terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Comentando Meu Namorado é um Zumbi (Warm Bodies, 2012)



Ontem assisti meu Namorado é um Zumbi (Warm Bodies), que, se seguisse o título nacional do livro, deveria se chamar Sangue Quente.  Mas como o objetivo era associar o filme ao filão de romances adolescentes derivados de livros, abandonaram o título mais interessante.  E não pensem que por ter zumbis, ou ser escrito por um homem, Sangue Quente destoa dos demais sucessos para meninas e meninos nessa faixa etária.  A diferença é a complacência que a autoria masculina e a escatologia zumbi inspiram em muitos críticos.  Porque essa coisa de zumbi é uma febre e há de se encontrar por aí quem diga que Orgulho & Preconceito & Zumbis é melhor que o original por ter cadáveres animados em cena.  Enfim, foi um dos raríssimos casos em que meu marido queria ver um filme – ele gostou do trailer – e eu não tinha a mínima atração por ele.  Manter um relacionamento implica sacrifícios e gentilezas, em relação ao cinema, ele costuma ceder várias vezes e já encarou algumas bombas ao meu lado, como a continuação do Zorro do Antônio Banderas.

A história, que é abertamente inspirada em Romeu & Julieta é a seguinte: mundo pós-apocalíptico arrasado por uma praga.  A população humana da América se encontra sitiada por trás de altos muros, enquanto pelo resto do país circulam zumbis, uns são mortos-vivos ainda bem humanos, repetindo exaustivamente as tarefas que faziam antes de serem contaminados, outros, são esqueletos ambulantes, seres que em nada lembram os humanos que foram antes. R (Nicholas Hoult) seria um jovem comum buscando uma razão de viver, não fosse ele um zumbi.  Incapaz de se expressar para além de grunhidos e monossílabos, sua mente se mantém ativa e seus pensamentos guiam a história.  


R é assolado pela mesma fome que atinge seus companheiros, mas ele tem particular prazer em consumir os cérebros de suas vítimas humanas, pois isso lhe permite vivenciar memórias e sentimentos dos mortos. R também coleciona objetos dos mortos.  Tudo muda quando R devora um jovem e o amor que este sentia por sua namorada, Julie (Teresa Palmer), faz com que o zumbi passe a desejar proteger a moça.  Os impulsos, emoções, e decisões inspiradas por esse sentimento modificam R e iniciam uma reação em cadeia no resto da comunidade de zumbis.  Só que Julie é filha do líder da resistência humana (John Malkovich) e, para ele, qualquer zumbi é uma ameaça e merece uma bala na cabeça.

O trailer de Sangue Quente – não vou usar o título dado no cinema, OK? – é bem engraçado e eu fui imaginando que, por não se levar a sério, o filme seria divertido.  Infelizmente, a maioria das boas piadas do filme estão no trailer mesmo.  As outras, como a cena em que R diz que discos de vinil produzem o melhor som, ou quando Julie tenta maquiá-lo para parecer mais humano e sua amiga, Nora (Analeigh Tipton), coloca Pretty Woman para tocar, não tornam o filme tão engraçado quanto deveria ser. Porque, vejam bem, essa coisa de zumbi consciente e apaixonado não pode ser encarada com seriedade, o problema é que, a partir de um determinado momento, o filme tenta se vender mais como drama romântico do que como a dramédia que deveria ser.


Alguns saúdam o filme, e o livro que o antecedeu, como inovador por causa da narração em primeira pessoa.  Desculpem, nada há de inovador nisso, só que em Sangue Quente é um recurso válido, afinal, R tem dificuldades em se expressar. R quer interagir com as pessoas, se sente só, éum colecionista.  Nicholas Hoult – o Fera dos novos X-Men – atua muito bem, especialmente, se levarmos em conta a necessidade de mimetizar a rigidez do rigor mortis.  Julie faz uma adolescente convincente, ainda que, tenha gostado mais da espevitada Nora.  O problema é tornar tudo bem levinho a ponto de Julie em nenhum momento se questionar sobre estar apaixonada por um sujeito que matou e devorou seu namorado, além de ter ajudado a massacrar boa parte de seus amigos.  Mas, se o amor pode mudar um zumbi, pode, também, anular qualquer amarra moral da menina.

A situação dos humanos em Sangue Quente é desesperadora, afinal, sitiados, com alimentos limitados, eles precisam se aventurar fora dos muros em busca de recursos.  Colocar adolescentes para fazer o serviço de buscar recursos e, não, adultos, é recorrer a estratégia da liminaridade: por mais absurdo que seja, você precisa colocar adolescentes em tela, porque eles e elas são seu público.  Nesse sentido, o filme é bem democrático.  Se o comando é masculino entre os humanos, se entre os zumbis os únicos com uma gota de humanidade são R e M/Marcus (Rob Corddry), pelo menos há mulheres em todos os lugares, inclusive com armas na mão, a começar por Julie.  


Só que quando começo a enumerar os problemas de coerência em Sangue Quente sobra muito pouco para além da história batida do amor impossível.  Há uma cena em que Julie e o seu namorado mala (*sim!  Ninguém lamenta que R tenha comido aquele imbecil*) conversam sobre a falta de aviões no céu.  Aviões não existem mais, já que os zumbis moram no aeroporto.  Só que, por várias vezes, há trilhas de condensação no céu.  Isso só pode ser deixado por aviões... Custava a produção ter um pouco de atenção?  R pensa sobre a lentidão dos zumbis e como demoram para se locomover em busca de alimento. Isso condiz com a questão do rigor mortis.  Só que, poucas cenas depois, aparece uma horda de zumbis correndo em disparada.  Não entendo nada de mitologia ou cinematografia sobre zumbis, nem tenho interesse por isso, o que está em pauta é a incoerência dentro do filme.  Não se trata de suspensão de descrença, algo que a gente precisa ter em alguns momentos ao se relacionar com a ficção em geral, é desleixo da produção mesmo. 

Quando R começa a se tornar humano ou se curar, o que ele come?  E seus companheiros zumbis que conseguem se curar?  Como se locomoveram até as proximidades da cidadela humana sem se alimentarem?  Explicação?  Nenhuma.  E eu nem estou implicando com a cura dos zumbis, se você elimina o fator mágico/religioso e investe na história dos vírus, zumbis passam a ser humanos alterados.  E, bem, parece que Sangue Quente fala da cura, e aí, claro, ele passa a se levar mais a sério do que deveria.  Só que, como tudo é muito fácil, muito otimistazinho, tudo termina bem no final, sem nenhuma grande resistência por parte dos humanos ou, mesmo, dos zumbis.  E o mundo nunca foi mais desprovido de preconceitos... mais complicado ainda é que R só tenha sido tocado pelas memórias do namorado de Julie.  É o amor, só pode! Fosse isso escrito por uma mulher e vocês podem imaginar a grita masculina, mas tem zumbis e a produção do livro até a direção é feita por homens.  Aí pode!  É genial! Só tem pequeninos defeitos... 


A graça é que Nicholas Hoult é lindinho demais para ser um zumbi e, claro, a escolha foi proposital para atrair a audiência.  A maquiagem também é coisa leve, para não deixá-lo repulsivo.  E quando o rapaz  vai rapidamente se humanizando, fica mais bonitinho ainda. Vocês entendem, não é?  Os outros zumbis também não são muito decrépitos e a invenção dos zumbis irrecuperáveis, os bonies, é um recurso clichê.  Tornou-se cada vez mais comum no cinema americano criar o inimigo – alien, demônio, whatever – cada vez mais desumanizado.  É o que fazem, por exemplo, em Cowboys & Aliens, é o que acontece em Sangue Quente.  Você tem empatia pelos zumbis, porque se reconhece neles, a humanidade está lá, já os esqueletos, são monstros, é possível destruí-los sem culpa.

Sangue Quente está fazendo enorme sucesso nos EUA e o autor do livro, Isaac Marion, sabe bem do tesouro que tem nas mãos e está trabalhando em seqüências e tudo mais.  No entanto, a película tem um fim muito fechado, o que dificulta a continuação.  Só que, é possível fazer um filme que seja uma prequel, sem grandes problemas.  É isso.  Não tenho muito mais para escrever.  Sangue Quente é fraco e menos engraçado do que deveria ser.  eu esperava um filme nonsense, recebi uma comédia romântica com algumas piadas salpicadas aqui e ali.  Não é um bom material sobre zumbi, também, ao que parece, mas eu não sou a melhor criatura para julgar, pois o único filme do gênero que vi foi o remake da Noite dos Mortos-Vivos (*dá para assistir aqui com a ótima dublagem nacional da época*).  Como romance, Sangue Quente é parecido com outros materiais que andam por aí, rasinho, mas sem investir em discussões moralistas sobre sexo e virgindade, sem grandes angustias.  E, bem, como ver como material de qualidade o romance entre uma humana e um zumbi sem que se tenha angústia e muita dúvida envolvida?  Só colocando um menino fofinho como zumbi e fazendo muita gente achar tudo muito normal, pois o amor transforma e é capaz de tornar humanos até os zumbis mais degradados.


P.S.: Para quem interessar, o livro original está em promoção no Submarino e tem na Livraria Cultura, também.

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4 pessoas comentaram:

A primeira vez que vi o trailer (eu nunca tinha lido nada a respeito) eu achei que era zuação, uma paródia para a onda de livros e filmes sobre romances sobrenaturais para adolescente. E eu fiquei esperando isso ser falado no trailer. Mas não. Era realmente um filme, baseado em um livro sobre o romance de uma humana com um zumbi. Como assim??? Hahahaha eu fiquei de queixo caído. É uma pena saber que eles tentaram levar a história mais a sério. Acho que seria mais interessante se tivessem levado para o lado do no sense.

Olha que eu achei esse título nacional do filme mais tolerável que o original. Ao menos é despretensioso, coisa que pelo visto o filme não é tanto quanto deveria.

Se fosse uma sátira à essa onda de romances entre monstros clássicos em versão Colírio Capricho e garotas adolescentes que parecem não ver muita graça em homens humanos até que poderia ser interessante, mas pelo visto não é o que eu pensava.

Bem, Samuel, a história do título até procede, porque os zumbis "curados", vão esquentando...

De resto é um romance entre garoto colírio e menina inocente e juntos eles descobrem uma forma de salvar a humanidade. ^__^

Val eu li o livro e vi o filme depois gostei bastante dos dois, me prefire o filme pois teve um final mais feliz e um fim, coisa que no livro não já que terminar bem aperto com a morte do pai da Julei por ela mesma, evitando que ele mate o R.
Mas de todas as adaptações de filme essa foi a mais fiel, mudaram algumas coisas normais com todas as adaptações mas não ficou tão grotesca como o Codigo da Vinci, odeie o filme o livro muito bom para terem feito aquela porcaria.

Bjs

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