sábado, 22 de junho de 2013

Comentando Minha Mãe é uma Peça (Brasil, 2013)


Ontem, por uma confusão de horário, não consegui assistir Minha Mãe é uma Peça.  Algo me dizia que era o tipo de filme que me ajudaria a desestressar dessa loucura (*que não sabemos onde vai dar*) que varre o país.  Sim, eu queria uma hora e meia de alienação barata.  Hoje, depois de uma manhã muito legal, fui com meu marido assistir o filme.  E, bem, assim como Sandra Rosa Madalena de Sidney Magal, música mais forte da trilha do filme, minha Mãe é uma Peça é trash, deliciosamente trash.  Como já escrevi em algum lugar, por qual motivo podemos ter tanta tolerância com péssimas comédias americanas e sermos tão críticos em relação ao produto nacional?  Pois é, eu não tenho vergonha de escrever que filmes como Minha Mãe é uma Peça valem cada centavo que puderem ganhar.  Se quiser, leia o texto ao som de Sidney Magal. ^__^ 


O básico da história é o seguinte: Hermínia (Paulo Gustavo) é uma dona de casa de meia idade, divorciada do marido (Herson Capri), que a trocou por uma mais jovem (Ingrid Guimarães) e totalmente perua. Na falta de algo melhor para fazer, ela não larga o pé de seus filhos Marcelina (Mariana Xavier) e Juliano (Rodrigo Pandolfo), lamentando sempre que o filho mais velho, Garib (Bruno Bebianno) mal se formou, casou e mudou-se para Brasília. Um dia, após descobrir que os dois filhos adolescentes a consideram uma chata e preferem a madrasta, Hermínia some de casa e vai se abrigar na casa de sua tia Zélia (Sueli Franco), deixando os filhos tentarem em vão se virar sem ela.  Enquanto se mantém afastada de casa, Hermínia passa em revista vários momentos de sua vida.

Minha Mãe é uma Peça saiu do teatro par ao cinema.  O monólogo do ator Paulo Gustavo está em cartaz desde 2004 e tinha como inspiração a mãe do próprio comediante.  Uma versão, imagino eu, mais moderada da Dona Hermínia.  O filme em si é simples e despretensioso, na verdade, várias enquetes amarradas por um roteiro muito ralo.  Só que a maioria dessas enquetes cômicas funciona e muito bem, ainda que boa parte delas seja infame,expressando vários (pre)conceitos arraigados no imaginário brasileiro, já as escatológicas foram poucas e eu agradeço.  Algumas, como a hilária seqüência da festa do pijama na boate em que Hermínia vai buscar a filha adolescente, foram inspiradas  em “fatos reais”, outras, segundo o autor, foram invenção mesmo.  Falando na tal festa, a parte em que a mãe obriga o filho a tirar as calças para poder entrar junto com ela, já que ele não estava “vestido à caráter”, é melhor que a parte que rola no interior do estabelecimento. 



Acho que todo mundo vai reconhecer um pouco da mãe ou do pai em algumas passagens do filme; talvez, se reconheça como filho ou filha, também.  Minha mãe, por exemplo, dizia que se eu ou meu irmão a fizessem passar vergonha, ela nos envergonharia em dobro.  Nunca paguei para ver, como os filhos de Dona Hermínia... O talento do protagonista é fundamental para o sucesso do filme, não posso negar, mas os coadjuvantes se viram bem mesmo no pouco tempo em que Paulo Gustavo não está em cena.  

Dona Hermínia é totalmente neurótica e possessiva em relação aos filhos, afinal, eles são sua vida.  Se eu for analisar sob uma ótica feminista – e eu não posso abrir mão disso – a vida da protagonista é um fracasso, afinal, depois de tanta dedicação ao marido e filhos sobrou somente a frustração e a culpa de alguém que não tem outros objetivos, não tem uma vida própria.  Ela guarda rancor do marido, Herson Capri, que faz um coroa charmoso que coloca o Antônio Fagundes e o José Mayer no chinelo, e a trocou por uma mulher bem mais jovem e igualmente intragável.  Ela tem mágoa do filho mais velho que sempre foi independente e, tão logo pode, caiu fora do antro de loucos que é a casa materna.  E temos os filhos mais novos que, ao contrário do primogênito, são totalmente dependentes da mãe, mas ingratos.  A pior relação é com a filha, que culpa a genitora (*com certa razão*) por ser obesa, alegando que somatizou vários traumas.  Hermínia só se liberta quando consegue encontrar alguma satisfação pessoal que não dependa da família.  Há até uma mudança na empregada, prestem atenção!  Mas se eu contar, estrago um pouco o filme.


Esse antagonismo com a filha tem bons e maus momentos, mas normalmente passam pela humilhação da garota e a constante referência ao fato de ser gorda, porca, burra e desastrada.  Agora, somente Hermínia pode esculachar a menina, ai do estranho que o fizer!  A gordofobia (*ou lipofobia*) do filme é um problema, mas confesso que não consegui deixar de rir de boa parte das piadas.  E a moça não se intimida, ser gorda para ela não parece ser um problema. Marcelina na infância é interpretada por Ana Karolina Lannes, a menina que fez sucesso em Avenida Brasil. Eu que fui gorda e desastrada na infância me senti solidária com a personagem em alguns momentos, mas quem costumava me esculhambar em público por causa disso não era minha mãe, mas meu pai.  A melhor cena da menina é quando ela troca a bicicleta rosa por uma coxa de peru no Natal...

A cena da bicicleta rosa, que acaba sendo apropriada por juliano, serviu para ilustrar a homossexualidade precoce do filho favorito de Hermínia.  Mãe e pai se esforçaram para que ele pudesse desenvolver interesses “masculinos”, mas tudo foi em vão, o garoto não tinha “cura”.  É clichê, eu sei, mas a forma como a coisa é encaminhada é muito leve e engraçada.  Hermínia sabe que o filho é gay, acha o namorado do filho “um brotinho” (*e louva seu bom gosto em privado*), mas não admite para ninguém a orientação sexual do filho.  Não reprime, não ofende, mas se o assunto vem à tona, simula um desmaio.  Já o garoto faz o possível para que a mãe não descubra.  Ridículo, eu sei, mas ao contrário da gordofobia reforçada no filme, não há um discurso homofóbico perpassando a película.  Tanto Juliano, quanto Marcelina, são dependentes da mãe para tudo, preguiçosos e mimados, sobreviver sem Dona Hermínia é impossível. 


O filme cumpre a Bechdel Rule?  Sem dúvida!  Descontado o fato de Dona Hermínia ser interpretada por um homem, temos um monte de personagens femininas com nomes e que conversam sobre um monte de coisas.  Hermínia quebra o pau com as vizinhas – e Mônica Martelli foi subaproveitada – e a síndica autoritária, é acolhida pela compreensiva Tia Zélia, e vive uma relação de amor e ódio com a irmã, Iesa (Alexandra Richter).  Com Soraya, a personagem de Ingrid Guimarães é só ódio... Agora, algumas das melhores cenas são de Samantha Schmütz, a empregada Valdéa, que é dividida pelas irmãs.  Quando o telefone toca e Hermínia pergunta se ela não vai atender, a funcionária responde na lata “Não, a ligação não é para mim!”.  Trata-se, claro, de outro clichê, já que a empregada impertinente é recorrente na ficção brasileira, mas diverte.

De resto, não duvidaria de um segundo filme, com Hermínia paparicando o neto ou neta que vai nascer e comprando “papinha unissex” para o bebê, ou a personagem de Herson Capri tentando reconquistar a ex-mulher.  O fato é que a insatisfação que eu senti ao ver o cheio de estrelas Um Golpe Perfeito foi esquecida com o simples e divertido Minha Mãe é uma Peça.  O filme poderia até ser um tiquinho mais longo, afinal, as quase uma hora e meia voaram sem que eu nem percebesse.

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2 pessoas comentaram:

Não pretendia assistir a esse filme no cinema: pensei que seria mais um "programa da Globo cobrando ingresso". Mas sua resenha me encorajou a dar uma chance.

Adoro Paulo Gustavo. Estou ansiosa pra assistir ao filme, mas tenho que admitir que estava com medo de ser um novo "Os Penetras". Fico feliz de saber que o filme é engraçado e não decepciona. Agora é esperar o cinema da minha cidade resolver colocá-lo em cartaz.

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