quarta-feira, 15 de julho de 2026

Comentando os primeiros episódios de Anatolia Story (Sora wa Akai Kawa no Hotori: Red River): Estou Feliz, mas a Censura já está comendo solta.

Como não conseguirei gravar o Shoujocast hoje (terça-feira), decidi escrever um texto primeiro, mas o programa sairá amanhã.  Enfim, Anatolia Story ou Red River ou Sora wa Akai Kawa no Hotori (天は赤い河のほとり) estreou na semana passada e está na Crunchyroll.  A animação é baseada no mangá de Chie Shinohara publicado entre 1995 e 2002.  A protagonista da série é uma adolescente japonesa comum chamada Yuri. Ela tem pai e mãe amorosos e duas irmãs. Acabou de passar para a escola que desejava e trocou seu primeiro beijo com o garoto do qual gostava.  Só que ela é arrastada para o séc. XIV A.E.C. pela rainha dos Hititas, Nakia, que deseja usar o sangue da menina para eliminar todos os filhos de seu marido que estão à frente dele; para isso, ela precisa de um sacrifício humano.  Os deuses lhe indicaram que essa oferenda é Yuri.  Como Nakia controla a água, Yuri começa a presenciar situações estranhas sempre que está  perto dela.  Um dia, ela é puxada para o passado.  

Yuri sai de uma das fontes da capital dos hititas, Hattusas.  Confusa, ela não reconhece o lugar, nem a língua, nem as roupas.  Quando consegue se firmar sobre as próprias pernas, ela corre pela cidade e passa a ser perseguida pelos soldados da Rainha.  Ao entrar em um jardim, ela encontra um jovem que joga sua capa sobre ela e a beija.  Depois do beijo, ela passa a entender a língua dos hititas.  O jovem é o príncipe Kail; ele a agarrou para despistar os soldados dizendo que estaria com uma amante.  Mas Yuri se assusta e acaba fugindo e sendo capturada.  Quando iria ser publicamente sacrificada, Kail interrompe a cerimônia e diz que ela não poderia servir de oferenda, porque ele tirara sua virgindade.  A menina precisa confirmar a versão e Kail a leva para seu palácio.  Como ele e a madrasta são inimigos de longa data, ele decide protegê-la e tentar enviá-la de volta.  Impedir os planos de Rainha também é uma forma de salvar sua própria vida e a de seus irmãos.  Só que não será fácil, afinal, a Rainha fará o possível para se apossar da menina e Kail começa a se apaixonar por Yuri o que pode enfraquecer sua resolução de devolvê-la para o século XX.

Anatolia Story é um dos grandes isekai dos anos 1990, contemporâneo de Fushigi Yuugi (ふしぎ遊戯), Kanata Kara (彼方から),  Guerreiras Mágicas de Rayearth (魔法騎士レイアース), Escaflowne (天空のエスカフローネ)Harukanaru Toki no Naka de (遙かなる時空の中で) etc.  Sim, trata-se de um isekai, mesmo sendo também uma fantasia histórica, o que pelos moldes japoneses pode receber até o rótulo de ficção científica.  Isekai (異世界) quer dizer outro mundo.  Essa outra terra normalmente é um mundo de fantasia, mas eu insisto que Anatolia Story é um isekai, porque estou usando um conceito da historiadora Sandra Jatahy Pasavento, que defendia que o passado era uma terra estrangeira com costumes e língua estranhos.   Anatolia Story é um duplo isekai, porque se passa em outro tempo passado e em uma cultura totalmente estranha à protagonista.  Nesse sentido, Yuri é levada para outro mundo com língua e costumes distintos e precisa sobreviver e retornar para sua casa. E não vou adiantar se ela consegue ou não, mas você pode descobrir facilmente na internet, inclusive neste blog, porque eu tenho uma tag Anatoia Story, afinal, é um dos meus mangás favoritos.

A animação veio como uma surpresa e é parte das comemorações dos 45 anos de carreira de Chie Shinohara.  Anatolia Story é uma das obras mais conhecidas e amadas da autora, e que denuncia o seu hiperfoco em Turquia, como ela deixou claro em mais de uma entrevista, mas Shinohara tem muitas obras e é uma especialista em shoujo de terror.  Há algo de terror em alguns momentos de Anatolia Story e vocês logo irão perceber isso.

Para quem leu hititas e não entendeu nada, porque não os estudamos na escola, trata-se de um poderoso império da Idade do Bronze Tardio, cujo centro era a Anatolia, na atual Turquia.  Durante muito tempo, a existência dos hititas foi desconhecida, salvo por breves aparições no texto bíblico que faziam crer que seria mais um daqueles pequenos povos de Canaã.  Só passamos a saber mais sobre eles a partir de descobertas no Egito e, posteriormente, na Turquia e outras regiões do Oriente Médio.  Em seu momento de maior esplendor, exatamente a época do nosso mangá, os hititas rivalizavam com os egípcios e tinham influência no Crescente Fértil e na Mesopotâmia.   

Os hititas escreviam muito e sobre tudo.  Eles usavam uma versão do cuneiforme e escreviam ao estilo Bustrofédon, alternando o sentido.  Por exemplo, nós escrevemos da esquerda para a direita; eles trocavam a cada linha.  Os hititas também são lembrados como um povo que tinha muitos deuses, porque tinham os seus e agregavam os dos outros; sendo chamados de "Povo dos Mil Deuses".  Adotar deuses estrangeiros e conceder liberdade de culto aos povos submetidos fazia parte da boa diplomacia, ainda que, se você pegar a história de Salomão, esse tipo de prática pareça abominável para um povo exclusivista como os hebreus.

Como um legítimo exemplar do que era publicado na revista Sho-Comi nos anos 1990-2000, o conteúdo sexual em Anatolia Story é bem maior do que o que temos hoje em revistas mainstream shoujo impressas.  Não é +18, como já vi gente puritana ou que não conhece material que é realmente erótico/pornográfico dizendo por aí, mas não seria colocado em uma revista juvenil hoje, tavez, aparecesse na Ane-kei Petit Comic, que é onde o outro mangá histórico da autora que se passa na Turquia, Yume no Shizuku, Kin no Torikago (夢の雫、黄金の鳥籠), foi alocado.    Outra alternativa seria estar em alguma plataforma ou revista online, onde os shoujo mais apimentados ainda podem ser encontrados, vide o caso de Kimi to Koete Koi ni Naru (キミと越えて恋になる), que teve anime no ano passado.  

Dito isso, o segundo episódio já mostrou algo que eu imaginava que ocorreria: a censura.  E não se trata de cortar cenas ecchi, porque não é disso que estamos falando, mas de situações sexuais que fazem sentido na história e podem, inclusive, ajudar na narrativa.  Por exemplo, em uma sequência na qual Yuri deveria estar nua e Kail semivestido, todos estavam com suas roupas. Além disso, ele não a agarra da forma como fez no mangá, algo que seria lido tranquilamente como uma tentativa de estupro pela audiência contemporânea.  No contexto da história, Kail não entende que Yuri não o deseje, afinal, ele é um príncipe e a trouxe para o seu palácio.  E reforço que Kail entende o que é consentimento, que Chie Shinohara não é complacente com o estupro (*algo comum em mangás da época*), ainda que, mais para frente na história, por desespero, ele acabe ultrapassando a linha em uma sequência importante que não deveria ser cortada ou atenuada, mas desconfio que será.  De qualquer forma, não é algo que estará nessa temporada.

Sim, haverá outras temporadas de Anatolia Story.  Sei disso, porque Ramsés não aparece na abertura e não há dublador escalado para o papel.  Ele não estará nesta temporada, portanto, ou só será introduzido no último capítulo, talvez sem fala alguma, se o corte for feito onde eu imagino que será.  Como o anime está sendo planejado há tempo, ou o anúncio e a estreia não seriam tão próximos; deve ocorrer com ele o mesmo que está sendo feito com Hana-Kimi (花ざかりの君たちへ).  Três temporadas ou quatro para cobrir o mangá.  Esta sequência em que Kail tenta forçar Yuri, se aparecer, deve estar somente em uma terceira temporada ou no final da segunda, porque o acontecimento é do volume #11 de um mangá que tem 28 encadernados.  

Já outra sequência cortada do episódio 2, é aquela na qual o príncipe, um rematado playboy, observa que prefere mulheres com curvas, que a menina era muito magrinha e toca nos seios de Yuri na frente de Tito e Kikkuri, como se fosse a coisa mais banal do mundo.  Ele tinha lhe oferecido jujubas, e lembro que, na época, fui procurar o que eram essas tais jujubas, e descobri que os nossos doces baratos imitam uma fruta que existe e que é bem calórica.  Enfim, eu acredito que vários cortes irão acontecer ainda.  O anime será uma versão higienizada da história.  Torço, porém, para que o material não seja descaracterizado, pois as personagens são complexas e não podem ou devem ser planificadas para atender às hipocrisias de nosso tempo.  De qualquer forma, preocupou-me mais a redução dos diálogos, porque alguns deles ajudam a estabelecer a dinâmica das personagens com Yuri sendo capaz de falar com Kail de uma forma como outras pessoas, especialmente mulheres, não ousavam falar.  Chamá-lo de idiota, tacar coisas nele e, claro, recusar-lhe sexo.

Houve diálogos que foram mudados de lugar; isso não é um problema; uma adaptação não precisa nem deve ser uma transposição fria do original.  O que me preocupa é a possível perda de informação.  Por exemplo, Yuri diz que essa história de feitiço não era algo científico. Foi cortado.  Quando ela é atacada por Tito enfeitiçado, ela está pensando em como o palácio de Kail parece muito vazio e a Rainha, que a observa, diz a Uhri que isso é bom, porque o príncipe só deixa pessoas de sua máxima confiança em sua casa.  Yuri é a primeira mulher que ele leva para seu palácio. Essa informação ficou na animação.  Esse dado será importante mais adiante na história para entender a personalidade de Kalil. 

Se no segundo episódio sequências que tinham conteúdo sexual foram cortadas ou atenuadas, no primeiro episódio a economia veio nas cenas em que a  Rainha tentava puxar Yuri para o passado e fracassava.  O corte mais lamentável é quando Yuri está com Himuro (*o primeiro namorado*) cumprindo aquelas tarefas de representantes de sala de escola japonesa, as mãos saem de um aquário na escola e tentam agarrá-la.  O aquário se estilhaça no chão; os peixes morrem.  O rapaz fica sem entender o que está acontecendo.  É uma das sequências de terror do início da série.  E, sim, Yuri quase foge de Tito, mas a sequência é encurtada e ela parece mais vulnerável do que é na verdade, além de deixarem de fora que o menino feriu seu pescoço.  Eliminaram o sangue. Cortaram, também, o ferimento que Yuri sofre na mão quando invade o palácio da Rainha.  Ferimento que demora a sarar e que é sério. Se começaram já com essa palhaçada, a coisa pode se tornar recorrente.

A animação, quando saíram os primeiros vídeos, parecia ser muito pobre, mas está no mesmo nível da primeira temporada de Hana-Kimi (*acho a animação da segunda temporada um pouco melhor*).  Não é uma animação de qualidade superior, mas está longe de ser ruim e há o uso de imagens paradas para dar efeito dramático  Isso foi importante no primeiro episódio.  Dito isso, a animação flui bem e estou satisfeita com ela.  A música de abertura e toda a sequência são boas; a de encerramento foi apresentada no episódio dois e é bonitinha. Já coloquei as duas no rádio do meu carro para ouvir e decidir se gostei muito ou não.  

A dublagem está muito boa; as vozes casaram bem até o momento.  Vamos ver quando as outras personagens começarem a aparecer.  Aqui, algo que gostaria de destacar, os dubladores dos pais de Yuri, Inoue Kazuhiko e Takayama Minami, fizeram as vozes da mocinha e de Kail nos dramas CDs da época em que o mangá estava sendo publicado.  Achei a homenagem muito bonitinha.  Se o anime tivesse saído lá atrás, é possível que eles fossem os dubladores oficiais.  

Outra coisa, a série está contando com uma assessoria técnica de arqueólogos, o que talvez torne determinadas coisas mais realistas.  Uma crítica a fazer é sobre a roupa de Yuri.  No mangá, ela usa uma túnica simples durante boa parte do tempo, mas ela tem alguns detalhes, como o feixo nos ombros, e sempre aparece usada com uma faixa na cintura.  No anime, a colocaram metida em um saco de batatas sem forma.   Não sei mesmo se esse tipo de túnica peça única era usada pelos hititas.  Agora, entre outros povos posteriores, como gregos, etruscos e romanos não é o tipo de roupa comum.  Resumindo: ficou feio e disforme.  As roupas das outras personagens acompanham o mangá até o momento.

Se você conhece o meu blog ou assistiu ao Shoujocast sobre o primeiro episódio, sabe o quanto eu amo esse mangá.  Amar uma obra não quer dizer que eu não percebo seus problemas.  Já repeti várias vezes que Yuri deveria sofrer mais por se separar de sua família, a autora não se esforçou tanto nessa parte porque, desde o início, queria uma protagonista que fosse uma mulher da época retratada e os editores não lhe permitiram fazer isso.  Ela só realiza seu desejo em Yume no Shizuku, Kin no Torikago, muitos anos depois.  Uma das mudanças que espero, portanto, é vê-la lembrando mais de seus familiares, para que seu sofrimento, dividida entre a família e Kail, seja maior.  

Outra coisa que espero que mudem para melhor é que Kail use mais a sua magia.  Ele aparece na abertura usando o poder do vento, algo que não esperava.  Pensando bem, o beijo que faz com que Yuri passe a entender a língua pode ser tanto resultado do poder dele quanto da deusa Ishtar (*Yuri é o avatar da deusa do amor e da guerra*). E quando Kail obriga Yuri a dormir com ele, é para protegê-la da Rainha.  A magia dele inibe a da vilã e ela não consegue espionar a menina.  E já vi isso acontecer em outras séries, quando uma personagem mantém a mocinha perto para que o vilão ou vilã não consiga ter poder sobre ela.  Não se trata, portanto, de luxúria, ainda que, bem mais tarde na história, a peguete mais longa que ele teve dirá para Yuri que Kail nunca dormia a noite toda com uma mulher e nunca relaxava a ponto de não deixar a espada ao alcance da sua mão.  Com Yuri sempre foi diferente, mesmo que o próprio Kail não percebesse isso no início.  Agora, bem que Kail poderia colocar uns feitiços na sua casa para impedir que o poder da Rainha pudesse ter efeito dentro dela.

Acredito que seja isso por agora.  Falei muito no primeiro Shoujocast.  Hoje, porque já passou e muito da meia-noite, farei outro programa.  Estou muito feliz com a estreia da animação.  Muito mesmo.  O que pontuei no texto não é para desabonar a série animada e não acreditem em quem diz que se trata de um anime ruim.  Pode ser o gosto da pessoa, má vontade ou aquela ideia de que uma adaptação tem que ser igual ao original.  O mangá está disponível para quem quiser lê-lo.  As mudanças, até agora, são explicáveis, ainda que não me agradem.  O mais importante, porém, é ver as personagens se movimentando, finalmente ouvir suas vozes e aproveitar essa boa onda nostálgica sem ser babaca, porque o que estão trazendo lá dos anos 1990, até o momento, é material de excelente qualidade.

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