sábado, 22 de março de 2014

Comentando os primeiros capítulos de Baraou no Souretsu, novo mangá da autora de Otomen


Esta semana consegui um tempinho para ler os três primeiros capítulos de Baraou no Souretsu (薔薇王の葬列), novo mangá de Aya Kanno, autora de Otomen  (オトメン).  O texto, claro, eu comecei a escrever e tive que interromper inúmeras vezes.    Baraou no Souretsu é um mangá histórico, com toques de sobrenatural e sem nenhum traço aparente do humor que consagrou a autora colocou em Otomen.  Não chamarei esta nova série de evolução, porque não acho que a comédia seja inferior a outros gêneros, mas é uma mostra da versatilidade de Kanno.  O traço parece um pouco mais sério, é o que a história pede, aliás, mas continua bonito, e ela mostra um esmero extremo principalmente no desenho das armaduras ainda por aparecer.  E há muitas, porque a história da série se passa durante a Guerra das Duas Rosas, que dizimou a nobreza da Inglaterra por 30 anos (1455-87).  No geral, pelo enfoque dados pela História, Baraou no Souretsu lembrou-me Cantarella (カンタレラ), de You Higuri, publicado, aliás, na mesma revista Princess.

Baraou no Souretsu conta a história de Ricardo III, começando no seu nascimento.  A personagem,  por muito tempo uma das mais odiadas da História da Inglaterra, cujos restos mortais foram encontrados, ou melhor, finalmente confirmaram que eram dele, no ano passado, está em evidência e, talvez, isso tenha impulsionado a autora a criar a série.  Os três primeiros capítulos cobrem a sua infância e parte da adolescência.  Imagino que a série termine com sua morte, Ricardo foi o último rei da Inglaterra a morrer em batalha.  Na série, o protagonista é vendido na primeira página título como o mais perverso ou mau (*eles usaram wicked, em inglês) de todos os heróis de shoujo mangá.  Bem, Ricardo é meio páreo duro para César Borgia, eu diria, fora que é sempre apresentado como feio e deformado – culpem Shakespeare, principalmente – enquanto o Borgia é sempre “gatinho”, para a sua época, claro.  


O mangá de Aya Kanno não é muito complacente com Ricardo, mas ele tem uma aura andrógina que pode transformá-lo em queridinho do público, especialmente, se o maga fizer sucesso.  Fora o protagonista, todos os homens que apareceram são bonitões, o pai de Ricardo é a beleza madura do mangá, os outros todos são bem bishounen, em especial, o rei Henrique VI.  É o último rei Lancaster que aparece nas imagens mais divulgadas da série junto com a protagonista em uma espécie de montagem luz & sombra.

Quando o mangá de Aya Kanno começa, já estamos na guerra entre os Lancaster – que detém nominalmente o trono e cujo símbolo é a rosa vermelha – e os York, que usam a rosa branca.  Ambas as casas são Plantageneta, descendendo dos muitos filhos rei Eduardo III.  Nasce Richard – vou chamá-lo assim daqui para frente – e ele não é uma criança normal, parece não ter o seu sexo definido.  Sua mãe, Cecily Neville, quer rejeitá-lo, mas o pai, Richard Plantageneta, Duque de York, acolhe o filho e lhe dá seu nome.  Por aí, vocês tiram que Richard o venera.  Ao longo dos três primeiros capítulos, o menino estimula o pai a sair da condição de regente e derrubar o rei Henrique VI do trono, tomando o trono para si.


Richard menino lembra o protagonista de Ge Ge Ge no Kitaro (ゲゲゲの鬼太郎).  É baixinho, com um farto cabelo preto que lhe cobre um dos olhos.  Ele tem um olho de cada cor.  O garoto não tem o amor da mãe e tem um relacionamento frio com o irmão do meio, mas é devotado ao irmão mais velho, Eduardo, que, nessa altura do mangá, acompanha o pai nas batalhas.  Richard é atormentado pelo espírito de Joana D’Arc, que teria amaldiçoado os ingleses da fogueira.  Joana é descrita no mangá como “igual à Richard”, sem sexo definido, e como bruxa.  Ela parece tentar enlouquecer o menino.  Acredito que a personagem, que está longe de ser qualquer coisa que eu já tenha imaginado como Joana D’Arc, terá grande destaque na história.  De resto, Richard é inteligente e militarmente capaz, e se sente deprimido por não acompanhar o pai nas batalhas.

Já no segundo capítulo, a tensão entre os Lancaster e os York aumenta.  O duque e seu filho mais velho partem para a batalha e Richard, sua mãe e o irmão, George, ficam no Castelo do Conde de Warwick. Lá, Richard conhece a sua futura esposa, Anne Neville, que é desenhada bem menininha e com um traço bem fofinho.  Parece que Richard vai realmente gostar dela, dentro das suas condições de produção, claro.  Richard também toma como animal de estimação um raro javali branco, o filhote está ferido e ele cuida do bicho, mostrando que, sim, ele tem algo de bom no coração.   O pai de Richard é derrotado em batalha e obrigado a recuar, o protagonista, irmão e mãe são capturados pelos Lancastristas.  Mas há uma passagem secreta da prisão e Richard consegue entrar e sair com a ajuda do javali.  Lá fora, Richard encontra um bishounen lindo, encantador, e que não fala coisa com coisa... Depois, acabamos por descobrir que é o rei Henrique VI.


Henrique VI entrou para a história como sendo mentalmente doente e muito religioso, não estando apto a liderar os exércitos em batalha, nem muito disposto a fazê-lo.  O mangá parece fiel nesse ponto e a personagem feminina que aparece com mais força até o momento é exatamente a rainha de Henrique, Margaret D’Anjou.  Ela é que dá as ordens e parte para o ataque.  Sim, a imagem que até agora temos da Rainha acompanha o que a maioria das fontes dizem dela.  A família real se completa com o jovem príncipe Eduardo, o único herdeiro do trono da Inglaterra a morrer em batalha.  Aí, sim, a autora do mangá deu asas para a imaginação.  Eduardo tem aquela cara de maluco que gosta de torturar e ser mau gratuitamente, ou seja, parece que será o psicopata da história.  Ele não gosta de Richard e quer tortura-lo no terceiro capítulo, deseja tirar a roupa do rapaz para ver seu corpo “deformado”.  Pois bem, e isso é um spoiler dos grandes: Eduardo é uma garota.  Sim, é isso que é revelado no fim do capítulo.

De resto, o que mais dizer?  Gostei muito do que li.  Acho que o mangá promete.  Dada a velocidade desses três primeiros capítulos e a possibilidade de explorar personagens como Eduardo – que morreu com míseros 17 anos – acredito que a autora não vá fazer uma obra curta.  Para se ter uma idéia, Anne Neville foi casada primeiro com o príncipe Eduardo, depois, já viúva, com Richard.  Enfim, estou curiosa para ver se Aya Kanno vai transformar Richard lentamente em um monstro, ou mantê-lo como uma personagem contraditória e rica.  Torço pela segunda opção.  Também espero que ela não siga a linha de Shakespeare e jogue dúvidas sobre a autoria de alguns crimes tradicionalmente creditados à Richard, como o assassinato dos filhos de seu irmão mais velho.  


Hoje, há muito mais especialistas que defendem que foi Henrique Tudor, o grande vencedor da Guerra das Duas Rosas, que mandou dar sumiço nos meninos.  Richard poderia não ser flor que se cheirasse, mas, ao que parece, ele não era o grande monstro que os vencedores tentaram pintar.  Enfim, a autora enxugou um pouco o elenco, por exemplo, Richard tinha vários outros irmãos e irmãs, sobraram somente dois, mas, ainda assim, terá que lidar com uma quantidade enorme de acontecimentos, mesmo focando em Richard, ela não terá como fugir deles; se tentar se esquivar, poderá comprometer a qualidade da série.  Espero que ela costure bem fantasia e história, pois, até o momento, a série está bem interessante.  Recomendo a leitura.

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4 pessoas comentaram:


Tokyo Shoujo Blog Parece ser uma obra bem interessante.Acho que terei que me contentar com os capítulos em inglês por enquanto :c e gostaria de ressaltar sua comparação do protagonista com os personagens Yoite (Nabari No Ou) e Sebastian (Kurushitsuji), que lembram bastante.

Acompanho Baraou no Souretsu desde que saiu o primeiro capítulo. Não avancei muito com Otomen, então não teria tanta competência para avaliar a versatilidade da Kanno ao deslizar pelos temas, mas isso não é muito importante. Eu realmente gostei muito do que li até agora e concordo quando você diz que o mangá promete, principalmente se a autora mantiver Richard tão rico, misterioso e controverso quanto o tem apresentado. Haha, meu coração não suportaria vê-lo lentamente se transformar no tirano sanguinário da tragédia, embora tenha toda aquela parte sobre ele ser parecido com Joana D'Arc - bruxa e sem sexo definido na história - e imagino que haja também maldições em relação a seu nascimento e como essa ocasião traria sofrimento e tudo o mais.

Ahh, ali no seu spoiler. Será que você não quis dizer que Richard é uma garota, e não Eduardo?

Chances zero de uma série como essa sair por aqui?
Pena.

Pela imagem promocional já parecia bom, agora com essa resenha eu vou ler com certeza! O Richard tem toda pinta que se tornará o ídolo emburrado/introvertido da mulherada a lá Levi de Shingeki no Kyojin.

Ps: um dia ainda importo Otomen, mangá que eu não li muita coisa e de forma picada ainda mas gostei muito do que vi. O cancelamento no Brasil foi uma decepção.

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