domingo, 17 de fevereiro de 2013

Comentando O Vôo (Flight)



Ontem assisti o filme O Vôo (Flight) com meu marido.  Havíamos visto o trailer e decidimos que valia a pena dar uma olhada nem que fosse pelo Denzel Washington.  O trailer parecia anunciar um drama de tribunal (*eu gosto, meu marido, não*) no qual um heróico piloto, que salvara 96 pessoas da morte certa, era processado por ter tomado um golinho de bebida alcoólica   Assim, bem  no espírito puritano.  Nada disso!  Fazia tempo que um trailer não me tinha vendido um filme inferior e me oferecido um produto de qualidade muito acima da média.  O Vôo é um filme denso que nos leva ao inferno junto com protagonista, o piloto Whip Whitaker (Denzel Washington), não tem um final feliz tradicional, e, ainda assim, satisfaz e nos enche de esperança.  Denzel Washington, um dos grandes atores de sua geração, está brilhante, o elenco de apoio se sai muito bem, o roteiro mereceu sua indicação ao Oscar e é um belo retorno de Robert Zemeckis ao cinema tradicional.

O Vôo é um filme tem como seu tema central o drama do alcoolismo, uma doença que tortura muitas pessoas, a maioria homens, em todo mundo.  Acredito que não há adulto que não conheceu o drama de alguém que tenha que conviver com o problema, com alguma família destroçada pelo álcool   Sem ser piegas, sem fazer concessões, acompanhamos o protagonista em sua jornada destrutiva, desde o amanhecer do dia do vôo que lhe deu fama de herói, até seu julgamento.  Whitaker é um experiente piloto, mas sua vida pessoal é um fiasco.  Quase sempre bêbado, ele recorre à cocaína para se manter “ligado” e poder trabalhar.  Sua esposa e seu único filho não o querem por perto e ele se recusa a aceitar qualquer forma de tratamento.  Apesar de salvar a maioria dos passageiros e a tripulação de seu vôo, sua conduta é colocada em debate, mesmo que fique comprovado desde o início que o acidente foi provocado por causas mecânicas.  Incontrolável, sem aceitar as recomendações do representante do sindicato (Bruce Greenwood) e advogado (Don Cheadle), Whitaker acaba colocando a perder até seu possível romance com Nicole (Kelly Reilly), uma mulher que quer deixar para trás o vício em drogas e álcool.


O Vôo abre de uma forma bem incomum hoje em dia: uma cena de cama, com direito a nu frontal feminino e o protagonista consumindo drogas. Não lembro de uma cena assim em muito tempo.  A narrativa é bem naturalista, crua até em muitos momento.  Há fantasia, afinal, é cinema, mas o nível de realismo é levado aos limites, ainda mais em nossos tempos conservadores.  Definitivamente, não é filme para criança, ou para essa nova categoria de seres humanos que os americanos e a indústria apelidaram de “kidults”, ou adultos que não querem crescer e não falo somente da paixão por coisas associadas às crianças, mas de uma incapacidade de amadurecimento e de perceber de forma equilibrada a vida.  O cinema de nossos dias produz intensamente para esse público, filmes que se apresentam como adultos, mas, na verdade, são superficiais e levemente infantilizados (*em alguns casos, até idiotizados mesmo*).  E as múltiplas indicações para O Lado Bom da Vida e as duas para O Vôo só reforçam o que eu acabei de escrever.  Agora, coisa curiosa é o filme ter uma classificação indicativa tão baixa, 14 anos.

Em O Vôo temos um belo painel da diversidade sociedade americana, desde o seu aspecto étnico-racial até os seus matizes religiosos.  Ao longo do filme, até temi que o filme descambasse para uma situação de conversão religiosa do protagonista, mas não foi por essa linha, não.  Em O Vôo temos descrentes, como o protagonista; gente que usa a religião para seus interesses, como o advogado que consegue que “vontade de Deus” seja incluída entre as causas de acidente aéreo; pessoas em busca de um caminho, caso de Nicole; e religiosos extremados, como o co-piloto e sua esposa.  A cena em que eles fazem Washington orar com eles é hilária.  Sim, O Vôo tem humor.  Piadas que são feitas de forma convincente com coisas bem sérias, como o uso de drogas.  Harling Mays, o traficante amigo do protagonista interpretado por John Goodman, é genial.  Com suas técnicas para deixar o bêbado Whitaker ligdo de novo, ou reclamando que os canadenses só usam genéricos e não as marcas verdadeiras (blue labels) quando tenta empurrar para o protagonista os seus remédios contrabandeados. Merecia uma indicação ao Oscar de coadjuvante. 


O filme também mostra os bastidores das lutas judiciais.  Ninguém estava muito interessado se Whitaker era ou não viciado ou em como ajudá-lo, o que as empresas envolvidas e o sindicato queriam era livrar a sua própria pele e evitar pagar pesadas indenizações ou tomar outras sanções da agência federal responsável pela investigação.  Há um grande medo de que a National Transportation Safety Board (NTSB), possa pegar Whitaker na mentira, ou melhor, pegar todos na mentira, ainda que a perícia do piloto seja incontestável.  Falando do acidente, ele ocupa somente a parte inicial do filme e é bem dramático, com as atuações mostrando todo o desespero que uma situação desa pode inspirar, ou, pelo menos, aquilo que o cinema está disposto a mostrar. Uma das coisas que o filme faz com que nos perguntemos é quantos de nossos aviões voam sem a devida manutenção ou com peças condenadas.  Essa é a razão principal do acidente do filme.  Acontece nos EUA e acontece aqui, também.

Como o álcool e a ganância das grandes empresas é algo de longa data, O Vôo é um filme que poderia ter sido feito sem problemas nos anos 1970, 1980.  No entanto, duvido que dariam o papel de protagonista a um ator negro.  Curiosamente, a questão racial não é evocada em nenhum momento.  O filme apresenta as personagens como profissionais competentes e seres humanos.  Seria possível até intercambiar papéis dentro do próprio elenco e conseguir um resultado semelhante. Assim como temos mulheres em vários papéis sem que questões de gênero pareçam muito relevantes.  Obviamente, Nicole só poderia ser uma mulher e Whitaker provavelmente só poderia ser um homem, mas me refiro a ocupação profissional das personagens de uma forma mais ampla.


Falando em mulheres, preciso comentar sobre elas.  A primeira cena é um nu frontal da aeromoça Katerina "Trina" Márquez (Nadine Velazquez) que tem um caso com a personagem de Denzel Washington.  Ela passa vários segundos sem roupa e indo de lá para cá.  Achei que poderia ser fanservice simples, mas parando para refletir, dois amantes de longa data têm intimidade o suficiente para fazer essas coisas.  Artificial são as cenas de filme e novela em que as pessoas aparecem vestidas depois do sexo e mulheres durmam se sutiã e calcinha.  Mas poderia ser que a personagem de Whitaker flertasse com todas as comissárias e isso reforçaria aquela idéia machista (*que também vale para médicos e enfermeiras*), de que essas profissionais estivessem sempre disponíveis.  Só que isso não se confirma, já que a relação do piloto com sua chefe de cabine, Margaret Thomason (Tamara Tunie), é de amizade e respeito.  Ela, aliás, tenta levá-lo para o grupo de apoio á viciados da Igreja Batista que freqüenta. Dentre as outras mulheres com nome, destaca-se Ellen Block (Melissa Leo) a chefe das investigadora da  NTSB, além disso, há mulheres representadas em todos lugar: médicas, investigadoras, jornalistas, paramédicas, enfermeiras, etc.  A maioria dos papéis secundários é masculino, mas O Vôo consegue cumprir a Bechdel Rule com folga.

E chegamos à Nicole, a mulher que cai no vício e se degrada depois que perde a mãe de 54 anos para o câncer.  Demorei um pouco para lembrar que Kelly Reilly é a chatíssima noiva/esposa de Watson nos filmes de Sherlock Holmes com o Robert Downey Jr., porque em O Vôo ela se destaca tanto que é outra injustiça não ter recebido uma indicação.  Nicole é uma mulher que decide mudar de vida depois de quase morrer de overdose.  Ela conhece Whitaker no hospital e os dois acabam desenvolvendo uma relação.  Já li resenhas que apontam como falha de roteiro a incapacidade de desenvolverem o romance entre os dois. Olha, primeiro, o assunto do filme não era romance, ou vender a idéia de que “amor cura” (*ainda que possa ajudar a curar*), mas falar sobre vício.  Nicole e Whitaker se dão bem; ele lhe dá abrigo em um momento de crise; promete que vai largar o vício, mas não larga. Nicole quer viver, busca um grupo de apoio, arruma emprego e quer ajudá-lo.  Ele não quer ajuda.  Se você quer largar o vício não pode viver com um viciado.  Simples assim.  


Agora, eu acredito que muita gente desejava ver a mulher se sacrificando – o tal dispositivo amoroso em ação – e descendo ladeira abaixo de novo, porque, bem, ela é mulher e sua função é amarrrrrrr.   A maioria das mídias reforça isso.  Mulheres precisam se doar.  Nicole não deixa de apoiar Whitaker, mas ela o faz de longe, sem a tentação de voltar a beber e se drogar.  Essa é uma mensagem excelente para várias mulheres que se destroem por companheiros e filhos que não querem ajuda.  Uma das coisas que mais gostei em O Vôo é que ele não apresenta mulheres assujeitadas, incapazes de pensar e decidir fazer o que é melhor para si e que isso nada tem a ver com egoísmo ou falta de compaixão.  Simplesmente, para ser capaz de ajudar alguém, você precisa se ajudar primeiro.  Nicole faz isso e é uma grande personagem, mesmo que mal apareça na parte final do filme.

Gostei muito mais de O Vôo do que esperava, trata-se de um filme emocionante, cru em muitos aspectos, mas que nos enche de esperanças.  Aquela sensação de leveza que não senti em O Lado Bom da Vida, dessa vez, eu senti.  Mais importante ainda, O Vôo é um filme que trata sua audiência de forma adulta e não é leviano na abordagem de uma doença altamente destrutiva.  Ótimo ver, também, que a mensagem é "você precisa dar o primeiro passo, mas não vai fazer o caminho sozinho".  Chega de filmes super-individualistas querem convencer que a gente é capaz de fazer tudo sozinho.  Infelizmente, assim como Cloud Atlas, é mais um dos injustiçados do Oscar.  Denzel Washington não vai levar por melhor ator.  É torcer pelo roteiro original, porque, bem, O Vôo é bem superior á Django Livre em vários fundamentos.  Vamos ver no que dá.

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3 pessoas comentaram:

Eu iria assistir Django hoje se a sessão não estivesse lotada e acabei indo ver O Voo. Fui ver mais ou menos no escuro, mas como sabia que era com o Denzel Washington com sua indicação ao Oscar, não fiquei tão preocupada assim. Olha, foi um tiro no escuro que valeu a pena; eu gostei bastante do roteiro, apesar de não ter achado graça nas piadas com pessoas com câncer e que a Nicole pode ter sim os pontos positivos que você escreveu, Valeria, mas algo em sua caracterização me incomodou: a drogada liiiinda, magra, com aqueles olhos pretos esfumados etc & etc. Já deu né?

Bem, Bruna, as piadas sobre câncer estavam em uma cena só, foram feitas pelo próprio doente e os outros dois - Whitaker e Nicole - ficaram muito constrangidos. Tipo, qual doente terminal nunca questionou a bondade ou existência de Deus? Aquilo não me incomodou, não, sabe?

Quanto à Nicole, sério que você a achou linda? Até que ela procurasse ajuda, a impressão que ela me passa é de magreza doentia, de mulher doente mesmo. Não vi beleza nela até que ela começa a dar a volta por cima. E, bem, venhamos e convenhamos, a idéia a passar é que ela melhorou, estava voltando a ter auto-estima (*a retomada da fotografia*) e gostar de viver.

Foi a minha impressão.

O tipo "linda" que eu disse é justamente esse que você descreveu; mas veja bem, ela não poderia ter um outro tipo físico senão o retratado no filme? São alguns estereótipos que me desagradam. às vezes. E sim, eu gostei muito dela querer dar a volta por cima, é inspirador.

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