sexta-feira, 24 de maio de 2013

A primeira "operação" do meu bebê



Não pensem que vou transformar o Shoujo Café em diário de gestação ou blog sobre maternidade, isso, vocês não precisam temer.  No entanto, acho razoável comentar algumas coisas referentes ao processo que eu estou passando agora e que, bem, tem feito com que eu poste menos por aqui.  Hoje, graças a um exame de sangue, descobri qual o sexo biológico do meu bebê.  Não queria fazer o exame, mas a angustia do meu marido e as perguntas insistentes de todo mundo, estavam me deixando nervosa.  E ainda havia, claro, a expectativa de meu marido.  Ele queria uma menina e eu temia, tola que sou, que um menino fosse menos querido ou amado por ele.

Não vou dizer que não estivesse curiosa, afinal, não estou fora dessa cultura que insiste em rotular, em moldar com padrões de gênero todos os seres, mas eu poderia aguentar até quando fosse necessário.  Se eu pudesse, pouparia minha criança dessa primeira “operação”, como bem coloca Berenice Bento, que é feita ainda no ventre materno.  Sei que a partir deste momento, a relação de todos com a minha barriga e, talvez, até a minha, estará pautada pelas percepções – os tais papéis de gênero – que as pessoas atribuem a meninos ou meninas.  É triste isso, porque confiscam sua liberdade antes mesmo que você tenha a chance de dar a primeira respirada neste mundo.  Pelo menos, já chegamos a um consenso quanto a uma das muitas marcas de gênero: não furaremos as orelhas da menina.  Se ela quiser que o faça ou peça para fazermos depois.


Agora, alago a se pontuar, e que é muito bem trabalhado por Peggy Orenstein em seu livro Cinderella ate my Daughter, é como cada vez mais e mais cedo, brinquedos, roupas e os mínimos objetos são gendrados.  Rosa e lilás se tornaram cores proibitivas para os meninos.  Praticamente todas as roupas e kits de berço que vi trazem marcas de gênero.  Para meninas, muito rosa e lilás, muito babado, fadas, borboletas, bonecas ou bichinhos fofos, docilidade, beleza.  Para os meninos, a predominância, mas não monopólio, do azul, animais selvagens fofinhos, carros, aviões, coisas que remetam aos esportes, atividade, ação.  É um mundo muito chato este no qual minha menina irá nascer...

Não vou, claro, montar o quarto rosa, ou transformar a bebê em uma princesa fake, mas é muito, muito difícil tentar se descolar dessas formas e amarras de gênero cada vez mais pesadas.  Até agora comprei muito pouca coisa, me pegava pensando principalmente “E se for um menino?” e me recriminando.  É mais fácil transgredir, pelo menos para uma feminista como eu, quando se trata de uma menina... A ditadura do rosa e das princesas pode ser contornada, ainda que não esteja falando em castrar a menina dessas coisas, mas um menino tem sua orientação sexual imediatamente atrelada aos objetos, brinquedos e cores, que não podem ser “de menina”.  É preciso sempre mostrar potência, força, coragem e, cada vez mais freqüente nos brinquedos, agressividade.  Mas, enfim, pelo menos por agora não terei que pensar nisso.  Nos meus planos, e não sei se é algo aceitável para o meu marido, desejo continuar na fila de adoção e mudar a opção do processo de menina para menino. Nunca quis colocar preferência alguma.  Sei lá, vamos ver como as coisas ficam... 

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14 pessoas comentaram:

Quando eu tive minha bebê como não furei a orelhinha dela, mesmo de rosa me perguntava " Qual o nome do bebê?" Só por causa de brinco, a ainda hoje de vestido ainda tem essas perguntas, só porque ela não vive de rosa ou roxo, temos tantas cores porque devo usar só duas?, e minha bebê tem um aninho por que devo furar a orelhinha dela, ela quando crescer se quiser que fure. Apesar de estamos no seculo 21 ainda existe muitas pessoas com pensamento pequeno, que se resume a aparencia.

Por favor, escreva mais e mais sobre sua gestação. Seus textos sobre ela estão sendo interessantíssimos.

Esses dias fui comprar algo para um chá de bebê, já sabendo que a criança é menina, e foi impossível achar algo que não fosse rosa, lilás ou lavanda.
A própria futura mamãe comentou como é difícil achar coisas que fujam dessa tirania rosada.
Juro que dei pulos de alegria ao ver alguém que achou um vestido vermelho e o apresentou no chá da bebê.
Sim, tem babadinhos (é um vestidinho, afinal de contas), mas só de colocar uma cor forte e cheia de presença já mereceu minha admiração.
A propósito, parabéns pelo "pãozinho no forno". Muita saúde pra ti e para sua preciosa.

Quando nossa filha nasceu, decidimos não furar as orelhas. Também mantemos o cabelo curto, pois facilita muito.
Mas de resto, é impossível escapar dessa exigência visual de gênero. Não conseguimos encontrar roupas que não sejam uma variação de rosa, lilás ou roxo. Nem mesmo tênis. Todos são rosa, lilás, com laços e decorações coloridas e brilhantes.
E mesmo que nós não reforcemos nada nesse sentido, ela já capta essa pressão do entorno e se preocupa com as roupas e acessórios que vai usar, e isso com menos de 5 anos.
Um dia ela viu a tia depilando as pernas e já pediu para "tirar os pelos das pernas". Vê a tia pintar as unhas e já pediu esmalte.
O fato é que é simplesmente impossível você isolar a criança disso. O melhor a fazer é manter o diálogo e mostrar as opções. E conforme ela crescer, ensinar a olhar criticamente para essas opções.

Minha mãe não furou a minha orelha e decidi fazer isso aos 15 anos. Foi complicado, inflamou bastante, quase desisti do furo e deixei ele fechar. Quando a minha filha nasceu, fiquei pensando se deveria furar ou não a orelha dela. Levei em consideração a minha experiência, as minhas dificuldades (mais de um mês até a inflamação se resolver por completo) e decidi furar, pois o pediatra explicou que orelha de bebê tem menos problemas desse tipo. Então, a minha decisão não foi baseada numa determinação social, mas sim visando evitar uma complicação futura, afinal de contas, sendo o pai dela mais alérgico do que eu, ela poderia ter muito mais problemas com o novo furo se o fizesse depois de grande. E, se um dia ela não quiser mais saber de usar brinco, é só não usar.
Independente dos brincos, o importante é ter saúde: tudo de bom para a sua filhinha!

Olá, Valeria,

No jornal Folha de São Paul de hoje, 28 de Maio, foi publicada uma pequena matéria assinada pela psicóloga Rosely Sayão abordando exatamente a questão desses parâmetros de gênero impostos às crianças. Lembrei do seu texto na hora. A visão da autora foi bastante positiva, afirmando a ação dos professores, mas, em contrapartida, a reclamação das mães de (principalmente) alunOs. O texto pode ser lido aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/2013/05/1285639-coisa-de-menino-ou-coisa-de-menina.shtml

Considero esse tema bastante interessante, principalmente por estar observando a forma que minha prima está educando a filhinha dela e me encontar pensando sobre essa "Ditadura Rosa" que imperava nas roupinhas da pequena Sofia.

Estava lendo uma matéria no Yahoo sobre o aniversário da filhinha da Grazi Massafera. Os comentários revoltados sobre o fato da criança "parecer um menino",a mãe "nem pra botar um vestidinho pelo menos". Ninguém liga se a criança parece feliz e confortável...

Parabéns pela gravidez!
Através de um post seu sobre a diferenciação de brinquedos para meninos e meninas, comecei a ler alguns artigos sobre o assunto. É bem interessante como repetimos certos padrões, que supostamente são naturalizados, sem sequer percebermos. O que torna ainda mais difícil evitá-los.

Parabéns, Valéria. Nem fazia ideia da sua gravidez, tinha tempo que não aparecia aqui e honestamente vim checar se você já comentou sobre Amor À Vida, gostaria de ver sua opinião sobre Félix (Feliciano?) e como um gay enrustido (Feliciano?) como vilão afetaria a percepção dos homossexuais na sua opinião.

Por pior que o mundo seja/esteja é sempre um motivo de alegria a vinda de uma vida nova, ainda mais com uma mãe com discernimento que vai saber educar propriamente uma criança. É esperar pra ver essa nova geração mudar esse mundo e esse país para melhor.

P.s. Sinto saudades dos tempos em que as crianças podiam usar branco, verde e amarelo. Hoje em dia não há mais nada neutro nas lojas.

artigo interessante parabens pela gestacao influencie a crianca por vola de quatro a cinco anos a ler e a desenhar e sempre bom desenvolver o amor pela leitura e sua criatividade faca ela ler mangas e gibis sempre esplicando a diferencas entre cultura e diversidade nem que seja sailor moon ou sakura card captor alem de alguns gibis americanos o amor pela leitura e a vontade de ler vem desde a infancia eu comecei a gostar de ler e a desenhar lendo gibis que eram do meu irmao alem de pintar baloes de quadrinhos que eram dele causava diversos problemas na hora de ler porem e criativos e influencia no aprendizado influencie e leia sem-re historias mesmo sendo de temas adultos sempre esplique como minha mae fazi acomigos comece semrpe desde cedo sendo que ele e nove anos mais velho que eu temos muitoas diferencas se pensar em ter um segundo filho nao espere muito sendo a importancia maxima de diferencas entre idade no maximo nove anos para nao ter dificuldade de dialogos e discordancia entre irmaos ou ate mesmo ciumes.
sempre nao passe desenhos muito infantis da disney sao pessimos na cabeca da crianca eu cresci vendo cavaleiros do zodiaco e sailor moon sempre mostrando diversidade de genero e sexo mesmo que hoje nao seja a mesma coisa mas meus parabens

Não é sempre que eu consigo dar minha opinião aqui no blog. Quando vou na opção de fazer o comentário, eu volto pro mesmo lugar, sobrando somente o facebook... Parabéns pela filhota Val! Quando eu for pai, eu tenho uma preferência por menina. Acho que teria menos dificuldade de educá-la. Um menino me causaria pânico! hahahaha! Desejo também boa sorte com o meninão que tá pra chegar!

Eu entendi que é menina, Val rs. Só que o menino vai ser adotado né? Então bom, que corra tudo muito bem no processo, assim como sua gravidez! Torcendo que o tempo corra e dê tudo certo ^^

Ah *O* Parabéns Valéria!

Wow, Muito bom texto =/ infelizmente é essa a sociedade em que vivemos e sinceramente não sei dizer se piora ou melhora...

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