sábado, 19 de janeiro de 2013

Comentando A Viagem (Cloud Atlas, 2012)



Ontem assisti A Viagem ou Cloud Atlas, no original. Trata-se, no geral, de um filme inteligente, ainda que difícil de acompanhar no início, bonito e instigante. Infelizmente, acabou sendo tratado com muito pouca gentileza nas premiações e periga não conseguir a atenção que merecia e a condescendência que uma bomba presunçosa como Prometheus vem recebendo. Mas Prmetheus e Cloud Atlas estão em pontos meio opostos, o primeiro, é obscurantista, apelando para um misticismo estranho em um filme de ficção científica; já o segundo é progressista e libertário.  Adaptado do romance de mesmo nome de autoria de David Mitchell, ele foi dirigido pelos irmãos Wachowski (Lana e Andy) de Matrix e Tom Tykwer de Corra Lola, Corra. Cloud Atlas trabalha em seis temporalidades diferentes (*sete, na verdade*) mostrando a conexão entre várias histórias, entre a vida de várias pessoas. As propagandas do filme traziam a frase “Tudo está conectado”.

Os seis planos temporais de Cloud Atlas são os seguintes: 1849, um jovem advogado, Adam Ewing, viaja à serviço para as ilhas do Pacífico e testemunha a crueldade da escravidão. Durante a volta para casa, aparentemente contaminado por um verme que parece querer matá-lo, ele ajuda um escravo fugitivo que viajava clandestino e repensa seu posicionamento em relação à abolição. Seu diário de viagem é lido pelo jovem musicista Robert Frobisher, na Escócia, em 1936. Frobisher trabalha como secretário para um compositor genial, mas senil, e durante sua estadia na mansão do velho começa a escrever sua obra-prima, Cloud Atlas. No entanto, sua homossexualidade pode ser usada pelo velho contra ele, obstruindo sua carreira futura. A única saída para conseguir se fazer ouvir é tirando sua própria vida. Seu corpo é encontrado por seu amante Rufus Sixsmith. Em 1973, um envelhecido Sixsmith é um importante físico que deseja entregar para a jornalista Luisa Rey um dossiê sobre uma conspiração nuclear. Rey arrisca a vida para expor a trama que pode resultar em muito lucro para certos capitalistas e um número sem precedentes de mortos.


Em 2012, na Inglaterra, Timothy Cavendish é um editor decadente que ganha muito dinheiro depois que um autor marginal enfurecido assassina o crítico que detonou o seu livro. Os amigos bandidos  do cara ameaçam Cavendish, caso ele não divida os lucros com eles, que ao pedir ajuda ao irmão e  acaba enganado por ele e trancafiado em um asilo que funciona na mesma mansão na qual o jovem Robert Frobisher começou a compor sua sinfonia. Livre, ele escreve sua experiência em um livro que acaba virando um filme que é assistido por Sonmi~451 em 2144. Sonmi~451 é uma replicante em um mundo distópico no qual a exploração capitalista chegou a tal ponto que as pessoas são divididas entre puro-sangue e os outros. Sonmi~451 acaba ganhando consciência de si e se tornando símbolo da resistência. Só que o tempo passa, aquela sociedade ficou para trás, a Terra está se tornando inabitável para seus habitantes (*ou os habitantes tecnologicamente evoluídos*) e eles precisam saber se as antigas colônias no espaço ainda existem e podem recebê-los. Nesse mundo pós-apocalíptico, os habitantes do vale, que vivem em nível tecnológico pré-histórico, veneram Sonmi~451 como se fosse uma deusa.

Essas temporalidades múltiplas correm todas ao mesmo tempo e somos levados a acompanhar várias histórias concomitantemente. É difícil? Sim. Algumas coisas estão sobrando no filme? Sem dúvida. Talvez o livro as explique melhor? Talvez. Um dos trunfos de Cloud Atlas – e vou chamar assim daqui por diante – é a maquiagem. Um mesmo grupo de atores e atrizes interpretou várias personagens. Foram homens ou mulheres, a ponto de não reconhecermos quem é quem. Tanto que no final aparece uma inusitada mensagem pedindo que fiquemos para ver quem interpretou qual papel. Hugo Weaving e Tom Hanks são os reconhecíveis o tempo inteiro. Weaving, o eterno agente Smith, sempre em papel vilanesco. Eis um ponto fraco do filme. Outro, talvez, e isso atraiu críticas nos EUA, foi o yellow face. O elenco é multirracial, mas há poucos atores e atrizes orientais no elenco. Assim, praticamente todos os personagens da Nova Seul de 2144 são brancos ou negros maquiados. E, bem, a maquiagem oriental não ficou lá essas coisas em muitos deles. No entanto, a atriz que faz Sonmi~451, Doona Bae, faz a esposa branca de Adam Ewing, Tilda, entre outros. O problema, para mim, é que os homens orientais de 2144 não ficaram bons, salvo se forem mutantes ou algo assim...


Em alguns momentos, é preciso ressaltar, o filme parece fragmentado. Adaptar livros é sempre complicado, informação se perde, personagens e passagens precisam ser sacrificadas, mudanças acabam sendo feitas e podem não agradar  todo mundo. O ritmo geral é bom e há pouquíssimas pontas soltas. Mas o que me incomodou?  O médico (Tom Hanks) que quer tratar/matar Adam Ewing não me parece muito coerente, suas motivações não parecem muito bem estruturadas. E, bem, o forte dessa história é a relação de Ewing (Jim Sturgess) com o escravo Autua (David Gyasi). A personagem de Halle Berry em 1936, a judia Jocasta, é absolutamente dispensável e, bem, seu affair com o jovem Robert Frobisher (Ben Whishaw) não tem função narrativa alguma. A aparição de Susan Sarandon na trama de Cavendish, como o amor perdido que é retomado, também, não tem função alguma. Agora, a inutilidade que atrapalha a narrativa é o demônio, assombração, ou sei-lá-o-quê interpretado por Hugo Weaving no futuro. Sua função é atazanar a personagem de Tom Hanks e mais nada, assim, sussurrando sandices no ouvido dele. Sem essa persoangem, que talvez no livro até faça sentido, o filme fluiria muito melhor.

Cloud Atlas é também um filme de referências, alguma são explícitas, outras, nem tanto. Como não li o livro, não sei se vieram de lá, mas são muitas mesmo. Temos Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo's Nest - 1975) na parte do asilo, com uma impagável enfermeira do mal vivida por Hugo Weaving. Temos a citação direta ao Soylent Green, comida feita de humanos reciclados em um filme de ficção científica de 1973 com Charlton Heston, na fase de 2012 e em 2144. Na Seul futurista a referência direta e mais que presente é Blade Runner (1982), já que Sonmi~451 e suas companheiras são clones, criadas para servir, com data de validade. Sonmi~451 ganha consciência graças à Yoona~939. As replicantes têm colares que podem matá-las em caso de revolta, é algo que já vimos no mangá/filme/livro japonês Battle Royale (バトル・ロワイアル). As referências a Matrix também estão lá, é óbvio, vide a autoria, assim como tantas outras que eu perdi, ou não estou conseguindo litar adequadamente. Referências, não plágio, que fique claro.


Em Cloud Atlas, algumas histórias me encantaram mais. Eu assistiria um filme sobre Robert Frobisher com toda alegria. O drama do rapaz, músico brilhante em busca de um lugar ao sol, discriminado e chantageado por causa da sua homossexualidade, culminando com o suicídio. O amor imortal de Rufus Sixsmith por ele, tudo isso renderia um filme romântico de época belíssimo. Toda a discussão sobre o suicídio em si, como ato de coragem e libertação daria um bom filme. A Seul distópica de Sonmi~451 poderia render outro bom filme, ainda que em conexão com o futuro pós-apocalíptico no qual coexistem seres com alta tecnologia, mas à beira da morte; caçadores e coletores que veneram Sonmi~451 como deusa e canibais. São as três temporalidades que mais me mobilizaram. Jim Broadbent como o velho Cavendish no asilo também renderia um filme engraçadinho, e não muito mais do que isso, carregado daquele bom humor inglês, dentro do filme foi meio que alívio cômico em relação a outras temporalidades mais tensas.

De resto, gostei bastante da forma como as mulheres e as questões de gênero se fazem presentes na história. O filme tem recortes feministas, cumpre a Bechdel Rule e tem Halle Berry e Doona Bae como destaques. A Sonmi~451 de Doona Bae é a personagem mais forte, eu diria. Andróides que ganham consciência de si e questionam o sistema, que exigem direito de escolha, raramente não são personagens fortes. Além disso, as replicantes pareciam ser criadas com o intuito de serem abusadas. Garçonetes, como Sonmi~451 e Yoona~939 (Zhou Xun) deveriam aceitar sem reclamar o assédio dos clientes. A revolta de Yoona~939 resulta em sua morte. A submissão absoluta levaria a um estado de exaltação que as garçonetes deveriam buscar. Mas tudo era falso, já que um sistema explorador ao extremo tende a devorar os subalternos. Na rua, se prestarmos atenção, veremos que há uma prostituta em uma vitrine com as mesmas feições de Sonmi~451, outra replicante, logo, há clones e mais clones com as mesmas feições. Não se enganem, em uma estrutura patriarcal, capitalista, ou não, a prostituição é uma das formas mais extremas de exploração, não importa os enfeites que queiram lhe dar. No caso da nova Seul, as prostitutas e garçonetes eram, convém lembrar, tão escravas quanto as que aparecem na trama de Adam Ewing em 1849.


Já Halle Berry, brilha como a jornalista que em 1973 busca um lugar ao sol. Ainda que isso não fique evidente para muitos, a personagem de Berry é representativa de uma geração. Tornou-se jornalista por inspiração paterna. Teria sua mãe uma profissão? O pai, jornalista renomado, fazia matérias sérias. Ela, mulher, estava confinada às perfumarias de uma revista famosa. A trama do dossiê é uma chance de tornar-se uma jornalista de verdade. A personagem inescrupulosa de Hugh Grant (*que envelheceu muito... não sei como ainda pensam em um Bridget Jones 3...*) faz referência ao “women’s lib” (Liberação Feminina) dizendo que seria a favor se todas as jornalistas fossem bonitas como ela. Vejam que muitas jornalistas ainda hoje perdem seu posto em grandes telejornais, ou nunca conseguem, por estarem se tornando “velhas” demais ou não estarem de acordo com o padrão de beleza. 

Lembro quando criança de ter ouvido como Glória Maria era feia e que era um absurdo colocarem a jornalista para apresentar o Fantástico. Obviamente, a feiúra de Glória Maria é a mesma de Lázaro Ramos... No futuro extremo, Halle Berry volta como uma mulher competente, cientista, que está em busca da resposta para seu povo. Ainda é possível fugir da Terra? Aqui, cabe perguntar o motivo pelo qual um povo tão avançado precisaria recorrer a um guia nativo (Tom Hanks). Será que havia alguma coisa na região que impedisse o vôo das naves ou interferisse em seus instrumentos e uma busca pro Terra fosse necessária? Enfim, respostas que somente o livro pode dar.


De resto, há quem interprete Cloud Atlas como um filme reencarnacionista, já que as personagens estariam conectadas e há uma espécie de déjà vu em relação à melodia The Cloud Atlas Sextet for Orchestra. Entretanto, no geral, a base é a coincidência de sentimentos, o amor em suas múltiplas formas – romântico, pela liberdade, pela justiça – e uma mensagem muito clara de que o mundo que temos não “É”, ele foi construído e tudo o que foi construído pode, sim, ser destruído, desmontado, reinventado. A Desnaturalização da escravidão está fortemente presente no filme, seja na trama de 1849 ou na de 2144. Na primeira, temos negros e negras em condição de escravidão, na segunda, mulheres criadas para servir, replicantes usadas e descartadas sem nenhuma consideração. Trata-se, portanto, de um filme libertário e sem meias palavras quanto a isso. Além de, claro, crítico ao capitalismo selvagem. A questão ecológica está lá, mas de forma muito, muito sutil (*e deve ser mais forte no livro*), já que não é central em nenhuma das tramas, ainda que possa estar na base da tragédia do futuro pós-apocalíptico. Enfim, sem ser pomposo, mas, também, sem ser didático, Cloud Atlas é um filme bem interessante e conseguiu me tocar, ao contrário de Matrix que tem quase a mesma grife. Merece ser visto e rende muito material para discussão.  Resultado?  Acho que tenho outro livro para ler... 

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5 pessoas comentaram:

Ótimo texto, acompanho o blog há um tempo e essa é a primeira vez que comento aqui!

Assisti Cloud Atlas e gostei muito do que vi, minhas expectativas foram superadas, no entanto, como toda adaptação, sempre resulta em um "gosto de quero mais". É um filme que possuí uma série de camadas, não apenas reencarnação, o modo como a vida foi retratada no filme foi muito belo e poético, quando não reflexivo.
Espero ansiosamente pelo lançamento do livro por aqui, caso contrário, adquiro o original mesmo. Enfim, quero aproveitar para dar os meus parabéns pelo blog, gosto muito dos seus textos, e também sou ouvinte do Shoucast ^^

Sua crítica conseguiu despertar a vontade de ver esse filme, apesar de ser longo. Se der, vou ver.

Ótimo texto para um maravilhoso filme. Tinha baixado o filme, mas decidi ir vê-lo no cinema, com minhas irmãs ainda por cima. Saímos os três adorando o filme e querendo que cada história tivesse um filme próprio. A história do compositor é muito, muito bela. Também achei o affair com Jocasta dispensável, mas de resto, o melhor segmento do filme. (Também reparei nisso do Hugo Weaving sempre ser retratado como "mau". Mesmo na história que só faz uma pequena ponta, como essa, ele é um nazista...)

A Halle Berry tava muito bacana, naquele clima setentista. Gostei também das posições tomadas quanto as questões de gênero e da parte sobre escravidão. Também achei a motivação do personagem de Tom Hanks fraca, no segmento do seculo XIX, mas nada que tirasse o brilho do filme).

Morri de rir no cinema - nessa cena, sozinho - no segmento do velhinho gritando "Solyent Green is made of people!", hahahha.

Outra referência presente no filme é o "nome" de Somni: Somni~451, retirado de Fahrenheit 451, o ótimo livro de Ray Bradbury sobre o estado totalitário onde bombeiros destroem livros os atirando ao fogo. Além disso, um sujeito budista disse que o filme é recheado de ensinamentos dessa religião, inclusive com citações diretas a sutras. Como não sou muito conhecedor, deixei passar. Mas isso torna o filme ainda mais belo.

Enfim, gostei MUITO do filme. Uma pena que passou batido para a crítica e premiações. Será que vai fazer o caminho de Blade Runner e virar cult?

"Além de, claro, crítico ao capitalismo selvagem"

Recordei imediatamente do que a revista Veja falou sobre esse filme.
Filme interessante jogado no lixo quando se vai pela opiniao desse tipo de revista.

Adorei sua crítica, disse praticamente tudo que eu pensei sobre a história, eu adorei essa vibe que fica no ar de que tudo está conectado no sentido da eterna luta pelo que é certo, sobre os que ousam se rebelar contra a própria prisão ou prisão alheia e como isso sempre vai existir em qualquer época. Saí do cinema pensativa e com uma sensação boa. Quero muito ler o livro, deve ser lindo. A cia. das letras divulgou que publicarão aqui no Brasil, mas por enquanto nada, tô super no aguardo desde a época que o filme saiu.

Abçs

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