sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Comentando Isekai no Boukun Outaishi ni Metorare Soudesu!? ~Tensei Majo wa Kuroki Ookami ni Kyuuaisareru~: poderia ser melhor, se fosse um pouco maior.

Dias atrás terminei a leitura de Isekai no Boukun Outaishi ni Metorare Soudesu!? ~Tensei Majo wa Kuroki Ookami ni Kyuuaisareru~ (異世界の暴君王太子に娶られそうです!?~転生魔女は黒き狼に求愛される~), da mangá-ka Envy. Trata-se de um TL (teen love), logo, é mangá para mulheres adultas com conteúdo sexual. É coisa curta, seis capítulos somente, a maioria dos que eu tenho lido ultimamente sao bem mais longos, e eu decidi comentar, porque poderia ser um mangá muito bom se a autora não fosse tão preguiçosa, pois joga um monte de histórias legais e não as desenvolve devidamente, no entanto, ela conseguiu fazer uma discussão sobre estupro consentido através do par romântico da protagonista que foi além das minhas expectativas, além de fazer uma crítica bem contundente à discriminação de gênero no Japão.  

Yuki é funcionária exemplar de uma empresa e acreditava que iria ser promovida, mas o chefe lhe diz que ela precisa esperar, porque há um colega homem (*menos competente*) que tem família para sustentar e, por isso, merece ser ser contemplado antes dela.  Lembra das entrevista de Riyoko Ikeda comentando uma fala semelhante de seu chefe no início dos anos 1970?  Homens ganham mais, porque sustentam suas famílias.  Arrasada, Yuki acaba sofrendo um acidente no elevador (*não fica claro se ele é um portal, ou se ela morreu, enfim*) e indo parar em outro mundo, um desses reinos genéricos medieval like que todo mundo já viu.  Lá, ela é prontamente perseguida por um grupo de traficantes de escravos que a querem por ela ter olhos escuros e, exatamente por causa disso, ser considerada uma bruxa.

No meio da correria, um homem chamado Visel a resgata e a leva para o seu estabelecimento, um bordel.  Lá ele consegue roupas limpas (*e indecentes*) para Yuki, mas, ao avaliá-la, ele chega a conclusão de que ela é velha demais (*28 anos*) e muito estranha para ser atrativa para seus clientes e decreta que Yuki será uma criada no estabelecimento.  Yuki decide que precisa fugir, mas acaba entrando em um quarto e dando de cara com um sujeito mal encarado, cheio de cicatrizes e que a considera muito esquisita, pois ela fede à coco de cavalo e, ao mesmo tempo, é linda e tem cabelos brilhantes como ele nunca viu.  Yuki tinha feito um tratamento capilar elaborado na véspera, como antecipação para a sua promoção. 

Os traficantes de pessoas chegam ao bordel e querem Yuki.  Visel interrompe o que já estava acontecendo entre Yuki e o desconhecido, isto é, ele estava tomando liberdades com ela e a moça, apesar de resistir, estava meio que gostando (*o mangá deixa isso muito evidente*) e sendo TL isso não é surpresa.  Visel explica como encontrou Yuki, que descobre que o desconhecido é o verdadeiro dono do bordel.  Ele decide que irá atender o pedido de ajuda da moça e faz picadinho dos traficantes.  Sim, é picadinho mesmo.  Após isso, pede Yuki em casamento.  Ela recusa, mas, mesmo assim, ele a leva com ela.  

A mocinha é bem razoável em se espantar e recusar a proposta e os avanços sexuais do príncipe, já ele considera fascinante o fato dela o recusar e parecer não ter nenhum medo dele, mesmo tendo assistido o que ele fez com os traficantes e sabendo que ele é o príncipe. Sim, ele se apresenta para Yuki, ele é o príncipe Matias, herdeiro daquele reino e sempre envolvido em batalhas na fronteira para defender os domínios de seu pai.  Yuki quer ir para casa, apear de perceber que fugir seria uma burrice, mas fica muito curiosa em relação ao palácio real e Matias promete protegê-la e alimentá-la.  Já ele está fascinado por ela, sua aparência não é de uma camponesa, ou prostituta, e ela parece ser muito diferente das mulheres de sua terra.  Quando chegam ao tal castelo, ele ordena que ela esconda seus cabelos e rosto para não chamar a atenção e fique onde ele lhe deixou, até que ele volte das cocheiras.  Ela não obedece e termina capturada e presa nas masmorras do palácio.

Matias a encontra lá e a repreende.  De novo, temos uma quase relação sexual entre os dois.  A mocinha diz não, mas se entrega prontamente às carícias do moço.  Clichê e não há nada que pareça violência nesse episódio.  Quando estamos no quase, chega um guarda com roupas limpas para Yuki, conforme o príncipe tinha ordenado.  Ela diz que não quer, mas ele aponta para o fato das roupas d a moça estarem semi destruídas.  E o vestido é lindo, Yuki não resiste.  O capítulo 3 é um típico barraco de família novelesco.  Matias tem um pai-rei completamente fora da casinha, uma madrasta malvada que quer se livrar dele e um irmãozinho caçula (Joel) que ele ama e quer proteger o máximo possível.

O pai comenta que fazia muito tempo que ele não aparecia em casa e quer que Matias se case.  Ele diz que já escolheu a noiva, Yuki.  O velho quase tem um piripaque.  Quem Matias pensa que é?  Ele tem que casar com uma das princesas dos reinos vizinhos e firmar alianças, para coroar, chama Yuki de prostituta.  Enquanto isso, a madrasta morde e assopra, dando corda para Matias se enforcar.  Matias perde a paciência e diz que ele só se casará com Yuki e que o velho deveria parar de falar bobagens, pois ele só tinha um trono ainda, porque seu filho estava lutando e vencendo guerra atrás de guerra para defender as fronteiras do reino.   A madrasta termina dizendo que o rei deveria aceitar a escolha de Matias, que leva Yuki embora do salão.

Na cozinha, Yuki decide fazer comida para os dois, mesmo que ela não costumasse fazer isso em sua própria casa.  Ela imagina que os ingredientes devem ser parecidos com os japoneses e termina fazendo uma sopa que o príncipe acha deliciosa.  E ele comenta que a comida do castelo não é boa, porque tudo é sempre provado muitas vezes para testar se há veneno e quando finalmente se pode comer em paz, a refeição já esfriou.  Ela percebe a tristeza de Matias e reflete sobre como deve ser horrível ser tratado pela família como um inimigo.  Ele acaba dormindo com a cabeça encostada na mesa e a mocinha aproveita para fazer-lhe um carinho e admirar a expressão tranquila que ele tem no rosto.  Yuki ouve um barulho, pensa que é um rato e vai atrás cm uma vassoura.  Não era rato, mas o irmãozinho do príncipe.  

Yuki vai atrás do garoto, que é uma gracinha de menino e está muito assustado.  É ele quem revela para a protagonista o lado secreto de Matias.  Ele era a única companhia do garotinho, lhe ensinou várias coisas, mas ele não quer ser rei e deseja que o menino herde.  Joel conta para Yuki das conspirações da corte, dos vários provadores de comida que morreram e que Matias se afastou dele para protegê-lo, só que o rei deseja que o filho mais velho lhe suceda e, não, o caçula.  Por outro lado, a mãe do menino mexe seus pauzinhos para que Matias seja eliminado. Yuki abraça o garoto e o consola.  Percebe o quanto ele é solitário e que Matias deve sofrer por estar longe dele.  Depois da conversa, Yuki começa a pensar que Matias não tem sentimentos por ela, que ele simplesmente deseja se casar com alguém que todos julgam ser uma bruxa para afrontar o pai.  E Matias aparece e ele está furioso.

Duas coisas espero que estejam claras até agora, a primeira é que Yuki se apaixonou por Matias, ela tem sentimentos por ele, mas acredita que não deve fazer sexo com um quase desconhecido de outro mundo; a segunda é que Matias tem como traço maior da sua personalidade esta necessidade de proteger, seja o reino, Yuki, ou o irmãozinho.  E nesse afã de proteger, ele pode se tornar violento e o capítulo #4 mostra bem isso.  Ao acordar e não encontrar Yuki, ele fica desesperado e imagina que algo de ruim possa ter acontecido a ela, ou que a moça tenha decidido fugir dele.  E a forma de mostrar que ela lhe pertence é fazendo sexo com ela, que esta seria a antiga forma de tomar uma esposa nesse mundo.  A moça resiste, porque apesar de reconhecer o olhar de preocupação dele, de medo, e gostar dele DE VERDADE, ela tem medo de que ele só a queira por ela ser vista como bruxa.  Enfim, mal-entendidos de mangá, de novela, de romance Harlequin.  Nada de novo aí.

Já disse que acompanho esses mangás pelo Bato-to, porque os comentaristas às vezes valem mais que a obra.  O pessoal se dividiu entre ter sido estupro, ou não.  Na minha leitura, a coisa está ali no limite, porque Yuki tinha um monte de caraminholas na cabeça, mas estava excitada desde o início e foi satisfatório para ela também. Houve, no entanto, quem tenha largado o mangá ali.  Eu já vi situações de abuso realmente absurdo nesse tipo de mangá, um que eu odiei inclusive virou anime recentemente, agora, o desdobramento dessa sequência de sexo foi muito interessante.  Yuki desmaiou no meio do ato, isso depois de gozar sabe-se lá quantas vezes, mas ela estava cansada e em uma situação de estresse que já se prolongava por dias.

Quando Yuki acorda, DIAS DEPOIS, ela está em um quarto e tem uma criada particular chamada Freya.  Depois se acalmar, porque estava muito assustada por julgá-la uma bruxa, a criada fala que o príncipe a carregou para o quarto e diz que nunca viu Matias tão desesperado, ela também conta a lenda da bruxa que causa tantos problemas para Yuki.  Quanto ao incidente com Matias, enfim, a moça parece super animada, bem como a Scarlet O'Hara de E o Vento Levou..., depois da sequência da briga com Rett Butler que termina em uma tórrida noite de sexo.  Se vocês não assistiram ao filme, ou leram o livro, Scarlet tinha decidido que não faria mais sexo com o marido, porque não queria estragar o seu corpo com uma nova gravidez.  Eles têm uma altercação, transam, ela acorda toda animadinha, porque foi o melhor sexo da vida dela, enquanto o marido se sente culpado pelo que ocorreu e decide partir em uma longa viagem.

No livro, não no filme, Rett Butler fica aterrado por ter tratado sua esposa como uma prostituta, ou seja, havia prazeres que eram reservados somente para a mulher que estava fora do lar.  Butler estava reproduzindo direitinho a dupla moral da época, já a autora de E o Vento Levou... a estava atacando, porque, bem, se o sexo tivesse sido bom assim desde o início, Scarlet teria esquecido o pastel do Asley Wilkes faz tempo.  Voltando ao mangá, nosso Matias reage muito como o Rett Butler, mas ele se sente um estuprador.  O príncipe acredita piamente que agiu de forma imperdoável com Yuki e ao se confessar com Visel, o cara do bordel, o sujeito fica perplexo com duas coisas, primeiro, que a mocinha o tenha recusado, segundo, que o príncipe se sinta mal por ter feito sexo com a jovem.

A autora, lá do jeito dela, está discutindo consentimento.  Se a gente coloca a situação nos dias atuais, ainda que estupro não tenha sido, é possível questionar se Matias agiu corretamente, pois ele se deixou arrastar pelas emoções e ultrapassou certos limites, agora, se a gente joga no contexto de um mundo de fantasia, ele nada fez de errado aos olhos de seus contemporâneos.  E ele nem está com as noias puritanas do Rett Butler, ele simplesmente acredita se agiu como um bruto com a mulher que amava.  O que Matias coloca para Visel é que ele deveria ter esperado o tempo de Yuki, que ele a forçou a fazer sexo com ele quando ainda não o amava.  Visel fica perplexo.

Enfim, Yuki fica triste, porque Matias não volta de sua "viagem", mais tarde, ela descobre que o príncipe vinha vê-la todas as noites, mas que ela estava tomando um chá que a fazia dormir profundamente.  Matias estava sem coragem de falar com ela.  O conselho de Visel é que ele vá falar com Yuki e ofereça suas desculpas sinceras e leve um presente.  E, sim, aparece um vendedor de bugigangas no bordel.  Só que Matias acaba conversando com uma vendedora que mantém o rosto semi-escondido e compra dela um colar com um medalhão.  Quando ele pergunta a Visel onde a vendedora teria ido, o sujeito diz que nenhuma vendedora entrou no bordel.

E Matias termina voltando par pedir perdão à Yuki.  E eu conto nos dedos de uma mão um mocinho que tenha se arrependido de ter agido de forma sexualmente agressiva e pedido desculpas de forma tão sincera e ostensiva.  A atitude dele me agradou, porque mostra uma rara tomada de consciência e admissão do erro. E são somente seis capítulos, não há enrolação, falta é tempo para resolver as coisas.  Matias consegue convencer Yuki que ela é amada, que não se trata somente de afrontar o pai. E eles fazem amor e, agora, não há nenhuma dúvida de que foi plenamente consensual. A moça recebe o presente e percebe que o medalhão pode ser aberto, mas não sabe como.  Ela aceita casar com ele e Matias diz que tudo será feito em uma pequena capela e sem alarde e dane-se o rei.

Bem, Visel traz tecido para o vestido de noiva e joias antigas.  Yuki descobre um par de brincos que só podem ter vindo do seu mundo.  Dito isso, a mocinha teoriza que a bruxa original poderia ser uma japonesa como ela.  Visel diz que a joia pertenceu a uma das moças do seu bordel, que ela era muito bonita e disputada, mas que da mesma forma que ela apareceu, ela desapareceu e nunca mais voltou.   Tudo isso no capítulo #6, muito corrido.  Yuki começa a pensar que ela poderia voltar para casa, também.  Mas eis que ela se pergunta se deseja realmente retornar.  Tudo muito bom, tudo muito bem, chega o dia do casamento, mas a mocinha é sequestrada por ordem da madrasta do príncipe. 

Como termina a história?  Bem, sugiro que vocês leiam, porque achei o mangá bem interessante dentro das suas limitações.  Entregou um mocinho que se arrepende de seus erros, discutiu discriminação de gênero no mercado de trabalho, só que precisava responder várias perguntas e bastaria mais uns quatro capítulos para isso.  Quantas japonesas estiveram naquele mundo?  A bruxa original era uma delas?  A vendedora de joias (*o medalhão é mágico, claro*)?  Como Yuki conseguiu atravessar para o outro mundo?  São elevadores os portais, ou existem outros?  Matias conseguirá o reconhecimento da família?  Irá desmascarar a madrasta má?  Como aquele mundo funciona?  Enfim, mesmo com capítulos bem construídos e um casal interessante, a autora deixou várias pontas soltas na história e, bem, o mangá poderia ter sido bem mais interessante se fosse um pouco mais longo.

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