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sábado, 6 de setembro de 2025

Gundam Wing completa 30 anos e eu me lembro de como alguns fãs da franquia deram chilique por causa dele no Brasil

O Sora News trouxe uma matéria sobre os trinta anos de Gundam Wing e eu lembrei de como alguns fãs homens da franquia ficavam dando chilique em fóruns e nas listas de discussão (*sim, crianças, com e-mail.*).   Mobile Suit Gundam Wing, ou Shin Kidou Senki Gundam Wing (新機動戦記ガンダムウイング) foi lançado no Japão e exibido no Brasil em 2002 pelo canal pago Cartoon Network e o lançamento do mangá no país ocorreu em agosto do mesmo ano (*nem lembrava disso, mas não era fã da série*). 

Não sou especialista na franquia Gundam, nem quero ser, mas qualquer fã minimamente educado de animação japonesa sabe que se trata de uma instituição no Japão desde sua primeira série, que estreou em 1979.  Agora, parece que Gundam Wing foi a primeira das séries da franquia que estava de olho nas fãs que não eram necessariamente apaixonadas por mechas ou por ficção científica, mas por garotos bonitos que poderiam render fanarts, fanfics e doujinshis (*aliás, há muitos, dêem uma olhada no que aparece no Bakaupdates*), inclusive com conteúdo BL.  E foi isso que levou muitos sujeitos no Brasil, porque nunca li nada sobre isso para o Japão, a ficarem berrando que era um yaoi disfarçado ou um shoujo disfarçado.  E como reclamavam da personagem feminina da série, a Relena Darlian

Eram tempos difíceis, eu diria, porque ser fã de shoujo ou de BL era algo muito mais estigmatizado do que hoje.  E os sujeitos não tinham nenhum limite quando se tratava de expressar sua misoginia e homofobia.  Por essas e outras, na mesma época, eu criei a lista Tomodachi no Shoujo (*que deveria se chamar Shoujo no Tomodachi*) e, mais tarde, este blog aqui.  E continuamos na luta e repetindo quase que as mesmas coisas, quase, porque eu aprendi muito e continuo aprendendo e a gente não usa mais yaoi, usa BL. 😛

Enfim, o SN mostrou que para os 30 anos de Gundam Wing está acontecendo uma colaboração entre a rede Animate e o Café Gratte.  Tivemos, porque a campanha foi no mês passado, lanchinhos temáticos e produtos.  A repórter do SN era fã da série e bateu fotos com as personagens e tudo mais.  Acho que ela se divertiu bastante fazendo a matéria.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Extrema-direita norte americana exige que mascotes da M&M"s sejam sexualizadas e marca decide aposentar todos os bonequinhos

"Conservadores americanos criticam mascotes 'lésbica' e 'obesa' de M&M's, e marca aposenta personagens", este é o título de uma matéria que foi comentada pelo Ian Neves do História Pública (*vídeo dele no final do texto*) e é um negócio tão absurdo, que eu precisava fazer um texto sobre a questão.  Você deve conhecer o M&M's, aquele confete de grife que também tem versão amendoim.  Eu prestei atenção, quando entrava nas Lojas Americanas, que houve umas edições especiais com o pacote de outra cor, acho que um era rosa, enfim.  Quando compro M&M's é por causa da Júlia, minha filha de nove anos.

A marca tinha mascotes, que eu sempre pensei como sendo todos sem personalidade definida, mas com cores diferentes e com formato ou de confete, ou e amendoim.  Estava enganada.  Eles eram divididos em meninos e meninas (*Júlia sabia isso antes de mim, porque ela estava atenta às marcas de gênero colocadas em objetos e animais antropomorfizados*), as personagens femininas, como de praxe, eram em menor número e tinham algo de sedutor.  E não sou eu que estou dizendo, os próprios reclamantes (pseudo) conservadores colocaram a boca no trombone quanto a isso.  Pelo jeito, havia gente fantasiando alguma relação íntima como as meninas confete do M&M's.

Em 2021, a marca decidiu fazer um rebranding e modificar esteticamente as personagens femininas, além de criar mais uma, a lilás em formato amendoim. Segundo o Business Insider, a marca estava criando seu primeiro novo mascote em mais de uma década. Encontrei, inclusive, uma propaganda (*logo abaixo*) que apresentou a personagem lilás, ela mostra gente de várias etnias, gordos e magros, além de sugerir alguma diversidade sexual.  Tanto que eu pensei que estavam acusando a roxinha de ser obesa e lésbica, mas a coisa vai um pouco além.  

A confete marrom de longas pernas torneadas e sapato altíssimo teve seu salto ligeiramente reduzido e mudou o modelo dos seus óculos (*o que não incomodou ninguém, aparentemente*).  Já a confete verde teve suas botinhas de salto alto trocadas por tênis.   A ideia seria tirar o foco das marcas de gênero (*que indicam o que uma sociedade lê como feminino, ou masculino*), em especial, aquelas que teriam um papel sexualizador, porque, sim, saltos altos podem ser lidos desta maneira, basta pegar seu papel central na pornografia.  O que é curioso, porque houve um  momento na História Ocidental em que salto alto, durante boa parte da história ocidental, era coisa de homem, ou, pelo menos, deveria ser.  

O fato é que pesquisas de 2020, apontam que cada vez mais mulheres estão trocando o salto alto por sapatos mais confortáveis, então, o rebranding estaria acompanhando tendências de mercado e dialogando com um público mais amplo.  Sendo uma empresa capitalista, isto é, que visa lucro, ela estaria fazendo o correto, não é mesmo?  Não para os (pseudo) conservadores que tem fantasias sexuais com as mascotes da empresa.

Muito que bem,  o jornalista e apresentador Tucker Carlson da Fox News, e que entrevistou Bolsonaro, foi um dos porta-vozes da campanha contra o rebranding dos mascotes do M&M's.  Segundo ele, "(...) o personagem verde “agora é lésbico, talvez” e que “também há um M&M roxo obeso de tamanho grande”.".  Detalhe é que a personagem roxa tem formato de amendoim, como os masculinos já tinham e, bem, o confete é redondo, mas não é lido como obeso, desde que com saltos altos. Tuckson também reclamou que a empresa estava transformando os mascotes em seres andróginos (!!!), porque, ao que parece, mascotes de chocolate, ou amendoim, precisam ter marcas de gênero que sinalizem a sua orientação sexual.

Já o comunicador Nick Adams, um queridinho de Donald Trump, acusou a empresa de sexismo (!!!) e afirmou que “a masculinidade está sob ataque como em nenhum outro momento na história mundial”.  Veja bem, ambos os sujeitos estão meio que assumindo que sentem desejo sexual pelas mascotes dos M&M's e se sentiram revoltados, porque a empresa decidiu que as personagens não deveriam se prestar a isso.  Esse é o mesmo pessoal que quer barrar qualquer discussão sobre gênero, sexualidade e temas ligados à diversidade na mídia e nos currículos escolares, acusa as feministas e LGBTQUIA+ e estarem pervertendo as crianças e quer banis shows de Drag Queens.  

O fato é que a coisa parece ter escalado em uma grande controvérsia nos EUA e um artigo no site State News insinuou que a própria empresa calculou a coisa para ganhar relevância sabendo que os (pseudo)conservadores morderiam a isca.  O fato é que a empresa soltou um comunicado, que está traduzindo na matéria do G1, e pare dele diz o seguinte: "Não tínhamos certeza se alguém notaria. E definitivamente não achamos que isso quebraria a internet. Mas agora entendemos: até mesmo sapatos de um doce podem ser polarizados. Era a última coisa que a M&M's queria, já que nosso objetivo é unir as pessoas".

Então, houve realmente um cálculo, mas o fato é que a M&M's anunciou que irá "dar uma pausa" nos mascotes e colocar a atriz e humorista Maya Rudolph como símbolo da empresa.  Como ler isso?  Vitória dos reacionários, ou admissão de que a empresa realmente tinha uma estratégia para se colocar em evidência.  De qualquer forma, ao anunciar a aposentadoria, mesmo que temporária, de seus mascotes, muita gente reclamou e achei várias propagandas em inglês com os bonequinhos que são realmente divertidas.

Como estudiosa de gênero e feminismo, esta confusão toda com a M&M's me parece muito ilustrativa de como certos setores da sociedade leem o papel das mulheres e naturalizam a projeção de seus desejos sobre personagens da cultura pop, porque é isso que os bonequinhos de M&M's são.  Esse pessoal lê qualquer mudança que possa mexer com a forma como organizam os papéis femininos e masculinos, seu lugar na sociedade, como uma ameaça.  Ou seja, se não é para o prazer do homem-cis-hetero-que-se-acha-branco é um atentado à civilização cristã ocidental.

Se isso foi planejado pela empresa para chamar atenção para a marca, trolar também, afinal, era uma forma de mostrar o quanto a sociedade se polariza em torno de discussões absurdas, eles estão de parabéns.  Espero que tenha gerado alguma reflexão, também, e que os mascotes voltem logo e sem retornarem ao padrão anterior. Lembrando, que as marcas se aproveitam de pautas sociais para lucrar, elas não criam essas pautas. Agora, se a empresa realmente cedeu ao escândalo desse povo, é algo lamentável.  Vou dar o benefício da dúvida.  Abaixo, o vídeo do Ian Neves.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Este vídeo do The Voice Senior Italia é fantástico!

O Rafael Macedo perguntou se eu já tinha visto este vídeo do The Voice Senior Itália no qual uma brasileira de nascimento, Clara Serina, canta Garota de Ipanema e é esnobada pelos jurados/mentores.  Um deles chega a dizer "Ela não tem voz.".  Quando as cadeiras se viram, um deles diz que falta muita coisa para a senhora de 72 anos possa cantar.  Daí, a apresentadora conta um segredinho para eles e pede que a orquestra toque o primeiro tema italiano do anime da Rosa de Versalhes (*e que eu odeio, prefiro o segundo, que também não é essas coisas*) e todos eles se espantam e começam a vibrar e cantar, porque Clara Serina é uma das componentes do conjunto  I Cavalieri del Re responsável por várias aberturas de animações produzidas na Itália.  Dispensaram uma lenda das aberturas de anime do país.  😄 Se ela tivesse começado cantando a abertura de Lady Oscar teria passado.  O vídeo está abaixo:

Agora, está escrito que a Clara Serina era a voz de Lady Oscar, que eu saiba, e é o que está na Wikipedia em italiano, a dubladora original era a  Cinzia De Carolis, aliás, eu só fui confirmar, porque eu já sabia.  Mais tarde, em 1990, houve uma nova abertura para a animação chamada Una spada per Lady Oscar cantada primeiro por Enzo Draghi e, mais tarde, por Cristina D'Avena.  De qualquer forma, a primeira versão, a dos anos 1980, é a mais amada pelos italianos e lembrada ate hoje.  

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Conversa de sala dos professores vaza e causa comoção no Japão

 

Sou professora e sei que conversa de sala dos professores tem que morrer lá.  As conversas de Conselho de Classe, também, especialmente, os de fim de ano.  Onde trabalho, esses conselhos passaram a ser filmados para que os colegas mais exaltados tivesse mais comedimento em suas falas. Eu não considero isso errado, não.  Muito bem, o Sora News trouxe um causo que aponta que no Japão as coisas não devem ser lá muito diferentes.  Vamos lá!

Faz alguns anos que as escolas no Japão adotaram o programa Giga School, no qual os livros didáticos são substituídos por um único tablet para cada aluno.  Esse tablet pode gravar e salvar material que pode ser enviado aos professores.  Enfim, no dia 31 de outubro, cidade de Iwakuni, província de Yamaguchi, um professor notou que vários alunos haviam deixado seus tablets em suas mesas. O professor os recolheu e os colocou em uma mesa na sala dos professores para guardar.  Só que, sem o conhecimento do professor, um dos tablets também teve sua função de gravação ativada.  E os professores estavam conversando e não é incomum que o assuntos dos professores sejam seus alunos e alunas... 

No dia seguinte, o professor devolveu os tablets aos alunos, sem saber da gravação. Não está claro se a gravação foi intencional ou acidental, segundo o SN, mas o aluno começou a enviá-la para os colegas.  Depois que a notícia se espalhou, um dos alunos mencionados no áudio deixou de frequentar a escola desde o início do mês e um professor, cuja voz estava na gravação, tirou uma licença. Os funcionários da escola foram às casas de todos os alunos que tinham uma cópia da gravação ou cujos nomes foram mencionados nela e pediram desculpas.

O chefe do Conselho de Educação também se pronunciou em uma coletiva dizendo: “Lamentamos muito causar ansiedade às crianças, professores e comunidade (...) daremos treinamento completo sobre o uso adequado dos tablets e ajudaremos os professores a cuidar mais de seu comportamento”.  Olha, como pontuei no meu primeiro parágrafo, é normal que os professores sejam indiscretos, debochados e cruéis.  Imagina não podermos conversar nem na sala dos professores?  Enfim, os alunos e alunas também falam de nós, a questão é que esse tipo de conversa se tornou pública e, claro, foi intencional divulgar o material.  Eu espero que tanto o aluno, quanto o professor consigam voltar às suas atividades.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Um pouco de Humor: Novela Gênesis da Record censura a Bíblia por excesso de violência

A Bíblia é um livro violento e não estou acusando, é a constatação de quem cresceu dentro do Cristianismo e tem pelo menos uns 15 exemplares do livro em casa, versões de estudo e normais, na linguagem de hoje, em inglês, a versão hebraica de Sêfer etc.  E eu li a Bíblia e no livro de Gênesis estão algumas de minhas histórias favoritas do livro todo, em especial, o drama de José do Egito.  Sei que faz um bom tempo que virei manteiga derretida, mas eu choro, ou quase sempre choro quando José se revela aos irmãos e os perdoa.

Eu não estou assistindo Gênesis, até queria, mas não tive como encaixar a novela e acho que, no geral, as novela s bíblicas da Record começaram a deixar de serem interessantes, divertidas e criativas depois que a filha do Bispo Macedo passou a censurá-las.  Eu tenho vários textos sobre as novelas da Record, aqui, no blog, e acredito que alguns atores, como Petrônio Gontijo, só foram mostrar seu talento de verdade quando foram para a emissora.  Enfim, mas desde A Terra Prometida, a censura passou a ser um problema, mas, normalmente, ela ocorria em material que não era bíblico, mas algo criado para a novela, ou material extra bíblico, não canônico, que é agregado ao roteiro.  Pois bem, ao que parece, agora, a censura está sendo feita em material oriundo do próprio livro sagrado dos cristãos.

Segundo o texto da UOL chamado "Record corta cenas de Gênesis após reclamações do público; entenda", o público reclamou de passagens muito violentas e duas sequências são citadas especificamente como tendo sido censuradas.  Uma é a do (quase) sacrifício de Isaque (capítulo 22:1-19), a outra, a do incesto das filhas de Ló (capítulo 19:30-38).  Para quem não conhece a Bíblia, vou comentar as duas passagens e peço que lembrem que estou colocando nelas as minhas considerações como historiadora, mas, também, a partir da minha formação protestante.

A destruição de Sodoma é uma passagem famosa e ocupa a primeira parte do capítulo 19.  Dois anjos foram enviados à cidade, conhecida por seus pecados, para instar Ló, sobrinho de Abraão, um homem justo e rico, a abandonar a cidade, que seria destruída.  Naquela mesma noite, os homens de Sodoma, embriagados, batem na porta de Ló, exigindo que ele lhes entregue seus hóspedes (*esta palavra é muito importante*), porque queriam "conhecê-los".  "Conhecer" em jargão bíblico é fazer sexo com, neste caso, seria violentar os dois anjos.  Ló tenta chamar os homens de Sodoma à razão e diz que não pode entregar seus hóspedes, mas que tem em sua casa duas filhas virgens e que as entregaria aos homens para que fizessem delas o que quisessem.

Ló não tinha filhos homens, não sei se os entregaria aos sodomitas caso os tivesse, PORÉM em todo o Mediterrâneo, basta ver as histórias de Zeus disfarçado de peregrino pobre pedindo hospitalidade para testar os seres humanos, o hóspede é sagrado.  Se Ló entregasse seus hóspedes ele estaria cometendo um pecado sem tamanho.  Se entregasse suas filhas, ele poderia se sentir miserável, as moças poderiam passar por mil humilhações, mas sua falta diante da sociedade e de leis não escritas seria pior.  Por isso, eu não leio o maior pecado dos sodomitas como o de querer violentar (*e estupro não é sexo, é um ato de violência*) os anjos em forma de homens, mas de, em maior escala, agirem, também, contra a hospitalidade.  E vem a destruição de Sodoma e Ló e sua família são poupados, recebem a ordem de partir sem olhar para trás, mas a esposa do patriarca desobedece e vira uma estátua de sal.  

Ló amargurado vai morar no deserto com suas filhas.  A passagem do incesto, que mostra a origem dos moabitas e amonitas, dois povos inimigos dos israelitas.  Este texto é tratado pela Bíblia de Jerusalém, a melhor de todas as Bíblias de estudo disponíveis no Brasil, como uma narrativa popular acrescentada ao texto do livro de Gênesis, que é uma colcha de retalhos.  As filhas de Ló, isoladas com o pai, temendo o fim da linhagem paterna, o que em uma sociedade patriarcal é algo muito triste, decidem enganar seu pai, um homem  justo, o embebedam e engravidam dele.  Trata-se, dentro da lógica do livro, de um ato de piedade filial.  Não é um ato de luxúria, não era considerado um estupro dentro da lógica do livro, como seria o incidente dos anjos e, ao mesmo tempo, deu aos inimigos de Israel uma origem ilustre, pois descendem de Ló.  Já nas Bíblias protestantes, a notinha de rodapé normalmente ressalta que o ato foi um pecado e que a passagem era para destacar o caráter desprezível dos inimigos de Israel na sua origem.  Eu imagino as filhas de Ló como boas moças, a Record carregou nas tintas, vide a foto abaixo, para que elas parecessem o contrário.


Estamos agora nos dias de hoje, incesto é considerado um pecado, além de algo socialmente condenável, ainda mais nesse grau, ainda que crime não seja, e a novela teve que se curvar às sensibilidades modernas.  E isso já tinha ocorrido muitos anos atrás com a série Rei Davi (*e vão fazer novela, vai se recontado*), quando o pecado do rei modelo foi embelezado para que deixasse de ser a sacanagem (*duplamente falando, aliás*) que foi. E a mudança privou a audiência de ver as qualidades da personagem, que errava, sim, mas se arrependia e buscava se consertar. Fui ler o texto que está em um dos links da matéria e o ator Emilio Orciollo Netto, que interpreta Ló, diz que foi surpreendido pela passagem, que não sabia do incesto e que se sentiu desconfortável.  Enfim, a Record vai resolver isso, nada de incesto, ou, talvez, ele exista mas seja colocado para parecer outra coisa, enfim... 

Já a passagem de Abraão rende muita interpretação teológica entre os protestantes e evangélicos.  Durante muito tempo, Abraão sofreu por não ter um filho com sua esposa Sara.  O menino da promessa, Isaque, nasce, quando ele já está crescido, adolescente, ou jovem adulto, cronologia de idade nessa parte da Bíblia é problemática, Deus dá uma ordem para Abraão.  O patriarca deve sacrificar o seu filho único ao Senhor.  Abraão sofre, claro, mas obedece.  É sobre isso o texto, obediência à Deus, a capacidade de entregar-lhe tudo.  Os sentimentos do menino não estão na balança, mas teriam que aparecer em uma novela.  Ele é um prolongamento do pai.  O Senhor o deu e, agora, o pediu.  Grande drama, sem dúvida.  O garoto se deixaria matar pelo pai, Abraão está dilacerado, mas cumpriria seu dever e, no último momento, revela-se a pegadinha.  Sim, alguns olham para esse texto como uma grande trollagem divina.

Deus manda um cordeiro para ser sacrificado no lugar de Isaque, a divindade de Israel não quer sacrifícios humanos, o texto de Gênesis, que só foi fixado muito depois dos supostos acontecimentos relatados, traça uma linha de separação entre os israelitas e os povos cananeus.  Para os cristãos, era uma imagem do Cristo que seria sacrificado pelos pecados da humanidade.  Em todos os meus anos de igreja, assisti várias pregações e lições de revista de Escola Bíblica Dominical sobre o sacrifício de Abraão, porque é dele o sacrifício, não de Isaque, o filho.  É o pai que eliminaria sua linhagem, mataria o futuro de sua família, para mostrar sua obediência.  Agora, sobre as filhas de Ló, não, não me recordo, mas sobre Sodoma, descartando a questão da hospitalidade, que demanda conhecimento histórico concreto, e enfatizando que os sodomitas seriam homossexuais, quando, se muito, eram estupradores.

Enfim, se confio no texto do UOL, talvez essas duas passagens e sabe-se quantas outras, serão amenizadas, retiradas para não ferir as sensibilidades.  Novelas e filmes são adaptações, precisam fundir coisas, modificar passagens, mas o consumidor da novela bíblica da Record, aquele crente médio que vive de fofoca bíblica, pode achar que a produção é uma reprodução fiel do texto.  E nunca é.  Outra coisa que sempre me chama a atenção e que é importante nas minhas análises de produto da cultura pop, e uma novela é isso, é que tipo de alteração, negociação, exclusão é feita e por qual motivo.  Em Terra Prometida, a mocinha guerreira criada para a trama, não era personagem bíblica, teve que ser transformada em uma dócil, submissa e desastrada criatura adorável.  A mudança foi tão grande que até meu marido, que só via flashes da novela ficou surpreso.  

Concluindo, mesmo se não tivessem inventado nada, o livro de Gênesis já é muito violento por ele mesmo.  E os cortes vieram exatamente no material canônico, por assim dizer, ou seja, a Bíblia como ela é parece demasiado bíblica para o  público da novela. Curioso, mas não surpreendente, se a gente percebe o quanto aas pessoas costumam ler o texto bíblico de forma seletiva e projetado nele somente os sentidos que lhes importam e interessam.  E gente, o que é essa foto de Isaque sorrindo sobre o altar de sacrifício é bizarra, salvo se o menino tivesse sido drogado para aceitar a situação.  Realmente, sem noção.  Mas, sei lá, de repente, esta é a leitura que a Universal faz do texto bíblico e, sim, as novelas da Record são veículos de promoção de uma leitura específica da do texto bíblico, a da igreja do Bispo Macedo.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Hagio Moto é indicada pela SEGUNDA VEZ ao Hall da Fama do Eisner Award

Pela SEGUNDA VEZ, sim, pela SEGUNDA VEZ e em anos consecutivos.  Isso quer dizer que da vez anterior os votantes rejeitaram a honra para Hagio Moto.  Sim, ela pode viver sem isso, o que me parece incompreensível é que uma artista tão genial quanto Moto seja rejeitada em algum quadro de honra.

Segundo o ANN, serão 16 votantes e quatro nomes serão incluídos no Hall da Fama este ano.  Além de Hagio Moto, foram indicados Ruth Atkinson, Dave Cockrum, Kevin Eastman, Neil Gaiman, Max Gaines, Justin Green, Don Heck, Klaus Janson, Jeffrey Catherine Jones, Hank Ketcham, Scott McCloud, Grant Morrison, Alex Niño, P. Craig Russell, e Gaspar Saladino.  Ai, ai... corre o risco dela ficar de fora de novo... Eu só estou postando pelo inacreditável da coisa.  O ANN diz, também, que sem necessidade de votação serão incluídos este ano são Alberto Breccia, Stan Goldberg, Thomas Nast, Rodolphe Töpffer, Françoise Mouly, e Lily Renée Phillips.

Outros japoneses no Hall da Fama são Osamu Tezuka (2002), Kazuo Koike (2004), Goseki Kojima (2004), Katsuhiro Otomo (2012), e Rumiko Takahashi (2018).  Segundo a matéria, outros japoneses indicados e que não receberam a honra foram Hagio Moto e  Keiji Nakazawa no ano passado e Akira Toriyama e Naoki Urasawa, em 2018.  Sim, sim, sim, a coisa só fica pior... Mas é um Hall da Fama feito por americanos para americanos, tipo o Oscar e que, às vezes, inclui um estrangeiro e alguma mulher, de casa ou não.  Vamos combinar que isso é ridículo.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Como namorar durante uma pandemia é como estar em um romance de Jane Austen (artigo traduzido)

Um texto levinho para tirar um pouco do peso dos últimos dois posts. Vamos traduzir esse artigo curtinho do New Yorker.  Ainda que a autora esteja sendo muito ingênua tanto em relação aos nossos dias, quanto aos de Jane Austen.  É aquela coisa, esse povo acredita que todo mundo se comportava de forma apropriada e seguindo as regras no final do século XVIII e início do século XIX.  Nem todos os homens eram como os mocinhos de Jane Austen, mas, com certeza, vários deveriam ser como seus boy lixo  (Wickham, Willoughby, Henry Crawford, John Thorpe, Mr. Elliot etc.).

Como namorar durante uma pandemia é como estar em um romance de Jane Austen

Por Amy Collier

  • A cidade inteira se envolve em seus comportamentos.
  • Vocês regularmente perguntam sobre a saúde dos membros da família um do  outros.
  • Os rígidos modos e os costumes da época, construídos em torno de um dever moral para com a sociedade, ditam suas interações e levam a contratempos divertidos.
  • O relacionamento envolve um planejamento inteligente.
  • Inclui muitas caminhadas rápidas.
  • A fofoca ajuda a educar os ouvintes ao determinar o que é e o que não é aceitável e quem violou as convenções sociais e o decoro.
  • Os encontros românticos dependem muito do clima.
  • Haverá chá em algum momento. [*ou café, ou outra bebida qualquer em nossos dias*]
  • Você informa a seus amigos - que levam uma vida tranquila, cheia de comida e noites em casa - sobre os recentes desenvolvimentos românticos por meio de correspondências escritas de forma bem detalhada. [*em tempos de Whatsapp?!*]
  • Muito do relacionamento romântico também é epistolar.
  • O contato visual e os gestos sutis desempenham um papel importante.
  • Você e seu futuro marido em perspectiva mal se tocam.

O autor da ilustração se chama Niroot Puttapipat e o seu Instagram está cheio de belas artes, algumas são ilustrações de livros de Jane Austen.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Um pouco de humor, ou não...


Aviso que se for Orpheus no Mado (オルフェウスの窓), além do sofrimento e da Revolução (Russa), antes ainda tivemos a 1ª Guerra Mundial.  E só gente chata fica viva, as boas personagens morrem todas (*umas chatas, também*), ou ficam tão massacradas que, bem, era melhor terem morrido.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Para candidato da Flórida ao Congresso Norte Americano, Dragon Ball Z é Pornografia


Dragon Ball pode ter seus momentos um tiquinho pervertidos (ecchi), como uma personagem mostrar a calcinha ou ter os peitos apalpados (*não, não vou fazer tempestade por causa disso neste texto*), mas como a média dos shounen de grande sucesso é carente de romance e, claro, qualquer sexo de fato.   Aliás, é em Dragon Ball Z que Goku prefere ficar treinando no além com os parças para não ter que conviver com a esposa, ou eu já me perdi na história?  Eu até gostava de Dragon Ball, porque ele tinha humor e umas situações inusitadas, mas, depois disso, perdi o interesse por assistir aos episódios, ou ler o mangá.

Dragon Ball Z é mais sobre lutas sem fim.
Enfim, se você encontrou qualquer coisa nesse sentido, muito provavelmente se trata de algum doujinshi hentai, não de material oficial.  Pois bem, o The Mary Sue deu destaque para um Tweet de um candidato ao Congresso pelo estado da Flórida que é o seguinte:

Ele disse o seguinte: "Agora eles estão introduzindo uma grande quantidade de pornografia de anime na matrix da Internet.  Dragon Ball Z é um dos principais problemas aqui.  Eles estão sexualizando personagens de desenhos animados para promover uma agenda depravada em nossos filhos. Qual é o próximo? Onde isso vai acabar?"  Como alguém bem pontuou, ele está pelo menos uns 25 anos atrasado se ele acredita que Dragon Ball Z é um assunto atual.

Só podia ser... 
De qualquer forma, eu fico imaginando que tipo de mente desocupada produz esse tipo de Tweet, mas lembro, então, de Damares.  Só que justiça seja feita, pelo menos Damares está antenada com os assuntos atuais e é bem competente quando o assunto é conjurar o medo de pessoas moralistas e vulneráveis à desinformação.  Dragon Ball Z, meu senhor?  Francamente... 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Você decide: Sou complacente com estupro ou uma mente suja que vê maldade em tudo?


Dessa vez, não resisti, eu decidi não publicar esses dois simpáticos comentários, um deles, anônimo e cheio de rapapés para me acusar de ser uma pessoa que vê maldade em tudo e, o outro, de uma pessoa que já deixou outro comentário recente na mesma linha, me acusando de ser complacente com estupros em mangá, ou que eu estava sendo muito dura em avaliar mangás e animes com temas sexuais.  A pessoa que assina, não que faça grande diferença, porque o perfil nada diz, parece ser o tipo de stalker que acompanha o que eu escrevo e, vez por outra, deixa um comentário só para desqualificar.  Aliás, podem ser a mesma pessoa nos dois comentários, vai saber. 😉 


Enfim, com quinze anos de blog, fora o antes dele, já estou bem acostumada.   E vocês decidem, sou uma uma falsa feminista (*porque não pense que a ideia por trás do comentário não era esse*), ou uma Damares que quer destruir o encanto do seu mangá favorito. E, para quem quiser ler os posts, são esses aqui: Já que me pediram, vamos falar um tiquinho dos problemas de KarekanoAlguns comentários sobre Manga-ka to Yakuza.  Em tempo, eu segui a leitura do mangá e o clima de estupro não permanece ao longo da história, muito pelo contrário, mas vocês não precisam confiar em mim.

domingo, 12 de julho de 2020

Saiu primeiro trailer da animação Star Trek: Lower Decks


Star Trek: Lower Decks será a primeira animação de Jornada nas Estrelas desde o seriado de 1973-74, que era voltado para um público semelhante ao da série, isto é, jovens e adultos.  A nova série, que estreia no dia 6 de agosto, será humorística e para um público adulto.


A ação é centrada na USS Cerritos, uma nave com uma tripulação muito engajada, mas sem muita importância para a Federação.  Ao invés de ser focada na ponte de comando, Lower Decks, como o próprio nome diz tem como protagonistas personagens que estão nos decks inferiores.  Os protagonistas da série são quatro alferes (*oficiais inferiores recém formados na academia da Frota Estelar*): Beckett Mariner, Brad Boimler, Tendi e Rutherford.  A primeira temporada terá 10 episódios.  O trailer está aqui e abaixo.  Eu gostei bastante.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Coronavírus: Italiano é multado por abraçar a namorada, ou o modelo japonês vai se impôr ao mundo


Esses dias fiquei lendo alguns mangás josei eróticos (*para saber onde encontrá-los, clique aqui*) e uma coisa muito curiosa é que os casais têm uma intimidade absurda, fazem sexo de todas as maneiras possíveis, mas se um segura a mão do outro em público... Sim, demonstrações públicas de afeto não são comuns na cultura japonesa, achei um artigo legal sobre isso, é a experiência de uma norte americana que se casa com um japonês.  

Vejam bem, ninguém é multado, ou preso, por segurar a mão, por abraçar, por beijar em público, porém isso não é comum, é como se você estivesse desnudando a sua intimidade em público.  Há variações regionais, uma maior tolerância em lugares que são vistos como um point de namorados, mas, ainda assim, a regra é evitar essas demonstrações.  

Fazer sexo parece menos íntimo do
que segurar a mão de alguém em público.
Nos mangás, animes e outros, se o casal dá as mãos em público parece que estão assumindo para o mundo inteiro que tem uma relação íntima, que vão se casar, ou algo do gênero.  Há, claro, o exagero e a função humorística, mas é algo tão comum que chega a ser enervante, pelo menos para mim. 

Isso, claro, nada tem a ver com o coronavírus, mas pode facilitar as coisas em alguns lugares.  Indo agora para a Itália, o site da ANSA publicou que um moço foi multado em 400 euros na cidade de Pávia por abraçar a namorada em público.  Ambos estavam usando máscaras, foi uma coisa de momento, mas a guarda civil não perdoou o rapaz que tem 20 anos.  Segundo a notícia, se ele pagar a multa no prazo de 30 dias, o valor desce para 280 euros.

Genshiken é ótimo para essas discussões.
Enfim, acho difícil que normas tão rígidas se imponham em certos países.  No Brasil, por exemplo, mas o imperativo do isolamento social deve criar algumas etiquetas nunca vistas, ou por muito tempo esquecidas, em alguns países ocidentais.  Por conta disso, muita gente brinca que vamos ter que nos comportar como nos tempos de Jane Austen e abandonar os apertos de mão, abraços e os beijinhos tão comuns em nossas interações diárias.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Love Me Pom Poko!: Um mangá que parece ter saído da cabeça de Maeno-san


Maeno-san é uma das personagens de apoio de Gekkan Shoujo Nozaki-kun (月刊少女野崎くん).  Ele é editor senior de uma editora já trabalhou como editor de Nozaki, o protagonista, e, agora,a tormenta uma outra personagem.  Pois bem, ele é obcecado por tanuki, o guaxinim japonês.  Ele obriga os mangá-kas a fazer séries com tanuki, ou colocá-los aleatoriamente nos quadros.  Pois bem, em Love Me Pompoko! (ラブ・ミー・ぽんぽこ!), de Modomu Akagawara, parece saído da cabeça dele.

A capa com a recomendação de Maeno-san.
Enfim, a série, que é publicada na Hana to Yume, tem como protagonista uma garota que se transforma em guaxinim e que mora (*sabe-se lá por qual motivo*) na mesma casa que dois bishounen que são gêmeos.  Não sei se quem mora, porque não arrumei nenhum resumo decente, é o tanuki, como animal de estimação, ou a menina mesmo, enfim.  Tem várias páginas do mangá no Twitter, basta clicar.  É um bagulho bem ridículo, bem ao gosto de Maeno-san.

Para Maeno, é preciso ter tanukis em todo lugar.
O primeiro volume foi lançado agora, vi no Twitter e veio com Maeno-san recomendando a série no obi, aquela tirinha, o cinto, que envolve o mangá.  Enfim, engraçadíssimo isso, mas você tem que conhecer Gekkan Shoujo Nozaki-kun para entender a piada.  Na verdade, quem está recomendando é  Izumi Tsubaki, a autora de Nozaki-kun e que publica seu manga principal, Oresama Teacher (俺様ティーチャー), na Hanayume.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Algumas palavras sobre a etnicidade da Pequena Sereia


Eu deveria estar terminando a resenha do primeiro volume da Rosa de Versalhes, mas decidi dar uma paradinha e comentar a escolha de uma atriz negra (Halle Bailey) para o papel de Ariel no live action da Pequena Sereia.  Se vocês leem meus posts sobre essas adaptações da Disney, vocês devem saber que por mim não precisavam fazer nenhum deles.  Gosto dos desenhos e eles me bastam.  Acredito que é uma grande falta de imaginação ficar refazendo o que já foi feito quando há tantas histórias por contar, mas tudo pelo dinheiro.  Eu mesma venho pagando para assistir todos esses novos filmes no cinema e devo assistir ao Rei Leão nos próximos dias.  Dito isso, fiquem cientes que não sou entusiasta desses novos filmes, mas adoraria ver os musicais da Broadway derivados das animações.

Estabelecido isso, vamos ao ponto.  Você pode não ter gostado da escalação de uma atriz negra para ser Ariel?  Sim, isso é absolutamente legítimo, o problema é como você externa essa questão.  Por exemplo, vamos buscar uma forma elegante e neutra de colocar a coisa "Eu entendo a importância da REPRESENTATIVIDADE, mas eu gostaria que a Ariel fosse parecida com a do desenho original.".  Pronto, você não passa por racista.  Agora, vejam que curioso, no musical da Broadway, uma atriz de origem asiática interpretou a Ariel e foi lindo, apesar dos racistas fazerem escândalo.  Sim, este é o aspecto mais importante, mesmo que você não tenha parado para refletir.  Por isso, de forma alguma venha tentar justificar as coisas nessas bases "E se a Mulan fosse loira, você iria gostar?".  


Diana Huey foi a primeira Ariel asiática na Broadway.
Mulan é um ser humano e uma personagem historicamente localizada.  Ainda que possa ter sido uma criação ficcional, pois está com os dois pés bem firmes no mito da donzela guerreira, sabemos que ela é chinesa, que se travestiu de homem e passou vários anos lutando contra os hunos, descoberta, foi condecorada pelo imperador, mas preferiu voltar para a casa de seus pais.  Por qual motivo, salvo se fosse em uma versão totalmente livre de Mulan, com um elenco multirracial e sem compromisso histórico, seria necessário colocar uma protagonista caucasiana? Fora, claro, que sereias são criaturas míticas e, não, seres humanos.

Também não fica bem vir com explicações mitológicas "As sereias eram filhas de Tritão, um deus grego, logo, elas não poderiam ser negras.".  Um... Quem era Tritão na mitologia grega?  Ele era filho dos deuses que representavam o mar,  Poseidon e Amphitrite, com o passar do tempo, sua imagem evoluiu para aquela que conhecemos (*e que está na animação da Disney*), metade homem, metade peixe e os seus filhos e filhas passaram a ser representados dessa forma, também.  Agora, vejam uma descrição dos tritões feita por Pausânias, no século II a.C:
"Os Tritões têm a seguinte aparência. Nas cabeças deles, crescem pelos como os dos sapos do pântano, não só na cor, mas também na impossibilidade de separar um cabelo do outro. O resto do corpo é áspero com escamas finas, assim como o sob os ouvidos eles têm guelras e nariz de homem, mas a boca é mais larga e os dentes são animalescos, seus olhos me parecem azuis, e eles têm mãos, dedos e unhas como as conchas do murex. Sob o peito e a barriga há uma cauda como a de um golfinho em vez de um pé. "
Igualzinho o do desenho da Disney, não é?  Mas eram os tritões, de ambos os sexos, sereias?  Não.  As sereias gregas eram uma mistura de mulher com aves de rapina.  A iconografia não deixa dúvidas.  O problema é que em língua portuguesa, acredito que no italiano é da mesma forma, temos uma palavra só para coisas que são distintas em outras línguas.  A Pequena Sereia é uma "mermaid" (donzela do mar), não uma "siren", aí se remetendo a uma outra categoria de ser da mitologia grega. Voltando, várias culturas tem "mermaids" e/ou "mermen", criaturas marinhas que podem, ou não, ser metade humanos, metade peixes.  


Sapos do Pântano (Pelophylax ridibundus) têm pelos?  Mas, de
qualquer forma, para seguir a "mitologia grega", essa
deveria ser a cor dos cabelos de Ariel.  Topam?
De resto, quem publicou a primeira versão de A Pequena Sereia foi Hans Christian Andersen, em 1837 .  Neste caso, ao que parece, não havia conto similar anterior, salvo pela existência dos tais seres marinhos em várias culturas diferentes.  Estabelecido isso, é feio tentar justificar a resistência a uma Ariel negra, asiática, marciana, whatever usando a mitologia grega como argumento.  Vamos lá, é mais elegante, e pode encobrir muitas  motivações que deveriam ser inconfessáveis, simplesmente dizer que preferia que fosse como no desenho.  

De resto, um colega de Facebook veio com aquele papo "o mundo está chato", hoje não deixariam Elizabeth Taylor ser Cleópatra.  Provavelmente, não deixariam mesmo, mas olha, eu que gosto desse tipo de filme considero esse Cleópatra insuportável.  É megalomaníaco e chato.  Agora, argumentar que a última faraó do Egito precisa ser negra, porque todos os egípcios eram negros (😆) é de uma ignorância histórica absurda.  
Cleópatra de Asterix com seu belo nariz.
Cleópatra era descendente de Ptolomeu, um general grego e a família praticava endogamia loucamente (*seguindo o  modelo egípcio, aliás*).  Ela poderia não ser branca para os padrões dos extremistas brancos, mas só seria considerada negra dentro da regra que divide a humanidade em dois grupos.  Cleópatra poderia ter minha cor de pele, por exemplo, ser mais clara, mais escura, enfim.  Agora, o que a iconografia aponta, e que Asterix retratou muito bem, é que ela tinha um nariz de respeito.  E isso, senhoras e senhores, a Lizzie Taylor não tinha! 

Terminando, ninguém precisa gostar de uma Ariel negra.  Você pode querer sua Ariel branca e ruiva (*com cabelo pintado, porque natural daquele jeito do desenho ninguém tem*), mas, por favor, não dê bandeira, não passe vergonha.  Menos, menos.  E eu torço para que A Pequena Sereia seja legal, porque Mulan com tudo que se tem falado do filme, provavelmente, não vai me agradar.  De resto, para mim, a melhor versão de A Pequena Sereia foi uma que passou na TV Educativa quando eu era criança.  Era um desenho russo super trágico com uma sereia loura de grandes olhos azuis.  Ela terminava morrendo no final, tornando-se espuma do mar para salvar o príncipe ingrato que a tomara como amante, mas não a queria por esposa.  Bem diferente da Disney, com certeza.

domingo, 31 de março de 2019

No tempo em que as mulheres não podiam fazer nada, só ficar em casa: Conversando com a Júlia


Faz tempo que não escrevo no Shoujo Café sobre as minhas aventuras no mundo da maternagem.  Para quem não sabe, chegou agora, tenho uma filha de cinco anos e, infelizmente, crescendo rápido.  Para ela, claro, ela falou isso ontem, chegar aos cinco anos demorou uma eternidade.  Bom que seja desse jeito.  Ser criança saudável e com uma família que lhe proteja e dê amor é muito bom.  em outras condições, talvez não seja tanto.  Mas vamos para a minha conversa com a Júlia:

Júlia quer ser "youtuber" infantil. 😛

"Mãe, é verdade que antigamente os homens podiam fazer tudo e as mulheres não podiam fazer nada e tinham que ficar em casa?" "Quem disse isso para você?" "Foi a tia XXX." Isso foi dias atrás, mas a Júlia repetiu a conversa hoje. Ela está na fase de repetir conversas e informações, parece um reforço sem fim, mas sei que é coisa de momento.  Acho que, no geral, a professora da Júlia faz um excelente trabalho para a idade que as crianças têm e levando-se em consideração que muitos pais e mães mais atrapalham do que ajudam o processo de educação formal de seu filhos e filhas.
Um caso muito peculiar.
Daí, expliquei que não era tão assim, só que não dava para entrar em minúcias como explicar que mulheres pobres sempre precisaram trabalhar fora de casa e casos mais específicos, eu estava dirigindo,  e ela ainda é muito jovem para que eu discuta o conceito de "História do possível" com ela.  😄 Só tentei reforçar para ela que as mulheres tiveram que lutar muito para que nós pudéssemos ter vários direitos e que é muito fácil perdê-los. Sim, a ideia do coletivo.  Ninguém nos DEU nada como virou moda em certos círculos conservadores e religiosos repetir por aí.  

Yentl é um dos meus filmes favoritos.
Enfim, estávamos ouvindo o CD de Yentl em português.  Júlia tinha pedido que eu colocasse alguma coisa que ela pudesse entender, daí, tirei da versão original e fui para o CD que está no rádio do carro.  As músicas cantadas por Barbra Streisand são muito melhores, mas prestigiei a artista (Tania Apelbaum Novak) e Júlia pode compreender o que era cantado e perguntar sobre a música. Era a música "This Is One Of Those Moments" (Este é um daqueles momentos), quando Yentl é admitida na Yeshiva e canta que agora poderá ler todos os livros que sempre sonhou e nunca lhe deixariam ler. Já falei de Yentl para Júlia antes, sempre comparo com Mulan, uma queria estudar, outra ir para a guerra, ambas eram impedidas simplesmente por serem mulheres.

Ainda estou devendo uma resenha de Mulan.
Contei que a avó dela apanhou da minha avó simplesmente por querer jogar bola (*minha mãe quase foi levantadora da equipe de vôlei de escola, mas minha avó não deixou*), porque a mãe dela dizia (*diz até hoje*) que menina não brinca de bola. Minha mãe nunca impediu meu irmão e eu de brincarmos com nada, ela inclusive enfrentou meu pai em alguns momentos por preconceito dele em relação aos brinquedos que ela dava para meu irmão.  Minha mãe não reproduziu esse tipo de ideia, ela se libertou e fez melhor.  Meu irmão, hoje, é o pai mais amoroso possível; criança, ele era de uma paciência infinita penteando as bonecas que eu ganhava mesmo sem querer.  Se você acredita em horóscopo, o fato dele ser virginiano pode influir nessa obsessão por tudo sempre bem arrumado.  😉  Em tempos tão insanos como os nossos, é preciso marcar posição, o que Júlia vai fazer da vida dela adulta, será escolha da própria, por enquanto, cabe a mim orientar. "Você não ia poder brincar de bola, nem correr. Para você, só uma Baby Alive para brincar."  

Essas bonecas Baby Alive me parecem sinistras.
Júlia odeia essas bonecas Baby Alive, eu, também, aliás. Só que elas são o sonho de consumo de uma prima dela da mesma idade, essa priminha fala toda feliz que quer a boneca que faz cocô. Júlia ficava olhando com cara de nojo, isso quando não dizia que se a XXX fosse nos visitar, ela não poderia levar a tal boneca. Eu sempre brinco que vou dar uma de presente para ela. "E ela vai acordar você de noite e pedir para você limpar a fralda dela." "E eu vou atirá-la pela janela." Sim, ela planeja assassinar bonecas, se ficar só nas bonecas que ela nunca terá, está bom.  Mas, de novo, o que ela vai fazer da vida dela quando adulta, não me caberá decidir.