domingo, 8 de setembro de 2013

Hoje, em 1966, estreou Jornada nas Estrelas


Concebida por Gene Roddenberry, Jornada nas Estrelas – ou Star Trek, seu título original – estreou nas TVs americanas em 8 de setembro de 1966.  A série é um marco da ficção científica na TV, sendo ainda mais importante por trazer disfarçadamente discussões quentes dos anos 1960 para a o grande público.  Racismo, guerra fria, corrida armamentista, colonialismo, etc. tudo isso foi discutido na série.  Além disso, Jornada nas Estrelas anteviu vários progressos tecnológicos que fazem parte de nossas vidas atualmente.  Vista hoje, claro, não deixamos de perceber inúmeros problemas, como o machismo que aflora em vários momentos, mas, era isso, ou a série não iria ao ar.  Fora que é preciso compreender as condições de produção dos envolvidos no projeto.  

Quem assistiu The Cage, o piloto original de 1965, deve lembrar que Majel Barret, esposa de Roddenberry, era a primeira oficial, fria, competente e a única mulher que o Capitão Christopher Pike (Jeffrey Hunter) suportava na ponte de comando, ainda que houvesse uma jovem ordenança (Laurel Goodwin) circulando por lá.  A personagem de Barret sequer tinha um nome, era chamada de Number One, mas incomodou tanto que em qualquer texto sobre a recusa do piloto original e o quase fracasso do projeto não deixa de citá-la.  Para os executivos, os homens do dinheiro, era absurdo ter uma mulher em posição de comando, competente e mais racional que qualquer homem da tripulação.  Queria muito ver como ela teria se desenvolvido, mas o conceito original foi abortado.


Quando a série estreou, e não foi o primeiro episódio gravado o que foi ao ar, tínhamos outra formação William Shatner, como Capitão Kirk, o mais jovem oficial a comandar uma nave estelar; Leonard Nimoy, único que restou do piloto original, como o mestiço de vulcano Comandante Spock, oficial de ciências e primeiro-oficial, sua personagem reunindo características antes pertencentes à Number One; DeForest Kelley como Dr. McCoy, a caricatura do médico interiorano que parecia pouco encaixado naquele futuro. Este é o trio que sustentava a série, ainda que eu veja muito mais potencial na interação Spock-McCoy, os dois eram geniais.  Kirk sempre foi um clichê ambulante – macho-alfa, cabeça quente, e por aí vai – fora, claro, que Shatner era o ator mais limitado do grupo.

Completavam a tripulação multirracial e nacional, James Doohan, como o tentente-comandante Scotty, chefe da engenharia e capaz de fazer mágica; George Takei, como tenente Sulu, dono de uma voz poderosa, mas que, na excelente e mais conhecida dublagem brasileira, tinha vozinha fina, porque, bem, orientais não podem ter voz de trovão; Walter Koenig, que entrou depois para fazer um link com os mais jovens, como o alferes Pavel Chekov, era uma personagem que serviu em muitos momentos como alívio cômico e que parece ainda mais engraçada hoje, porque, bem, a URSS não existe mais mesmo... E tínhamos as mulheres, claro!  Mas para elas um parágrafo a parte.


Três personagens femininas são recorrentes na tripulação da Enterprise: Nichelle Nichols, como a tenente Nyota Uhura, oficial de comunicações; Majel Barret, que voltou rebaixada e sem patente (*sim, é isso mesmo*) como enfermeira Christine Chapel, atormentada por uma paixão não correspondida pelo Sr. Spock, e como voz do computador da nave; e Janice Rand, interpretada por Grace Lee Whitney, que deveria ser ordenança do capitão e interesse amoroso do mesmo.  Rand foi cortada da série por causa do vício da atriz em remédios para emagrecer.  Ela mesma disse isso em entrevistas e em sua biografia, e o fez de forma crítica, em relação a si mesma e ao sistema.  Ela precisava manter um padrão estético, era o que a TV e o cinema exigiam, daí, qual a saída?  Mudou muito desde então?  Acho que, não... Ela saiu da série ainda na primeira temporada.  Na verdade, somente Uhura era personagem feminina fixa em Jornada nas Estrelas.

Uhura, ou melhor dizendo, Nichelle Nichols, carregou ao mesmo tempo um grande fardo e um estandarte.  Ela foi um marco e não somente por protagonizar o primeiro beijo inter-racial na TV americana, mas simplesmente por existir.  “Como assim?”, alguém pode perguntar.  Uhura era uma profissional competente, dona de senso de humor e ironia afiados, protagonizou pelo menos um episódio (*quando teve sua memória apagada*), e não estava na ponte para servir cafezinho, esse era o papel da Ordença Rand e tantas outras moças brancas que a substituíram. Uhura era diferente.  Roddenberry e a própria Nichols sempre faziam questão de recordar que ela entrou no elenco com a desculpa de “dar cor à tripulação”; os executivos não sabiam que ela iria fazer história.  E não pensem que para meninas, mulheres e mesmo homens negros, ela não foi importante.  A primeira astronauta negra americana, Mae Jemison, teve em Uhura sua fonte de inspiração.  Aliás, muitos cientistas, como ela, dizem ter se interessado por ciência graças à série.


Obviamente, há muitas críticas a fazer à Jornada nas Estrelas quando o assunto são as mulheres.  A maioria das que aparecem, são casos futuros ou pretéritos do Capitão Kirk, quando membros da tripulação, são “ordenanças”, um posto genérico que ocupa o mais baixo da hierarquia.  Na Série Clássica não há sequer uma alferes, ou, pelo menos, não me lembro de nenhuma.  Há pouquíssimas tenentes com falas, acho que nas três temporadas não somariam dez.  Algumas, são ex-casos de Kirk, claro.  A mais memorável de todas é uma tenente de ciências (*usava azul*) negra, com corte de cabelo já anos 1970 (*black power*) e muito competente.  Seu nome era Charlene McMasters (Janet MacLachlan). Pena que só apareceu uma vez, como todas as outras tenentes, fora Uhura, e em um dos episódios mais chatos da série inteira. 

Não raro, a oficial ou ordenança em cena tinha função decorativa, ou reforçava estereótipos de gênero, se agarrando ou se escondendo atrás de algum homem em busca de proteção, caindo de amores por Kirk ou outro macho em cena, agindo de forma pouco profissional ou racional... Destaco a Tenente Marla McGivers (Madlyn Rhue), que acabou caindo de amores por Khan no episódio Semente do Espaço (Space Seed). Daí, Uhura, que sempre flertou sem muita culpa, verdade, ser uma exceção.  E, claro, a roupa, ainda que eu goste dela, é totalmente fanservice.  No original, o piloto rejeitado (The Cage) e o aceito (Where No Man Has Gone Before), o que diferenciava o uniforma feminino do masculino era o design da camisa.  Na Série Clássica, as mulheres usam minissaia, ainda que, aqui e ali, possamos ver uma figurante com calças compridas.  Aliás, é o mesmo que ocorre na Nova Geração, quando colocam figurantes homens passando de minissaia no episódio piloto... Definitivamente, não colou... 


Agora, eu acredito que quando a discussão são as relações de gênero em Star Trek, o último episódio, Turnabout Intruder, não pode ficar de fora.  Ele é considerado por vários críticos o pior, ou um dos piores, episódios da série.  Desculpem, mas não é mesmo, especialmente, se pegarmos um em especial, The Omega Glory, que é vergonha alheia pelo nível da patriotada.  Este é imbatível!  Já Turnabout Intruder toca em questões delicadas, que, a meu ver, denunciam as desigualdades entre homens e mulheres nos EUA do final dos anos 1960.  Vejam só, o episódio mostra como a Dr.ª Janice Lester (Sandra Smith) troca de corpo com o Capitão Kirk e assume o comando da Enterprise.  A cientista tinha cursado a academia da Frota Estelar, tinha sido a primeira aluna da turma, mas, por ser mulher, nunca poderia assumir o comando de uma nave.  Era tabu na época.

O próprio Roddenberry disse em alguma entrevista, e a informação estava em uma enciclopédia sobre Jornada nas Estrelas, que na época da série clássica não havia mulheres capitães. Resumo da história, a saúde mental da brilhante Dr.ª Lester tinha se deteriorado por causa das discriminações sofridas por ser mulher e somente por isso.  Louca, ela planeja sua vingança... Só que, ao tomar o corpo de Kirk, ela age de forma irracional e isso denuncia para o Sr. Spock que alguma coisa estava errada.  Quer dizer, Kirk nunca foi um poço de racionalidade, mas ser uma mulher é a justificativa para o seu comportamento vingativo e instável. Ao mesmo tempo, o episódio mostra o desespero do Capitão Kirk que, prisioneiro em um corpo de mulher, não tem sua voz ouvida, é solenemente ignorado pelos outros ao redor, tratado com complacência.  E, bem, para o garanhão Kirk, ser tratado como mulher deve ter doído muito... E deve ter doído, também, nos fãs homens que se colocaram no lugar dele.  Daí, a rejeição ao episódio.



O episódio pode ser percebido como um reforço ao sexismo vigente ou como uma denuncia, ainda  que involuntária, da forma desigual como homens e mulheres eram tratados.  Eu fico com a segunda posição.  Quantas mulheres tiveram, e têm ainda, carreiras obstruídas por serem mulheres?  Quantas precisam ou são pressionadas a desistir de um sonho ou uma vocação, porque, bem, nasceram com o sexo errado?  Quantas meninas ao longo de séculos não ouviram de seu pai "pena que você nasceu mulher" ou "é um desperdício que você não seja um homem"?  É disso que o episódio fala e eu fiquei muito impactada quando assisti em DVD, já que a terceira temporada de Jornada eu não tinha acompanhado na televisão.  Era tudo inédito para mim.  Aliás, parei para refletir, junto com o meu marido, sobre como as próprias críticas ao episódio feitas no especial do Top TV  – um dos melhores programas já exibidos na televisão brasileira – foram machistas e injustos. Afinal, o problema maior do episódio era a infâmia de uma mulher tomar o corpo do garanhão Capitão Kirk.  Para quem quiser assistir, o programa está no Youtube dividido em várias partes.  
É isso, já estique demais.  Vida Longa e Próspera para Jornada nas Estrelas.  Quem poderia esperar que uma série ameaçada de cancelamento tantas vezes, e que só foi salva por causa da mobilização dos fãs, e que durou somente três temporadas continuaria viva e muito viva tantos anos depois?  Que venha outra série de TV e que o reboot no cinema continue fazendo sucesso.  Jornada ocupa um lugar muito especial no meu coração, foi um dos legados que meu tio me deixou e que eu vou apresentar para a minha filha no momento certo.

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2 pessoas comentaram:

Como curiosidade, em uma das suas várias mini-séries de Jornada em quadrinhos, John Byrne fez uma centrada na "Number One", mostrando sua carreira na Frota Estelar. Sim, ela chega a capitã!

Agora, ele tem que dar nó em pingo d'água para poder passar a série inteira sem falar o nome dela, já que a personagem oficialmente não tem nome até hoje!

Aqui a edição:
http://www.amazon.com/Star-Trek-Crew-John-Byrne/dp/1600105548/

É interessante usar o Star Trek para sugerir discussões de gênero, mas de forma geral e dou um desconto pra série original, pois ela inovou em muita coisa, e acho que que as questões de gênero foram satisfatórias para época.
Vale lembrar também que o universo do star Trek é muito grande, se eu não me engano uma das diferenças entre vulcanos e romulanos, é que estes últimos tem colocações sociais e profissionais mais abrangentes para mulheres, do que seus "colegas" vulcanos. Tem até um episódio em que uma capitã romulana tenta desvirtuar o Spok. (acho que o The Enterprise Incident)
Acho também a série ganhou toque machistas em parte pela relação praticamente amorosa entre o Kirk e o Spok, a maior parte das as mulheres que apareceram no seriado meio que orbitavam aleatoriamente tentando reafirmar a identidade do Kirk como macho alfa.

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