segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Comentando Anastásia, a Princesa Esquecida


Esta semana, reassisti um filme que tinha visto a primeira vez na infância, Anastásia, A Princesa Esquecida (Anastasia, 1956). O filme marcou o retorno de Ingrid Bergman ao cinema americano, depois do ostracismo fruto do seu romance com o diretor italiano Roberto Rosselini, e lhe deu outro oscar de melhor atriz. O DVD faz parte da coleção Fox Classics e um dos fatores determinantes para a minha compra, além do preço convidativo da Livraria Cultura, foi o fato de ter a dublagem original brasileira (*para mim qualquer produto nacional deve ter a versão brasileira*), aquela que eu escutei na TV, não as coisas meia-boca que fazem hoje em dia. Assisti em português mesmo, para saborear a nostalgia e não me arrependi. Ainda preciso assistir com o som original e comparar. De qualquer forma, é bom quando revemos um filme da nossa infância e ele continua parecendo um belo filme... Anastásia continua esplêndido depois de mais de 50 anos.

Eu não lembro bem com quantos assisti o filme a primeira vez. Acredito que tivesse no máximo 12 anos. Foi em Anastásia, eu tenho certeza, que ouvi falar pela primeira vez na tragédia dos Romanov e na Revolução Russa. Então, deveria ter menos de 12 anos, mesmo. Enfim, o filme foi baseado em uma peça de teatro que conta de forma muito livre a história da alemã Anna Anderson, uma das muitas mulheres que apareceu dizendo ser uma das filhas do último Czar da Rússia, neste caso, sua filha caçula, Anastásia. Anderson chegou a ser considerada por muitos como a verdadeira Anastásia, mas hoje, depois do fim da URSS e com os exames de DNA, sabemos que ela era uma fraude. 


Para quem não sabe, toda a família imperial (o Czar, a Czarina, e seus filhos: as grã-duquesas Olga, Tatiana, Maria, e Anastásia, e o czarievich Alexei), além de alguns empregados e acompanhantes foram assassinados, seus corpos jogados no fundo de uma mina e desfigurados com ácido em 1918. Os boatos sobre sobreviventes surgiram do fato de dois corpos estarem faltando, o de Alexei e o de uma das princesas. Hoje, eles também foram encontrados, e a princesa desaparecida era Maria, a filha mais bonita do Czar (*na minha opinião, claro*), e, não, Anastásia.

No filme, uma mulher chamada Anna (Ingrid Bergman), suicida e semi-desmemoriada, é arregimentada por um grupo de emigrados russos que tenta fazer com que ela seja reconhecida como a princesa Anastásia e se apossarem da herança do Czar que se encontra em um banco na Inglaterra. O líder do bando, o General Bounine (Yul Brynner), se encarrega de “treinar” Anna para que ela se torne Anastásia, mas a moça parece ter flashes de memória, trazendo a tona informações desconhecidas pelo instrutor, ou mesmo indesejáveis. Com o tempo correndo, pois havia um prazo para reclamar o dinheiro, Bounine decide levar Anastásia para Copenhagen e forçar um encontro entre ela e sua avó, a Imperatriz Maria (Helen Hayes), originalmente uma princesa dinamarquesa.


Depois de muita resistência, Anastásia é recebida pela avó, que termina por reconhecê-la em uma seqüência tocante, talvez a melhor do filme. Mas Anastásia e Bounine estavam apaixonados, e o general golpista começa a apresentar mudanças de comportamento, exatamente quando tudo parecia ir conforme os planos. Por fim, antes do grande baile de apresentação, no qual Anastásia seria formalmente reconhecida e ficaria noiva de seu primo, o Príncipe Paul, a Imperatriz tem uma conversa com a moça, e ela decide fugir com Bounine.

O filme Anastásia sustenta até o fim a dúvida: Anna é ou não a princesa russa. Algumas cenas lembram ainda a peça de teatro por serem muito estáticas, mas essencialmente é um espetáculo Hollywoodiano clássico, com bela música, figurinos impecáveis, grandiosidade de cenários e, o que é mais importante, interpretações marcantes. Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos é Casablanca, mas entendo bem a lamúria da Ingrid Bergman sobre Ilsa não ser seu maior papel. Sua atuação como Anastásia, cheia de nuances, transmitindo desespero, alegria, e dubiedade, é muito mais intensa do que o que foi lhe exigido em Casablanca. Helen Hayes, como a sofrida Maria Feodorovna, também é um show a parte, e as cenas entre as duas são o ponto alto do filme. 


É a velha imperatriz que faz as maiores críticas ao antigo regime, que ficou para trás e deve mesmo ser esquecido. Sim, porque Anastásia não é um filme exaltando o czarismo ou de crítica direta à Revolução Russa. Não estamos assistindo o desenho cretino que foi feito em 1997 (*gosto da trilha sonora, mas é um material deliberadamente mentiroso e reacionário*). O que temos é um filme sobre uma mulher desmemoriada e sua busca desesperada pela identidade, enquanto golpistas tentam se aproveitar de sua fragilidade, e sobre uma velha que perdeu toda a sua família e que, de repente, pode ter reencontrado uma das netas com vida. E, claro, temos Yul Brynner, para mim é um dos atores mais bonitos, másculos, e elegantes dos anos 1950. Achava isso aos 11 anos, e continuo achando agora. Eu gosto muito dele, e gosto especialmente dele em Anastásia. Os “duelos” dele com Ingrid Bergman também são memoráveis. Não há beijo, não há coisa nenhuma, ainda assim, a tensão erótica entre os dois permeia o filme.

Para quem aprecia filmes antigos, Anastásia é uma boa escolha. Não se trata de um filme histórico, na medida em que ele não tem compromisso algum com a fidelidade ou o que quer que seja, o recurso à História é somente um pano de fundo para o drama de duas mulheres, como descrevi acima. Nem o drama dos Romanov é explorado, para além do necessário: Maria perdeu a família inteira, Anastásia pode ter sobrevivido ao assassinato perpetrado pelos bolcheviques, Bounine era um golpista caçado por brancos e vermelhos, alguns parentes e gente relacionada com os Romanov aparece no filme em uma ou outra cena. 


Não acho que o filme seja só de Ingrid Bergman, ainda que ela esteja magnífica. E, por mais curioso que seja, Anastásia consegue preencher toda a Bechdel Rule, já que tem várias personagens femininas (*bastava duas*) com nome, elas conversam entre si, e, claro, não falam de um homem, falam de muitas coisas. E Helen Hayes fecha o filme dizendo que falaria aos convidados “Vão para casa, a peça acabou”. E é um final perfeito para uma farsa. Enfim, é muito bom não estragar memórias infantis e se surpreender ao mesmo tempo.


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1 pessoas comentaram:

Vanda, eu não posso estragar sua infância. Primeiro, porque ela é sua. Segundo, porque não te conheço. Terceiro, porque não tenho poder sobre você.

Eu tenho todo o direito de criticar qualquer obra. E, sim, Anastácia, o desenho, é historicamente furado e propaganda reacionária.

Eu sou historiadora, não posso ficar fingindo que certas coisas são coerentes. Não queria que o desenho fosse igual ao filme, queria que o desenho fosse mais próximo da História. Somente isso.

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