sexta-feira, 6 de abril de 2007

Comentando Minha Vida de Menina


 Finalmente, consegui assistir Minha Vida de Menina, o filme baseado no diário de Helena Morley, na verdade, Alice Dayrell Caldeira Brant. Me empolguei muito quando soube que o filme estava sendo filmado e lamentei não ter podido assistir no cinema. Mas como ir se a estréia foi em pouquíssimas salas e todas longe de casa? Difícil... Mas peguei o DVD, por fim.


Minha Vida de Menina é um daqueles livros que em outros países teria se tornado um clássico do mesmo porte de Heide ou Little Women. Escrito por uma adolescente dos seus 13 e 15 anos, entre 1893 e 1895, nele Helena nos dá a sua visão sobre o mundo e as coisas ao seu redor, sua Diamantina outrora rica e agora estagnada, sua família pródiga em tipos excêntricos, o racismo “cordial” do Brasil pós-Abolição (*O pai de Helena no livro despreza os negros, no filme jogam esse comportamento apra outros parentes*), a vida escolar nos primeiros anos da República, enfim, uma miríade de coisas. Uma delícia de leitura.

Como disse, em outros países teria virado filme, seriado de TV, desenho animado... Sempre penso no shoujo mangá que Vida de Menina daria. Aliás, a personagem rebelde, de língua afiada, sardenta, magrela e ruiva (*no meio de morenas*), muito lembra as heroínas nos moldes de Candy Candy. Não consigo entender por que não virou novela ou minissérie no Brasil. A riqueza das relações familiares, em especial de Helena com sua avó, mãe e tia. Mas virou filme e um filme agradável.



Resumindo a história: Helena Morley mora em Diamantina no final do século XIX. A família de sua mãe é rica, mas ela vive na pobreza. Sua mãe, ao contrário das outras irmãs, casou por amor, com o filho de um médico inglês protestante. O pai sonhador continua tentando achar diamantes, mas as lavras da cidade nada produzem. O tio materno não permite que a avó, que adora Helena, ajude a filha e sua família em necessidades. Helena com sua inteligência, sua aparência e sua língua ferina é odiada pelo tio que deseja as atenções da matriarca para sua própria filha, Naná, a neta perfeita e bem educada em colégio de freiras.

Quando entra para a escola normal, Helena é aconselhada por um de seus professores, Teodomiro, um mulato admirado pelas alunas por sua inteligência e beleza, a escrever. O que parecia um castigo, mostra-se um exercício interessante e a menina começa a colocar no papel seus sonhos, suas observações, sua crítica à sociedade e à religião que tem como objetivo aterrorizar e controlar as pessoas. E há também a Tia Madge, uma solteirona que quer transformar Helena em uma perfeita inglesa, o problema é que isso tornará a menina ainda mais outsider na provinciana Diamantina. Daí ela reclamar que preferia que a tia não a amasse tanto.


Ludmila Dayer defende bem sua Helena Morley. Apesar de não ser mais adolescente, a excelente atriz consegue criar uma menina espevitada, que questiona tudo e todos. Lembro da diretora falando que quando a viu no teste, nem imaginava escolhê-la, afinal, a conhecia de Senhora do Destino, onde ela fazia a amante de José Wilker, sempre maquiada, com roupas justas e salto alto, mas bastou que ela tirasse a maquiagem, soltasse o cabelo e colocasse o pé no chão que ela virou Helena. Os outros atores e trizes também vão bem, embora a mãe de Helena, Carolina (Daniela Escobar) pareça triste demais, no livro ela não era tão depressiva, embora seja compreensível que a tenham retratado assim no filme. A diretora, Helena Solberg, explica sua opção por pintá-la assim em uma entrevista.

Uma das cenas mais tocantes da película é quando Helena e os irmãos chegam à casa da avó sem terem comido nada, passavam tamanha necessidade por conta dos sonhos do pai que não tinham nada na dispensa. A mãe não pedia ajuda por vergonha, mas a avó pega suas economias e dá para a neta. “Entregue à sua mãe somente quando chegar em casa”. Outra boa seqüência é a do broche quando Helena faz uma grande travessura e credita a idéia à Virgem Maria. A descoberta do amor, também foi bem feita e convincente, mas tudo sempre na dependência do talento de Ludmila Dayer.




Verdade que o filme poderia ser melhor, faltou ritmo em alguns momentos, alguns atores não parecem muito donos de seus papéis. A fotografia, a trilha sonora, tudo ajudou, mas as coisas pareceram pausadas demais em alguns momentos. Como se houvesse falta de continuidade. Talvez seja difícil gravar um roteiro baseado em um livro feito de memórias até certo ponto fragmentadas, mas pode ter sido problema de montagem mesmo.



Voltando ao livro, eu conheci Minha Vida de Menina através de um livro didático de um dos meus tios. Livro do terceiro ano primário que continha um fragmento. Durante toda a minha infância e adolescência quis ler a obra. Só consegui meu volume agora, quando já tinha meus 30 anos. Acho que seria um livro lido com todo o prazer lá pelos meus treze anos, afinal, Helena Morley tinha um olhar tão único e tão universal que qualquer menina se sentiria um pouco identificada com ela. Afinal, lá pelos meus 12 anos tentei fazer um diário, mas faltou-me disciplina para mantê-lo. Acho que sou uma pessoa de tantos interesses que não sou boa para dar continuidade a projetos...



Minha Vida de Menina foi o único livro de Helena Morley e somente foi publicado em 1942, quando a autora já estava idosa. Houve quem dissesse que um livro tão bom não poderia ter sido escrito por uma mulher. Aliás, pensamento comum, se fosse de autoria masculina seu brilhantismo seria aclamado de primeira. Houve quem achasse que o marido de Helena tivesse sido autor de boa parte da obra, “consertando” suas anotações infantis. Bem, há quem defenda que Mary Shelley não escreveu o Frankenstein... E o argumento é o mesmo.

Só que gente do quilate de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, autoridades masculinas necessárias para justificar as qualidades de Minha Vida de Menina, reconheceram as qualidades da obra. Já Elizabeth Bishop, poetisa americana, conheceu o livro em sua estadia no Brasil e o traduziu para o inglês. A obra está na coleção “Neglected books of the twentieth century” (Livros negligenciados do século XX), nada mais justo, pois a obra merecia uma atenção muito maior, mas teve a infelicidade de ser escrito no Brasil e por uma menina. Negligenciado ou não, foi traduzido para várias línguas e talvez seja mais conhecido fora do Brasil que aqui.



Recomendo o filme. A página da produtora é esta e aqui há uma entrevista com a diretora. Queria muito ainda ver um quadrinho deste livro, sonho maior seria um anime naquela coleção da Nippon que tem Heide, Marco, Papai Pernilongo, Cão de Flandres, Little Women. Seriam ótimas companhias para os escritos biográficos de Helena Morley que já nasceram absolutamente shoujo like.   Para quem quiser assistir, o filme está aí embaixo:

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2 pessoas comentaram:

Oi, Valéria!! O Google me trouxe aqui, ao procurar por Minha vida de menina! Li o livro quando adolescente, comprado no sebo, e hoje é minha filha de 11 anos que quer assistir ao filme! Seu texto faz a gente ter uma vontade danada de reler aquela preciosidade...Que Deus abençoe você e suas ideias!!!

Olá! Meu nome é Bruna e eu estava procurando pelo download do livro. Assisti o filme e, pela maneira que você conta a história do livro, intercalando com o filme, eu fiquei com mais vontade ainda de ler Minha Vida de Menina!! Valeu!!

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