domingo, 2 de dezembro de 2012

Comentando A Royal Affair (Dinamarca, 2012)



Ontem assisti ao filme dinamarquês A Royal Affair, no original, En Kongelig Affære. É o candidato ao Oscar da Dinamarca e eu só acredito que ele estreie no cinema por aqui se chegar à seleção final e, mesmo assim, em circuito restrito. Desde que li a primeira sinopse, fiquei doida para ver este filme e como o DVD e Bluray foram lançados na Inglaterra, o arquivo apareceu para download. Não iria esperar que chegasse no Brasil, já fiz isso com outros filmes, como Jane Eyre e Agora, e quem perdeu fui eu. De qualquer forma, o filme é muito bom, com destaque para a atuação do trio de protagonistas, Mads Mikkelsen, Alicia Vikander e Mikkel Følsgaard, este último premiado com o urso de prata no 62º Festival de Berlim. Outro urso de prata recebido pelo filme foi o de melhor roteiro. O resumo da história é o seguinte:

Na segunda metade do século XVIII, a jovem rainha da Dinamarca, a princesa inglesa Caroline Mathilde (Alicia Vikander), uma adolescente culta e sensível, sofre por estar casada com um rei insano. Christian VII (Mikkel Følsgaard) é dado a acessos de fúria e orgias, já o poder é exercido pelo conservador conselho de estado sob a influência da madrasta do rei, a rainha Juliane Marie (Trine Dyrholm). A vida da rainha começa a mudar quando chega à corte o novo médico do rei, o alemão Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen), que consegue ter influência positiva sobre o rei. O problema é que ambos terminam se apaixonando, e, depois de grande resistência, iniciam um caso, o affair do título. Struensee, mal visto pelos conservadores da corte pela sua familiaridade com o rei e por ser adepto das idéias iluministas, utiliza do poder que tem sobre o soberano para junto com a rainha iniciar uma revolução que pode transformar a Dinamarca na nação mais moderna da Europa. Só que uma aventura como esta não poderia dar certo e os desdobramentos para todos os envolvidos são trágicas.


Até ler a sinopse do filme, não sabia nada sobre as personagens envolvidas nessa história, nem sobre a fantástica história do médico plebeu que governou a Dinamarca por vários meses e levou adiante uma série de reformas avançadíssimas (*lista na Wikipedia*) como abolir o tráfico de escravos, por fim ao monopólio da nobreza em relação aos cargos públicos e à corvéia dos camponeses; proibir a tortura nos interrogatórios e inocular a população em massa contra a varíola. Também é notável o papel da jovem rainha, cujo reinado se estendeu dos 15 aos 21 anos, e que ousou tomar um amante e ajudá-lo a governar o país alienando o marido. A grande falha de ambos foi crer que poderiam levar adiante seu programa de governo sem a oposição da nobreza à retirada de seus privilégios; que poderiam escandalizar a sociedade (*especialmente depois do nascimento de uma filha*) impunemente; e, o que parece ter sido o maior erro, isolar o rei, sem que isso resultasse em impopularidade e suspeitas.

O filme, o segundo dinamarquês que me lembro de ter assistido (*o primeiro foi o vencedor do Oscar de filme estrangeiro do ano passado*), recebeu um grande investimento. Tem belas locações e figurinos, ainda que opte, como se tornou regra, por evitar a maquiagem pesada do século XVIII. A rainha, que deveria ser loura e, não, morena, por exemplo, não aparece em nenhum momento com seus cabelos empoados. Um dos pontos altos do filme, e eu adoro este tipo de cena, foi quando Struensee finalmente aceita, depois de muito resistir, que está apaixonado pela rainha e os dois dançam em um baile de máscaras. O uso da câmera em várias velocidades, os ângulos utilizados, tudo isso valorizou uma seqüência que foi sedutora ao extremo. Os que condenam a dança e seu potencial subversivo devem estar certos... De qualquer forma, é uma cena belíssima e que tem analogia na dança de Darcy e Elizabeth em Orgulho & Preconceito (2005), ainda que o tom seja diferente.


Acredito que um dos trunfos do filme foi pintar todos os envolvidos como seres humanos e mesmo o rei Christian VII acaba ganhando a simpatia do público. Eu imaginei que ele fosse transformado em vilão. O rei sofre de transtornos mentais, é igualmente vítima do sistema, já que se vê colocado como governante sem a mínima condição de exercer o cargo. Sua amizade com Struensee, pelo menos no filme, é real e intensa. E quando Enevold Brandt (Cyron Bjørn Melville), um dos aliados de Struensee, adverte o amigo de que ele está na posição perigosa de Lancelot, está mais do que certo. Deliberadamente, o filme nos conduz a lembrar desse triângulo famoso e do resultado trágico que se seguiu a descoberta do caso entre Lancelote e Guinevere. Talvez, do trio principal, a posição mais complicada seja a da rainha Caroline, e foi ela a personagem menos fiel ao seu retrato histórico.

Como pontuei lá no início do texto, essa história é novidade para mim. Struensee não aparece como déspota esclarecido em nossos livros de história e só me lembro de ver a Dinamarca figurando em nossos livros em situações muito pontuais, como na unificação alemã e o litígio em torno do território chamado de Schleswig-Holstein. Por acaso, é nesse lugar que a corte passava o Verão e é onde parece ter começado o romance entre a rainha e Struensee. Voltando para a personagem de Caroline, no filme ela funciona como uma espécie de narradora. De seu exílio em Celle, nas terras hanoverianas de seu irmão George III, rei da Inglaterra, ela escreve as memórias do seu triste casamento e brevíssimo romance e governo dos sonhos com Struensee. Essas memórias deveriam ser dadas a seus dois fillhos, Frederick VI e Louise Auguste. As memórias são ficcionais, mas guiam o filme.


A situação de Caroline é trágica. Aos 15 anos, ela é levada a acreditar que iria se casar com o príncipe dos sonhos, bonito e culto. Para os padrões da época, e se tomarmos os quadros, Christian VII era bonito, só que mentalmente doente, devasso e dado a ataques de fúria. No filme, a recepção de Caroline em seu novo país é fria, sua primeira noite com o marido, um estupro traumático, para piorar, seus livros são confiscados e ela percebe que a mulher mais importante da corte é a rainha-mãe, Juliane. O filme não mostra – o que foi um erro – mas Christian tem até uma maîtresse-en-titre, amante oficial e pública. A jovem rainha cai sob a influência de sua dama de companhia, a Condessa Louise von Plessen (Laura Bro), que contribui para o isolamento social da rainha e o afastamento ainda maior da moça em relação ao marido. Von Plessen é a única amiga de Caroline Mathilde e acaba sendo expulsa da corte por Christian. A cena, aliás, é bem violenta. Depois de gerar um herdeiro, Caroline Mathilde considera cumprido o seu papel.

O problema do filme é pintar a jovem rainha como uma pessoa desinteressada em relação ao poder, quando a história aponta para outra coisa. Parece que, silenciosamente, ou nem tanto, ela e a rainha Juliane travaram uma queda de braço. A rainha-mãe, mais madura, experiente, e equilibrada, venceu. O filme apresenta Caroline como uma idealista, uma mulher até certo ponto adiante de seu tempo e que só precisou de um empurrãozinho de Struensee – sua alma gêmea – para desabrochar. Os dois se aproximam muito por causa da questão da varíola e da preocupação de Struensee com crianças órfãs e ilegítimas. Struensee era filho de um pastor pietista, e embora o filme o apresente como anticlerical, esse tipo de preocupação era típico desse movimento de avivamento religioso. Em A Royal Affair, os defeitos da soberana parecem ser fruto somente de sua tenra idade. Ela alimenta rancor em relação ao marido e não percebe que está colocando em risco sua própria vida com essa atitude, por outro lado, é apresentada como diligente em assuntos de Estado, mas não como pessoa ambiciosa. No final, ela é quem quebra mais rápido, reafirmando-se os papéis de gênero, a fragilidade emocional como característica feminina. A rainha Juliane parece fugir disso, mas se ela é forte, o é não somente por interesse de classe, mas porque acredita que seu filho possa vir a ser rei um dia, ou seja, ela conspira impulsionada pelo seu “dever” de mãe.


A Caroline histórica não parece ter sido nem de longe tão bonita como Alicia Vikander, a rainha também escandalizou a Dinamarca por suas atitudes, como andar pela capital desacompanhada (*ou com uma informalidade acintosa*) e por usar trajes masculinos (*gravura aqui*). Esse é um dos temas do filme, a questão da liberdade: de imprensa, de casar ou não, religiosa, etc. Caroline começa a refletir sobre a liberdade a partir da sua própria experiência como mulher e prisioneira. Só que faltou explorar melhor o comportamento da rainha, suas atitudes tidas como libertárias ou libertinas no contexto da época. No filme, Caroline tem medo de cavalos e Struensee sugere que ela monte à cavaleiro e não atravessada na sela como uma dama, pois isso lhe daria estabilidade. A seqüência toda é importante, porque é aí que Struensee se descobre apaixonado pela soberana. Só que em nenhum momento a personagem aparece com roupas de homem.

Outro ponto é que o interesse por política da jovem, que morreu com míseros 23 anos, parece ter desaparecido com a perda de Struensee, só que a Caroline real continuou conspirando mesmo no exílio. Ou seja, a imagem de heroína sofredora e romântica é muito parcial. O que é intensamente mostrado é o desprezo de Caroline pelo marido, mesmo quando Christian tenta se aproximar dela estimulado por Struensee. Caroline também deseja abortar o filho que espera de Struensee, mas ele é contra, o que a obriga a receber o marido de novo em sua cama. A Caroline do filme só tem amor pelos filhos e pelo amante. Dada a experiência traumática com o marido, eu não a culpo, não, mas sob o ponto de vista político, sua atitude foi burra. Enquanto isso, as carinhas de Mikkel Følsgaard, fazem a gente ter pena do pobre Christian.


No filme, como pontuei, são Christian e Struensee que chamam mais a atenção. Struensee é a personagem mais importante, já que no gozo das faculdades mentais, sofre em ter que trair o soberano e amigo. Ele é apresentado, e deveria ser mesmo, como um homem íntegro, incorruptível, e comprometido com reformas que produzissem o bem estar coletivo. Isso é enfatizado e mostrado o tempo inteiro. O problema é que no seu anseio por reformar, na sua pressa, ele acabou alienando o rei, superestimando a sua posição e seu poder. Ao não ceder ao conde corrupto que ajudou na sua aproximação com o rei, desviando dinheiro público, ele arruma um inimigo disposto a se vingar. Alguém que o via como ingrato e inferior, já que era um mero plebeu. É triste ver a derrocada da personagem, o afastamento em relação ao rei, cuja saúde mental volta a deteriorar, a amizade que se torna secundária quando o poder está em jogo. 

Os pontos altos da interpretação de Mads Mikkelsen estão na sua angustia em trair o rei, em se entregar ao romance com a rainha, e no momento da execução. Normalmente, essas cenas em que alguém é executado são limpinhas, com o condenado cheio de dignidade se dirigindo para o cadafalso. Só que A Royal Affair é cru. Primeiro, mostra Struensee sendo torturado (*os golpistas suspenderam suas leis*) para confessar não somente o adultério, mas que desejava matar o rei, e, depois, moído de pancadas. Quando vai ser executado, Struensee não está calmo, nem contido, ele tem o desespero estampado em seu rosto, já que esperava ser perdoado pelo rei no último momento.  Só que Christian – que se afirmou amigo de Struensee até a morte – era refém e não decidia mais nada por si mesmo. Não há nada de belo ou heróico na execução do protagonista, tudo é muito violento, triste e sujo. E nem foram tão fiéis assim na execução, pois Struensee e Brandt têm primeiro a mão direita cortada e, depois, são decapitados.


Enfim, o erro de Struensee, da rainha e seus aliados, foi alienar o rei. Eles achavam que Christian não era mais necessário e deram um golpe. Sim, não foram golpistas somente os reacionários, obscurantistas religiosos, a dupla de protagonistas com “as melhores intenções do mundo” agiram da mesma forma. Era necessário? Era possível agir diferente? Cabe à audiência refletir, no entanto, historicamente vemos grupos muito bem intencionados que acreditam que em nome de suas bandeiras podem, sim, violentar as leis, as instituições e as pessoas. É fácil bater nos “maus”, mas os “bons” também erram. A situação de Struensee e Caroline piorou com a gravidez da rainha, os boatos de traição – conjugal e política – se espalharam. A própria lei de liberdade de imprensa de Struensee foi usada contra ele, pois os panfletos se proliferaram, na mesma linha difamatória que marcou a pré-revolução francesa. Struensee reinstituiu a censura e restringiu a saída do rei do palácio, pois ele poderia ter contato com as histórias. Outro erro. Os inimigos de Struensee – liderados pela rainha Juliane – espalharam a notícia de que Christian era prisioneiro e que Struensee queria matá-lo... Enfim, Struensee e Caroline subestimaram os inimigos e superestimaram seu poder. O apoio popular foi erodido por boatos e a nobreza já estava contra Struensee e Caroline, mesmo...

O filme poderia ser mais curto e acabar na execução de Struensee, a cena era forte o bastante para fechar a película ou encerrar com a dor de Caroline. Não havia necessidade de seguir para o exílio, mostrar o reencontro com Von Plessen, sua morte e, pior, suas memórias sendo dadas a seus filhos. Foi um prolongamento que tirou a força do filme e serviu para fazer drama... Outra coisa, apesar de ter várias mulheres com nome e que conversam entre si, tenho cá minhas dúvidas se o filme cumpre a Bechdel Rule, afinal, o assunto principal dessas conversas são sempre homens, ou Struensee, ou Christian, ou o filho de Caroline. Como perfumaria, cabe comentar que Mads Mikkelsen, que eu já vi em outros filmes (*Três Mosqueteiros*) e nem lembrava dele, não é um homem bonito, no entando, ele fica bonito em algumas cenas, graças a intensidade de sua interpretação. Seu Struensee é excelente.


É isso. Recomendo A Royal Affair. Infelizmente, não acredito que ele vá aparecer em nossos cinemas, salvo em festivais (*foi exibido no de São Paulo, segundo o IMDB*) ou em circuito restrito, com sorte sairá em vídeo no ano que vem. De qualquer forma, para quem gosta de filmes de época, de dramas históricos, e de situações que mostram que, sim, as coisas podiam sair dos eixos, serem subvertidas, e muitas vezes eram mesmo, A Royal Affair é um achado. Outro ponto importante é mostrar que as mulheres podiam ser elementos fundamentais na política, seja como peças de revolução, ou de ação reacionária. E a interpretação dos atores, especialmente Mads Mikkelsen e Mikkel Følsgaard, já vale o filme.

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