quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Comentando os episódios #3, #4 e #5 de Anatolia Story (Red River): a série funciona comigo, mas não sei se agrada a quem não é fã do mangá original

Estou com uma virose muito chata que pegou minha garganta. Não lembro dela ter doído assim desde que tive COVID. Por conta disso, nada de Shoujocast.  Espero gravar amanhã ou na quinta, mas preciso da minha garganta para o trabalho.  Então, vou fazer a resenha dos episódios 3, 4 e 5 de Anatolia Story (Red River/Sora Wa Akai Kawa no Hotori/天は赤い河のほとり).  O terceiro episódio tem Shoujocast, então podem ir lá conferir.  Clicando na tag, vocês rastreiam tudo o que eu já escrevi sobre esse mangá de Chie Shinohara de que eu gosto muito, inclusive a resenha dos primeiros dois episódios, que também têm Shoujocast, claro.

O episódio #3 foi um dos que correram sem grandes alterações.  Kail precisa aproveitar a oportunidade para enviar Yuri de volta para casa.  Ela está dividida, não somente  por querer vingar a morte de Tito, mas por estar se apaixonando pelo príncipe.  Kail sabe que é seu dever enviar a menina para casa, ele sabe que ela não pertence ao seu mundo e, o mais importante, que ela não seria a esposa ideal que ele tanto procura.  Com a entrada de Ilbani em cena, a decisão é feita.  Ele convence Yuri de que a partida dela é o melhor para o príncipe e lembra Kail de seu dever para com sua pátria.  O problema é que Nakia não quer deixar Yuri partir.

Quando todas as fontes de Hattusas estão cheias e Kail está fazendo o ritual, Nakia tenta puxar Yuri para dentro d'água, Kail a impede, mas Zuwa e seus homens interrompem o ritual e Yuri se lembra de que precisa vingar Tito.  Mesmo com a animação de orçamento limitado, Yuri pulando e pegando a touca que Zuwa fez com a pele de Tito foi bem feita.  Ela decide ficar.  E, se bem me lembro da história, a próxima oportunidade só no próximo ano.  Ilbani detesta a situação e Kail continua se angustiando, porque nunca amou uma mulher e, agora, está apaixonado pela mulher errada.

O final do episódio é com Kail partindo para Alina, cidade natal de Tito, que estava sob ataque dos Kashuga, tribo de Zuwa.  Nakia está por trás do ataque; para atingir seus interesses, ela destruiria o império que quer que seu filho herde.  Contraditório, mas é isso.  Se Kail deixar Yuri para trás, ela se apropriará da menina; se o príncipe a levar, ela acredita que irá atingir seus objetivos do mesmo jeito.  Ela envia Uhri, que se apresenta como servo do príncipe Kail, para enganar as irmãs de Tito: Hadi, Ryui e Shala.  Ele as convence de que Yuri matou Tito.


Observando esse plot das irmãs, ele é bem fraco.  Elas são facilmente enganadas e cometem uma série de atrocidades guiadas por informações bem capengas.  Muito bem, Kail decide levar Yuri; ele se aproveita do fato da menina ter saído da fonte para dizer que ela é uma dádiva de Ishtar, a deusa do amor e da guerra.  É um discurso bem populista, mas dá certo e justifica a presença de Yuri com os exércitos.  É na abertura do episódio #4 que Yuri vê o rio vermelho que dá nome ao mangá e fica fascinada por ele.

O quarto episódio teve um corte importante que não se justifica, economia nos amassos entre Kail e Yuri e uma animação bem pobre que tornou a sequência de batalha muito deficiente.  O corte é o teste que Uhri faz do veneno em uma cabra.  O animal morre, mas como não era um veneno, mas um simulador de morte, ele acorda depois, assim como Yuri, ao ser envenenada pelas irmãs de Tito.  Por qual motivo cortaram a cena do animal sendo envenenado e acordando depois?  Não sabemos.


Durante a batalha, as irmãs de Tito tentam atrair Zuwa para matar Yuri.  A menina, ao fugir do gigante, acaba montando um cavalo e entrando no meio da batalha.  A cavalaria como arma de guerra não existia naquele momento.  Isso não tem nada a ver com montar cavalos ou mesmo termos grupos de saqueadores montados; estou falando do uso militar da cavalaria.  Eu sabia que os primeiros a usar regularmente a cavalaria foram os assírios, isso no século 9 A.E.C., uns quinhentos anos depois de Anatolia Story, portanto.  Escrevendo esse texto, tropecei em um artigo que joga o uso militar da cavalaria para uns cem anos antes, mas isso não muda o fato de não haver cavalaria na época do mangá.

Na época do mangá, tínhamos infantaria e carros de guerra.  Os hititas, graças à metalurgia mais avançada, serão os primeiros a criar eixos que permitissem levar três guerreiros (*condutor, um soldado com escudo e um guerreiro arado*).  A carruagem de Kail leva somente dois ainda.  Na Ilíada, que é um texto composto séculos depois da guerra que está narrando, o uso dos carros de guerra não era compreendido.  Se vocês observarem o texto, verão que os sujeitos vão de carruagem até o campo de batalha e descem para lutar.  Já na época de Homero, e mais ainda na da fixação do texto, os gregos normalmente lutavam a pé, lado a lado e com armas mais ou menos padronizadas.  Mas retornemos.


Yuri consegue, mesmo que sem querer, virar a batalha a favor dos hititas e isso reforça a ideia de que ela é uma dádiva da deusa.  À noite, temos de novo Yuri tentando resistir a dormir com Kail, ele reforçando que somente assim pode protegê-la e que ele tem uma imagem a manter.  Oficialmente, ela é sua concubina.  Mais uma vez, Kail tentará fazer sexo com Yuri.  Diferentemente da primeira vez, ela se mostrará um pouco mais receptiva (*no mangá, as mãos dela tremem*) e não se lembrará mais do namoradinho (*Himuro*).  A sequência era ligeiramente mais longa, mas os dois são interrompidos pelas irmãs de Tito.  É nessa sequência que Yuri mostra sua agilidade e usa a espada de Kail para aparar um golpe de Hadi.

Nesta sequência, que é fruto da burrice das irmãs, houve uma alteração ruim.  Uma das gêmeas consegue segurar Kail, o que é ridículo.  Em situação normal, ele a atiraria longe.  No mangá, ela o empurra, ele se desequilibra e é o tempo suficiente para que Hadi e a outra gêmea despejem o veneno na garganta da menina.  Temos a falsa morte de Yuri e Kail em desespero.  Só que, como o anime está correndo, a intensidade do sofrimento do príncipe e o arrependimento das irmãs de Tito são encurtados.  Enquanto Kail está interrogando Hadi e as gêmeas, o corpo de Yuri é roubado.  A discussão ridícula, mas necessária, entre Zuwa e Uhri está no mangá.  O gigante quer a pele da menina e deseja matá-la, afinal, a rainha só precisa da cabeça e do sangue da jovem.  Já Uhri insiste que o ritual da morte da menina precisa ser feito pela rainha em Hattusas.  Nada de videoconferência dessa vez.  O episódio termina com Yuri fugindo de Zuwa e encontrando Talos, pai de Tito.

O episódio #5 começa com Talos confrontando Yuri, ele acredita que ela matou Tito e a levando até uma câmara na qual ela deveria escolher uma arma.  Ela escolhe uma adaga com a bainha e o punho enferrujado, mas que cabia bem em suas mãos.  É uma arma de ferro, metal raro na Idade do Bronze Tardia, mas que, para a menina, era algo comum.  Yuri decide lutar e enfrentar Zuwa, mesmo ao custo de sua vida.  Quando ela quebra a espada do gigante, não é por força, mas porque o ferro é superior ao bronze.  Então, que ninguém pense que Yuri se tornou uma super-heroína.  Da mesma forma, ela usa o ferro para romper o rejunte dos tijolos da muralha, derrubando Zuwa.  

Aqui, economizaram não mostrando que Zuwa conseguiu cortar o cabelo de Yuri várias vezes com sua lâmina.  O cabelo da menina no mangá é bem irregular, aliás.  Ora, parece mais curto, ora, parece mais longo. Quando Zuwa mata os soldados de Kail que vêm ajudar Yuri, não há sangue e a violência é menor, mas não cortaram o sangue na morte de Zuwa, mas havia mais sangue no mangá.  Quando Kail alcança Yuri, ele a abraça apertado e encosta seu ouvido no peito da moça.  No mangá, ela reclama que ele é um pervertido, mas rapidamente compreende que ele estava emocionadíssimo por ela estar viva e por seu coração estar batendo.


Chegam Talos e suas filhas.  Yuri intervém para que todos sejam perdoados e Hadi e as gêmeas se tornam suas damas.  Antes disso, Talos explica que a lâmina que Yuri escolheu é especial, um segredo, porque a metalurgia do ferro era algo difícil e ainda não difundido.  O  mangá, que começou mais de trinta anos atrás, está se baseando no que era consenso na época, isto é, que os hititas tinham o monopólio da metalurgia do ferro na Idade do Bronze Tardio.  Hoje, acredita-se que, mesmo que os hititas tenham avançado muito, os egípcios e outros povos já conseguiam trabalhar com o ferro, seja o dos meteoritos, citado no mangá/anime, ou o minerado.  Aqui, o anime poderia ter corrigido o mangá; afinal, ele conta com uma consultoria de arqueólogos.  Por outro lado, a informação e a escolha da adaga são importantes para a história.  

Muito bem, agora, as tropas não veem Yuri somente como uma dádiva da deusa, mas como um avatar da própria Ishtar.  Quando Kail retorna, seu pai ordena que ele leve Yuri para o campo de batalha quando ele for enfrentar os Mitanni, porque sendo ela Ishtar ou não, ela é importante para a moral das tropas.  Diferenças aqui, Kail estava sentado e muito relaxado, bebendo até, na sua conversa com o pai.  No anime, ele está de pé e distante do pai e da madrasta, que estão sentados em tronos. Algo que o anime retratou bem é a culpa de Kail por usar politicamente Yuri.  Ela não lhe pertence, não é sequer sua concubina de verdade.

Enquanto isso, Yuri, que ganhou o cavalo de presente, está tentando aprender a montar com o apoio de Kikuri.  Hadi a arranca do cavalo, porque ela precisa se arrumar para receber Kail, porque ele pode querer dormir com ela.  No anime, não é mostrado a menina tomando banho, mas sendo colocada em vários vestidos, todos muito feios, até que Kail chega e a vê e ela está se despindo.  Ele vê os seios da menina; não os vemos, e ela joga o vestido em cima dele e prefere ficar com suas roupas comuns.  Todo o figurino até agora é horrível, mas temos um problema provocado pela censura.

No mangá, Kail chega ao palácio, reclama da estação seca, da poeira, atira espada e capa sobre Kikuri e diz que vai se banhar.  Ele chega a ponto de ver Yuri nua sendo cuidada por Hadi e ouve a menina reclamando que é magra demais e que seus seios são pequenos.  Hadi diz que eles iriam crescer se ela deixasse que seu senhor os massageasse.  Kail diz que faria  isso com prazer.  Yuri grita, se joga na água e atira água nele.  Hadi não entende a grosseria; as irmãs ainda não sabem que ela não é concubina de verdade.  Ou seja, Kail não viu Yuri com um vestido e a primeira vez em que ele e Zananza veem a protagonista arrumada causa um grande impacto.  Censura burra que vai roubar emoção de uma cena que ainda virá.

Falei Zananza, porque ele chega no final do episódio.  O pai de Kail tinha avisado que iria convocar os príncipes para Hattusas e o encontro entre os irmãos é bem emocionado, mas não tanto quanto no mangá.  Ilbani explica a Yuri que Zananza será fundamental como apoio para Kail.  Não sei se foi censura das legendas, mas Zananza não identifica Yuri como uma mulher, menos ainda bonita o suficiente para atrair a atenção de Kail, e brinca que não sabia que ele gostava de meninos.  Também é cortada a fala de Zananza de que ele veio conhecer a concubina do irmão e, não, discutir guerra com homens cabeludos.  Na verdade, cortam boa parte das piadinhas de Zananza sobre o irmão ter uma concubina.  E todos sentam para comer e a guerra é discutida.  

Esta conversa é importante para que Kail possa dizer que não deseja a guerra, mas se tiver que ir à guerra para garantir a prosperidade de seu povo e uma paz duradoura, ele assim o fará.  Yuri arruma uma desculpa (*ir buscar mais vinho*) para se retirar e chora sozinha porque sabe que não pertence aquele mundo e não pode amar Kail.  O príncipe chega e pergunta se ela quer morar em um palácio separado dele.  Ele reafirma em voz alta que ela não lhe pertence e que não quer usá-la.  No fim das contas, ela pergunta se ela será útil a ele e se oferece para ficar a seu lado e ir para a guerra.  E eles se beijam.  Se vários diálogos foram cortados, esses foram preservados.  A última cena é de Nakia praguejando.

No grupo do Facebook do Shoujo Café há um post criado para criticar o anime. Dizer que ele é ruim. Gosto é gosto, não vou comentar isso aqui. Agora, um dos pontos levantados é que a protagonista é irritante, chata, burra e FEIA. Bem, Yuri é a protagonista padrão de shoujo mangá, ela não é nem tão bonita, nem tão inteligente, mas ela tem muita força de vontade. Neste caso, de ajudar seu príncipe.  Qualquer leitora pode se espelhar nela. E é uma série de fantasia (*o passado é um isekai*) na qual a menina comum é alvo dos afetos de todos os machos interessantes da série. Imagine, você,  garota comum, pode ser objeto do desejo e centro da vida de um príncipe que, no caso da Anatolia Story, irá melhorar para merecê-la. A heroína belíssima de shoujo, e elas existem, não se presta a essa mobilização de sentimentos.

Concluindo, eu estou gostando do anime, eu esperei por ele por mais de vinte anos, mas ele é uma versão muito mutilada do mangá.  Precisava ser assim?  Não.  E imagino o que vai sobrar no próximo episódio, porque teremos muita violência e devem navalhar muita coisa, o que vai tirar a potência da história.  Fora isso, há a correria e a mutilação dos diálogos e a animação muito deficiente. Alguns frames do anime mostram o quanto a coisa é feia, se descartarmos alguns momentos que recebem mais atenção.  É isso.  Espero gravar o Shoujocast amanhã ou hoje.

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