolices do senso comum como se fossem verdades absolutas.  Não existe o índio, ou a Iara, ou o evangélico ideal fora de um arcabouço platônico que prevê que existe um modelo perfeito em algum lugar para ser alcançado.  

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