sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Comentando Tropa de Elite 2



Aproveitando a minha meia folga de hoje, fui ao cinema ver Tropa de Elite 2 na estréia. Eu não assisti o primeiro filme no cinema e estava devendo. Quando terminou o filme só fiquei com uma pergunta na cabeça: POR QUE NÃO ESTREOU DUAS SEMANAS ANTES DA ELEIÇÃO? Tropa de Elite 2 poderia ter causado um estrago enorme no Rio de Janeiro. E não estou pensando em campanha para presidente, não, falo das eleições legislativas. Tropa de Elite 2 é um filme denso, sério, político, ousado, e que pode ser visto isoladamente, sem o auxílio do primeiro, mas que, quando colocado em uma seqüência, fecha uma idéia e passa uma mensagem perturbadora. Ou, pelo menos, passou para mim. Lembram de quando o Capitão Nascimento perguntou no primeiro filme “Quem matou esse cara?” para um viciado? Pois é, agora o Coronel Nascimento nos pergunta “Quem sustenta o sistema?”, e “sistema” significa o crime organizado, os políticos e toda a podridão que habita os bastidores dos governos brasileiros e rouba a vida e as esperanças de milhares de pessoas nesse país. Mas vamos com calma, preciso organizar o texto, porque sai meio eufórica do filme. Vou evitar dar spoilers o quanto puder.

Tropa de Elite 2 começa com uma revolta na penitenciária de Bangu 1. Nascimento (*o estupendo Wagner Moura*), então comandante do Bope, lidera a missão. Um ativista de direitos humanos, Fraga (*o excelente Irandhir Santos*) é chamado para negociar e estav quase resolvendo o problema sem a intervenção direta do Bope. Só que um erro do Capitão Matias (*o cada vez melhor André Ramiro*), faz com que aconteça uma tragédia que vira manchete no mundo inteiro. Nascimento perde o comando, mas visto como herói pela população, acaba subsecretário de segurança, trocando a farda pelo terno. Já Matias, é escolhido pelo governo como bode expiatório, é punido e volta a “vestir azul”, isto é, integrar a polícia comum. Nascimento tenta ajudá-lo, mas fracassa e Matias se revolta contra ele. No governo, Nascimento acredita que poderá destruir o “sistema”, mas percebe que ele mesmo é somente uma engrenagem da máquina e sua honestidade e diligência só ajudou a fazê-la funcionar. Sentindo-se pequeno e de mãos atadas, Nascimento ainda tem que enfrentar um drama familiar, recuperar o amor do filho e, depois, ver o garoto se tornar vítima do próprio “sistema”.

Para se ter uma idéia, Tropa de Elite 2 já abre com um atentado contra a vida do Coronel Nascimento. Como correu boato na net de que ele morreria, podem imaginar a ansiedade, porque aquela seqüência só será retomada no final. O filme cobre quatro anos e poucas vezes vi uma película trabalhar tão bem um recorte temporal. Padilha se tornou ainda melhor como diretor, pois o corte das cenas é perfeito e a ação flui sem sobressaltos. Essa foi uma característica de Tropa de Elite 1 que me fez recomendar o filme, para muitas pessoas. A narrativa é perfeita, coisa que não vejo em outros filmes nacionais. E eu assisto muitos filmes nacionais (*e gosto deles*). Também foi admirável a inserção da vida particular de Nascimento em uma trama maior sem que haja a perda de interesse, não são cenas supérfluas, elas ajudam a mostrar a humanidade da personagem. As cenas com o filho, a intimidade que vai sendo resgatada entre os dois usando o judô como elo de ligação são um show de roteiro. E o mérito também é do garoto, Pedro Van Held, que se sai muito bem. As conversas entre os dois são machistas, mas é um relacionamento entre pai e filho que parece verossímil. Aliás, essa relação com a realidade é um dos pontos de Tropa de Elite 2. Um crítico comparou com o cinema de Costa Gravas e eu acredito que faça muito sentido.

Depois do filme, eu entendo a movimentação de alguns políticos no Rio querendo inclusive troca de nome de personagens, com medo de serem associados aos corruptos e assassinos de Tropa de Elite. Entre todos os que aparecem, o destaque vai para André Mattos como Fortunato, o político apresentador de programa policial sensacionalista. Se o físico dele pode lembrar Datena, os trejeitos são imitação de Wagner Montes com seu Balanço Geral. De cara, não tinha como se enganar se você já assistiu alguma vez o programa dele. E Wagner Montes se elegeu deputado no domingo passado. Outro destaque é Milhem Cortaz , como o agora Coronel Fábio. Aliás, que personagem fantástica. E quando ele diz que o Nascimento é seu amigo? Repulsivo, covarde, corrupto, mas, ainda assim, simpático e dono das melhores frases deste novo filme. E ele é, acima de tudo, um sobrevivente. As cenas dele com o Matias, que, mal ou bem, é seu amigo de verdade, são ótimas. E uma delas se remete ao primeiro Tropa quando Matias era somente um aspirante. A piada aqui só é tão boa se você tiver visto o primeiro.

Eu fiquei tensa durante boa parte do filme e torci pelas personagens. Matias vai trair Nascimento? Vai se corromper? Os confrontos entre Matias e Nascimento, o rancor que o antigo pupilo passa a alimentar, foi um duelo de dois grandes atores. Por que André Ramiro não aparece mais na TV? Simples: ele é negro. Faltam bons papéis para atores e atrizes negros. E, aliás, fora da seqüência da prisão e dos figurantes, faltaram negros no filme. Falo de personagens com nome e sobrenome. Seu Jorge, que é cantor, estava impecável como Beirada, o chefe da Revolta em Bangu 1. Mas ele era bandido., traficante. O chefe da milícia, por exemplo, é branco. Já Irandhir Santos, que não é negro, foi um achado. Se ele foi lançado pelo filme, merece ter uma grande carreira na TV e no cinema.

Ah, sim! E faltaram mulheres no filme, também. Há duas com nome, a ex-esposa de Nascimento e a repórter, mas o filme não cumpre a Bechdel Rule. Não pensem, no entanto, que estou dizendo que o filme é menos interessante ou bem feito por causa disso. Só poderia ser melhor, ou mais equitativo. Ainda assim, Maria Ribeiro brilha como a ex-mulher de Nascimento. E suas cenas com ele, sejam de confronto, de carinho ou de preocupação são muito boas. Já Tainá Müller faz bem uma repórter investigativa. Só me pergunto se a média dos repórteres é capaz de se meter na fria que a personagem se meteu, porque, venhamos e convenhamos, como bem disse o Nascimento na narração, “as fotos bastavam” para uma grande matéria.

Falta falar da angústia. Eu sou do Rio e aquela realidade das milícias, do governo mancomunado com essa corja de policiais e bombeiros que substituíram os traficantes é de dar nojo. Quando vim para Brasília, não se falava ainda em milícia. Agora, quando volto para visitar, é sempre essa história de “tal lugar é controlado pela milícia”. E as pessoas falam isso baixando a voz, com medo efetivo de serem mortas, como no filme. É disso que Tropa fala e chama essa combinação de “sistema”. A crise de Nascimento é exatamente porque o seu bom trabalho permitiram que esse câncer aparecesse. Já Fraga, o professor de História militante da causa dos direitos humanos e depois deputado, e que começa antagonista de Nascimento, chama esse arranjo de “máfia”. E é isso mesmo. As transações unem políticos e bandidos no filme e o discurso de Nascimento no fim é fenomenal. Fosse antes da eleição...

Mas senti que faltou algo no filme, sei que foi uma escolha de José Padilha, só que, para mim, é o único demérito de fato. E as igrejas? É impossível mostrar o subúrbio do Rio, ainda mais a Zona Oeste, sem mostrar a proliferação de igrejas evangélicas. O Jornal O Dia vive falando das relações espúrias de algumas delas com os traficantes e, provavelmente hoje, com os milicianos. Por exemplo, revolta real que inspirou o filme, não teve negociador de ONG, quem entrou para conversar foi o pastor Marcos, líder da Igreja Assembléia de Deus dos Últimos Dias, à pedido do (nojento) do Garotinho, deputado federal mais votado pelo Rio nas últimas eleições. Falou-se até disso em matérias e entrevistas, a Benedita, na época vice-governadora, parecia com medo de ser retratada de forma pouco elogiosa. Mas qual nada! O filme eliminou ou invisibilizou os evangélicos, quase metade da população, e, a meu ver, deixou de pontuar ainda mais alto. Porque esse tipo de relação entre religião, política e crime está mais que em evidência.

Para terminar, coloco Tropa de Elite, o filme 1 e o 2, no topo dos melhores filmes brasileiros que já assisti e entre os melhores filmes que já vi. Não comentei Tropa 1 aqui no Shoujo Café, afinal, esses filmes nem têm a cara deste blog, mas me comprometi a comentar os filmes que assistisse, especialmente no cinema e achei que valia a pena. Enfim, considerava Tropa 1 profundamente fascista, muito bem feito, verdade, com o carisma todo do Wagner Moura alavancando tudo, mas uma apologia às ações truculentas. Fora que aquelas aulas de calouros estereotipadas e com Foucault me deixavam doente. A crítica permanece, mas vendo os dois filmes juntos, percebo o desenvolvimento de uma tese, que não nos tranqüiliza, que nos afronta, choca, agride, mas que é sincera. Nascimento é um herói, mas não esses de filme americano, ele é profundamente humano, palpável, crível. Wagner Moura, e é uma pena que eu não tenha achado no Youtube o vídeo montagem do confronto entre o Capitão Nascimento e o Boca de Ó Pai, Ó (*só assisti Ó Pai, Ó por causa dele*), pois a brincadeira mostra bem que ele é um ator brilhante, um dos melhores de sua geração. Como Wagner Moura consegue ser o policial carioca e o bandido pé de chinelo baiano com a mesma intensidade? Mas, voltando para Tropa, O ambiente do filme é familiar e doloroso para quem vive no Rio, ou mesmo no resto do Brasil, e o final é desafiador. Se este for o fim, foi “missão dada, missão cumprida” e eu sentirei muita falta do Capitão Nascimento, do Matias e do picareta do capitão Fábio. Espero que Tropa 2 seja um sucesso de público e seja premiado. Sei que não vai barrar a bilheteria dos filmes espíritas, mas será lembrado pela sua qualidade e por conseguir mostrar que uma continuação pode ser tão boa (*ou até melhor*), que o original.
P.S.: Para quem quiser outras opiniões sobre o filme, recomendo as excelentes críticas do Cabine Celular e do site Adoro Cinema.

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9 pessoas comentaram:

Nossa...quero muito ver esse filme e ver o que ele tem de tão bom que todos os criticos eleogiam. Muito boa a sua resenha, expressou de um jeito que agora fiquei louca pra ver e sem medo de me decepcionar.

Eu já havia comentado em meu blog que quero ver este filme, agora que li sua resenha fiquei louca pra ver! Assisti o primeiro e amei, pelo visto vou adorar o segundo! Wagner Moura é um excelente ator, mas prefiro ele atuando em filmes! Com certeza irei no cinema assistir, como você eu não assisti o primeiro no cinema!

Valéria, quando você pergunta se a média dos repórteres é capaz de se meter nas frias que a personagem se meteu, respondo: Se for mulher, sim.

Não é que elas não sejam capazes de fazer bem o seu trabalho. É justamente o contrário. Sou estagiário em jornalismo e fico abismado com tamanha loucura obsessiva das minhas colegas mulheres em querer mostrar serviço à todo custo. Volta e meia uma delas dá um ataque de histeria, e por quê? Porque pegam serviço demais.

E não é algo imposto especialmente às jornalistas mulheres. Elas é que metem mesmo a cara! Já tive uma colega que me disse que "a boa jornalista tem que se casar com a profissão". \o/ Hã?!! Cume quié?!!

Dá pra entender?

ah, tá, Jáder! O Tim Lopes, agora é mulher. Ele fez algo muito parecido. Você viu o filme? O caso não é de "histeria" e eu dispenso comentários machistas no blog.

Bem, tinha visto o post antes, mas ainda não tinha assistido. Acabei de chegar do cinema e agora posso opinar.^^
Gostei muito da sua crítica e concordo com o fato de que o filme poderia ter sim sido lançado antes das eleições ( e penso até na possibilidade que o proprio filme tenha sofrido com o tema que aborda: o buraco é mais embaixo, principalmente em ano de eleição). Mas, tirando as conclusões pela minha sessão, acho que no final não adiantaria muita coisa. O filme apresenta uma história muito mais complexa do que o primeiro, mas com elementos que fizeram o primeiro filme famoso ( a violência) para manter o público que só quer ver isso. A cena em que a platéia mais se manifestou foi quando o Nascimento bofetou o político, e no geral todas as cenas de violência foram aplaudidas. Acho que o Padilha viu uma grande chance com seu filme: mostrar que o sistema não é alimentado apenas pelo boyzinho que compra maconha, há muita mais coisas por trás disso, um filme com uma capacidade monstruosa de audiência que pode refletir sobre a politica de segurança pública do país. Só que a mensagem se perde para as pessoas, que são alimentadas pelos bordões e cenas de ação frenética,enquanto nada se pensa sobre seus atos. Mas eu realmente gostei do filme, e não deixo de pensar que transformaram o Nascimento em um Chuck Norris brazuca. haha

Foi mal, Valeria! Quando eu falo que volta e meia uma delas dá um ataque de histeria, estava falando de uma em especial, embora quase todas tenham lá seus momentos de stress. O que sempre se dá justamente por elas dizerem menos "não" ao trabalho do que os colegas homens. Disse isso, porque é o que eu vejo. Eu presencio isso no dia a dia. Eu e meus colegas homens do estágio procuramos sempre botar limites entre o trabalho e a vida pessoal.

Já minhas colegas mulheres se entregam ao jornalismo de corpo e alma de tal modo que parece que o mundo vai acabar se elas não forem melhores que todo mundo. Pode até parecer natural pra você, mas para mim e meus colegas homens, choca um pouco. Mão que eu não goste do meu trabalho. Mas minha vida não é só isso. Tem outras coisas que pra mim são tão importantes quanto o trabalho. Mas pode ser que essa obsessão seja natural à elas só no começo da carreira no jornalismo. Nas carreiras em economia, por exemplo, aí já são os homens que são loucos-obsecados em serem os melhores a todo custo.

Desculpe se pareceu um comentário machista (embora sempre haja esse risco toda vez que um infeliz com cromossomo Y venha comentar aqui). Não custa nada lembrar mais uma vez que nem todos os homens vem aqui pra promover misoginia, machismo ou sexismo. Relaxa (de novo).

Fiquei com vontade de ver o filme :D
Você escreve muito bem XD
Só uma coisa, eu acho que foi meio "Radical" você falar que os negros não são valorizados, eu acho que são sim, só que tem mais branco que negro no Brasil né? Acho que os asiáticos não tem uma boa valorização >.<
Anyway, o blog é seu e você fala o que quiser XD

Obrigada, Paula!

Mas não existem mais brancos que negros no Brasil. Há mais mestiços que brancos e negros, isso, sim. Mas estes, especialmente quanto mais escura é a sua pele, não estão bem representados em nossas novelas e filmes.

Um vez um aluno de intercâmbio angolano que veio para cá ficou espantado "Pensei que vocês fossem mais brancos!". Motivo? Referencial de novela da Globo.

Pense nisso.

Muito bom o seu comentário e também o filme. Saí do cinema pensando o mesmo que você, esse filme podia sim ter mexido com as eleições, principalmente no Rio. Achei o filme quase perfeito do ponto de vista técnico, com ótimas atuações e boas chances de fazer uma ótima bilheteria.

De fato tem muitos jornalistas que se metem em enrrascadas atrás de furos, a personagem em questão estava obstinada, por alguma razão, em emplacar uma matéria de capa. Pena que no filme não haja espaço para descobrirmos o porque desta determinação.

Não creio que estejma tão mal distribuídos os papéis no filme, entre militares e políticos poderosos há realmente uma hegemonia de homnes brancos.

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