domingo, 30 de junho de 2013

O dia em que minha gravidez se tornou “de risco”


Eu prometi que não vou transformar o Shoujo Café em “diário de gravidez”, mas acho que preciso desabafar um pouco sobre um assunto que me incomoda e me incomodará por um bom tempo.  Enfim, eu desejo ter um parto normal, mais do que isso, um parto humanizado, se estiver em condições físicas e emocionais, tentarei um parto domiciliar.  Tenho uma doula (*isto é, uma acompanhante de parto*) que está me acompanhando, pessoa que tem me ajudado bastante, apesar dos poucos encontros, mais do que isso, ela conseguiu de certa forma tocar meu marido fazendo com que ele refletisse sobre questões que não tinha percebido e sinto-me feliz cm os resultados especialmente sobre ele.  Se eu conseguir chegar ao parto normal, deverei muito a esse duplo apoio, especialmente o dele.

Desde antes de engravidar, estou a par da vergonhosa política que vigora no Brasil em relação aos partos. A cesárea é vendida utilizando-se de todos os argumentos, dos legítimos, como diabetes gestacional ou risco de eclampsia, aos mais sórdidos: o bebê está sentado, o cordão umbilical está enrolado no pescoço, vai beber água do parto, é grande demais, a cesárea é mais segura/higiênica/moderna, etc. A última que ouvi ontem de um vendedor na Feira da Gestante Bebê e Criança foi que o obstetra disse que os bebês hoje são maiores e que não é aconselhável esperar pelo parto normal.  Os dois filhos desse senhor nasceram de cesariana agendada.  A medicalização desnecessária do parto é uma violência contra o bebê, que não tem seu tempo de maturação respeitado, e a mãe, que deixa de ser protagonista de um momento que deveria ser muito importante para ela.  Desempoderam-se as mulheres em nome de comodidade (*cesáreas são procedimentos rápidos e plenamente dominados pelos médicos brasileiros*), lucro (*equipe médica pronta para outra cesárea e gastos com UTI neonatal obrigatória*) e do show (*há hospitais que contam com intrincados serviços que transmitem o parto e outras coisas mais para parentes e interessados. Como fazer isso com partos normais?*).  Por conta disso, o Brasil é campeão mundial de cesarianas

Se o parto normal for feito em hospital, a coisa não é muito melhor.  Qualquer página sobre parto humanizado ou protagonismo materno enfatiza que em trabalho de parto nunca corra para o hospital.  Motivo?  Dificilmente você terá um parto normal.  Sabe a razão?  As rotinas hospitalares.  Ocitocina sintética para apressar as contrações, exames de toque dolorosos, bolsa rompida artificialmente, lavagem estomacal/intestinal caso tenham se alimentado, etc. Muitas mulheres estacionam e não conseguem continuar a dilatação necessária para que o bebê.  Cesárea na certa e a sensação de grande incapacidade, afinal, tinha tudo para dar certo.  Minha mãe passou por isso no meu parto e eu quase morri por falta de oxigenação.  Se algumas mulheres chegam ao parto vaginal – não mais natural, muito menos humanizado – normalmente terão que ser submetidas a inútil episiotomia, que é um rasgo no canal vaginal para (*supostamente*) dar passagem ao bebê e (*pasmem*) não enlarguecer o canal vaginal tornando a mulher pouco desejável... Sim, aqui no Brasil, que chegou à marca absurda de 80% de partos vaginais com episiotomia, a incisão é chamada de “corte do marido”.  


Mas como minha gravidez passou a ser de risco?  Vamos para a história... Eu era acompanhada – atenção ao tempo verbal – por uma ginecologista/obstetra (GO) de um hospital militar aqui de Brasília.  Marcar consulta com ela é dificílimo e eu fui para a última consulta cheia de perguntas, a maioria sugerida pela doula, outras importantes para mim, como se eu posso viajar de avião para o casamento do meu irmão em agosto.  Chegando lá, depois de um atraso de mais de 1 hora, a médica me comunicou, com muito pesar, que não poderia continuar atendendo gestantes e que eu seria passada – assim mesmo – para outro profissional.  OK, se eu estivesse sem meu marido na consulta, acho que começaria a chorar ali.  Segundo ela, e já tínhamos percebido, há muita procura para seu atendimento e fazem encaixes indevidos de consultas tornando sua carga de trabalho excessiva.  Quando a médica questionou o procedimento, foi avisada que deveria atender em 20 minutos.  Ela, como boa profissional que é, se recusou e usou da hierarquia militar para passar o pré-natal para outros médicos menos graduados e que ainda fazem residência em obstetrícia.  Disse, também, para minha estupefação e do meu marido, que havia a aspirante fulana, que não era nem ginecologista, nem obstetra ainda, mas era muito “interessada”.  Vocês se arriscariam?  Pois é... Saí de lá sem perguntar se podia ir para o casamento do meu irmão... 

Este hospital onde me consulto só faz cesarianas agendadas, mas há outro hospital maior, que fica aqui ao lado de minha casa, que (*teoricamente*) faz partos normais. OK.  Posso ser atendida lá?  Nunca consegui marcar consulta pra GO, apesar de ter tentado.  Ela disse que sim, desde que eu fosse uma gestante de risco.  Mas eu não sou, certo?  Pressão normal, glicemia normal, ganho de peso normal... Sim, eu sou, pois tenho mais de 35 anos.  Segundo ela, já bastaria para me enquadrar assim.  A partir daí, e especialmente depois de eu ter falado a palavra “doula” e usado a expressão “casa de parto” (*há uma aqui em Brasília, pública*), a médica começou a desencavar toda uma série de circunstâncias que poderiam comprometer meu trabalho de parto.  Tenho dois miomas externos, todos os médicos que me atenderam durante as ultrassons e consultas enfatizaram que eles não interfeririam na gravidez.  A médica pontuou que eles poderiam desregular meu trabalho de parto.  Depois, ela foi checar minha glicemia.  Seu primeiro exame deu 92 (*o último deu 83*) e isso para gestante já é pré-diabetes.  Como assim?  A senhora não tinha dito isso antes? Não, mas vamos checar.  Elávou eu fazer um outro exame... Vocês acham que se eu chegar com esse encaminhamento no hospital militar aqui perto eu poderei tentar o parto normal?  Imagina!  Cesárea agendada com 38 semanas, minha bebê na UTI neonatal e eu com um corte na barriga

Enfim, tive que ouvir (*algo que eu já sabia*) que o Conselho Federal de Medicina é contra as casas de parto e não permite a presença de médicos nelas.  Tive que ouvir que foi linda a experiência de Gisele Bündchen, mas que ela tinha todo o aparato médico à espera caso alguma coisa desse errado.   E por aí vai.  Acredito que a médica deva acreditar que a gente só pensa em parto natural, e, mais ainda, domiciliar para imitar a super modelo, assim como as mulheres só pensam em adoção para seguir o exemplo de Angelina Jolie... Triste, não?  Séculos de experiência das mulheres parindo e ajudando a parir jogados fora. E, depois, ainda vem gente me perguntar por qual motivo eu sou contra o Ato Médico?  Por isso aí, principalmente. Os médicos transformaram o parto em sua propriedade, em doença, desqualificando o trabalho de enfermeiras obstétricas (*melhor nem falar de parteiras*) e roubando das mulheres o protagonismo no parto.  Só que eu não sei se terei equilíbrio emocional para chegar ao parto normal, algo que seria melhor para o bebê e para mim, claro.  


Eu sei que posso e se não houver nenhuma complicação real – não essas mistificações – tudo irá bem.  No entanto, e isso faz parte do trabalho de destruição da autoconfiança das mulheres e da condução para uma cesariana rápida e segura, eu não sei se conseguirei chegar lá.  Como arrancar isso lá de dentro e levar a coisa de forma mais racional e, contraditoriamente, instintiva?  Eu sofro de ansiedade, não é à toa que tive que fazer auto-escola especial para tirar a carteira de motorista.  Minha fantasia maior era matar alguém; agora, minha fantasia horrorosa é submeter minha filha a um sofrimento desnecessário, talvez até mata-la em uma tentativa frustrada de parto normal.  Sei, loucura, excesso de preocupação, mas o fato é que hoje tive uma crise de ansiedade, uma das piores que já tive na vida.  Estava á caminho da igreja e entrei em pânico.  Tive que voltar para casa, quase caí em prantos e estou meio abalada até agora.  Sei o motivo, descrevi meu estado de ânimo, mas preciso superar isso.

Enfim, terça-feira converso com a doula de novo, quarta, com a minha psicóloga (*que é defensora do parto cesáreo limpo, rápido e civilizado*).  Vou ter que contratar os serviços de um obstetra particular que seja a favor do parto humanizado, ainda que continue me consultando no hospital militar com gente muito interessada e hábil em fazer cesarianas agendas todas as terças.  Estou com cinco meses, indo para seis, espero controlar meus nervos e não ter nenhum descompasso na saúde que me conduza à cesariana.  O fato é que assumir esse protagonismo no parto é difícil, especialmente, quando se foi educada para ver a questão como um ato médico e a mulher como um receptáculo.  Por mais que minhas reflexões feministas me permitam pensar a questão, eu não sei se meu emocional acompanha.  É triste ter que escrever isso, mas é assim que me sinto hoje.  Passou a crise de ansiedade, mas o medo continua enraizado bem firme aqui dentro de mim.

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17 pessoas comentaram:

Toda essa onda de incentivo a cesariana é pura novidade para mim, ou melhor, como sempre o Brasil e a medicina se revela múltiplo e difícil de se compreender.

Pois as mulheres de periferia - onde trabalho e moro - são mega estimuladas a parir normalmente e a realidade é bem oposta, mulheres que não tem a dita "passagem" ou precisam a ajuda desse corte vaginal sofrem o pão que o diabo amassou esperando auxilio para seus partos... Tenho amigas com histórias pavorosas e até traumatizantes.

Enfim, de um lado muito do outro nada.

Este comentário foi removido pelo autor.

Olha, no Brasil não há incentivo monetário para que se faça parto normal, ainda mais em rede privada. Na rede pública, por pressão da OMS, o governo está forçando a barra, mas os índices de cesariana são bem altos ainda, para os padrões internacionais. E é surpresa que muita gente não saiba disso, pois volta e meia temos matérias. Um dos links que coloquei no post tem os seguintes dados:

O direito de nascer direito
O índice de cesarianas no Brasil é 3 vezes maior que o recomendado
Brasil – geral 43%
Brasil – rede pública 29%
Brasil – rede particular 80%
Indicado pela OMS 15%
Holanda 10%

E, bem, como descrevi, todo o clima do hospital faz com que uma mulher passe o inferno para parir por parto normal na rede pública. E, claro, vão parir, afinal, a maioria de nós é capaz de fazê-lo, mas as seqüelas, os traumas serão grandes. Não se fala em parto humanizado, ou fala-se muito pouco, daí, enfatizam o quão horrível é o parto normal e cria-se esse quadro monstruoso que temos no país.

Poxa Valéria, que coisa mais chata. Acho incrível que na nossa sociedade que valoriza os fetos mais do tudo, o momento deles virem ao mundo seja tratado com tanto descaso, quase como inconveniente no qual os médicos tem que se livrar o mais rápido possível. A OMS prevê que cerca de 10% dos partos tenham necessidade de serem de cesárea, se aqui no Brasil a proporção quase que se inverte, algo está muito, muito errado. Espero do fundo do coração que você consiga encontrar um obstetra mais sensível as suas necessidades. Você tem o apoio da sua leitora fiel para fazer o seu parto do jeito que achar melhor. Boa Sorte nessa jornada!

Olá!!

Que coisa, você que é a mãe quer de um jeito e os especialista querem de outro.
Sei que no Brasil o índice de partos por cesária são super altos e cadê a ajuda dos profissionais em abaixar esse índice?
Espero que dê tudo certo com você e a sua bebê. Se conseguir o parto normal e for o melhor para ambas, melhor ainda.
E tente não ficar pensando muito nisso, pode ser que isso piore sua situação, ainda mais por sofrer de ansiedade.

Boa sorte! Você tem pessoas que contam com você!!

Puxa, que situação difícil e desagradável, amiga! Mas as coisas vão se ajeitar e tenho certeza que seu parto será tranquilo e o melhor para você e sua filha.
Mas Valéria, cuide da sua saúde emocional. Sei que é difícil não pensar nessas coisas, não se preocupar, mas você precisa tentar. Eu hoje sei dar valor a isso. Passei por situações recentes com ansiedade e estresse e não é fácil. Força. coragem e boa sorte!

Sabe o que acho engraçado? Dizem que a cesária é "mais segura", poupa a mãe de dores, mas ninguém pensa no estado psicológico da mãe na hora de sugerir que ela faça o parto com alguém que nem diploma tem! Isso pq você e seu marido estão pagando!
Já tive crise de ansiedade, mas por causa do vestibular. A sua deve estar bem pior pela gravidade da situação. Tenta se manter o mais tranquila possível.
Estou torcendo para que o resto da sua gravidez seja tranquila e sem problemas. Força!

Val, não tenho palavras para te tranquilizar. O máximo que eu consigo fazer é imaginar o seu desespero e desejar que você fique mais calma, por mais absurdo que isso possa parecer. Sabe, nessas horas eu penso que aprender a meditar deva ser algo extremamente legal... Isso se meditação não for algo que irrite! rs
Val, desejo no fundo do meu coração que as coisas se acalmem por aí e que os dias corram rápido. E você está nos meus pensamentos quando eu reflito sobre a vida com a minha forma de acreditar em Deus.
Um grande abraço!

Fazem duas semanas que me convidaram para escrever um texto de teatro sobre parto humanitário. Estou com vários artigos, fotos, videos, relatos...

Um abraço forte e sincero.

Nossa, Valéria... Eu nem sei o que dizer.

Fiquei muito chocada com as informações que você postou, eu não sabia que as gestantes brasileiras eram tão desestimuladas a ter partos normais e que a situação com os hospitais e os médicos fosse tão crítica.

Eu tenho uma prima de 18 anos que deu a luz a poucos meses a uma menina. Quando ela me contou que precisou fazer cesariana, eu não acreditei, já que ela sempre foi saudável e a gravidez era segura. Ela disse que teve problemas com dilatação e sentia muita dor, e agora fico pensando se parte disso não foi culpa do descaso e da péssima condição que ronda nossos hospitais.

A você eu só posso desejar forças e orar para que Deus abençoe a você e a seu bebê.


Cuide-se bem.

“Corte do marido”?!
Putz!!!
Dessa eu não sabia...

Valéria, tente se estabilizar, respire fundo que vai dar tudo certo.
Viu o tanto de gente que se preocupa e torce por vc?

Nessas horas é bom dividir sua dificuldade, tanto para desestressar qnt para ver se tem alguém que possa te ajudar.

Desculpe a intromissão, mas, se possível, peça para seu marido ou para uma amiga fazer essa pesquisa sobre parto normal aí em Brasília. É melhor vc se preocupar em ficar bem e não fazer esse tipo de pesquisa que pode te estressar.

Tenho algumas tias aí, vou pedir indicação para elas sobre isso. Uma trabalha na UnB e outra no congresso, pode ser que elas tenham algum contato.

Muita paz para vc e sua filha.
Que Deus abençôe e que Ele faça dar td certo.

Há um tempo atrás, de bobeira, dei uma folheada no livro "Nascer sorrindo", do Leboyer (acho que é assim que se escreve). Era garota, e eu lembro que pensei: "Nunca vou fazer uma cesaria". Conversando recentemente com a minha ginecologista sobre isso, ela se mostrou totalmente contra o parto normal. Disse-me, mais ou menos, isso: "Se a medicina conseguiu avançar nesse sentido, por que a fazer a mulher sofrer tanto?!". Até agora, não sei se concordo com ela. Nunca fiquei grávida, até agora, e acredito que a sua posição não deve estar sendo fácil de sustentar. Acho que, no seu caso e de toda a mulher grávida, tem que ser feito o que te deixar mais confortável e confiante.

Lívia, quem considera uma cirurgia de médio porte e pós-operatorio um sofrimento menor que um parto natural ou tem problemas/traumas ou está sendo muito desonesto. Isso para não entrar na questão do bebê...

O tratamento dado a mulher e ao parto aqui no Brasil é uma vergonha, eu não sei se você leu a matéria publicada na Carta Capital sobre violência contra mulher durante o parto, um absurdo sem tamanho.

http://www.cartacapital.com.br/saude/uma-em-cada-quatro-mulheres-sofre-violencia-no-parto/

http://www.cartacapital.com.br/autores/saude/direitos-legais-sao-desrespeitados-nas-maternidades

Acho que, nessas condições, é dado mais humanidade ao parto dos animais do que as pessoas, e isso é vergonhoso!

Monique, conheço esses dados e as pesquisas. Devo postar aqui o link para um documentário sobre violência obstétrica feito recentemente aqui no Brasil.

Oi, Valéria, sempre leio teu blog mas nunca tinha comentado. Só quero te desejar muita força e coragem, e, por favor, não desista do parto humanizado. Eu tive o meu filho de parto normal,mas ele nasceu de oito meses, então teve que ser em sala de cirurgia, e ainda me sinto frustrada por ter permitido que tirassem ele de mim nas primeiras horas de vida, depois disso ele demorou a pegar no peito e eu sinto que perdi um momento que deveria ser só nosso, ainda mais depois que vi o modo como dão banho nos recém nascidos, quando foram me "ensinar" a dar banho no bebê, sério que eu faria e fiz bem melhor por conta própria e somente seguindo minha intuição. Claro que cesáreas podem ser necessárias mesmo, mas pode acreditar que se você puder escolher um parto normal e humanizado essa vai ser a melhor escolha para você e sua filha. Palavra de mãe. E, também, você deve saber disso, não há complicação extrema que não possa ser percebida pelas enfermeiras a tempo de encaminhamento para um hospital, aqui em Curitiba não tem casa de parto, então eu sequer tive essa opção. Um grande abraço e não se assuste, respire fundo muitas vezes e vá em frente, ser mãe é mesmo meio solitário, a gente ouve todo tipo de conselhos mas, no fim, algumas escolhas só nós é que podemos fazer.

Não sabia de todas essas coisas, é bem "chocavel" e triste... Não penso em ter filhos, mas isso é tão desumano, já se tornou banal como outras coisas que vemos por ai...

Vai dar tudo certo pra você! Te desejo força, corajem, sorte... Tudo de bom há! o/

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