domingo, 14 de julho de 2013

Comentando Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives, 1975)


Semana passada, não lembro por qual motivo, decidi procurar o filme original, The Stepford Wives ou Mulheres Perfeitas, o de 1975, para assistir.  Eu vi no cinema o filme backlash (*vergonha alheia*) de 2004 e li o livro do Ira Levin, que é de 1972.  Li completo em 2004, mas já tinha lido parte dele na adolescência, lá pelos meus 13 anos, acredito eu.  Acho que já escrevi aqui no Shoujo Café que não se fazem mais bons filmes de terror/horror como na década de 1970.  The Stepford Wives confirma essa regra, porque, bem, não tem como uma mulher, especialmente uma feminista, considerar que este filme, que é listado como thriller/suspense e (*cóf, cóf*) ficção científica, não é um filme de terror e dos bons! 

Para quem não conhece a história, Mulheres Perfeitas começa com a família de Joanna Eberhart (Katharine Ross) se mudando de Nova York para o subúrbio elitista dos sonhos de seu marido, o advogado Walter (Peter Masterson).  Joanna está profundamente deprimida, porque não tem uma carreira,  ela deseja ser fotógrafa profissional, e seu marido decidiu toda a mudança sem levar em conta a sua opinião.  Afinal, ele sabe o que é melhor para a família e não compreende como a esposa pode ser tão insensível e ingrata.  Em Stepford – o tal subúrbio classe A – todas as mulheres são lindas, bem arrumadas, sexualmente disponíveis e devotadas aos esposos, e não parecem ter interesse algum para além das suas casas perfeitas e famílias.  Tão logo os Eberhart chegam á nova vizinhança, o marido de Joanna é convidado para participar do seleto clube masculino de Stepford, a única associação que existe por lá.  O sujeito também começa a invejar os vizinhos que parecem, a seus olhos, terem vidas perfeitas.


Em Stepford, Joanna faz amizade com duas mulheres também recém-chegadas: Charmaine Wimperis (Tina Louise), uma esposa troféu que adora jogar tênis e é a única do bairro que tem uma empregada doméstica, e Bobbie Markowe (Paula Prentiss), uma mulher moderna e questionadora.  Em Stepford, uma das figuras dominantes é Dale Coba (Patrick O'Neal), presidente da associação masculina e apelidado de "Diz" porque fazia robôs para a Disneylândia.  Aliás, todo o entorno de Stepford é cheio de empresas de tecnologia e  Joanna é convidada a participar de um “projeto” de uma nova forma de identificação dos cidadãos que consiste em gravar uma série de palavras de um dicionário pré-estabelecido.  Suas amigas também são convidadas a participar, mas, em troca, ela exige a presença das esposas de Stepford em uma tentativa de fundar (*ela termina descobrindo que é “refundar”*) uma associação feminina.

A reunião acontece, mas é minada pelas outras mulheres que só falam de produtos de limpeza e coisas assim.  Quando Charmaine retorna de um fim de semana romântico transformada em uma devotada esposa de Stepford, Joanna e Bobbie começam a investigar.  Água contaminada?  O que poderia ser?  Como explicar o estranho comportamento de uma vizinha depois de um acidente de trânsito e o fato dela não ser levada para o hospital, mas no sentido oposto?  Por fim, ao completar quatro meses em Stepford, a rebelde Bobbie retorna de um fim de semana com o marido transformada em uma esposa arrumadinha, com peitões empinados e totalmente dedicada ao lar, Joanna tem certeza de que será a próxima e se desespera.  Por pressão do marido, ela consulta uma psiquiatra que a aconselha a pegar as duas filhas e ir embora de Stepford, só que, ao que parece, já era tarde demais... 


Mulheres Perfeitas é um filme perturbador.  Na sua época, não foi um grande sucesso cinematográfico, mas tornou-se cult, afinal, denuncia de forma bem convincente os papéis de gênero que oprimiam as mulheres e que alimentaram as críticas feministas.  As esposas de Stepford não tem personalidade, elas são vistas a partir dos lugares de esposa, mãe e dona de casa.  São, como bem diz o terrível Diz para a pobre Joanna, “o sonho de qualquer homem”.  Sempre disponíveis, bonitas e dispostas a dizer (*ou gritar durante o ato sexual*) que eles são o máximo. E, sim, com um vocabulário beeeeeem limitado.  Aliás, esta é uma das pistas para Joanna.  Sua amiga Bobbie voltou transformada e incapaz de compreender determinadas palavras e articular um discurso mais ou menos elaborado.  “Quem não desejaria algo assim?”, Diz pergunta para Joanna.  E ela pergunta “Por que?”.  “Porque podemos.”.  

Stepford é um sonho, uma utopia doentia, mas em alguns países temos tamanha disparidade de direitos entre homens e mulheres que, sim, eles podem dispor das suas vidas em menor ou maior grau.  Em The Stepford Wives, não somente as insubmissas, como Joanna e Bobbie, precisam ser dominadas, todas as mulheres são castradas de qualquer direito de escolha ou desejo próprios.  Será que isso é o ideal?  E para quem seria ideal?  De qualquer forma, um ponto importante da história é que nem sempre foi assim.  Em algum momento, os homens decidiram transformar suas esposas em “mulheres perfeitas”.  Quando foi?  Nós não sabemos, mas a velhinha que edita o jornalzinho local, talvez a única mulher adulta de Stepford que não foi “convertida”, explica que o subúrbio é muito moderno e avançado.  Afinal, ali foi fundado um dos primeiros clubes feministas do Estado de Connecticut.  E, naquele momento, estava pronto para receber sua primeira família negra.  Por que, não?


Este tipo de informação faz refletir sobre a perda de espaços e de direitos.  Quem disse que não podem nos tirar o pouco que temos de cidadania?  Coisas como o Estatuto do Nascituro estão aí para mostrar que o horizonte pode, sim, ser sombrio.  Vivemos um momento em que se vende – para quem pode escolher – a “volta ao lar” como uma escolha das mulheres.  Sim, é uma escolha, especialmente se você tem um plano B (*propriedades, emprego potencial, família rica e disposta a ajudar*), mas isso é para poucas, mesmo as que escolhem podem acabar em uma condição de fragilidade em relação ao companheiro.  Fora, claro, que mulheres pobres – não as das classes médias – nunca tiveram a opção do não trabalhar fora; uma maioria delas tinha que ajudar na renda familiar de alguma maneira.  E as que não podem escolher a domesticidade?  Ah, essas são estimuladas por certas matérias a se sentirem culpadas – ainda que de forma velada – por não se dedicarem integralmente aos filhos, ao marido e à casa.

Mas antes que eu me desvie, The Stepford Wives fala de um sonho doentio, ou de uma crítica ao sistema levada às últimas conseqüências.  Em nenhum momento o filme nos faz ver o plano dos homens de Stepford como menos que uma perversão, uma crueldade, um crime.  Fora que o suspense e a tensão estão sempre presentes.  O trailer original compara o filme ao (*muito mais famoso*) O Bebê de Rosemary.  Enfim, qual o segredo que Stepford esconde?  A produção em si parece pobre, é bater o olho e reconhecer que é o típico filme de horror/terror dos anos 1970.  Quando pegamos o filme de 2004, tudo é kitsch, colorido, berrante.  Fora, claro, que as mulheres são as megeras e somos levados a ver que, bem, os homens só fazem o que fazem, porque são vítimas dessas feministas autoritárias e insensíveis.  É um fiasco, claro, e não é um filme de terror... muito longe disso, aliás!


Se você puder, dê uma lida no livro, é fácil encontrá-lo, e tente assistir o The Stepford Wives original.  Ele pode ser visto de diversas formas, como crítica social, como sátira, e, claro, como terror/suspense.  Será bom para entender o que era fazer um filme de terror/suspense sem recorrer a sustos bobos e adolescentes punidos por fazerem sexo ou usar drogas.  Trata-se, também, de um belo exemplar de filme feminista, daqueles que a década de 1970 produziu de forma constante e discreta.  Pequenas jóias que dificilmente passam na TV nos dias de hoje e que perigam receber refilmagens ofensivas que querem vender que nós, mulheres, já ganhamos tudo, que aterrorizamos os homens, e que precisamos redescobrir o “feminino” que existe dentro de nós – a submissão, o altruísmo, o sacrifício de nossas carreiras e sonhos – para que nossas famílias e casamentos sejam salvos.  

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4 pessoas comentaram:

Eu vi o de 2004 com a Nicole Kidman. Não gostei muito, era mais uma comédia estilo pastelão do que um filme de terror ou suspense. Não dava pra levar aquilo a serio. Mas com o trailer e a sua crítica, parece que o original é melhor. Vou dar uma olhada!

Eu assisti tanto a versão de 2004, quanto a original. Para ser sincera não gostei muito do original, achei um filme razoável com uma história muito boa, no final tive a sensação de que filme poderia ser melhor. Quanto ao mais novo, é um filminho até simpático, mas bem vergonha alheia se comparado ao original.

Eu li o livro anos atras, sem saber do filme.

É angustiante não só pelo clima de suspense, mas pela falta de vontade, iniciativa (de "alma" por assim dizer), das "mulheres" em volta.

Nem assiste a refilmagem pq vi que era completame te desrespeitoso a ideia da obra original.

E há um conto aqui na WEB com o mesmo título, por conta de Sarah Bardnt ( inglês) enfocando isso num temática ficcional TG. Sarah é ótima no conto curto e na visão satírica.O resultado ficou muito bom: lembra um pouco a objetividade de Ernest Hemingway. Vale a pena ( pra quem não tem preconceitos ) dar uma lida. É realmente o padrão CONTO : bem direto, certeiro, sem mais e mais mais. Abraços. ( Ah!está no TTS ARCHIVE )

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