sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sociedade japonesa, angustiada e em mutação



O site Mutant Frog – e cheguei lá via Japanprobe – publicou um resumo de uma matéria grande do Jornal Asahi (*infelizmente não colocaram o link*) sobre a disparidade entre o que os japoneses e japonesas desejam na vida e o que realmente podem ter. O que fica evidente para mim da matéria de Tsunehiro Uno é que as pessoas não se acostumaram à crise econômica japonesa e, mais do que isso, às mudanças impostas pelo Neoliberalismo que começou a erodir toda uma sociedade construída sobre noções de sacrifício com pleno emprego estabelecidas na Era Showa. Como as pessoas desejam o passado e sua idealização, homens e mulheres não se entendem, o Governo também não se mexe de forma rápida, por exemplo, possibilitando melhores condições de trabalho para as mulheres, e as pessoas se sentem cada vez mais infelizes. Meus comentários estão entre parênteses em cor diferente. São dados do tal artigo:
>> Segundo uma pesquisa do governo, uma grande parcela das mulheres na faixa dos 20 anos ainda sonha em ser dona de casa. Outra pesquisa aponta que 40% das mulheres entre 25-35 anos querem um marido que ganhe pelo menos 6 milhões de ienes ano (*mais de 112 mil reais*), mas somente 3,5% dos homens solteiros da mesma idade recebe isso.

>> O ideal de família de classe média continua sendo, marido salaryman com pleno emprego e esposa dona de casa responsável pela educação dos filhos. No entento, a economia está estagnada e esse sonho, construído na época de fartura e vendido até hoje, é inacessível para a maioria. As mulheres precisam trabalhar.

>> O Primeiro-ministro Koizumi promoveu uma série de reformas neoliberais entre 2001-2006 e a maioria dos japoneses vê esse período como um retrocesso e que ali o país deixou de funcionar de forma adequada.

>> Agora, segundo o artigo, há uma ênfase na propaganda de empregos para toda a vida diante do período anterior em que floresceu o emprego temporário. O carro-chefe dessa campanha parece ser o Estado.

>> Segundo o artigo, as pessoas podem ser críticas em relação ao emprego temporário, mas não é possível oferecer pleno emprego para todos e muitas pessoas preferem (*sei, sei...*) regimes de trabalho mais flexíveis, pois a sociedade atual agrega estilos de vida muito variados.

>> O autor acredita que é preocupante que as pessoas continuem planejando suas vidas como se ainda estivessem na Era Showa e que é preciso pensar que a opção pode ser sobreviver sem um emprego regular. Só que nem a população em geral, nem os líderes políticos parecem dispostos a pensar a questão.

>> Para o autor, Koizumi falhou ao não criar um sistema de seguridade social em seu governo. (*Contraditório, porque o neoliberalismo não tem seguridade social como bandeira. Então, o governo não falhou, seguiu a cartilha direitinho, só empreendeu a mesma política destrutiva que foi vista em outros países como o Brasil de FHC ou a Argentina de Menen*)

>> A proposta do autor é que o governo crie um novo contrato social (nas palavras do dele um幸福のパッケージ) que permita que se pense em uma família baseada em dupla renda (*marido e esposa trabalhando*), sem pleno emprego, mas com a possibilidade de criar decentemente duas ou mais crianças. (*Sério? Antes disso será preciso repensar papéis de gênero e os direitos trabalhistas das mulheres. E mais, eu não criaria duas ou mais crianças sem certeza de que teria um emprego amanhã. Acho que muitos japoneses devem pensar como eu.*) Para o autor é preciso criar uma rede de políticas sociais que garanta isso e regras trabalhistas que admitam diferentes regimes de trabalho compatíveis com diferentes estilos de vida.

3 pessoas comentaram:

(*Contraditório, porque o neoliberalismo não tem seguridade social como bandeira. Então, o governo não falhou, seguiu a cartilha direitinho, só empreendeu a mesma política destrutiva que foi vista em outros países como o Brasil de FHC ou a Argentina de Menen*)

Perfeita colocação. Partilho da mesma.

A raiz do problema da sociedade japonesa atual é a resistência a mudança.

Precisam de uma reforma Econômica-social séria D: As coisas não são que nem há anos atrás, mas parece que nem todos entenderam isso.

O que me preocupam é que estão tentando resolver as coisas a passo de lesma D:

As vezes eu me pergunto pq o mundo está se encaminhando para o "neoliberalismo" em todos os lugares. Esse é um sistema fadado ao fracasso, pode levar mais ou menos tempo mas todo mundo vai sentir as crises desse maldito sistema (aliás, essa última crise teve origem com a inadimplência dos americanos e quem se ferrou não foram só eles. O engraçado é que os americanos não pagam as contas e todo mundo tem que pagar por elas).
O Japão é um dos poucos países em que o dinheiro é bem distribuído e não há abismos sociais tão escabrosos. É triste ver uma nação tão bem sucedida ser obrigada a seguir o rumo dos Estados Unidos aonde a população vive menos, com menos qualidade de vida.

Bom, isso é mais um desabafo. Voltando ao assunto do post eu entendo os japoneses. É muito triste ver um sistema justo em que todo mundo é beneficiado ser mudado para esse nosso sistema desprezível aonde todo o lucro é centrado nas mãos dos empregadores.

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