quinta-feira, 14 de outubro de 2010

E a polêmica da burqa chega aos quadrinhos



Eu já tinha lido sobre o quadrinho kwaitiano The 99 – referência aos 99 nomes de Alá – na net. Não sabia, que iria virar desenho animado (*preview aqui... em computação gráfica... :P*). Tudo graças às altíssimas vendagens e ao conteúdo que celebra a diversidade. Voltei a ouvir falar do material em um podcast do Matando Robôs Gigantes, pois parece que ele vai sair nos EUA. Pois bem, hoje passando pelo ICV2, um site especializado em quadrinhos, vi que o desenho foi adiado por causa da pressão por parte de grupos fundamentalistas que não querem ver suas crianças doutrinadas pelo Islã, que chamam Obama de todos os “nomes feios” possíveis a um “bom cristão” e que parecem particularmente incomodados porque uma das super-heroínas do grupo usa um niqab.

Para quem não lembra, é a mesma vestimenta islâmica que junto com a burqa está sob ataque na França, e que só permite que os olhos da mulher fiquem à mostra. Erroneamente é chamado de burqa, que é a vestimenta popularizada pelo talebã, na qual nem os olhos podem ser vistos. O artigo do New York Post é central na discussão e destila toda a sorte de preconceitos contra o mundo islâmico em geral e pouco ou nenhum bom senso, ou dor na consciência pelo estrago que Bush fez no Iraque e no Afeganistão (*e que Obama não conseguirá resolver, custando-lhe a reeleição*).

Bem, eu não tenho simpatia pela burqa e pelo niqab, e não gostaria de ver uma heroína – ou qualquer mulher – usando esta vestimenta, mas The 99 celebra a diversidade do mundo islâmico, ou assim parece, tendo desde a muçulmana de burqa até a que não usa véu. O próprio criador, o psicólogo, Naif Al-Mutawa, disse para a CNN, que “Chegou a hora para que nós fiquemos mais atentos ao que nossas crianças estão ouvindo; às pequenas diferenças que nos separam ao invés de celebrar as coisas positivas que unem todas as pessoas boas. Se permitirmos que homens mesquinhos disseminem medo e ódio em nome da nossa religião, nós permitiremos que eles façam uma lavagem cerebral em mais uma geração como eles fizeram com a nossa. E em breve, a próxima geração cairá dentro de um fosso de discórdia. Ficar sentado em silêncio, nos torna cúmplices”. É por aí mesmo.

Mas por que eu decidi comentar? Ah, sim! Um dos argumentos da autora do artigo do Post é que é impossível combater o crime usando uma burqa. Sim, eu até imagino que seja, mas as roupas apertadas, reveladoras, das super-heroínas americanas montadas em seus super saltos altos também não ajuda muito, certo? Mas aí pode! Um dos autores que eu usei em minha tese de doutorado ressaltava que a preocupação em despir ou vestir as mulheres é masculina. Se não vejo nada de positivo na burqa e no niqab, não vejo muita coisa de bom no uniforme de boa parte das super-heroínas americanas. E, em ambos os casos, os desenhistas são homens. A autora do artigo até critica a modéstia do The 99 por não exibir seios fartos e decotes... Sim, deve ser uma ofensa às mulheres americanas... Sei... Sei...

Mas eis que comentei o causo com um amigo, ávido leitor de Marvel e DC, e ele me falou de uma nova X-Men chamada Dust e que usa niqab! E, segundo ele, e os sites que encontrei pesquisando, ela é uma das melhores heroínas do mundo Marvel ultimamente, além de ser louvada como uma das personagens muçulmanas mais positivas dos quadrinhos. OK, que bom, parece ser mesmo uma personagem muito interessante. Mas Dust não foi criticada por lutar de niqab? Será que ela consegue e a moça dos The 99, não? Então qual é o problema com a personagem do The 99, então? Ser produto genuinamente islâmico, só pode!

Para terminar, digo que nunca li uma história com a Dust, tampouco o The 99, estou comentando notícias. Não vejo nada e positivo em uma heroína que usa burqa ou niqab, mas entre uma super-heroína islâmica que diz usar o niqab por modéstia, e que é louvada como modelo, e uma variedade de heroínas da mesma religião que usam desde o niqab até nenhum véu, qual vocês acham que é o mais aceitável? A meu ver o material que mostra a diversidade, porque ultimamente, só se vê a ladainha de que toda muçulmana de verdade usa véu (*hijab*) e o autor de The 99 mostra que a coisa não é bem assim. De qualquer forma, é muito triste quando se abre mão do senso crítico para não ferir ou quando nos curvamos diante dos fundamentalismos religiosos. Tenebrosos tempos os nossos!

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5 pessoas comentaram:

Realmente, estou ficando assustada com o momento em que vivemos...E muito preocupada com suas consequências. Não só lá fora como aqui no Brasil, as próximas gerações herdarão apenas a intolerância.

Um post interessante.

Eu ja vi (e twittei) artigos sobre os 99 e achei muito positivo a ideia.

A existencia de quadrinhos assim pode ajudar na auto estima dos jovens mulçumanos e tb na divulgação da grande variedade que existe no mundo islamico, variedade etnica inclusive, já que o grupo é composto por pessoas do mundo todo, não só de origem arabe.


Agora é incrivel os argumentos pifios que as pessoas usam p/ tentar "justificar" seus preconceitos... quer dizer, a roupa do Batmam serve p/ lutar por acaso?

e tem outros personagens (homens e algumas mulheres) menos conhecidos que andam com mais roupa que burcas (não nabiq, burcas mesmo), mas hein, eles são ocidentais não é? eles podem.

Sobre a Dust (ou pó como é chamada no Brasil), se for a personafem que eu conheço, ela ja existe há alguns anos. É uma mutante com o poder de transformar o corpo em areia, e raramente sai destribuindo socos por ai, então a roupa nem encomodaria tanto.

Mas estranhei dizer que ela é uma das maiores heroinas da Marvel. Afinal ela é um membro terceario dos X-men, nem esta nas principais formações da equipe e não lembro dela participando de nenhum grande saga.

O Cavaleiro das Arabais (heroi oficial da Arabia Saudita no universo Marvel) e a Sabra (heroina e agente de Israel)já tiveram participação bem mais rlevante.

Bem, pode ser que ele saiba de algo que saiu por lá e mude isso.

E só para terminar, quero dizer que fico feliz sempre que vejo mais paises e culturas valorizando os quadrinhos.

Anderson, os sites que vi não falam que ela é uma das "maiores", mas, sim, das "melhores". Até eu sei que ela é membro de terceira ou quarta categoria. ;)

Sorry, entendi errado.

Mesmo assim, sem lembrar de nada relevante que ela fez (e olha que nos ultimos anos a Marvel tem dado espaço p/ personagens de baixo escalão) não sei dizer no que ela é "melhor".

Só se for p/ mostrar que mesmo grupo que sofrem preconceito ainda são capazes de pratica-lo, ja que ela ja sofreu criticas e foi olhada com desconfiança pelas vestimentas e pela reliogidade.

Do mesmo jeio que o Estrela Polar foi discriminado por alguns x-men por ser homosexual.

Mas como acompanho pouco x-men e comics em geral atualmente (meu masoquismo tem limites) posso estar enganado.

Hum, pensando agora, os 99 vão se encontrar com os herois DC, oq vai ser otima propaganda.

Será que isso anima as editoras a dar chances aos varios herois e super-grupos brasileiros escritos meio independentes?

sonhar não custa.

Sorry de novo pelo off topic.

Olás,

Queria dizer apenas que concordo com o ponto de vista da Valéria, acho que vale mais a pena um grupo genuíno como o 99 (escrito por quem entende da cultura) do que histórias e personagens feitos para sustentar uma bandeira de 'politimente correto', mas revestidios de uma série de preconceitos, como é o caso de muitas histórias publicadas via Marvel ou DC.

É isso ;)

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